Domingo, 20 de Novembro de 2016

A pantomina da estabilidade fiscal

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"Este é o Orçamento da estabilidade fiscal", disse o ministro Mário Centeno quando entregou a proposta de Orçamento de Estado de 2017 à Assembleia da República, para fulminar as acusações infames de o governo andar a multiplicar até ao infinito a criação de taxas e taxinhas para satisfazer as exigências da incontinência verbal da esquerda radical, da de fora e da de dentro do PS, que até o presidente da república ecoou ao, no ataque mais violento que fez ao governo desde que é presidente, lhe recomendar estabilidade fiscal.

E foi, portanto, para assegurar a estabilidade fiscal que o governo, no seu incansável trabalho de conciliar ao longo de reuniões de coordenação as sugestões dos vários partidos que o apoiam parlamentarmente, acolheu na proposta de orçamento algumas sugestões do PCP e a esmagadora maioria das do BE para ir buscar a quem acumula dinheiro. Ir buscar a quem acumula, ma non troppo, que é necessário oferecer aos pobres o espectáculo de vingar através da fiscalidade as injustiças sociais, mas não convém incomodar muito os ricos, que se chateiam. As únicas medidas que, do alarido público que precedeu a apresentação da proposta de orçamento, acabaram por ser nele contempladas, foram todas: adicional ao IMI, extinção da sobretaxa do IRS e da CES, taxa sobre a Coca-Cola. Estabilidade, portanto.

Estando a estabilidade da proposta de orçamento assegurada à esquerda pela participação cooperativa que os partidos deram à sua elaboração, podia, no entanto, ser perturbada pelas sugestões de alteração dos partidos da direita, radical, que, se a esquerda radical portuguesa é social-democrata, a direita social-democrata é radical.

Terminado o processo de alterações à proposta de orçamento, confirma-se que a maioria se bateu heroicamente pela sua estabilidade e recusou todas as propostas de alteração da direita radical.

Mesmo assim, a maioria alterou algumas das normas do orçamento. Quais? Todas.

  • Alterou, não se sabe por proposta de que partido porque foi anunciado pelo próprio ministro? o adicional ao IMI, isentando os centros comerciais e compensando a isenção com um aumento da taxa paga pelos particulares de 0,3% para 0,7 ou 1%, em função do escalão do valor do imóvel.
  • Alterou, por proposta dos três partidos, a sobretaxa do IRS, eliminando-a no segundo escalão do IRS, que na proposta pagaria uma taxa de 0,25%, poupando assim 1,25€ por mês, ou 0,04€ por dia, a um contribuinte com um rendimento mensal de 500€.
  • Vai aceitar uma proposta do PCP acordada há dois meses de reduzir o Pagamento Especial por Conta do IRC para 850€.
  • Vai transferir, por proposta do PS, o aumento do subsídio de refeição dos funcionários públicos de Janeiro para Agosto, o mês de todos os aumentos na véspera das eleições autárquicas.
  • Vai, por proposta do PEV, mas cumprindo a tradição socialista de favorecer os mais favorecidos em detrimento dos mais desfavorecidos, oferecer aos agregados familiares que pagam IRS a devolução do IVA dos passes sociais, representando um desconto de 2,79€ num passe mensal de 49,30€, desconto negado aos agregados familiares que, por ganharem menos, não pagam IRS.
  • Vai, por proposta do BE, repôr o desconto de 25% nos passes sociais aos jovens estudantes que, por fazerem parte de agregados familiares com rendimentos superiores a 1,2*IAS por membro, não tinham direito a nenhum desconto.
  • Vai, por proposta do PS, reduzir o IVA para as ostras, por serem um produto de exportação, sendo certamente por ser leigo em fiscalidade que não percebo em que é que um produto exportado vê o seu preço de exportação afectado pelo IVA local?
  • Vai, por proposta do PS, aumentar as pensões inferiores a 263€ que tinham ficado excluídas de aumento na proposta do orçamento por terem sido aumentadas pelo governo anterior, em 6€, no mês de todos os aumentos, o que lhes acumula um aumento de 36€ ao longo do ano, correspondente a quase 0,09€ por dia.
  • Etc, etc, etc...

