Quinta-feira, 10 de Setembro de 2015

Lógica fuzzy

Deixa ver se percebo: a Sanofi deixou de produzir o soro "devido aos preços dos produtos concorrentes fabricados na Ásia, América Latina e África, e com os quais a Sanofi Pasteur não pode alinhar".

 

É a sina de muitos: não podem competir porque, para qualidade igual, o consumidor escolhe artigos oriundos de lugares onde os custos de produção são mais baixos. Mas neste caso parece que não - os doentes são teimosos e preferem morrer. É o que diz a Organização Médicos Sem Fronteiras, afirmando esperar que o laboratório "ponha à disposição as substâncias de base necessárias à produção do Fav-África" e encontre "uma capacidade de produção para aperfeiçoar este produto antiveneno que possa, a prazo, substituir o Fav-África".

 

Portanto, o produtor do Fav-África, que é a Sanofi, deve disponibilizar à sua concorrência "as substâncias" e, depois de o ter feito, investir na criação de um produto que faça concorrência aos seus concorrentes e a si mesma.

 

Temos portanto a lógica clássica e as suas complementares (modal, epistémica, etc. - está tudo aqui) - dessas tinha uma ideia. E temos também a lógica difusa, mais conhecida como fuzzy.

 

Não sabia o que era. Agora sei.

publicado por José Meireles Graça às 17:31
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

Elevando as massas (e outros produtos)

arar_yang_v.jpg

 

A senhora vai ao armazém todos os dias e desempacota algumas caixas. Poder-se-ia pensar que dali sairiam rolos de papel higiénico, detergentes, fraldas de bebé, sacos de arroz e açúcar - toda a imensa lista de artigos que fazem o dia-a-dia da dona de casa contemporânea. Das grades, porém, só poderia sair cerveja ou refrigerantes, ainda que, desgraçadamente, à temperatura ambiente.

 

Desta escultura que assim se transfigura em performance não era difícil inferir um libelo contra a sociedade de consumo, o sexismo, a poluição, a fome no terceiro mundo, o diabo - boa parte da obra de arte contemporânea contém a mensagem que o crítico quiser, mesmo que o artista se pronuncie com a sua interpretação autêntica, desde logo porque ninguém percebe o que ele diz.

 

Mas não: daquele monte de tralha saíam diariamente gravuras, pinturas, colagens e esculturas, e assim quem foi ver a exposição todos os dias foi deslumbrado com a fecunda imaginação da artista. E a obra foi ainda enriquecida com o material das embalagens, que passou a fazer parte depois de desembrulhados os tesouros, e ainda peças de outros artistas, que se misturaram no acervo por acaso - informa Haegue Yang com louvável candura.

 

Esta sul-coreana genial vai, sob o patrocínio da Sonae e da Fundação de Serralves, criar obras para o Parque de Serralves, é uma alegre notícia de ontem. A Sonae, presume-se, fornecerá os materiais, ignora-se se oriundos dos supermercados Continente ou de qualquer das fábricas do conglomerado.

 

Mal posso esperar. Não pelos trabalhos: tenho a lixeira municipal de Gonça aqui perto, bem como o minimercado Sequeira (na hipótese de os trabalhos serem na área de secos e molhados), pelo que a curiosidade que me move não tem a ver com objectos mas opiniões.

 

Estou certo de que serão entusiásticas. O bom burguês do Norte frequenta os jardins e o restaurante e, pelas exposições, só não passa a correr porque fica mal. Mas elas não são feitas para ele, que, coitado, se inquirido, não saberia o que dizer. Os críticos, os críticos é que quero ouvir. Se forem membros dos corpos sociais, melhor: que a obra de arte faz-nos bem ao coração, e as opiniões de entendidos ao fígado - este desopila, como é geralmente sabido, com gargalhadas.

publicado por José Meireles Graça às 12:37
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Sábado, 5 de Setembro de 2015

Realistas, cínicos e carpideiras

Na Europa as nossas mulheres, grandessíssimas preguiçosas, têm em média 1,4 filhos, em vez dos 2,1 que seriam necessários para a população não declinar.

