Em 25 de Maio próximo realizar-se-á uma mega-sondagem, sob pretexto das eleições para o Parlamento Europeu, para saber como votaria o eleitorado se as eleições legislativas tivessem lugar naquela data.
Nas sondagens vulgares consultam-se aí uns três ou quatro mil marmelos, pelo telefone, e o resultado da coisa tem uma margem de erro de três vírgula qualquer coisa. Já se forem quatro milhões de votantes a margem de erro é tradicionalmente muito maior, a julgar pelas análises dos resultados, pelo que aquelas eleições nem como sondagem valem grande coisa. De toda a maneira, ninguém sabe para que serve exactamente o Parlamento Europeu, e, no que toca a assuntos europeus, todos, eleitores e candidatos, estão de acordo em que do que se faz mister é de solidariedade, isto é, transferir impostos de europeus ricos para europeus pobres.
Os europeus ricos, porém, já tomaram as suas precauções. E assim a sondagem de 25 de Maio destinar-se-á a saber: i) Quantos eleitores acham que o PCP faria reviver as alegrias do PREC, e quantos não querem aquelas alegrias mas se deleitam em dar um grande susto a este governo de gatunos; ii) Quantos ainda acham que Sócrates tinha muito que o recomendasse, e quantos entendem que os socialistas têm mais experiência, e competência, para aldrabar as contas, de modo a endrominar os totós das Europas; e iii) Quantos acham que este Governo nunca reformou, nem reformará pelo seu pé, o Estado, mas esperam que a reforma venha sob a forma de diktat, como vieram os cortes, e quantos entendem que, nas circunstâncias, não era possível fazer muito melhor.
Estarei, contrariado, no terceiro grupo, para evitar males maiores. E não desdenho de participar às vezes, para fazer número, do circuito da carne assada. Estranha forma de coerência a minha: a lista é encabeçada por um federalista, uma condição que tenho que me esforçar para não detestar, para candidatura a um órgão que acho não devia existir, ao serviço de uma engenharia de países que já só resulta ainda porque uma burocracia especializada a aprofunda todos os dias e ninguém sabe como lhe pôr fim.
As tranches de vitela serão duras, como de costume - em jantares partidários a qualidade do menu não é o que atrai militantes. Tanto melhor, sempre terei as mãos ocupadas com os talheres se alguém, nos discursos, se lembrar de lembrar a excelsa utilidade da assembleia para a qual nos propomos remeter alguns ilustres.
Vítor Bento tem obra publicada na sua especialidade, conta na carreira com vários lugares de nomeação pública, é Conselheiro de Estado e aparece na comunicação social, com alguma frequência, a opinar sobre assuntos económicos.
Sempre o ouvi com atenção e proveito. E, discordando em matéria essencial, como é a da pertença à UE e ao Euro, nem por isso deixo de lhe reconhecer consistência no discurso, competência técnica e senso nas apreciações.
Mas esse é um Vítor Bento; o profissional presidente da Sociedade Interbancária de Serviços é, sendo o mesmo, outro. E este outro diz coisas extraordinárias. Mas vejamos primeiro a envolvente: temos um sector da economia que é essencial à vida económica; esse sector é constituído por empresas para cujo produto não há, nem nunca houve entre nós, falta de procura; essas empresas não podem ser deixadas falir e têm por isso a garantia de que o Estado, com o qual aliás vivem num conúbio obsceno, lhes porá a mão por baixo quando as coisas corram mal; a eliminação do risco de falência permitiu - mais, tornou inevitável - que a gestão fosse assegurada por pessoas que nem são empresários, nem empreendedores, nem têm sequer noção da sua demonstrada inépcia, capitaneando exércitos de burocratas aos quais, para serem gestores de topo, apenas faltam o conhecimento das pessoas certas, as credenciais académicas (às vezes) e melhores alfaiates.
Esta gente emprestou anos a fio ao Estado, para este espatifar em investimentos faraónicos e apostas de retorno mais que duvidoso; a empresas públicas com pés de barro, geridas por apparatchiks partidários; a especuladores, para operações de engenharia financeira, sem adequadas garantias; e a milhões de cidadãos para lhes permitir acreditar que eram proprietários de imóveis, ao mesmo tempo que dificultava o crédito aos patrões desses cidadãos, porque na nova economia não era realmente necessário produzir a ponta de um corno.