Tudo junto, um conjunto de alterações que, ou beneficiam os menos pobres sem afectar os mais pobres, ou beneficiam os mais pobres nalguns cêntimos por dia. Nada de diferente do que já estava na proposta do orçamento.

Mas, chegados aqui, o leitor perguntar-se-á: se o governo preparou o orçamento com a estreita colaboração dos partidos que o apoiam, o PS, o BE, o PCP e o PEV, e algumas destas propostas de alteração já tinham sido acordadas entre todos antes da apresentação da proposta do orçamento, porque é que estas alterações não estavam já contempladas na proposta e foram apenas introduzidas à posteriori?

Boa pergunta! Mas a resposta não é fácil. Mais depressa se descobrirá o que motivou a altercação no túnel do estádio de Alvalade, ou até o que foi combinado ao certo com a nova administração da CGD para lhe permitir fugir às suas obrigações declarativas.

Mas o motivo de todas estas propostas de alteração não terem sido contempladas na proposta de orçamento não deve andar muito longe de satisfazer a necessidade de todos os partidos poderem simular aos seus eleitores diferenças entre si através do reconhecimento público da autoria das propostas de alteração que, se as medidas tivessem sido incluídas na proposta de orçamento, teriam uma autoria diluída entre todos os partidos da maioria.

Em suma, uma pantomina.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:40
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Quem agita o pântano afoga-se na areia movediça

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Se o presidente italiano Mattarella na sequência da vitória do "No" no referendo de dia 4/12 convocar eleições, o resultado mais provável é a vitória do Movimento 5 Estrelas que depois se coligará com a Liga Norte. Seria o colapso breve da Itália e provavelmente o golpe fatal no Euro.

Assim, o establishment já fala em, vencendo o "No", não convocar eleições e fazer como se fez antes com Renzi e mudar de primeiro-ministro sem eleições. Recordo que Renzi, o único reformista da história recente italiana ascendeu sem eleições ao cargo por substituição de um anódino chamado Enrico Letta.

Desta vez, fala-se de mais um anódino, Dario Franceschini, actual ministro dos Bens Culturais que certamente dará mais uma sólida contribuição na estagnação do pântano até que as eleições se tornem inevitáveis e o inevitável aconteça: Movimento 5 Estrelas no poder.

PS. Muitos parabéns ao Blasfémias pela contratação da Cristina Miranda

 

 

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publicado por João Pereira da Silva às 10:01
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Sábado, 19 de Novembro de 2016

Reforço do "No-Euro"?

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Hoje é o último dia de campanha em que é possível, segundo a lei italiana, apresentar sondagens sobre o referendo do próximo dia 4. Todas as sondagens dão vantagem ao "No". A fazer campanha pelo "No" estão principalmente o Movimento 5 Estrelas, partido com 32% de intenções de voto e a Liga Norte com 11%. Berlusconi com a Forza Itália (11%) também apoia o "No".

Renzi anunciou, depois arrependeu-se, mas será aberta uma crise se o "Si" perder, que se demitiria se perdesse o referendo. Em perdendo e não se demitindo, perspectiva mais provável, Itália entrará em crise política e serão pedidas eleições uma vez que o essencial da reforma política de Renzi vai por água abaixo.

