Terá havido uma sondagem segundo a qual 31% dos londrinos se sentiriam "desconfortáveis" com um presidente de Câmara muçulmano. Não obstante, Sadiq Khan, Trabalhista, foi eleito por 1.310.000 votos, contra os 994.000 do candidato Conservador.
Apurei que muçulmanos em Londres são à volta de 12%; que na campanha a crença religiosa não foi tema dominante ou sequer importante, salvo para os corifeus da esquerda ganirem queixas de islamofobia e racismo à menor insinuação de que a obediência religiosa de Sadiq talvez não fosse exactamente a melhor das recomendações; e que mais de metade dos eleitores não votou.
Mas devia. Que um trabalhista vá fazer disparates está na ordem natural das coisas, ainda que não seja impossível que saiba fazer contas - à medida que se avança para Norte os socialistas vão demonstrando uma fé cada vez menor na virtude da despesa pública, pelo que a generalização a partir da nossa experiência doméstica comporta algum risco de injustiça. Há porém mais vida para além do défice, conforme o dito célebre do presidente da República que num dia inspirado trocou a habitual vacuidade pela asneira. Havia, de facto - no caso era a bancarrota.
No caso dos londrinos há a vida cultural, os costumes, o comércio, os museus, os teatros, as salas de concerto, os monumentos, o cosmopolitismo, e uma quantidade de outras coisas que fazem de Londres - Londres. E há também a liberdade de cada um dizer o que quer, ver o que quer e fazer o que quer, dentro dos limites da lei.
O nosso muçulmano já deu porém sinal de si, precisamente no sentido de proibir que os publicitários mostrem mulheres esculturais seminuas em cartazes no metro, para vender produtos.
O palavreado oficial não é o da relação medieval que o Islão tem com os direitos das mulheres, a sexualidade e a nudez: é o de defender as pobres londrinas de expectativas impossíveis, não vá aquelas indefesas mulheres acreditarem que por consumirem uma porcaria de um suplemento alimentar ficam com o corpo que a modelo exibe; e protegê-las da vergonha pela diferença que separa os corpos das feias, das gordas, das velhas e das assim-assim - que são a esmagadora maioria - da perfeição, provavelmente artificial, que o cartaz exibe.
Este discurso terá possivelmente o apoio da variedade feminista das mulheres que entendem que os esforços, e os artifícios, para agradar a homens são uma manifestação de inferioridade; a conivência daquelas pessoas que nunca aceitaram senão com desconforto a derrota das igrejas cristãs na libertação sexual que a pílula e os anos sessenta promoveram; e a ruidosa concordância de várias capelas de esquerda ansiosas por proteger o cidadão da publicidade enganosa, do consumismo, da coisificação da mulher e dos alimentos industrializados.
É muita gente. E portanto Sadiq é bem capaz de levar a sua avante. Mas mal: porque, estabelecido o princípio de que a autoridade tem a lucidez e a clarividência que às pessoas fazem falta, e assente que estas têm o direito de se sentirem ofendidas por verem imagens que lhes lembram as suas imperfeições, amanhã proíbem-se as imagens de jogadores de futebol em roupa interior, não vão as esposas desprezarem os seus maridos barrigudos; depois os anúncios a, por exemplo, preservativos, não vão os jovens ter ideias lúbricas; e do metro passa-se para a publicidade à superfície, e da rua para a televisão, e desta para os jornais e revistas, e em todo o lado para a limitação da liberdade de expressão, cujo exercício ofende quem se deixa ofender e magoa quem se deixa magoar.
Já tínhamos o paleio politicamente correcto, uma autofiscalizarão parva da linguagem para não ferir susceptibilidades de minorias, detestável regressão civilizacional que a esquerda americana originou, exportou para o resto do Ocidente e está minando as universidades e a livre expressão do pensamento onde ela exista.
Temos agora, nos seus primórdios, a versão sarracena.
Valha-nos Deus. Ou Alá.

Obviamente que o António Costa, apesar do estilo trauliteiro e manhoso dele ou do seu assessor de Twitter que diz mais que o conteúdo, também não apelou à emigração, na mesma medida em que o Passos Coelho não tinha apelado, tendo-se ambos limitado a fazer uma sugestão construtiva para professores a quem é cada vez mais difícil arranjar colocação no sistema de ensino, público e privado, português procurarem trabalho. Mas as semelhanças entre eles acabam aqui.
