Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Não surfando na Nazaré

Empresários, toda a gente sabe o que são: aquele senhor Belmiro dos aglomerados e dos supermercados, o senhor Amorim das cortiças, da Bolsa e dos setecentos negócios, o filantropo Soares dos Santos, do Pingo Doce e da Polónia, uns moços que lançaram umas inovações para a informática, os telemóveis e a Internet, ou lá o que é, e que se fartaram de ganhar dinheiro.

 

É isto, não é? Não, não é; ou melhor, também é, mas é sobretudo outra coisa. Quem cria empregos, exporta, cresce, vai à falência, levanta-se ou não se levanta, ganha mais dinheiro do que parece ou menos do que finge, não são estes senhores que a opinião pública conhece - são aqueles grunhos com menos formação que os seus empregados e que fizeram reviver as indústrias tradicionais que não tinham futuro, inventaram negócios novos ou novas maneiras de trabalhar os antigos, e que não fazem parte dos associativismos sortidos senão para o efeito de pagar quotas, nem das concertações sociais senão para o efeito de sofrerem as consequências do que em nome deles se decide. Do Estado e dos sindicatos querem distância, e, inquiridos sobre assuntos políticos tendem a dizer, se forem sinceros, coisas impublicáveis e, se não forem - a minha política é o trabalho.

 

Esta gente é substancialmente diferente do primeiro grupo por um detalhe: não tem números de telefone.

 

Em Portugal sempre o número de telefone, do Ministro, do Secretário de Estado, até mesmo do senhor Presidente da Câmara, foi essencial.

 

E nem vale a pena falar do sector financeiro a este propósito, porque seria, precisamente, um despropósito: empresas que têm direito a que o Estado as salve quando estão em risco de falência, mantendo os privilégios dos responsáveis que a essa condição as conduziram, fazem parte de uma nebulosa qualquer, mas não é a do empresariado. Como não vale a pena falar dos empresários de extracção política, paraquedizados em empresas que, em nome de uma função social, têm prejuízos estratosféricos, ou, em nome de uma imaginária eficiência, mas bem real monopólio ou oligopólio, atingem lucros sem nenhuma relação com a qualidade da gestão - a EDP e o empreendedor Mexia são desta última variedade o mais conhecido exemplo.

 

Os negócios do surf e à volta dele são, por definição, pequinitates - nada que faça um magistrado da opinião saltar da cadeira.

 

E todavia esta história que mão amiga me fez chegar vale por dez artigos de fundo sobre o futuro da economia portuguesa: bastou que alguns imprudentes fossem pescar para a beira-mar em dias de borrasca e o mar os tivesse levado, uns quantos acidentes mortais nas revoltas ondas do nosso mar de Inverno e zás - há que proibir, fiscalizar, intervir, criar um extenso rol de regras impossíveis e lançar a GNR aos calcanhares dos transgressores.

 

Como Mark Wengler é estrangeiro, pode ser que o que conta sobre a Nazaré, a comparação com a vila piscatória da Dinamarca, a necessidade deliciosa da licença do capitão do porto, o grotesco da regulamentação, façam escândalo.

 

Se for o caso, os responsáveis emendarão tranquilamente a mão e continuarão pacificamente nos seus lugares, a expelir normas e opiniões; se não, a regulamentação vai para a pilha imensa e crescente da que nos sufoca, à espera de um jeitinho, ao qual aliás Mark, sem saber quase nada de nós, teve direito.

 

Alguém podia informar estes turistas do surf, para não afastar ninguém, que em Portugal, além do equipamento para a prática da modalidade, é necessário um número de telefone: um daqueles que serve para abrir portas à distância; mas que, infelizmente, não pode fechar a da estupidez.

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publicado por José Meireles Graça às 13:09
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Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Ora bolas

Lá lhe deram a Bola de Ouro. Ou, melhor, como alguém disse a outro propósito, não lha deram: ganhou-a.

 

Isto é estranho. Não que ele tivesse ganho, de mais a mais pela segunda vez, mas que antes dele ainda tivesse havido Eusébio e Figo e que Portugal, neste capítulo, tenha mais prémios do que a Espanha ou a União Soviética, por exemplo.