 

Estes números figuram aqui, assim como a aterradora perspectiva de, por volta de 2050, a quantidade de xexés ultrapassar a de qualquer outra categoria de cidadãos, circunstância duplamente grave por as pessoas que estão ainda na força da idade se comportarem com frequência com não muito mais sensatez do que os seus parentes que sofram de Alzheimer ou outras degenerescências cerebrais (caberia aqui a elucidativa comparação Costa/Soares, se num assunto tão grave se admitisse a intromissão de casos domésticos de pouca relevância).

 

Daí que pessoas de representação meneiem gravemente a cabeça e digam que a Europa precisa desesperadamente de imigrantes - o que é verdade, mas precisa de ser qualificado.

 

Convém ter presente que a projecção mecânica para o futuro de tendências actuais sofre do defeito de pressupor que a ciência e a tecnologia não vão evoluir e que os comportamentos não se vão alterar - pressupostos falsos: não há muitos anos íamos morrer de sida aos milhões e nem foi preciso descobrir a cura para o perigo não se materializar.

 

Ter filhos na Europa implica que os pais vivam pior do que se os não tivessem, e tanto pior quanto mais filhos tiverem. A opinião pública, e os poderes públicos que nas nossas sociedades democráticas a lisonjeiam, não têm prestado grande atenção a isto, e assim a fiscalidade, bem como a regulação do ensino (ver, por exemplo, este escândalo) ou da saúde, ou da assistência a deficientes, etc., ignoram este lado das coisas.

 

Digamo-lo rudemente: no dia em que ter filhos não for um negócio desastroso para os casais e, sobretudo, para as mulheres (por comprometerem as suas carreiras nos anos fundacionais), os filhos aparecem. Nas sociedades rurais não era apenas por falta de meios anticoncepcionais que havia filharada - era também porque os bracinhos se aproveitavam na lavoura e os pais queriam um seguro de vida para a velhice, que outro não havia.

 

É de esperar também que não apenas se viva mais tempo, mas também se viva com saúde, o que quer dizer que se trabalhará durante mais anos, a bem ou a mal.

 

Só por isto, o argumento da necessidade de imigrantes vale menos a prazo do que no imediato. Mas estas considerações seriam impertinentes se importar imigrantes, e as suas famílias, fosse equivalente à, digamos assim, produção local.

 

Sucede que os filhos dos emigrantes portugueses em França, no Reino Unido, nos EUA, no Brasil ou em qualquer outro lugar do Ocidente, não querem mais do que integrarem-se rapidamente na sociedade que os acolhe - nada de fundamental os separa, culturalmente, dos locais.

 

Pergunta-se: Pode-se dizer a mesma coisa das hordas que afluem à costa norte do Mediterrâneo e a certas fronteiras terrestres da UE? E é razoável cobrir todos com o manto dos refugiados, sem curar de distinguir, por moroso e incerto que seja o processo, os genuínos dos emigrantes por razões económicas?

 

É que, como o detestado Orbán declarou, "a quantidade de refugiados muçulmanos que está a chegar (...) ameaça minar as raízes cristãs da Europa". Os pêlos eriçam-se de todos os que julgam ver nesta declaração, e nas opiniões dos que, como eu, a subscrevem, a defesa de guerras religiosas, um anacronismo. Sucede porém que a cristandade não é hoje o reino dos seguidores de Cristo: nela cabem todos os que têm convicções religiosas cristãs, em qualquer das suas declinações, os que não têm convicções religiosas nenhumas, os ateus e agnósticos, os que praticam e os que não praticam outras religiões, mas que, no conjunto, respeitam a separação das Igrejas do Estado, não atribuem excessiva importância às convicções religiosas do vizinho, não acham que a opinião do padre, do bispo ou do rabi se possa sobrepor à opinião da maioria dos cidadãos e, de forma geral, são depositários de uma tradição de tolerância em costumes, secularismo, respeito pelos direitos humanos e pelo indivíduo - tudo coisas não excessivamente antigas e que quase sempre resultaram de uma longa e complexa maturação, feita de conflitos e revoluções mas que hoje é um acquis.