Obviamente também que o António Costa, sabendo que o Passos Coelho também não tinha apelado, e muito menos ordenado, explorou o "apelo" inventado até à náusea, antes, durante e depois da campanha eleitoral, e mesmo depois das eleições. Nisto, foi um vigarista. Mas as coisas são o que são, e as pessoas são o que são, e um vigarista é um vigarista. Foi também um asno, porque não antecipou que corria o risco de um dia vir a dizer a mesma coisa, e até um asno descuidado, porque não se lembrou de evitar dizê-la quando a oportunidade lhe apareceu.
Agora, que se desminta. Só se perdem as que não lhe acertarem.
Claro que PSD e CDS morderam o isco - já andam a mordê-lo há algum tempo - e, batendo com a mão no peito indignado e patriota, dizem que sanções não, que horror, então faz lá algum sentido o povo, ai!, o povo sofredor e anónimo que com tanto empenho se esforçou nos anos negros da troica para cumprir um violento programa de sacrifícios ser agora, depois de uma saída limpa, agredido com sanções?
Não pode ser. E menos pode ser ainda quando se lembra que sanções não houve para a Alemanha e a França quando incumpriram as regras, que o défice acima de três por cento resultou da desgraça do BANIF, uma inevitabilidade que o governo actual herdou, e que as sanções consistem no corte de fundos dos quais o país desesperadamente precisa para investir.
Catarina, a actrizita esponja de quanto disparate anda nos ares internacionais da ideologia marxista recauchutada em causas fracturantes e teorias económicas igualitaristas e delirantes, rebola de indignação, para alegria da comunicação social, que a adora: "Bruxelas dizia que a austeridade era ser bom aluno. E agora quer sancionar aquilo que foi feito de acordo com o que dizia?"
Convém lembrar aos gentios:
Não, não se cumpriu o programa da troica, que foi sucessivamente revisto nos prazos e nos objectivos, à medida que o empenho obediente do governo cessante foi convencendo os credores à tolerância. E o procedimento pelo défice excessivo resulta não do que o governo anterior fez, mas do que o actual faz: o Eurogrupo e a parte da Comissão Europeia que tem juízo (excluindo portanto desde logo o Presidente Juncker, uma irrelevância quando está sóbrio e um inimputável achacado a confissões inconvenientes quando não está) têm, com boas razões, medo de Costa, uma reedição do alucinado Sócrates, numa versão sebosa e cheia de bonomia; e a ameaça (de resto pouco credível, os burocratas em Bruxelas estão tão aterrorizados com as brechas no edifício da União que a última coisa que querem é dar munições ao campo antieuropeu) é assim instrumental - tens que aninhar, Costa, pá, não queremos um quarto resgate.
A ideia de que países com pesos demográficos e económicos muito diferentes possam ter peso igual na hora de decidir foi sempre um argumento caro aos europeístas de todos os bordos, e ainda hoje, afrontando a evidência, se declara sem rir que temos que ter assento nas instituições europeias porque a nossa voz vale pelo menos tanto como outra qualquer. O que foi sempre um disparate, tal como é disparatada a ideia de que os pequenos países encalacrados podem fazer uma fronda contra os contribuintes líquidos da UE. Nenhum estadista se pode arriscar permanentemente a afrontar o seu eleitorado em nome do que entendem os representantes de outros eleitorados, a menos que consiga engendrar uma maneira de aldrabar quem o elegeu, o que não é simplesmente viável durante muito tempo. E é por as coisas serem assim, e não de outra maneira, que a Alemanha não importa mais, não obstante ter excedentes comerciais - Merkel tem que convencer o seu eleitorado, não frei Anacleto Louçã, Pacheco Pereira, Centeno ou qualquer das sumidades que pontificam no nosso espaço opinativo, que, para sossego dela, aliás, nem sabe quem são.
A Alemanha e a França podem incorrer em défices; a Itália e a Espanha, talvez, também. Nós não, não sem riscos de sanções e raios e coriscos. E isto não é uma coisa má, é uma coisa boa porque o défice da Alemanha serviu para pagar a reunificação, não sendo comparável ao nosso ou a outros quaisquer; a correcção dos défices nos outros grandes países é condição para que as respectivas economias deixem o atoleiro em que mergulharam há anos; e mesmo que nos conviesse que a Itália, a França e a Espanha saíssem do marasmo não está isso na nossa mão, mas ter a nossa economia sã - sim.