 

Sabe-se que o futebol pode jogar-se com uma bola de trapos, na rua ou num descampado, e as regras do jogo só não são acessíveis, tal a simplicidade, a alguns treinadores, dirigentes e comentadores. Daí o sucesso quase universal do jogo, em particular nos países pobres mas incluindo os ricos, salvo a excepção notória dos Estados Unidos, um país que de toda a maneira não regula bem da bola.

 

Estes craques premiados são a ponta visível de um iceberg. Porque a quantidade de jogadores de origem que o país exporta, e aqueles, normalmente sul-americanos, que são engordados nas nossas ligas para depois rumarem a pastagens mais verdes, deixando para os seus clubes e empresários substanciais mais-valias, desafia a imaginação.

 

E como o Estado, salvo os investimentos faraónicos no Euro, que pouco ou nada acrescentaram à pujança do futebol, e a tradicional promiscuidade entre o Poder Local e os clubes, nunca gastou nada que permitisse adivinhar este sucesso; como os clubes pátrios ou estão falidos ou são pobretas; como os estádios estão desertos, as arbitragens duvidosas e o dirigismo opaco nas suas negociatas e traficâncias: convém procurar a explicação noutro lado.

 

O bairrismo garante que competição, não obstante o tradicional desequilíbrio das arbitragens a favor dos três grandes, um vício tolerado; o merchandising, a televisão, os jornais, alguma afluência, vão garantindo um módico de recursos à modalidade; as mães e os pais embevecidos vão levando os seus meninos à escola do clube, sonhando com destinos milionários que outras carreiras nem sequer prometem; quem gosta de jogar, mesmo homens feitos, e são milhares, joga, mesmo que já com barriguinhas incipientes e sem horizontes desportivos. O futebol está vivo.

 

Mas a chave  do sucesso é a competição, que o Estado não consegue falsificar com o seu intervencionismo, porque seria contra-natura, e a necessidade, porque nisto podemos ser bons.

 

Curioso: os recentes sucessos das empresas exportadoras de vão-de-escada, dos sectores anteontem condenados, segundo sábias opiniões, como o têxtil e os sapatos, também não cessam de ganhar lá fora - há por aí muitos pequenos Cristianos, de modalidades não desportivas. O Estado não lhes costuma dar nem bolas nem medalhas: associa-se ao sucesso, que passa a ser o das políticas, e vai-lhes ao bolso, não vá cometerem o pecado de ficarem ricos.

 

A propósito: A bola é mesmo de ouro? E tem contraste? Bom, então temos que ver como é que é isso do impostozinho, no caso de ela dar entrada no território nacional.

publicado por José Meireles Graça às 15:25
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Sábado, 11 de Janeiro de 2014

Ventoinha desligada

Sabe-se o que as boas almas do Abril das nacionalizações dizem: não foi o Estado que falhou, foram os gestores que o Centrão nomeou.

 

E sabe-se o que diria o simpático imigrante da Coreia do Norte radicado em Loures se os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em vez de terem dado cem milhões de prejuízo nos últimos doze anos, tivessem dado cem milhões de lucro: se dá lucro, porquê privatizar?

 

O argumento dos gestores é bom, realmente quem falha nunca é o Estado, é quem ele nomeia. Mas o PCP e o Bloco têm um alfobre de gestores de altíssima competência desocupados que, se nomeados, mostrariam à direita em especial, e ao povo em geral, o que é que um comunista pode fazer em lhe cometendo responsabilidades de gestão de topo? E quem são essas pérolas? E, se existem, do que estão à espera para fazerem empresas, actividade que a Constituição não proíbe?

 

O argumento do lucro, realmente, é de tomo. Tanto que me pergunto por que razão se não nacionalizam as empresas privadas que dão lucro, a fim de se beneficiar a colectividade: com o lucro das públicas que o têm, mais o das antigas privadas que o continuariam a ter, a economia floresceria.