Recordo que a convulsão tenderá a beneficiar os partidos "No-Euro" que de seguida a novas eleições pedirão imediatamente um referendo à participação da Itália no Euro.

publicado por João Pereira da Silva às 09:23
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

Por uma pedagogia alternativa para o treino de tropas especiais

Os comandos são treinados para fazerem coisas que nem eu nem os leitores conseguiriamos fazer, mesmo que um dia perdessemos o juízo e ousassemos tentar. Por exemplo, resgatar um refém de um bando de talibans prontos a matar tudo o que mexe aprisionado numa caverna algures nas montanhas do Afganistão. Ou, num processo revolucionário de transição para a democracia ou para a ditadura, neutralizar unidades militares que aprisionam e torturam inimigos de forças políticas extremistas sem nenhuma representatividade popular que, por via da força da rua, estão na mó de cima. Coisas feias que podem envolver o risco de ser morto, e ser mesmo morto quando se falha, e a necessidade de matar. De ser mau.

A justiça está em vias de declarar inapropriado, e até carregado de crimes, o treino de comandos baseado no abuso de autoridade e nas ofensas à integridade física e à personalidade motivadas pelo "ódio patológico, irracional" dos instrutores aos instruendos que consideram inferiores por ainda não fazerem parte do grupo de comandos cuja supremacia apregoam. Acho bem. Também não gostaria de descobrir que os meus filhos tinham sido tratados deste modo nas escolas que frequentaram. Nem eu próprio, apesar de ser do tempo em que cada erro no Ditado era cotado com uma reguada na mão, fui alguma vez sujeito a tratos desses, talvez por ter tido a sorte de não fazer muitos erros. Dignidade acima de tudo.

Chegado aqui, e sendo certo que considero que o treino de comandos não deve matar nem incapacitar candidatos, devo confessar que não tenho nenhuma ideia clara de que treino é necessário ministrar para conseguir transformar jovens voluntariosos candidatos a uma força de elite em militares com coragem, força, resiliência e resistência suficientes para conseguirem desempenhar com sucesso missões de dificuldade e perigosidade extremas em que a mais pequena falha ou insuficiência pode resultar na morte deles e no incucesso da missão, muitas vezes insucesso da missão significando outras mortes de inocentes que a missão pretendia proteger? Haverá alternativas ao treino duríssimo e, pelos vistos, carregado de ilegalidades como agressões e injúrias, mesmo que não sejam derivadas, como diz a justiça, de ódio patológico e irracional aos candidatos, mas cometidas racionalmente para os habituar a operar em situações de stress extremo? Tenhamos esperança que sim.

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Em alternativa, talvez os comandos pudessem fazer um treino fisicamente mais leve, mas lúdico e estimulante, que até candidatas ao Miss Portuguesa pudessem frequentar, mais baseado em estratégias de aprendizagem inovadoras, no respeito pelo indivíduo e na aceitação do outro e das diferenças do que na supremacia do grupo e na sobrevivência pessoal a todo o custo em situações limite, preferencialmente com a possibilidade de acumular créditos em unidades curriculares em acampamentos livres de hierarquias e de opressões onde pudessem desafiar os papéis do género e os pudores em experiências de tocar em pessoas do mesmo género, binário ou não, e expandir os horizontes da percepção através da inalação de substâncias psicoactivas, não deixando de oferecer passagem administrativa aos instruendos quando fossem apanhados a copiar nos exames para não os traumatizar, como acontece na formação de outras corporações. Em suma, talvez se pudessem formar comandos felizes em vez de comandos maus. Podia-se até substituir a designação Comandos, com a sua carga desigual e hierárquica, por uma mais igualitária, como por exemplo Confrades. Isso sim, seria muito bom.

É verdade que, se por uma volta qualquer do destino fosse eu que um dia me apanhasse refém de um bando de talibans na tal caverna escondida nas montanhas do Afganistão, preferiria ser resgatado por um grupo de comandos maus que entrassem por ali dentro a liquidar os raptores e a retirar-me de lá vivo, a ser resgatado por um de procuradores que mandassem notificar os raptores do crime que estavam a cometer e das medidas de coação, ou por um de confrades pacifistas que incentivassem a resolução da situação através do diálogo, do respeito mútuo e, talvez, da partilha de um charro.

