Sábado, 31 de Março de 2018

E se a investigação criminal fosse concessionada a privados?

Isto são os restos mortais de um telemóvel que a minha mulher adorou e cuja história dava um filme.

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É, ou era, uma vez que já faleceu há muitos anos, um Nokia 8210, um telemóvel tão pequenino, e na época a moda nos telemóveis era a miniaturização, como compacto e robusto, podia cair ao chão e saltarem-lhe as tampas e a bateria, que logo que se voltassem a juntar funcionava perfeitamente, e corria o software Nokia, que na época, para quem se interessava pela comparação das qualidades dos telemóveis, era o melhor.

O filme começou numa tarde em que deixou o telemóvel dentro do carro estacionado ao lado das Amoreiras e, quando regressou ao carro, tinha sido furtado pelo método da quebra isolada de vidros.

Telefonou-me para o escritório a noticiar a tragédia e eu tratei de imediato de iniciar uma investigação ao caso. O site da Vodafone, ela era cliente da Vodafone, disponibilizava muito rapidamente o registo das chamadas efectuadas, e fui consultar se o telefone tinha efectuado alguma chamada com o cartão dela depois de lhe ter sido roubado. Tinha duas para o mesmo número. Configurei o meu telefone para fazer uma chamada anónima e liguei para esse número. Atendeu-me uma voz feminina, mas não demasiado, que ao meu silêncio retorquiu dizendo "Caralho, ligam para uma gaja e não dizem nada!", após o que me dei por satisfeito com a informação recolhida e desliguei. Tinha percebido logo que não era gente de bem. Pelo que aconselhei a minha mulher a apresentar queixa na PSP incluindo a informação sobre as chamadas feitas pelo alegado gatuno, que ela fez prontamente.

Lá teve que se lhe comprar outro Nokia, já não me lembro qual, mas ela não teria aceitado outro de outra marca qualquer, e a vida continuou a correr.

Até que uns bons meses depois, talvez mais de um ano, recebemos a carta que esperávamos da PSP, a tradicional comunicação de que "por falta de prova o caso foi arquivado, bla bla bla, bla bla bla, bla bla bla...". Mas, surpreendentemente, a carta não dizia isso, mas que o telemóvel tinha sido recuperado e que podia ser levantado na Divisão de Investigação Criminal da esquadra da PSP não me lembro qual.

Por razões que já não me recordo fui com ela levantar o telemóvel recuperado, e questionei o agente que o devolveu, daqueles que não trabalham fardados mas andam de roupa normal a arriscar a segurança e mesmo a vida pela segurança dos cidadãos como eu, sobre o método que seguiam para conseguir encontrar telemóveis roubados, explicação que ele me deu:

  • Solicitavam às operadoras informação sobre com que cartão ou cartões de chamada andava a ser utilizado o aparelho identificado pelo respectivo IMEI.
  • Não sendo esses cartões de assinantes registados mas recarregáveis, solicitavam à SIBS que cartão ou cartões bancários andavam a ser utilizados para fazer carregamentos nesses cartões de chamada.
  • Finalmente solicitavam ao banco emissor desses cartões a identificação do titular da conta.

Nada de inexequível nem excessivamente complicado nem time consuming relativamente ao valor que a diligência permitia recuperar.

O filme não teve, no entanto, o final feliz que podem estar a imaginar. Apesar de adorar o telemóvel mais do que o sucessor ela não o conseguiu utilizar vindo soubesse-se lá de onde e usado por quem? sem pelo menos lhe mudar as capas, já não conseguimos encontrar à venda capas originais da Nokia mas apenas capas de marca branca e ajustamento sofrível numa loja do chinês, que são as que se vêem na fotografia, e aquela chama não foi imortal e apagou-se. Não o voltou a usar.

 

Ao longo do tempo mais telemóveis nos foram roubados, essencialmente aos filhos na fase da juventude em que já têm idade para exigir telemóvel mas ainda não têm corpo para dominar um assaltante ou um grupo deles, e cheguei a acompanhá-los à tal Divisão de Investigação Criminal e até à Polícia Judiciária para ver se conseguiam reconhecer os assaltantes naquelas cadernetas de cromos de assaltantes referenciados que a PJ tem, mas nunca mais nenhum foi recuperado. O postalzinho da PSP ou do Ministério Público passou a ser sempre o da ordem, "por falta de prova o caso foi arquivado, bla bla bla, bla bla bla, bla bla bla...".

E no entanto até teria sido simples recuperá-los, bastanto para tal a tramitação que me foi explicada e descrevi acima. Eu percebo que os orgãos de investigação criminal têm coisas mais importantes para resolver no tempo que têm disponível do que roubos de telemóveis a adolescentes, e nunca ambicionei que prescindissem de investigar um crime de violência doméstica ou de corrupção para recuperar um telemóvel aos meus filhos. Mas é um bocado frustante ter a noção que a recuperação teria sido possível e até simples, até porque a opção sistemática por não investigar um determinado tipo de crime constitui uma Via Verde para os criminosos, que assim o podem cometer com garantia de impunidade, enquanto ao contrário a percepção que determinado tipo de crime é regularmente resolvido constitui um poderoso desincentivo à sua prática. Do modo como as coisas ocorrem, era igual o código penal isentar explicitamente da definição de roubo o roubo de telemóveis.