 

Navegamos em plena fantasia: porque a verdade é que uma empresa pública que dá lucro ou é monopolista, ou tem privilégios que lhe garantem a sobrevivência, ou, se e quando começar a dar prejuízos, irá custar ao contribuinte rios de dinheiro porque, no Estado e na sua esfera, o instituto falimentar não funciona.

 

Dito isto, a rejeição da Comissão de Inquérito é um erro: ainda que a privatização fosse, como era, necessária e oportuna; mesmo que os fundamentos que o PCP apresentou para o pedido tivessem sido absurdos (apurar por que razão uma gestão não produz resultados positivos não está ao alcance dos deputados, dos quais a maioria seria incapaz de gerir uma fabriqueta de carrinhos de mão, e no limite não está ao alcance de ninguém, para efeitos de apurar culpas, porque a maioria dos erros de gestão só é detectável ex post facto), quem não deve não teme. A Oposição faria o possível para levantar uma quantidade de dúvidas sobre a lisura do processo de privatização, pondo quantidades inverosímeis de lama nas ventoinhas da opinião pública.

 

E daí? A lama, bem explicada, é sempre mais palpável do que a nuvem - da suspeita.

publicado por José Meireles Graça às 18:06
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Todos os hits de Quim Barreiros ao mesmo tempo

Daqui de fora, quando começo a ver a blogosfera portuguesa, facebook e afins, a concentrar-se na espuma dos dias, lembro-me deste som:

 

publicado por João Pereira da Silva às 11:39
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Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

Tristezas à beira-mar

Quando o actual governo tomou posse, fui um dos que viram com bons olhos a diminuição de ministérios: apenas onze, uau.

 

Houve quem dissesse que os ministérios eram grandes de mais, mas era gente que acha sempre mal qualquer indício de diminuição do peso do Estado, fazendo portanto parte daquele ruído de fundo que acompanha a vida pública entre nós. Creio que, dos magistrados da opinião, Pacheco Pereira também terá dito qualquer coisa, mas Pacheco de modo geral respeita muito o PCP, detesta o PS quando este está no governo, odeia o CDS e abomina o PSD quando calha não lhe pedirem licença para eleger um militante que não o seja da pequena capela da qual julga ser o pároco. Daí que não fosse, também, para levar a sério.

 

Por mim - ó santa ingenuidade! - supus que a diminuição do número de ministérios era o sinal da reforma do Estado, e que esta consistiria na diminuição de intervencionismos sortidos, extinção de serviços, eliminação de sobreposições, privatizações do que não pertencesse às funções essenciais (as clássicas e as hoje consensuais), reforma do Poder Local diminuindo a quantidade de autarquias, as suas competências e a sua liberdade, na medida em que ela pudesse ser usada para a gestão democrática da compra de votos com endividamento, e um longo etc. - tudo dentro do que sem propriedade nenhuma se chama neoliberalismo, a fim de o qualificativo, que passa por insulto, passasse a ser justificado, se atingisse rapidamente o défice zero (nem que para isso fosse necessário utilizar parte do ouro do Banco de Portugal, a fim de ter recursos para indemnizar os funcionários despedidos), e se criassem as condições, num futuro não excessivamente distante, para poder diminuir a sufocante carga fiscal.

 

Claro que a ingenuidade tem limites. E deste programa maximalista estava preparado para ver com bons olhos a realização de apenas uma pequena parte.

 

Sabe-se o que sucedeu: o Estado sofreu apenas os cortes que a férula dos credores impôs, ou ainda menos; foram sobretudo transversais; o Poder Local, incluindo essa equivocada conquista de Abril que são as autonomias insulares, ficou incólume nas suas competências e no direito ao calote, logo que haja quem empreste; as privatizações não visaram o aumento da concorrência e da eficiência, mas apenas a obtenção de receitas para tapar um buraco que só pouco e timidamente se começou a diminuir no ritmo a que cresce; e a opinião está entupida de profetas do desenvolvimento, que têm grandes projectos de investimento na educação, no mar, na formação profissional e no mais que uma Academia de lunáticos esquerdistas, economistas do intervencionismo sortido, e autores por castigar do buraco em que enfiaram o pais, recomendam - desde que haja quem empreste.