Mas isto sou eu que sou egoísta e penso mais na minha sobrevivência do que na felicidade deles.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:21
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

Praxes violentas

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Exceptuando um processo judicial de cobrança de uma dívida comercial de que fui autor, e ganhei, se bem que depois não tenha conseguido receber a dívida, porque as sentenças judiciais que determinam o pagamento de dívidas, ao contrário das criminais, não são de acolhimento obrigatório pelos réus, nem a justiça faz nada para os encorajar a cumpri-las, e alguns familiares com profissões judiciais, não tenho tido ao longo da vida grande exposição directa ao mundo da justiça, nem como magistrado, nem como operador judicial, nem como cliente, activo nem passivo. E estou muito bem assim, como se prova adiante.

Pelo que a minha estatística é provavelmente tendenciosa, porque meramente baseada nos casos que chegam aos jornais. E, nos casos que chegam aos jornais, a justiça portuguesa parece ter o hábito de deter arguidos à quinta-feira, e levá-los para outra cidade, para serem presentes ao juiz de instrução apenas na sexta, depois de trazidos de volta à cidade de origem, pelo que uma noite na prisão nunca ninguém lhes tirará, quando não na segunda ou terça seguintes, mantendo-os presos durante quase uma semana. Por vezes, rumores não confirmados sugerem que nem banho podem tomar nem mudar de roupa durante esse dia ou dias de espera.

Existem certamente alguns bons motivos para, em circunstâncias muito específicas, um magistrado ordenar a detenção imediata de arguidos antes do dia em que tem preparação ou disponibilidade para os interrogar, fazendo-os passar uma ou mais noites na prisão: evitar a consumação de um crime iminente; ou a fuga de um arguido; ou a destruição de provas. Mas, noutras circunstâncias, não consigo imaginar motivos que não sejam uma desprezível falta de respeito pelos direitos dos cidadãos e, acima de tudo, pela liberdade dos cidadãos.

Nestes casos a detenção antes de tempo parece uma praxe destinada a integrá-los no sistema prisional, habituando-os desde a primeira hora do seu processo, ou de antes da primeira hora se se considerar início do processo o primeiro contacto com o magistrado à ordem de quem são detidos, à privação de liberdade, não para cumprimento de uma pena judicial que só foi decretada depois de correr um processo nos termos exigidos pela lei e pelos princípios do estado de direito, nem sequer com uma medida de prisão preventiva decretada de acordo com as exigências legais para a sua aplicação, que de facto são nenhumas, mas adiante, mas por um mero acto administrativo para os manter disponíveis para quando o magistrado tiver preparação, ou disponibilidade, ou vontade para os receber.

Uma praxe que denota que, na sua hierarquia de valores, ou por natureza, ou por formação profissional, ou até por deformação profissional, estes magistrados colocam a liberdade (dos arguidos) atrás da conveniência administrativa (dos tribunais) ou até da (sua própria) conveniência pessoal. Além de parecerem pouco esforçados a tentar montar uma operação logística, que raramente será tarefa impossível, que garanta a audição dos arguidos sem os ter feito antes passar pela prisão.

Uma praxe violenta para quem, ao contrário deles, coloca a liberdade acima dos valores usados para fundamentar estas privações de liberdade pré-penais e até pré-processuais, para não falar de quem é forçado a passar a sua primeira noite, ou série de noites, na prisão, que, vista de fora, não parece uma coisa muito diferente de ser sequestrado por bandidos.

