Acho mal que se venda. Ninguém com juízo dará dinheiro que se veja pelo trambolho, a menos que o pudesse implodir, para utilizar o terreno, o que evidentemente não é permitido: Souto Moura tem prémios no estrangeiro e o estrangeiro tem um sentido estético apuradíssimo. De resto, a casota, como por exemplo as obras de Saramago e os filmes do ex-futuro habitante, é imensamente cultural, como se prova pelo Pritzker de um, o Nobel de outro e os 17 críticos franceses que, de óculos, cenho franzido e ar meditabundo, consideram o último um génio.
Se é difícil vender, e não se pode deitar abaixo, nem ocupar com gente de representação, nem arrendar para instalação de um ginásio, ou loja de reparação de telemóveis, por evidente desrespeito aos dois génios - o que projectou o abrigo e o que não se quis lá meter - que fazer?
Dou aqui, com humildade, duas - duas - sugestões:
1. Monumento ao socialismo: basta instalar uma placa com os originais dizeres "Monumento ao Socialismo" e o tempo se encarregará de lhe conferir um cunho hiper-realista e, em simultâneo, marcadamente simbólico - já neste momento se nota aqui e além alguma corrosão dos materiais, originada possivelmente por restrições dos mercados financistas;
2. Pelourinho: caiu injustificadamente em desuso esse poderoso símbolo do poder municipal. Seria uma excelente oportunidade para, com algum recato, restaurar as nossas vilipendiadas tradições, instalando o instrumento de justiça e justo castigo corporal na sala principal. A inauguração poderia ser feita com, por exemplo, cem chibatadas, com adequado acompanhamento do médico de família, nos lombos municipais de Nuno Cardoso e dos outros edis que nos esbulharam de mais de dois milhões de Euros. Justa retribuição e exemplo para edificação dos decisores na conveniência de respeitarem o contribuinte.
Desde há 40 anos que o país se dividiu em duas grandes famílias políticas: a dos que acham que se deve expropriar os ricos e, com o produto do esbulho nas mãos do Estado, pôr este a administrar a riqueza, o investimento, a colectividade e a felicidade geral que fatalmente resultariam de um tal programa; e a dos que entendem que o Estado sim senhor, mas sem liquidar completamente a iniciativa privada, por se verificar que, lamentavelmente, onde ela não existe, as pessoas são iguais na pobreza.
Do lado dos comunistas, os que o são e os que julgam que não lhes fazem o jogo, o programa manteve-se e mantém-se inalterado, apenas variando semanticamente a propaganda que serve o propósito: dantes tratava-se de construir a sociedade socialista, a ditadura do proletariado e o resto da tralha revolucionária, e agora trata-se de aperfeiçoar o capitalismo, a tal ponto que este, quando estiver quase à beira da perfeição, deixe de o ser, como na história do burro do escocês - é este o programa da CGTP para o mundo do trabalho, e o do PCP para o mundo em geral.
Não fosse o PS, desde que Soares foi à Estação de Santa Apolónia esperar a raposa branca (que logo ali deu, em cima de um carro de combate, um inestimável contributo para a iconografia da Revolução dos Cravos), viver permanentemente apavorado que o PCP o ache fascista, e talvez não se tivesse levado tanto tempo a fechar o manicómio em autogestão, a rever uma Constituição que nunca cessou de ser, como ainda hoje é, obsoleta, e a corrigir algumas das burrices legislativas que tolheram o desenvolvimento normal do país; e tivesse a Constituição sido aprovada com o voto contra do PPD, talvez não se tivessem enraizado tão profundamente na comunicação social, e na opinião pública, ideias de esquerda que só a dura realidade tem vindo, lentamente, a sapar.
Foi assim. E neste pano de fundo se encaixou a grande conquista do Centrão, que foi a adesão à CEE, primeiro, e a evolução para a UE, depois.
É hoje um segredo de Polichinelo que parte dos nossos problemas nasceu com a UE e o Euro - não porque sem a nossa adesão à moeda única houvesse qualquer garantia de a gestão da coisa pública ser mais prudente ou sensata, mas porque por trás da cortina do Euro o país pôde obter crédito, e portanto contrair dívida, a um nível que sem ele não teria sido atingido - bateríamos na parede mais cedo, em suma.