 

Foi assim. E em devido tempo alguns ministros cansados cederam algumas competências: já que não era para extinguir nada nem revogar coisa nenhuma, realmente não se aguentava. Um dos ministérios que renasceu das cinzas foi o do Ambiente, em Julho de 2013.

 

Pois o responsável por esta pasta em má hora ressuscitada foi ver os estragos que o mar causou, como periodicamente causa, na orla costeira, e declarou há dias a uma comunicação social embevecida: “Quando, muitas vezes, algumas pessoas olham com uma certa sobranceria, até com algum cinismo, para o discurso a favor das energias renováveis, da eficiência energética, da mobilidade sustentável, da redução das emissões, é importante que tenham a noção de que a mudança climática, infelizmente, não é ficção científica, não é matéria para daqui a 20, 30 anos. Está a ocorrer”.

 

Olha, Ministro: eu sou um desses que olha com sobranceria para as energias renováveis - se e quando forem necessárias o mercado inventa-as, até lá as tuas políticas o que fazem é engordar a minha factura da EDP para sustentar parasitas, senão corruptos; não preciso de ti, nem dos teus diplomas, certificados, burocratas e taxas, para me preocupar com eficiência energética; dispenso a tua mobilidade sustentável, que suponho consista em andar de transportes públicos de pé, quando não estão em greve; se queres reduzir as emissões, vê mas é se arranjas maneira de tornar o gás mais barato; e as tuas alterações climáticas, que ainda ontem eram aquecimento global, não são ficção científica - são patranha científica para justificar fundos, estudos, tachos, conferências, notícias alarmistas e importância para gente como tu.

 

Regressa a Lisboa, vai - de bicicleta.

publicado por José Meireles Graça às 01:23
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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Quem espera desespera

Esta notícia já deu origem a um inquérito, o inquérito dará origem a um relatório, o relatório dará origem a outra notícia, com muito menor relevo se, como de costume, não houver castigos, e em devido tempo serão tomadas "medidas". Medidas é o que os responsáveis tomam, tradicionalmente, para corrigir os erros de medidas anteriores, ao que se seguem efeitos perversos que, naturalmente, requerem novas medidas.

 

A senhora em questão poderá talvez morrer por causa de não lhe terem marcado a consulta, e a colonoscopia, em tempo útil. Mas não será para já, que entretanto andam a tratá-la para diminuir o tamanho do tumor para dimensões operáveis. E se entretanto houver notícias sumarentas, escandaleiras, greves, desastres naturais, o carago, será esquecida - as notícias de vítimas do aparelho de Estado, seja na saúde, nos impostos, na recolha do lixo ou nos licenciamentos de tudo o que mexa, têm começo para cumprirem o seu papel de encher papel; mas raramente lhes conhecemos o fim.

 

Fosse eu um defensor do Serviço Nacional de Saúde e, com as cordoveias do pescoço inchadas de indignação, gritaria: ai que a austeridade está a assassinar as pessoas! E reclamaria o regresso ao Poder, já não digo do paizinho do SNS, que julgo ainda exercer advocacia em Coimbra, mas dos beneméritos colegas partidários dele, coautores, aliás em quase universal companhia, do monstro.

 

Monstro, sim. Porque um serviço que, à força de ser gratuito mesmo para os que o podem pagar, não pode desembocar senão em dívidas; à força de ser gigantesco, burocrático e gerido pelo Estado, não pode senão desembocar em ineficiência; e à força de depender de financiamento do Estado, não pode senão desembocar, agora que o crédito acabou, em cortes.

 

Uma parte dos cortes é a mesma que as mesmas unidades de saúde fariam se fossem privadas: fazer mais com menos, que o capital tem que ser remunerado e tem que haver reservas para investir. Mas o Estado nem cortes sabe fazer, nem aliás verdadeiramente existe - o que existe são os responsáveis, grandes e pequenos, que agem em nome dele. E estes não vão à falência, nem os serviços que dirigem - por isso é que são tão maus.