Mas, como eu não sou comunista, nem sindicalista, nem judeu, fico aqui bem caladinho. Desta vez calhou aos Comandos. Mas eu também não sou Comando. Oxalá não me calhe um dia a mim.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:25
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A Quadratura do Circo

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Com o tremendismo típico de um charlatão de feira, de um vendedor de aspiradores Rainbow, ou de um pastor de almas, que anunciam aos seus ouvintes catástrofes iminentes que só podem ser evitadas in-extremis, respectivamente, pelos elixires milagrosos que tem para vender, pelo filtro HEPA que afoga os ácaros, e pelas rezas que fazem retroceder o demo, o tele-evangelista José Pacheco Pereira fez à seita de adoradores que lhe bebe piamente a Palavra uma revelação extraordinária e assutadora: que o partido a que ele sempre dedicou o melhor que tinha para dar "está hoje, com direções distritais todas na maçonaria". Todas!

Os adoradores, está de ver, já esperavam a revelação que, como todas as outras revelações deste profeta, confirmam sempre as suas suspeitas mais lúcidas. É disso que gostam nele, de lhes dizer com eloquência aquilo que eles já sabem, que o PSD é, desde que deixou de o considerar para cargos directivos ou internacionais, um antro de malandros, com excepção de um pequeno núcleo de resistentes, os últimos dos social-democratas do partido, de que fazem parte ele próprio, a Manuela Ferreira Leite e o Rui Rio. E quanto mais ele lhes confirma isso, mais acreditam nele, e naquilo em que já acreditavam antes de ele lhes dizer. Quando tudo se confirma, tudo está bem.

Confirmaram eles, mas não consegui confirmar eu. Pois se um desses presidentes de distrital é amigo de há quase 40 anos, compadre e comensal regular desde que veio para Lisboa para o parlamento, e só usa avental na cozinha, tal como eu quando me aventuro nessas artes, mas nunca o vi de avental fora da cozinha, e sei que não usa, como podem ser os presidentes das distritais todos maçons? Não podem.

Eles próprios também não conseguem confirmar que são todos maçons. Alguns deram-se mesmo ao trabalho de chamar os jornais para o desmentir, apelo a que pelo menos o Correio da Manhã, mas o Correio da Manhã não é da seita, toda a gente sabe, respondeu publicando o desmentido.

Ora até o Jorge Jesus é, pelo menos desde que começou a estudar os filósofos chineses, capaz de dominar a lógica aristotélica e de perceber que quando se diz que são todos e há pelo menos um que não é, se mentiu. O Pacheco Pereira mentiu.

O que vai ser dos adoradores, agora que o seu profeta foi apanhado a mentir?

Nada de especial. Como dizia o senhor Osgood Fielding III na lendária frase final do Some Like it Hot, "Nobody is perfect...".

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 02:05
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

Ética, da republicana e socialista

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A definição de ética mais simples e clara de todas as que fui conhecendo ao longo da vida é fazer em privado o mesmo que se faria se fosse tornado público. Por outras palavras, fazer sempre o que não nos envergonha.

Tem limitações. Uma pessoa totalmente destituída de valores, e há-as, não se envergonha de fazer em público coisas que embaraçariam a generalidade das pessoas normais, pelo que, para ela, tudo o que faça é ético no sentido que esta definição dá à ética. Só é aplicável a quem tem vergonha na cara. Mas a generalidade das pessoas têm, pelo menos, alguma. Se cuspirem no chão, dão previamente uma olhadela em redor a ver se ninguém as está a ver. Se lhes for perguntado se cospem no chão numa sondagem de opinião, respondem que não. Um provável, mas não o único, motivo para determinadas sondagens tenderem a fazer previsões que não se confirmam.

Tem ainda uma vantagem não negligenciável para uma definição teórica: é verificável. Quando se altera por ter sido tornada pública uma coisa que se tinha feito em privado verifica-se uma desconformidade a esta definição de ética.