Mas a anulação do erro da adesão não só, na opinião quase universal de quem faz a opinião, criaria mais problemas do que os que resolveria, como não há o mais leve indício de qualquer quebra significativa no apoio da opinião pública à ideia da construção europeia. Sem os entusiasmos do tempo do ami Mitterrand, decerto, e da Europa connosco, antes talvez à boleia resignada da ideia de que, governados por outros, pode ser que nos safemos.
Infelizmente, há a perspectiva, que as sondagens timidamente apontam, de virmos a ser governados pelo Sr. Seguro. A personagem, em si, não justifica que sobre ela se diga muita coisa, por manifesta falta de superfície - todos os dias alguém contrasta o que ele diz hoje com o que disse ontem, para salientar o desnorte, mas isso é o menos: Passos não fez exactamente o que disse que ia fazer, tanto no que toca à reforma do Estado como ao aumento de impostos, e o eleitorado já interiorizou a ideia de que tem que fazer, em relação às promessas dos políticos com probabilidade de chegarem ao Poder, um grande desconto.
O mais é que, não fazendo ninguém, nem o próprio, ideia do que um governo Seguro fará, a pressão para que regressemos ao tempo dos desígnios e das visões será demasiado grande: todo o prócer do PS com alguma da categoria que o titubeante Seguro não tem - o edil Costa e o tribuno Assis, por exemplo - tem, se perguntado, ideias firmes sobre apostas: na educação, na ciência, nas novas tecnologias, no mar, na recuperação do património edificado e em tudo o mais que os conforte na ideia de que são estadistas e que têm solução para o nosso problema. E como para colher os frutos deste empreendedorismo estatal há interessados e beneficiários, que berram como cachorros desmamados, mas não os há para defender uma ideia de interesse público que não tenha directamente nada que ver com o seu interesse pessoal, sobra que, se Passos ganhar, resta uma dúvida:
Terá força e vontade para fazer, ainda que tarde e mal, a reforma do Estado que não pôde ou não soube fazer cedo? E, se Seguro ganhar, resta outra:
A Europa e o mercado emprestam?
Porque, se a reforma, com Passos, não for feita, condenamo-nos a crescimentos medíocres até que a Europa caia sob o peso das suas contradições (como dantes se dizia do capitalismo); e, se Seguro durar o bastante para que o deixem pôr em prática (e no Diário da República) os disparates que povoam a cabeça da sua entourage, condenamo-nos a um novo resgate.
A próxima mega-sondagem, a 25 de Maio, será sobre esta escolha, ainda que não devamos atribuir a uma sondagem a mesma importância de umas eleições verdadeiras. Porque quem vai ao certo para o Parlamento Europeu não tem, fora o significado político nacional, qualquer importância.
Não irei à praia. Mas aconselharia, se o meu conselho tivesse qualquer peso, que os meus concidadãos só fossem de tarde - votando de manhã.
O raciocínio não está mal, se pusermos os óculos de algum cinismo: o Governo tem que casar o programa da troica com a Constituição, que contém uma parte do programa da Oposição; e como esta é impotente mas o Tribunal Constitucional não, a situação dos pensionistas e dos funcionários públicos tinha de ter uma solução.
Consistiu ela em tirar alguma coisa a todos (aumentar 0,25% no IVA e 0,20% no desconto para a Segurança Social), com a esperança de que isso não seja o bastante para alienar o eleitor hesitante; e atribuir esse bolo, a partir de 2015 e durante cinco anos, a um grupo específico (funcionários, reformados e pensionistas), com a esperança de recuperar uma parte dele, que já se havia bandeado para os braços do PS.
Não me atrevo a tentar prever se o ardil vai funcionar. Mas cabe perguntar, face à exiguidade dos números envolvidos e à neutralidade orçamental (se as contas e as previsões baterem certo, trata-se de utilizar aumentos de receita para aumentar a despesa):
A RTP já foi despachada? O número de municípios já foi reduzido? A Fundação Mário Soares, e todas as outras igualmente inúteis e parasitárias, já encontrou mecenas ou fechou as portas?
Pergunto porque assim a olho estas três reformas chegavam para cobrir a anulação de cortes, sem aumentar impostos.
Aumentar impostos devagarinho, a ver se a gente encolhe os ombros, pode até, com optimismo, funcionar eleitoralmente. Mas, ainda que se ganhem eleições ao PS, isso serve exactamente para quê, se o PS nem sequer precisa de estar no governo para que se lhe siga a política?
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