 

Mas enfim, o eleitor pobre diria, se me conhecesse: o que este gajo quer é fazer negócio à conta da Saúde, o que eu quero é igualdade; e o médio: o quê, já pago impostos que chegue, e ainda por cima progressivos, era o que mais faltava se agora  tivesse que encostar a barriga ao balcão para ter acesso ao que a Constituição garante; e o rico: não tenho nada a ver com essa merda, eu trato-me na clínica de Pamplona.

 

Isto diriam os eleitores. Os credores, esses, dizem: paga o que deves, com juros. E não podemos, infelizmente, responder: agora não, que temos uma colonoscopia marcada.

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publicado por José Meireles Graça às 19:43
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Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

Era "só" um futebolista

 

 

Considera-se um pensador, apesar de ter sido um estratega e um homem muito agradável sempre que a lisonja lhe servia os objectivos. Não está disposto a abdicar de um poder que já ninguém lhe reconhece, nem sequer dentro do partido. Rodeou-se de uma corte de intriguistas fracassados, porque os intriguistas com talento não precisam dele nem lhes sobra tempo para visitas de cortesia. Reune-se, pública e periodicamente, com um conjunto de aduladores que se penduram no seu passado político como se o prestígio fosse transmissível por contágio. O nome de Mário Soares atesta, julgam eles, uma virtude "humanista" no currículum de muitos cavalheiros. E assina artigos de opinião - numa prosa baixa, rude, desabrida e pesada, sem cor nem recursos linguísticos, com o garbo de um carroceiro e o estardalhaço de um sarilho na taberna.

 

Nunca suportou ser contrariado. Quando se candidatou à presidência do Parlamento Europeu (e perdeu para Nicole Fontaine), disse que os deputados tinham preferido votar numa "dona de casa". E há uns meses (não muitos), quando azulado de cólera apelou à violência contra o Governo e o Presidente da República, guardou uns insultos para os comentadores que não gostaram. Nunca admitiu que o fizessem para expressar uma discordância legítima, em resultado de uma inteligência própria e de uma diferente interpretação dos acontecimentos. Discordaram, escreveu Mário Soares, para "especular", "ao serviço do poder", e "para ganhar dinheiro".

 

Em 1986, quando se candidatou pela primeira vez à Presidência da República, Mário Soares chamou as "notabilidades" da época. Do mundo do futebol falou-se de muita gente, mas o mais "notável" (lembro-me bem, porque já me repugnava pelos projectos medonhos que desenhava) foi Tomás Taveira, que andava em namoro com a direcção do Benfica por motivos de um estádio, e encheu tempos de antena com aquele paleio aldrabão e cabelos soltos, pose marialva, frente ao ascoroso edifício das Amoreiras.

 

Eusébio não apareceu. Nem nessa altura nem noutra, porque Eusébio sempre fez - muito bem - o que lhe coube, e nunca falou de política. Competiu em partidas de futebol, porque era a sua profissão; e em protagonismo com o dr. Mário Soares, sem esforço e sem vontade, porque Soares não conseguiu associar-se ao seu nome nem conseguiu interpretar as coisas de outra maneira. O rancor foi ganhando volume naquela vaidade sem medida, e nenhuma oportunidade é melhor para aplicar um golpe no adversário do que apanhá-lo... morto.

 

Aconteceu hoje. O espectáculo repelente não desiludiu ninguém: foi baixo, como é marca do artista, vingativo como um filho mimado; vil como a sua prosa, confundindo (Soares sempre confundiu) coragem com desconsideração; ambíguo como julga que é próprio da alta política; cobarde como há muito não se via - mesmo em Portugal.

 

Soares disse que Eusébio era "modesto", "pouco instruído", "com pouca cultura", e "não se esperava dele que fosse um pensador". Fosse Eusébio comunista, ou lunático do PREC, e Soares (dominados os maus fígados) tê-lo-ia bajulado com encómios estremecidos, exigindo que o seu peito não descesse a enterrar sem uma dose apreciável de quinquilharia dourada - por serviços à Pátria. Mas Eusébio distinguiu-se no desporto, onde o mérito é possível de medir. Sabe-se (nenhum letrado contesta) que não está no mesmo plano das proezas intelectuais.