Ontem soube-se pelo Correio da Manhã, é sempre pelo Correio da Manhã, jornal de leitura tão proibida ao leitor sofisticado, informado e progressista quanto O Crime do Padre Amaro ao jovem leigo da Opus Dei, que são tornadas públicas as pequenas misérias humanas com que os jornais mais sofisticados evitam incomodar os seus leitores ocupados a resolver os grandes problemas do mundo, como por exemplo distingir a fumarola da escarreta, que o turco Mustafa Kartal que em Abril enfrentou sozinho com uma faca de kebab o bando de mais de vinte jovens arruaceiros armados que lhe invadiu o restaurante no Cais do Sodré para o desfazer, ao restaurante e ao turco, andava há quatro meses a ser levado pelos serviços da embaixada portuguesa em Ancara com o clássico "Pedem-me um documento, eu entrego e depois dizem-me para esperar. Depois pedem-me outro papel qualquer e a situação repete-se" com que os burocratas desarmam qualquer turco, mesmo dos que enfrentam sozinhos bandos de arruaceiros armados, depois de ter ido à Turquia visitar a família que não lhe cabe no visto.

De manhã foi anunciado pelo Correio da Manhã e, ainda não se tinha posto o Sol, o turco já tinha o visto para regressar a Portugal e ao restaurante cuja gestão estava entregue ao único empregado aflito com a responsabilidade inesperada.

O Ministério dos Negócos estrangeiros teve vergonha. E corrigiu quando foi tornado público aquilo que vinha fazendo em privado. Não teve ética. Mas teve vergonha.

Também há dúvidas sobre a conformidade com a ética do processo de nomeação da administração da Caixa Geral dos Depósitos em que governantes socialistas fizeram em privado aos gestores promessas sem fundamento legal, que depois tentaram sustentar com uma lei à medida, que o presidente promulgou.

Quando o esquema foi tornado público, o presidente descartou para os outros resolverem, o primeiro ministro descartou para os outros resolverem, o Partido Socialista descartou para os outros resolverem, o ministro das finanças descartou para os outros resolverem, toda a gente envolvida descartou para os outros resolverem. Envolvendo os outros sempre o Tribunal Constitucional, para além de alguns dos outros que cada um deixa para trás na corrida para apanhar um lugar no salva-vidas do navio a naufragar. Não houve falta de ética. Simplesmente porque nenhum dos envolvidos tem o nível de vergonha mínimo para a ética ser chamada a participar nas suas decisões. Sem vergonha não há falta de ética, apenas falta de vergonha.

Não se tendo provado desconformidade com a ética, os réus podem seguir em paz. Custas pelo autor.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:26
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

Temos que ver, temos que falar!

Dirigi uma empresa, durante mais de duas décadas, na qual periodicamente inquiria os numerosos proprietários sobre as escolhas estratégicas que era necessário fazer. Os ditos cujos ficavam em geral pasmados, aguardando com respeito a opinião daquele de entre eles que detinha uma magistratura de influência. Este, invariavelmente, falava muito, mas infelizmente quase nunca foi capaz de formular uma proposta de decisão, porque para tanto carecia sempre de alguma informação que não estava disponível, alguma opinião terceira que era preciso ouvir, alguma variável que merecia adequada consideração, algum risco que uma escolha implicava, algum outro em alternativa, uma sensibilidade que a decisão num sentido iria ofender, e outra se o sentido fosse outro, concluindo gravemente: Temos que ver, temos que falar! — posição que recolhia geral assentimento, até porque a esse passo já eram normalmente horas de jantar. Esta simpática não-decisão constituía-me na obrigação e no embaraço de escolher por todos, mas o sócio em questão veio a redimir-se propondo a certa altura, para um problema grave em concreto, escolhas que, por serem diametralmente opostas às minhas, e para que a empresa pudesse dar um passo em frente, implicavam a minha saída, que de imediato teve lugar. E deu, de facto, em direcção ao abismo, vindo a falir cinco anos mais tarde.

 

Lembrei-me deste passado distante e desta figura egrégia a propósito de Jorge Sampaio, que estampou no Público um texto palavroso e repleto de banalidades, que nem por isso deixou de beneficiar de um agradecimento amanteigado do director do jornal. Nele, "debruça-se" sobre a "questão europeia" para "tentar desbravar um caminho de interrogações e perplexidades".