Não se pode ter opiniões sobre o caso BANIF sem se conhecer a história completa da débâcle, e essa nem a opinião pública nem os entendidos a conhecem - o que há são palpites. Dou o meu: não havia necessidade de o BANIF acabar, nunca deveria ter sido entregue ao preço da uva mijona ao Santander, nem o Banco de Portugal, dirigido por um eunuco cego e incontinente verbal, nem as autoridades europeias, que se refugiam em colégios inimputáveis, nem o governo, falam verdade. Este último precipitou-se para poder passar a batata quente para a responsabilidade do governo anterior, numa hipótese provável; e noutra, que não excluo, por ter havido corrupção - Costa é tão parecido com Sócrates que não é de pôr de parte a possibilidade de o ser também na venalidade.
Restam os fundos, os abençoados fundos europeus com os quais desde meados da década de oitenta se promete comprar o país moderno, desenvolvido, no pelotão da frente da modernidade, do pugresso e do crescimento, de todas as vezes se anunciando: agora é que vai ser!
Não vai ser: uma parte será torrada nas agências que distribuem o arame, outra em empreendimentos que em devido tempo fecharão a porta, outra em corrupção, outra em investimentos públicos não reprodutivos, e outra finalmente em empresas viáveis que nasceriam de todo o modo se o ambiente social, fiscal e legislativo não fosse anti-empresas.
Vale a pena apoiar Costa na sua jogada de Maquiavel das Avenidas Novas? O PSD, o CDS, os fósseis à esquerda do PS, todo o cão e gato que opina nos jornais, televisão, blogosfera e redes sociais, acham que sim; eu acho que não.
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O governo tenciona injectar, se Bruxelas lhe permitir, quatro mil milhões de euros dos contribuintes na Caixa Geral dos Depósitos para tapar a cratera aberta por sucessivos governos que, sempre que quiseram brincar aos capitalistas, o fizeram com o dinheiro da CGD. Coisa insignificante, cerca de 400 euros por português, 1.200 por cada agregado familiar de 3 pessoas, como o meu.
Sem pretender ser exaustivo, vêm-me à memória algumas dessas brincadeiras com expressão sonante:
O que têm em comum todos estes buracos tapados pela CGD à custa de uma cratera na própria CGD? Foram todos deliberados pela tutela, sendo a tutela governos do PS. Terá havido certamente mais buracos, e provavelmente da responsabilidade de outros governos, e de governos de outros partidos, mas os que me vêm à memória a partir da informação pública são estes. A quem conhecer outros exemplo, agradeço a enumeração.
A esquerda parlamentar tem, no que já é quase uma tradição, montado comissões de inquérito parlamentares para tudo e mais alguma coisa relacionado com problemas de gestão de bancos privados, que funcionam como autênticos circos mediáticos onde as estrelas, frágeis jovens domadoras bloquistas, comunistas e socialistas, enfrentam as feras, banqueiros que antes eram os donos disto tudo mas agora são submetidos ao respeitoso "senhora deputada para aqui, senhor deputado para ali", e nem podem responder com um "cresce e aparece".
Tinha agora uma oportunidade ímpar de montar uma comissão de inquérito à CGD para, juntando todos os buracos privados, discutir a cratera pública que resultou deles. Mas não lhe está a apetecer. O macaco Tiago não quer ouvir, o macaco Galamba não quer falar e a macaca Mortágua não quer ver. A CGD não lhes interessa.
Já se lhes levantam acusações de incoerência, admitindo que eles gostam de ir até ao fundo na denúncia de casos de má gestão privada de bancos, mas não se entusiasmam por aí além por expôr e aprofundar casos de má gestão pública de bancos, pelo que não querem investigar os problemas da CGD.
Mas não, não se trata de incoerência. Trata-se simplesmente de um gesto de cumplicidade com a quadrilha que abriu a cratera na CGD para esconder o roubo que esteve por trás do rombo. Não são macacos sábios, são apenas macacos aldrabões a proteger o macaco ladrão e permitir-lhe a continuação da actividade criminosa.
Que, aliás, reconhecendo que a mama da CGD secou de tanto espremida, já tratou de diversificar, e se prepara para fazer o próximo grande rombo nos fundos da Segurança Social para financiar operações de especulação imobiliária reabilitação urbana. É preciso pôr o dinheiro dos reformados a circular, e nada melhor do que entregá-lo aos amigos da construção civil para o reciclar. Se o dinheiro se perder, algum governo neoliberal tratará de fazer as reformas no sistema de pensões para ele não colapsar. Os neoliberais são suficientemente cruéis para isso.