 

As sociedades muçulmanas estão neste estádio? E, quando os muçulmanos nas nossas sociedades atingem números significativos, como já acontece em França, Reino Unido, Suécia e outros lugares, é ou não verdade que se organizam como um corpo estranho e desafiador, cuja manifestação é, por exemplo, a recusa do estatuto de igualdade para as mulheres? E a principal fonte do terrorismo interno mora onde, já agora, e recruta quem?

 

Precisamos de nos preocupar? Precisamos sim. Porque uma pesquisa rápida na internet, a madrinha dos ignorantes, dá para alguns países de origem destes imigrantes de tipo novo, os seguintes números de habitantes:

 

Síria - 23 milhões.

Iémen - 24 milhões.

Líbia - 6 milhões.

Etiópia - 90 milhões.

Eritreia - 7 milhões.

Iraque - 37 milhões.

Somália - 11 milhões.

Mali - 17 milhões.

Outros - (Nigéria, etc.) - ?

 

Total aproximado: 215 milhões de pessoas

 

Hipóteses e estimativas:

 

0,1 por cento de refugiados para a Europa - 213 000 pessoas

0,5 por cento de refugiados para a Europa - 1 milhão de pessoas

1 por cento de refugiados para a Europa - 2.1 milhões de pessoas

2 por cento de refugiados para a Europa - 4.3 milhões de pessoas

4 por cento de refugiados para a Europa - 8.5 milhões de pessoas etc.

 

Nota sobre as hipóteses anteriores: Para aferir da bondade do intervalo [0,1 %, 4 %], note-se que nos últimos 4 anos diz-se que saíram 400.000 pessoas de Portugal, ou seja, cerca de 4 por cento da população. Por conseguinte as estimativas anteriores deverão pecar por defeito visto que o êxodo português não possui a exuberância dos êxodos em curso.

 

Estes 8 milhões de pessoas querem sobretudo ir para a Alemanha, Reino Unido, França, Itália e pouco mais, somando-se aos que já lá estão.

 

Para completar o quadro numérico, estou em crer que a percentagem de carpideiras em Portugal andará pelo menos pelos 99 por cento.

 

Espero que naqueles países seja bastante inferior, e que hipócritas como Donald Tusk o descubram rapidamente.

publicado por José Meireles Graça às 14:53
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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2015

Por mim, tenho a tarde inteira

 

Millennium-01-Crop.jpg

 

Ao telefone com o banco:

 

- Srª arquitecta Margarida Penedo, nós temos a indicação de que a senhora nasceu no dia 6 do 2; importa-se de me confirmar o ano?

- Não me importo.

- …

- …

- Confirme então se faz favor o ano do seu nascimento.

- Muito bem, faça o favor de dizer.

- Eu preciso que a senhora confirme o ano do seu nascimento.

- Com certeza.

- ...

- ...

- Estou sim?

- Diga, diga. Estou a ouvi-lo.

- Portanto, srª arquitecta Margarida Penedo, pode por favor confirmar-nos o ano do seu nascimento?

- Só para nos entendermos: o senhor quer que eu lhe CONFIRME ou o senhor quer que eu lhe DIGA o ano do meu nascimento?

- Precisamos que a senhora confirme o ano do seu nascimento.

- Muito bem. Pode dizer.

- O ano do seu nascimento, srª arquitecta...?

- Sim?

- A senhora confirma, por favor?

- Vamos recapitular, sr. Tiago Lopes. Eu não me importo nada de lhe DIZER o ano do meu nascimento, se for isso que o senhor quer; mas se o senhor quer que eu CONFIRME, vai ter de me dizer primeiro qual é, e eu depois confirmo ou não. É isso que significa CONFIRMAR.

- Srª arquitecta Margarida Penedo, a empresa tem 2 procedimentos de segurança: um é perguntar aos clientes se autorizam a gravação da chamada...

- ... sim, sim. Já autorizei.