 

Sampaio tem uma história de interrogações e perplexidades: num tempo em que o problema de Portugal era a probabilidade de à ditadura salazarista suceder uma ditadura comunista, pertenceu a um movimento (o MES) de idiotas úteis ao PCP, que abandonou em 1978 para ir adornar a ala esquerda do PS. Veio a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa, de 1989 a 1995, onde se distinguiu por a deixar exactamente como a encontrou, e chegou a presidente da República, em 1996, funções que exerceu até fins de 2005. Como presidente da República, proferiu inúmeros discursos, cujos volumes não se sabe se já engordam os tombos invendáveis dos alfarrabistas; e é sobretudo lembrado por ter dito, quando o país estava de tanga, que havia "mais vida para além do défice", e por ter nomeado de má-fé como primeiro-ministro um político ao qual tirou o tapete logo que, quatro meses mais tarde, outro da sua preferência ficou disponível. Antes e depois de ser presidente falou, falou muito, inclusive no desempenho de funções na Comissão Europeia e na ONU, e chegou a fundar um think-tank internacional em Arraiolos, que todavia não se ocupava da confecção de tapetes.

 

Pois este homem, que se confessa "militante europeu", está aflito, por causa do Brexit, que "constituiu um ponto de não retorno no projecto europeu", e porque "a eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA traz consigo um lote acrescido de imprevisibilidade e de incertezas". Porque a evolução da CEE para a UE foi um passo precipitado, feito à revelia dos povos, do senso e dos prognósticos razoáveis que estadistas razoáveis devem fazer? Porque a criação do Euro, sem orçamento europeu comum, que não era possível na altura, e ainda é menos possível agora, foi um passo precipitado? Porque a manutenção da NATO terá talvez de custar mais aos orçamentos europeus, para custar menos ao americano, e portanto isso trará dificuldades acrescidas ao celebrado estado social, que Sampaio tem, juntamente com outros santinhos, no altar da sua casa?

 

Nada disso. É verdade que "a confiança hoje está abalada de forma sistémica e sistemática - e, no fundo, a questão que se coloca é se esta desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar o alastramento dos populismos de toda a sorte". E é inegável, continua Sampaio com argúcia, que "é impossível não olhar já para as eleições de 2017 em França e na Alemanha como próximas etapas prováveis desta corrida para o abismo". Mas, apesar destas evidências, o articulista o que quer não é exactamente assustar-nos. Não, isso nunca, pelo contrário: "Não quero com isto vaticinar um destino trágico para a União Europeia — o que é dizer para todos nós —, mas sim, ao invés, lançar um apelo veemente para que se faça algo para inverter esta corrida para o abismo em que parecemos lançados".

 

O homem apela a "que Portugal inicie um processo de reflexão interno — dentro das mais variadas sedes e foros, designadamente no plano das instituições de segurança e defesa — sobre como assegurar uma participação de qualidade na União Europeia. Temos de ser contribuintes líquidos para o debate europeu." 

 

Ui que susto, contribuintes líquidos. Mas calma, contribuintes líquidos mas de paleio, matéria-prima da qual entre nós há uma muito maior abundância do que o volfrâmio com que se fizeram fortunas na II Guerra Mundial. E após doses abundantes de seminários, encontros, workshops, conferências e debates, a cujos encerramentos Sampaio presidirá com distinção e discurso, qual deverá ser a conclusão? Que "dever-se-ia começar por solidificar a União entre os 19 da zona euro por forma a relançar a construção europeia pela base — ou seja, através de um compromisso claramente político no sentido de reforçar os mecanismos económicos e financeiros da zona euro".

 

Ah bom, os alemães pagam — não está mal lembrado, não senhor, mesmo que não seja exactamente uma novidade, assim como não será uma novidade que os boches não estarão pelos ajustes.