Andam agora a registar imparidades, o nome que académicos pedantes inventaram para designar calotes. E acumulam prejuízos com a mesma facilidade com que dantes acumulavam lucros.
Reinventar o negócio? Fazer mais com menos? Fechar linhas de produtos não rentáveis? Parcerias, novos mercados, novos clientes, fidelização, compressão de custos?
Nada, nada, isso é para aquela escumalha do calçado, e dos texteis, da nova agricultura e dos novos negócios, ou dos velhos reinventados. O próprio Estado obriga para, por exemplo, restituir impostos, a que os cidadãos tenham conta bancária; como, na prática, se tornou impossível pagar a dinheiro, porque os bancos isso dificultam e o Estado desaconselha, este permite que as modestas contas de cidadãos indefesos sejam assaltadas por quanta taxa a gestão bancária inventa para pilhar recursos; e o supervisor autoriza serenamente que, para numerosas operações e circunstâncias, se pratiquem taxas que, se utilizadas por particulares, seriam crime de usura ou agiotagem.
Isto é assim. E o preço a pagar para acabar com isto seria demasiado alto, porque implicava deixar os comunistas chegarem ao Poder, onde estes criariam condições para acabar com os abusos de uns pelo expediente de os reduzir à penúria de imediato, e aos abusados logo a seguir.
Entretanto, Vítor Bento vai à Assembleia da República e deveria dizer, preto no branco: a gente não está a ganhar o que acha que merece, mas não sabemos fazer melhor. Portanto, ou os senhores nos autorizam a aumentar o preço ou nós fechamos o estabelecimento, e adeus modernidade e cartõezinhos. Deveria, se é nisso que crê. E eu, se fosse deputado, responderia: não acredito em nada do que o Senhor está a dizer, e por isso pago para ver. Mas não, disse antes isto: arranjem maneira de o que ainda resta de liberdade aos cidadãos, que lhes é conferida pelos euros que tenham no bolso e nas suas continhas, seja ainda mais diminuída; e, de brinde, tomem lá mais um instrumentozinho para aumentar a receita fiscal - é mesmo disso que estamos precisados.
Não sei o que o Conselheiro Vítor Bento pensa do que diz o Presidente Vítor Bento; suspeito que não estarão nas melhores relações.
Nunca fui, ai de mim, ao Museu Berardo. Sempre que entrevejo fotografias do que por lá se expõe, esmoreço. E a certeza, recolhida junto de quem me merece confiança, de que a maior parte do conteúdo é lixo - desanima.
Mas enfim, ao menos para falar com conhecimento de causa, uma exposição seria um bom pretexto para, de brinde, avaliar se o edifício em que o Museu de aloja tem, por dentro, aquela fealdade canhestra que o distingue por fora.
Por acaso, tropecei na notícia desta exposição. O nome, "da cauda à cabeça", não diz nada, ou melhor, seria talvez mais indicado para uma exposição do Museu de História Natural, mas o que é um nome, hem? - se bem explicado é capaz de fazer todo o sentido.
Também por isso, li com atenção o panegírico da obra que faz o Director Artístico Pedro Lapa: ver não é a mesma coisa que saber ver e a obra de arte pode ganhar com a mediação de um intérprete.
Que diz então o inteligente? Diz isto: "Tal como na maioria dos projetos de Carla Filipe, em da cauda à cabeça os objetos do mundo, relacionados entre si, fora das suas funções instrumentais, traçam um feixe de relações suscetível de definir um amplo conjunto de narrativas que complexificam a sua aparente simplicidade ou mesmo insignificância. Eles tornam-se um suplemento material por entre as histórias ausentes que deles partem e para eles reenviam. Como tal, revelam-se o espaço de consignação da memória que o trabalho de Carla Filipe acorda e reinventa".