- ... o outro é pedir a confirmação de alguns dados pessoais.

- Muito bem.

- Pode confirmar-nos o ano do seu nascimento?

- Posso sim.

- O ano do seu nascimento?

- Com certeza. Quer que eu lhe diga?

- São os procedimentos de segurança da empresa, srª arquitecta. Só lhe peço que confirme o ano do seu nascimento.

- Perfeitamente, sr. Tiago Lopes. Mas para eu confirmar, o senhor vai ter de me o dizer primeiro. É assim que funciona. O senhor diz, e eu depois confirmo.

- Eu tenho aqui a ficha de cliente, e portanto eu tenho o ano do nascimento da srª arquitecta. Só preciso que a senhora confirme.

- Demore o tempo que for preciso, sr. Tiago Lopes. Por mim tenho a tarde inteira.

- …

- …

- Importa-se de me dizer, srª arquitecta Margarida Penedo, quais são os dois últimos algarismos da sua data de nascimento?

- Nasci no dia 6 de Fevereiro de 1966.

 

A seguir foi rápido. Queriam vender-me um “produto financeiro” e eu informei que não queria comprar.

 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 18:02
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015

Tahrir e outras praças

A segunda metade do séc. XX foi, entre outras coisas, o tempo da descolonização. Não é que não tivesse havido descolonizações antes: no séc. XIX a Espanha e Portugal já haviam visto a independência de uma quantidade de países na América do Sul; a seguir à Grande Guerra os impérios germânico, austro-húngaro e otomano esfrangalharam-se; e no XVIII os Estados Unidos (ou o embrião deles) haviam-se tornado independentes da Grã-Bretanha, embora os habitantes originários da terra não tivessem tido uma palavra de relevo a dizer, ocupados que estavam a evitar o extermínio pelos colonos - o double standard americano não é uma invenção recente.

 

Mas descolonização militante, com largos sectores da opinião pública do país colonizador a protestarem a favor da independência das colónias, isso sim é uma invenção moderna, soprada pelo fim da Segunda Guerra Mundial e a sua sucessão pela Guerra Fria, bem como pela emergência do Terceiro Mundo com as suas minúsculas elites quase sempre educadas no país colonizador e ansiosas por substituírem os antigos patrões pelas suas generosas, patrióticas e com frequência marxistas luzes.

 

A descolonização, como a colonização, foi uma história quase sempre infeliz. E é apenas esta a generalização que é possível fazer, porque cada país é um caso, e um caso triste à maneira de cada qual, e raramente de sucesso - o subcontinente indiano é berço de civilizações e religiões muito mais antigas que as britânicas, e aí se enxertaram instituições que deram origem pelo menos a uma democracia funcional. Mas isto nada tem que ver, por exemplo, com o Congo Belga, local de uma experiência colonial selvática levada a cabo pelo simpático Leopoldo II; nem com nenhum dos outros países da África subsariana, com excepção da África do Sul, ou, já agora, da Líbia ou qualquer dos antigos protectorados britânicos e franceses no Oriente Médio.

 

Quer dizer que um mínimo de honestidade intelectual deveria fazer-nos reflectir que muitos países chegaram à independência cedo de mais. E mesmo que, como era o caso, fosse inútil para o colonizador lúcido cuspir contra os ventos da História, envolvendo-se em guerras inúteis - como fizeram os franceses na Argélia e nós na África portuguesa, por exemplo - pode concluir-se que a opinião pública não é o melhor conselheiro para compreender processos históricos. E se os bons sentimentos anti-coloniais induziram em erro tanto estadista, o que os de hoje pensam não nos deve impressionar excessivamente.

 

Cada caso é um caso, e assim a segunda lição a tirar das guerras e tensões tribais, religiosas e políticas na Líbia ou na Síria, e em parte do mundo árabe e muçulmano, e das migrações que todas estas convulsões estão a originar, é que não é possível delinear qualquer política que não resulte em desastre sem um conhecimento histórico rigoroso - o conhecimento que faltou ao cowboy Bush filho, e falta a frei Obama, campeão dos bons sentimentos e das sonoridades para o noticiário das 8. Senão, um teria pensado duas vezes antes de derrubar o carniceiro Saddam, e o outro três vezes antes de libertar os demónios que o coronel de opereta Kadhafi mantinha aferrolhados.