 

A Al Jazeera e a CNN dedicaram-lhe reportagens. O Governo decretou, pela morte de Eusébio, três dias de luto nacional. No facebook houve logo quem se mostrasse desagradado. Quem pensa que os "humanistas" se distribuem pelos partidos, pelas "plataformas", pela "academia" e pelos fiéis das "ciências" sociais - é porque nunca deu uma volta no facebook, onde o "humanismo" (solto das limitações e dos compromissos de quem tem responsabilidades políticas) mostra os contornos extravagantes que atingiu, em níveis estratosféricos de pureza e intensidade. Um "humanista", quando "sério", opõe-se ao "populismo" e não engole um herói do futebol. Herói que é para ser respeitado tem de vir do "pensamento", dos "valores", da "cultura", ou da "revolução". Naquela arrogância de beatos, na admiração analfabeta pela "academia", no orgulho da virtude que se atribuem para se sentir maiores, e nos feitos dos outros sempre encontrar insuficiências, gostam da "igualdade" teórica, conceptual. Amam a "igualdade" enquanto for abstrata, enquanto for "nobre", e por isso intangível, saco para todas as recusas. Detestam o fenómeno real, que os agarra pelos pés e os faz descer do paraíso seguro das "ideias", onde nada os compromete, à imundície banal das pessoas - esses animais que os esperam, matreiros, vulgares, e mal cheirosos, com toda a espécie de riscos. Um "humanista" casto não digere um herói popular, acima de tudo, porque um herói popular nunca precisou de um "humanista" - nem nunca deu conta que ele existisse.

 

O país vai unir-se numa homenagem a Eusébio - sentida, franca, e grata. Será comovente. Não é obrigatória.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:27
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Domingo, 5 de Janeiro de 2014

Diz o roto ao nú

Beppe Grillo usa o exemplo português na sua campanha de amedrontamento dos italianos:

 

"L’apripista lo fa un Paese dei PIIGS che la Troika tiene sott'occhio: il Portogallo. Il governo lusitano effettuerà un prelievo forzoso dalle pensioni - private e pubbliche - per colmare il deficit di bilancio causato dalla bocciatura della Corte Costituzionale dei tagli delle pensioni dei funzionari pubblici, decisione giunta poco tempo fa. La scelta di una misura alternativa da 388 milioni di euro era necessaria per raggiungere l’obbiettivo del 4% nel rapporto deficit-Pil del 2013, condizione necessaria per lo sblocco della tranche da 2,7 miliardi di euro prevista dal piano di aiuti della "Troika" (Ue, Bce ed Fmi). L’opposizione e i sindacati hanno protestato contro una "misura immorale" che colpisce il potere d’acquisto delle famiglie. Per il momento, si gira intorno all’Italia, ma c’è già chi ha scritto che - oltre alle tasse introdotte dagli ultimi tre governi - lo spettro del prelievo forzoso (magari sui conti correnti, come già accaduto nel 1992) aleggia sull’Italia."

 

Fácil falar de Portugal esquecendo-se de como são feitas as coisas em Itália:

 

"Guerra in Abissinia del 1935 (1,90 lire)

La crisi di Suez del 1956 (14 lire)

Il disastro del Vajont del 1963 (10 lire)

Alluvione di Firenze del 1966 (10 lire)

Terremoto del Belice del 1968 (10 lire)

Terremoto del Friuli del 1976 (99 lire)

Terremoto in Irpinia del 1980 (75 lire)

Missione in Libano del 1983 (205 lire)

Missione in Bosnia del 1996 (22 lire)

Rinnovo del contratto degli autoferrotranvieri del 2004 (0,020 euro, ossia 39 lire)

Decreto Legge 34/11 per il finanziamento della manutenzione e la conservazione dei beni culturali, di enti ed istituzioni culturali (0,0073 Euro)

0,040 Euro per far fronte all'emergenza immigrati dovuta alla crisi libica del 2011, ai sensi della Legge 225/92

0,0089 per far fronte all'alluvione in Liguria ed in Toscana del novembre 2011

0,112 Euro sul diesel e 0,082 Euro per la benzina in seguito al Decreto Legge 6 dicembre 2011 n. 201 «Disposizioni urgenti per la crescita, l'equità e il consolidamento dei conti pubblici» del governo Monti.