Sim, Pedrinho, consignação da memória? Ó pá, isso também vale para uma colecção de sêlos; e essa história do feixe de relações que definem um amplo conjunto de narrativas remete mais, por exemplo, para a descrição, feita por um psicólogo, de um marido aldrabão que gosta de saltar a cerca.
A notícia vem com uma sequência de fotografias. E o que as fotografias mostram, no inspirado dizer do crítico, são objectos "que se vão articulando uns com os outros, a par de resíduos autobiográficos, de forma a criar um arquivo fantasmagórico, que destitui qualquer pretensão de abordagem científica para revelar um conhecimento sensível de uma realidade histórica".
Ou seja, ainda não é desta que vou a Lisboa: para ver ferro-velho embrulhado em banha-da-cobra realmente não tenho vagar.
Sampaio da Névoa, rector emeritus da Universidade de Lisboa, dirigiu-se ao povo de Abril, reunido na Aula Magna, lugar recentemente tornado ilustre pelas orações de outros clérigos, e declarou que a poesia é a única prova concreta da existência do homem.
A plateia, parece, irrompeu em aplausos. E que plateia: estava lá Jorge Sampaio, que se especializou como Presidente em recomendar serenidade em todas as situações, mesmo quando ninguém estava nervoso; Cravinho, um conhecido campeão da luta anti-corrupção, oportunamente expedido para o Banco Europeu de Investimentos, para um lugar egrégio que contrariadamente aceitou; Joana Marques Vidal, uma magistrada discreta de cuja existência a opinião pública tomou conhecimento pelo seu amor incontrolável ao falecido pintor Miró, cujos quadros se comprometeu, com a autoridade que não tem, a não deixar sair do País; Ferro Rodrigues, um ex-embaixador na OCDE, ex-secretário-geral do PS, ex-ministro e ex uma data de coisas; Guilherme de Oliveira Martins, Presidente do Tribunal de Contas, notório pela sua honestidade e a sua inutilidade; e todo um friso de ilustres, uns por obrigação, presume-se, e outros por devoção - um discurso de Sampaio da Névoa é como um passeio de balão, apanha-se ar fresco mas não se vai a lado nenhum.
Fiquei escandalizado: que eu julgava assente, desde Descartes, que o simples facto de pensar era a garantia da existência do Homem - cogito ergo sum, como dantes se aprendia no Liceu. Mas não - é pelos vistos preciso pensar em verso, um grande embaraço.
Isto já me deixou meditabundo. Mas Névoa alerta para uma guerra que está insidiosamente em curso contra as "Artes" ("sim, a guerra", sublinhou), e tal ocorrência é de gelar o sangue. Infelizmente, não se deu ao excessivo trabalho de concretizar no que ela consiste, e aqueles cidadãos que, como eu, não veriam com bons olhos estas iniciativas bélicas, vêem-se impedidos de dar o seu contributo para o bom combate.
Finalmente, protesta a necessidade de "recuperar a energia de Abril", recordando o jovem que era então, quando vivia essa "situação única, irrepetível", que fazia crer que "o futuro de todos estava no mais pequeno gesto de cada um".
Isto é comovente: eu também era jovem nessa altura, embora nunca me tivesse ocorrido que os meus pequenos gestos (assoar o nariz, limpar os óculos, fazer xixi) dessem quaisquer garantias de um futuro radioso para a comunidade.
Mas, lá está, como não sou poeta não sei pensar, e em bom rigor talvez até nem tivesse existido, então e agora. O que, tudo visto e ponderado, nem seria má ideia - sempre me poupava a vacuidades pedantes.
A importância social dos blogs está por verificar cientificamente. Contudo, assim da manga, pode-se retirar que há alguns que marcam fortemente o panorama ideológico e jornalístico nacional, e o ajudam a evoluir. Um deles, que agora cumpre 10 anos e muitos milhares de posts, é o Blasfémias.
Vão passando por lá, deixem-se provocar, reflictam e interajam nas caixas de comentários mais estranhas da blogosfera, onde cada assunto tem mais ramificações que uma rede neuronal, e se fica com uma ideia clara de quão difíceis somos como nação.
Boas leituras.
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