Depois de comparar o papel da TAP, desde que com gestão pública e à mercê dos sindicatos, no século XXI com o das caravelas que no século XIV fizeram os descobrimentos que se iniciaram no século XV, porque "...é isso que nos permite inserir nas rotas da globalização...", e de comparar a inauguração do túnel do Marão por ele próprio com a da ponte Salazar pelo Salazar, porque "...há 50 anos o Tejo, hoje o Marão...", o António Costa volta a insinuar o seu magnífico esplendor anunciando que vai colocar Portugal "...na primeira linha de uma revolução industrial, onde aquilo que é essencial é a qualificação...".
E como é que ele vai conseguir colocar Portugal nessa primeira linha ao mesmo tempo que lançou um sólido conjunto de desincentivos estruturais ao investimento, como a reversão, por proposta do BE, da redução gradual da taxa de IRC até aos 17% acordada entre a maioria e o PS do Seguro na legislatura anterior, o aumento imediato do salário mínimo com promessa de continuar a aumentar até chegar aos 19% durante a legislatura, a redução do horário de trabalho na função pública que incentiva os sindicatos a lutarem por igual redução no sector privado, ou a reposição dos feriados e o aumento das férias, que estão a ter os resultados esperados no investimento, no emprego e no crescimento?
É canja: vai lançar dois programas, o Programa Nacional Start-Up e o Indústria 4.0, programas com nomes fashion e aiteque que, além de fazerem tremer as pernas ao governante irlandês que se vai ver ultrapassado na capacidade de captação de investimento com base em receitas noliberais como taxas de IRC de 12,5%, que martirizam o povo irlandês e o condenam e uma economia anémica e injusta, nos vão permitir liderar a tal revolução industrial do tempo novo. Ou, mesmo que não permitam, apoiarão pelo menos a criação de umas dezenas de empregos a quadros altamente qualificados com salários acima da média que, enquanto permanecerem em laboração, proporcionarão boas reportagens televisivas de visitas de governantes a casos de sucesso da nova economia do tempo novo planeada pelo estado. Para essas dezenas, e enquanto as novas indústrias não falirem e os despedirem, será uma boa alternativa às oportunidades de emprego com salários baixos.
Até aqui, tudo bem. O mínimo que se pode dizer é que ele se esforça por aquilo em que acredita, mesmo que seja ilusório, disparatado, e mesmo em completa contra-mão com a realidade. E proporciona-nos bons momentos de humor, o que, não sendo o principal objectivo de um primeiro ministro, a não ser em regimes populistas, o que ainda não é o caso, ainda não, são pelo menos de se aproveitar, que a vida não está para risotas. Mas o facto de conseguir dizer coisas destas sem se desatar a rir pode sugerir que esteja a ser vítima de uma patologia, a mitomania.
Na falta de um psiquiatra na plateia, vejo-me forçado a socorrer à Wikipedia, sempre falível, mas de alguma utilidade, desde que se tenha noção da possibilidade de conter erros. E o que diz a Wikipedia sobre os sintomas da mitomania que nos possa servir de ajuda para a diagnosticar ao primeiro-ministro? Isto:
A acreditar nos critérios enumerados pela Wikipedia, a presença de benefícios externos óbvios nas situações em que o António Costa exibe sintomas de mitomania permite afastar esse diagnóstico. Não é um mitómano. É apenas um aldrabão.

O Marcelo fala, fala, e continua a agradar a todos com excepção da direita, que gostava que ele derrubasse o governo já, antes de passarmos o ponto de não-retorno para a tragédia, e da esquerda, que gostava que ele derrubasse o governo já, antes de a tragédia passar dos números para o dia-a-dia das pessoas e as sondagens passarem o ponto de não-retorno para a derrota eleitoral expressiva.
A frase de hoje é "Ja, aber das Programm, das er umsetzt, ist nicht so weit entfernt von dem, das die vorherige konservative Regierung gemacht hat".
O que é que isto significa?
Não sei. Mas, a acreditar nas traduções que os jornais portugueses apresentaram, quererá dizer algo como "o programa que implementam não está assim tão longe do que o governo conservador fez".
O que é que isto significa?
Significa que o Marcelo regressou à sua máxima forma na capacidade de dizer coisas ambíguas que todos podem interpretar do modo que preferirem, quer sejam de direita, ou de esquerda, quer queiram uma palavra de conforto, quer se queiram sentir agredidos.