 

O que acha a opinião pública, ou parte dela, vale ainda menos: foi ontem que a imprensa estava pejada de discursos líricos sobre a Primavera Árabe. Mas na Tunísia, Egipto, Argélia, Líbia, Iémen e Síria nada mudou nos melhores casos; e, nos piores, originaram-se essas vagas de migrantes uns, refugiados outros, que hoje chegam à costa norte do Mediterrâneo ou às portas da fortaleza Europa, desnorteando políticos avassalados pela dimensão do problema e ansiosos por que os seus eleitorados lhes deem pistas, e as instituições europeias dinheiro, para saberem como lidar com ele.

 

A chanceler Merkel, com típica eficiência alemã, já escolheu: para este ano 800.000, e entretanto os restantes estados europeus que se despachem: se a Alemanha pode com tantos, decerto os outros, na medida da sua economia e população, hão-de poder, no conjunto, com bastante mais.

 

Estamos a falar de refugiados e das leis que regulam o apoio que, por razões humanitárias, lhes deve ser dado.

 

Mas sobre como se distingue um refugiado de um emigrante não tenho lido nada; e sobre a forma como, na origem, se pode estancar estes incessantes fluxos (os 800.000 serão um incentivo a muitos mais), ainda menos. E, sem isto, a mesma opinião pública que hoje se indigna com as imagens dos naufrágios e do tráfico indigno de seres humanos pelas mais odiosas formas, amanhã deixará o seu natural egoísmo vir ao de cima quando comunidades estranhas e inassimiláveis entrarem em fatal competição pelos recursos públicos, e tentarem impôr as suas crenças, práticas sociais e costumes arcaicos a sociedades que não compreendem, nem aceitam, e em relação às quais têm um surdo e atávico ressentimento.

 

É que não é a mesma coisa chegarem refugiados destes à Jordânia, ou mesmo à Turquia ou aos emiratos, e ao Reino Unido, Alemanha, França ou Suécia - num caso o problema é sobretudo económico, no outro será sobretudo social.

 

O cálculo de Merkel - a economia alemã precisa de um influxo de trabalhadores e, historicamente, as emigrações massivas costumam beneficiar a prazo os países de destino - sairá furado, na Alemanha e no resto da Europa, porque um corpo velho e emagrecido precisa de sangue novo e gordura - não de um tumor.

 

Noutras paragens, há quem já há algum tempo defenda soluções que, pelo menos, ajudariam a separar o trigo do joio. E os mesmos americanos que inicialmente apostaram no derrube de Assad, e estiveram na origem da queda de Khadafi, talvez já estejam agora meio convencidos de que afastar ditadores é uma coisa; e garantir que no lugar deles não fiquem inimigos e o caos outra, muito diferente. Quem sabe até se um exército ou outro não poderia ir dar uma mãozinha no terreno, não, desta vez, para escavacar tudo e esperar que no entulho nasça a flor da democracia, do estado de direito e outras frescuras de infiéis, mas para ajudar quem pode pôr ordem na casa, mesmo que seja um filho de puta - porque, se for um pouco nosso, sempre poderemos ter, talvez, alguma coisa a dizer.

 

Precisamos de quem não esteja demasiado tempo ocupado a agradar à opinião pública, de toda a maneira um rameira volúvel, mas antes de quem, no mínimo, tenha a prudência suficiente para não arranjar sarna para se coçar, com perdão da imagem: os bons sentimentos vão, como é sabido, parar ao Inferno; o cinismo, nem sempre.

 

Não consta que haja, nas levas de refugiados, muitos egípcios. Há por aí alguém que saiba dizer, exactamente, de que forma é que o general Sisi é melhor do que Mubarak, que a praça Tahrir derrubou?

 

É igual. Ainda bem.

publicado por José Meireles Graça às 01:36
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