MA non finisce qui: perché come spesso accade in Italia – abbiamo una tassa sulla tassa. Su questi 25 centesimi di euro infatti, sommati alla vera e propria imposta di fabbricazione (definita per decreti ministeriali), viene aggiunta pure l’Iva del 20%."

 

Acima, elenco das "accise" sobre os combustíveis. Montantes pagos por todos quantos compram os combustíveis mais caros da Europa e que servem para financiar eventos únicos, desastres naturais ou crises económicas. A primeira, como podem ver é relativa à Guerra da Abissínia de 1935. Sobre todas as "accise" é calculado e pago o IVA a 22% e não a 20 como diz Grillo.

 

 

 

 

publicado por João Pereira da Silva às 07:36
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Sábado, 4 de Janeiro de 2014

Auto-golo

Uma senhora Indira Kaviratna e um senhor João Henriques resolveram escrever uma carta aberta a Cristiano Ronaldo, no Facebook, pedindo-lhe que recuse receber a condecoração que o Presidente da República lhe quer impôr em cerimónia a decorrer na próxima terça-feira. Quando a li, já ia em mais de duzentos aderentes, mas reúne os requisitos, se bem propagandeada, para ser um sucesso:

 

Começa por tratar a estrela por "tu". Está certo: Cristiano entra-nos em casa pela televisão de calções e t shirt, portanto praticamente de pijama de Verão, e seria porventura um exagero tratá-lo por "você", dado que é nosso íntimo. Ou não? Não, digo eu, não é nosso íntimo, apenas o é da família e amigos - nós somos admiradores de um atleta excepcionalmente dotado e do sucesso que tem sabido merecer, mas isso não nos deveria consentir familiaridades de trato: o homem é maior de idade, pai de filhos e cidadão eleitor.

 

E este detalhe é denunciador: eh pá, somos todos malta porreira, deixa lá o cota mais as condecorações dele, aqui a gente nova é práfrentex, não liga a essas merdas.

 

Depois, o texto explode numa frase profunda: "Ser português não significa apenas marcar golos com camisolas ou símbolos. Ser português é amar, é querer estar próximo dos seus, é ser um expoente de humanidade".

 

Ai sim, ser português é isso? Olhem cá, acho a vossa ideia perturbadora, porque aqui este ignoto escriba não marca golos, não é um expoente de humanidade, ama sobretudo o bacalhau à moda de Braga, o que provavelmente não o qualifica para grandes voos de patriotismo, e às vezes quer estar longe dos seus, por mor de ouvir música sozinho. Ora, não obstante estas desqualificações, sempre se julgou português, pela razão comezinha de ter nascido e sido educado em Portugal.

 

Isto não chega? Mas tem que chegar, senão a maioria esmagadora dos portugueses seria, afinal... estrangeira.

 

E continua, agora numa toada fadista: "... O povo para quem marcas golos...".  Há aqui um mal-entendido: se Ronaldo marcasse golos para o povo, seria quando muito para o espanhol, mas nem isso - a triste verdade é que os golos são apenas para o Real-Madrid.

 

Passamos à parte substantiva da carta: "Esta pessoa que te quer apertar a mão e usar o teu mediatismo para lavar a sua própria imagem, é o mesmo que representa os poderes e as forças que deixam os miúdos que querem usar a tua camisola sem escolas, é o mesmo que representa quem desemprega os que festejam os teus golos e para quem jogas, é o mesmo que representa quem empobrece os milhões de velhos que ficam mais novos quando te veem jogar ou exploram os milhões que nos estádios, nos cafés ou em casa, cantam o hino contigo".

 

Este trecho é comovente: Cavaco Silva é um monstro; e chegou a Presidente da República, depois de ter sido Primeiro-Ministro dez anos, enganando toda a gente, que não percebeu as ignomínias que iria praticar mal se apanhasse no Poder. Pior: eleito em 2006, conseguiu esconder do eleitorado a sua verdadeira natureza, de tal sorte que foi reeleito em 2011. Ah, que diferentes - e tão melhores - as coisas seriam se este povo cegueta tivesse elegido antes o camarada Francisco Lopes, um gigante da Democracia, ou Manuel Alegre, um vulto da Cultura e da caça desportiva.