Significa que a margem de manobra dos governos, que alguns pensam ser limitada por restrições de Bruxelas, e alguns desses chegam mesmo a pensar que é limitada em função da orientação ideológica dos governos nacionais, mas é de facto limitada pelas possibilidades financeiras, e tanto mais quanto mais os governos resistem à pressão do bom senso para terem contas equilibradas e aliviarem a dependência da dívida, é tão limitada que os governos, mesmo com preferências, intenções e retóricas radicalmente diferentes, acabam por optar por soluções semelhantes? É muito provável.
Significa dizer aos 38,5% de eleitores da PàF que não estão a ser tão mal governados como pensam, o que seria um elogio ao Costa que os irrita, mas apenas na mesma medida em que também seria um elogio ao governo anterior, de que o actual não se desvia fundamentalmente na governação? É provável. Mas não é certo.
Ou significa dizer aos 61,5% de eleitores que não votaram na PàF que, afinal, o virar da página para o novo tempo que lhes acenaram foi uma treta e o governo não virou página nenhuma, antes continua a governar limitado pelo domínio das mesmas possibilidades que limitavam a governação do governo anterior e que o actual sugeriu que podia ser expandido? Também é provável. Mas também não é certo.
Tudo junto, e aplicando um bocadinho de estatística para procurar descodificar a ambiguidade, podemos dizer que é provável que o Marcelo esteja a elogiar o governo a 38,5% dos eleitores, o que os irrita, mas a elogiar o governo anterior na mesma medida aos mesmos eleitores. E que está a expor a charlatanice do virar da página do governo actual aos restantes 61,5% dos eleitores.
Mas fundamentalmente, está a dizer aos alemães que não está a conspirar contra o governo, coisa que seria imprudente e tonto dizer-lhes, mesmo que fosse, ou que seja, verdade. E, com uma ambiguidade tão esmerada, eu não consigo perceber se é verdade ou não.
Daniel Oliveira é, como quase toda a gente que navega na esquerda, um jacobino. Não tenho dificuldades em perceber o que diz, não obstante ser navegador de águas menos impuras, porque tenho também, como agnóstico, uma costela jacobina.
Ao contrário de Daniel, porém, o meu mundo não é simples: a dimensão religiosa da vida, que a mim me falha, a Teologia, pela qual nunca me interessei seriamente, o lado abominável da história do cristianismo, que não ignoro, o papel da Igreja Católica entre nós, passado e presente, negativo em muitas coisas e positivo noutras tantas - tudo isso e mais não me faz esquecer que a civilização ocidental está inextricavelmente ligada ao cristianismo, e entre nós, especificamente, à Igreja Católica, o que acarreta consequências.
Como Daniel e quase toda a gente hoje, defendo o Estado laico; mas não defendo o Estado cego, nem estúpido, nem ingénuo, nem engenheiro de arranjos sociais revolucionários. O modo como estão organizadas as coisas entre nós resulta de um equilíbrio que levou muito tempo a conquistar e nele o catolicismo não é, nem deve ser, uma confissão como as outras, porque está ligado à identidade nacional e ao sentimento, mesmo que difuso, da população, além de a Igreja Católica desempenhar uma obra social, educativa e de protecção do património, pelo que não deve ser tratada como uma qualquer IURD.
A Igreja já não se permite hoje defender um tratamento discriminatório para os não-católicos ou de inferioridade legal das mulheres - isso foi-lhe imposto e adaptou-se. E embora continue a defender soluções na ordem civil e no domínio penal que a maioria da população não subscreve, era o que mais faltava se a instituição mais antiga do país, e a mais prestigiada, não tivesse o direito de defender publicamente os seus pontos de vista - bem menos radicais, aliás, do que os que defende o PCP, os primos do BE e Daniel Oliveira, todos crentes na religião de que se-tirarmos-aos-ricos-e-dermos-aos-pobres-ficam-todos-remediados (aliás, com o grau de violência do Estado que for necessário).
É aparentemente o laicismo militante do Estado que Daniel defende, a propósito da construção de uma mesquita em Lisboa, exigindo que quem está contra o apoio com dinheiros e poderes públicos à erecção do templo negue, por razões de coerência, qualquer tipo de ajuda, discriminação positiva ou sequer presença de pessoas ou símbolos da Igreja Católica em edifícios públicos ou cerimónias oficiais.