 

E, afora estas piedades, Sampaio tem alguma outra proposta? Tem: "Em suma, atravessamos um momento especialmente crítico para o nosso futuro colectivo — no plano nacional, mas também europeu e até mundial. Mas, qualquer que seja o sentido futuro da integração europeia — e sabemos que há vários cenários —, o que me parece importante sublinhar aqui é a necessidade de se aprofundar a discussão sobre que Europa queremos, que modelo para a reformatação da zona euro e que actualizações pretendemos fazer dos nossos compromissos europeus".

 

É como aquele antigo sócio: Temos que ver, temos que falar! 

publicado por José Meireles Graça às 13:07
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016

Ensaio populista sobre o populismo

transferir.jpg“Não há economia, nem mercado, nem política, nem democracia sem esse cimento de base, a confiança. Não há paz duradoura se a desconfiança minar as relações entre comunidades, povos e nações, se o pacto social for rompido”

Jorge Sampaio tem toda a razão. O seu grupo de gestores políticos, nacionais e internacionais da coisa pública tem minado fortemente a confiança das comunidades, povos e nações. Sim, o pacto social foi rompido por políticos exactamente como Jorge Sampaio. 

É a única coisa que se aproveita do seu ensaio populista sobre o populismo.

publicado por João Pereira da Silva às 17:21
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Mais valia estar calado

Retrato_oficial_do_Presidente_Jorge_Sampaio_(2005)

Seria cómico se não fosse trágico ver a lamentar a ascensão dos populismos (de direita) o presidente da república que mais fez pela ascensão do populismo de direita em Portugal, ao ter aceitado nomear um primeiro-ministro não eleito para evitar a chegada ao poder de um primeiro-ministro socialista fraco, e depois de o PS o ter substituído por um candidato mais forte e mais populista, ter dissolvido o parlamento com uma maioria absoluta sólida e estável para vagar o lugar para fazer chegar a primeiro-ministro o segundo primeiro-ministro mais populista da história da democracia portuguesa, sendo que o primeiro, o actual, estagiou no escritório de advogados dele, provavelmente por mérito, ou então por ser amigo de família. Onde, diga-se de passagem, deve ter aprendido as noções sul-americanas de direito que usa na governação, em que publica leis abstractas para resolver casos concretos e legaliza ilegalidades através de leis retroactivas.

De este ter arrastado, aliás, com o encorajamento da vida para além do deficit, Portugal para a falência da economia e do Estado, a circunstância mais fértil para medrarem os populismos de direita com as suas soluções tão assertivas quanto inaptas, que só não tomaram o poder porque não estavam organizados para isso, em Portugal só os populismos de esquerda estão organizados, se bem que não ao ponto de serem capazes de receber o poder, e porque apareceu alguém com lucidez e determinação suficientes para ser capaz de fazer o que devia ser feito no campo da democracia para tirar o país da falência.

E quando, apesar de as forças democráticas que salvaram o país da falência terem ganho as eleições, o poder está de novo entregue ao populismo (de esquerda) que, na mesma linha das soluções tão assertivas quanto inaptas do populismo de direita, afirmou ter para a crise económica e financeira uma solução que demorou pouco a provar que não era solução, e na iminência de essa farsa cair e de abrir de novo o caminho para as soluções do populismo de direita que, por milagre, continua a não estar ainda organizado para fazer esse caminho.

Se temos alguma coisa a agradecer ao presidente Jorge Sampaio, para além de discursos impenetráveis e intermináveis e de artigos de opinião impenetráveis e intermináveis, é ter-nos ajudado a mergulhar nesta crise que não chegou a passar, tudo indica que se está de novo a aprofundar, e pode nunca vir a passar.

Algum dia vamos ter que pedir contas da tragédia socrática a quem nos conduziu a ela. E não foi só o José Sócrates.

PS: Podem ficar tranquilos relativamente à minha sanidade mental, não li o artigo todo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:46
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