 

E chegamos finalmente à conclusão, avassaladora na sua comovente simplicidade:

 

"RECUSA RECEBER ESSA CONDECORAÇÃO..."
"... terás o aplauso e o carinho de milhões de lares portugueses onde a comunicação social não entra. Essa é a tua condecoração. Esse é o teu melhor golo... em milhões de lares, Cristiano, simples, pequenos, pobres, anónimos e invisíveis... como um dia foi o teu".

 

Cristiano Ronaldo, é claro, vai receber com orgulho a condecoração; Cavaco dirá as palavras de circunstância adequadas - nem ele, aliás, mesmo que quisesse, saberia dizer outras; os presentes aplaudirão; cá fora haverá uma multidão de admiradores para aclamar o craque, à saída; e os portugueses de senso, de esquerda e direita e centro aplaudirão intimamente, porque o significado das medalhas é reconhecer o mérito dos que de alguma forma se distinguiram, pelo mérito, dos seus concidadãos. E nem por muitas vezes (mas não é aqui o caso) os contemporâneos e os responsáveis pela atribuição de louros se enganarem nos juízos que fazem o significado pode ser outro.

 

É só isto. A assinatura ("Os Portugueses") é por isso um abuso. A dos promotores, mais a dos aderentes, chegaria perfeitamente.

publicado por José Meireles Graça às 23:57
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Da permissão e "São" Sebastião

"O facto de essa autoridade lhe faltar - sobre o líder do PSD, sobre o líder do PS, sobre os eleitorados de partidos mais à direita e mais à esquerda - transforma o Presidente da República, independentemente das boas ideias que tenha, numa espécie de fantasma que assombra a vida política, mas não a determina nem sequer nela influi com eficácia. Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-irrelevancia-de-cavaco=f848560#ixzz2pQeT7Vnr"

 

Compreendo o ponto de vista. Não gosto de Cavaco, tal como a maior parte dos portugueses que o escolheram, porque as alternativas eram... piores.

 

Ora imaginem que neste momento era Soares o presidente. Que situação de ingovernabilidade existiria, quer com o PSD quer com o PS, forçado a seguir os ditames que a "nossa" irresponsabilidade desde 85 impuseram? Que conflitos, forçados pelo irrealismo dos "desejos de agradar a todos" se tentaria implementar, quando as condições da moeda única impõem a redução da dívida e do défice pela competitividade e não pela desvalorização?

 

Em Portugal, o país que nem se governa, nem se deixa governar, a democracia efectiva (ops!, afirmação polémica), é mais antiga do que a inglesa. Os nossos governantes, dada a dimensão do país, governam pela permissão dada pelo povo, próximo das portas do palácio, avô, tio e primo do líder. E, "eles sabem" ou tentam saber, o que o povo quer.

 

A "liderança" em Portugal é uma tentativa de interpretação do que o povo quer, do que deseja, almeja e pretende. Não de criar o que o povo pode vir a querer para si. Cavaco, tal como todos os outros não pode ser "São" Sebastião. Sebastião só o é, depois de morto, quando tudo é possível pela metafísica.

 

E é assim que o povo quer, e gosta. Cavaco, tal como todos os primeiros-ministros e presidentes em democracia, negoceia constantemente a - permissão - dada indirectamente, e interpretada pelo líder, pelos portugueses. Cavaco, em termos absolutos, "é" o povo.

 

Na voz de Fernando Pessoa sobre Dom Sebastião:

 

"Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?"

 

Esta do "cadáver adiado", não a compro para a nação, para o indivíduo, sim, naturalmente, mas para o país ainda há muito para dar. Pessoa, génio da humanidade, é português, tal como Henrique Monteiro.

 

Sugestão de leitura para o próximo fim-de-semana.

publicado por João Pereira da Silva às 12:02
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