Claro que não é apenas laicismo o que está em causa; é também, consciente ou inconscientemente, a certeza de que a Igreja defende os pobres mas não o confisco da riqueza, e isto não obstante as teologias da libertação e os deslizes ingénuos de alguns bondosos curas ou até de um Papa não por acaso sul-americano - ou seja, a certeza de que a Igreja é de direita. E a defesa, em nome do multiculturalismo, do Islão e suas práticas consiste assim objectivamente numa táctica leninista: há que apoiar para já o inimigo do inimigo principal; depois vê-se.
João Miguel Tavares explicou, com bons argumentos, por que razão Daniel vive em 1916 e não hoje, mas não nega o direito que teriam os muçulmanos de construir uma mesquita se o apoio público fosse menos grave: "... e é óbvio que construir uma mesquita em terreno expropriado não é o mesmo que vender a um preço simbólico um dos milhares de edifícios sem utilidade que a câmara possui".
Não é o mesmo, de facto, e foi na anquilosada cabeça de Medina, um homem premonitoriamente com nome de cidade saudita, que germinou a ideia de, num país católico, patrocinar com dinheiro do contribuinte a construção de um templo islâmico. Mas esta loucura, se o é, dificilmente terá graus: é pouco mais grave expropriar e subsidiar do que seria vender ao preço da uva mijona um edifício de propriedade pública - que seria exactamente uma forma apenas diferente de subsidiar.
Por mim, nem sequer estou convencido da necessidade de construir uma nota dissonante na paisagem em nome da liberdade religiosa, porque ela, a liberdade, pode bem exercer-se num templo discreto. Uma Lisboa com minaretes pode ser politicamente correcta, mas o minarete não é coisa portuguesa - isso é a torre sineira.
Depois, até pode ser que o xeque Munir acredite que o Islão é uma religião de paz. Mas atrás da mesquita vem a madraça; e atrás desta é apenas uma questão de tempo e de quantidade até que venha o moço barbudo, sem emprego, que procura as suas raízes, as suas virgens e a sua identidade num cinto de bombas.
Precisamos disso? E ainda por cima pagamos para isso?

O novo Partido Socialista enfiou completamente a camisola do engraçadismo bloquista, e quer enfrentar Bruxelas rejeitando as sanções [resultantes do deficit excessivo de 2015].
Complementou-a com o leninismo próprio do modo de fazer política desta direcção do partido, com o peso todo na propaganda e nenhum na substância, ao desafiar a oposição a votar a rejeição das sanções para provocar o voto contra e poder lamentar nos telejornais, e injuriar nas redes sociais, o PSD e o CDS por serem pelas sanções e contra Portugal.
Como as sanções consistem em decisões e acções de Bruxelas, e não do parlamento ou do governo, não se percebe bem o alcance de as rejeitar. Rejeitando-as, Portugal continua a ter acesso aos fundos que Bruxelas pode decidir cortar? Pode recusar o pagamento da multa (pode sempre contestá-la, e contestá-la-ia nas instâncias judiciais europeias antes de a pagar, com ou sem voto contra as medidas) que Bruxelas pode decidir impôr?
Não. Não pode fazer nada com o voto de rejeição. A camisola que às meninas do BE serve, a estes anafados cabeçudos, não lhes vai passar abaixo da testa. O que o PS está a enfiar não é uma camisola, é um barrete.
Ao mesmo tempo que semeia rasteiras, obstáculos e armadilhas que a travam no caminho da economia, umas vezes com a melhor das intenções de devolver rendimentos aos portugueses com fé que os multiplicadores os transformem em crescimento, e já agora em votos, outras apenas para pôr na ordem as forças reaccionárias e retrógradas e mostrar aos parceiros da coligação quem é que manda aqui, o governo, surpreendido por ela ter deixado de crescer, olha para a economia à espera que acelere.
O que não é sinal de desânimo nem hesitação, antes pelo contrário. O primeiro-ministro garante que "Podemos discutir se [o deficit] é 2,2% [previsão do OE 2016] ou 2,7% [previsão da UE], mas o que não há dúvidas é que será, pela primeira vez, inferior a 3%, permitindo a Portugal sair do procedimento de défice excessivo e beneficiar de outras oportunidades para apoiar o investimento e promover o crescimento".
É verdade que se baseia em previsões. E quando um primeiro ministro diz "Não há dúvida que..." porque a pior das previsões aponta para..., ou é burro e não percebe que as previsões valem o que valem e não garantem nada, ou percebe e é um vigarista que usa as previsões como se fossem factos para enganar o país.
O António Costa percebe que as previsões valem o que valem.
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