E é tão mais frustante quanto eu mesmo, que nunca disparei uma arma de fogo nem frequentei cursos de andar à porrada nem fazer condução defensiva, em suma, seria uma desgraça como polícia, seria capaz de resolver estes crimes, solicitando às operadoras a informação sobre os cartões de chamadas usados no meu telemóvel, à SIBS sobre os cartões bancários usados para os recarregar, e ao banco emissor a identidade do titular.

Podia, mas elas não me responderiam. Porque só respondem aos orgãos de investigação criminal e a pedidos devidamente autorizados pelas autoridades judiciais. O monopólio do Estado na investigação criminal associado à opção legítima num contexto de escassez de meios dos orgãos de investigação de não investigarem determinado tipo de crimes menores resulta na impunidade garantida dos criminosos que os cometem.

E a investigação criminal poderia ser exercida por outros que não os orgãos de investigação criminal, por privados?

Os sindicatos diriam que não, que seria um atentado aos direitos dos cidadãos entregá-los nas mãos de privados incompetentes para assegurarem com qualidade o serviço público prestado pelos orgãos públicos de investigação criminal. No que teriam toda a razão, com a insignificante excepção dos casos em que os orgãos públicos optam por não prestar esse serviço e, quando não o prestam, mais ninguém o pode prestar.

Aquela esquerda que nos protege mesmo quando não lhe pedimos das terríveis ameaças aos nossos direitos civis constituídas pelas democracias liberais, a que compara a Espanha que deteve independentistas por desobediência a um tribunal à Turquia que dizima populações no Curdistão, também a que detesta a bófia para ir direito ao assunto, ou a videovigilância para dar um exemplo, diria que não por atentar contra o direito à privacidade e a mais alguns direitos dos gatunos.

Os dirigentes dos orgãos de investigação criminal e das magistraturas diriam que não, porque são eles que detêm o monopólio e prescindem de concorrência nos seus quintais.

E os ladrões, se lhes perguntassem, também diriam que não, mal por mal mais vale deixar sossegado.

Eu não me ralava nada mas, reconhecendo que estou em minoria absoluta, tenho que ter paciência. Não se fala mais nisso e fica o assunto resolvido!

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:32
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Sexta-feira, 30 de Março de 2018

Meter o nariz onde não se é chamado ou, o dinheiro não é do Estado, é deles.

A genética dotou-nos de uma tendência irresistível para metermos o nariz onde não somos chamados.

Desde tempos imemoriais que opinamos, à saída da igreja ou à mesa do café, sobre as mini-saias da paroquiana recém-separada, seja por maus motivos, a galdéria ao mostrar-se assim quer desencaminhar os maridos das outras, ou por bons, até que as pernas dela não são nada feias e a mini-saia fica-lhe bem, e todos sentimos a legitimidade e mesmo o dever de manifestar uma opinião, de tomar uma posição sobre o comprimento das saias que ela usa, de prescrever o que devia usar.

Com as redes sociais o alcance da nossa intervenção cívica tornou-se planetário, e passámos a discutir a cama, além da mesa, de presidentes e reis e a ditar-lhes as regras de conduta que lhes exigimos, na cama como à mesa.

Vem isto a propósito da comoção nacional que está a causar o caso do GPS, um grupo económico formado por um antigo deputado socialista para construir uma rede de colégios privados que conseguiu celebrar com o Ministério da Educação durante o mandato de um governo social-democrata e centrista vários contratos de associação para disponibilizar turmas à rede pública e, descobriu-se há anos em investigação jornalística e agora chegou finalmente à justiça, usou o dinheiro do Estado para proporcionar aos seus gestores hábitos de consumo somptuoso como carros de luxo, cruzeiros, passagens de ano, refeições e estadias em hotéis, bilhetes para o Mundial de Futebol, telemóveis, vinhos, cortinados e utensílios e mobiliário para casa, e até uma refeição para três pessoas onde foram consumidas trinta e seis garrafas de vinho. Para resumir sem entrar em detalhes.

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Um cabaz deste calibre de apetecíveis regalias proporcionadas pelo dinheiro do Estado, o nosso dinheiro, não poderia escapar à reprovação dos paroquianos à saída da missa, e depois à análise crítica à mesa do café.

Só que as comoções colectivas raramente acertam no alvo.

O dinheiro do Estado pago aos colégios com contratos de associação não é um subsídio, que obriga o subsidiado a cumprir uma série de requisitos legais para ser elegível para o receber. É o pagamento de um serviço, sendo o serviço a disponibilização por um preço fixado por lei de um determinado número de turmas de alunos da rede pública que as frequentam gratuitamente como se fossem escolas da rede pública.

Onde é que nós, enquanto cidadãos, temos uma palavra a dizer sobre este caso?

Temos uma palavra a dizer sobre a legalidade da celebração dos contratos. Temas como se os colégios do grupo reuniam os requisitos legais definidos para celebrar os contratos, ou se foram beneficiados na celebração por alguma discriminação por terem sido preferidos a outros colégios que nas mesmas condições tenham sido preteridos. Questões que certamente a justiça esclarecerá, mas que não têm a ver com a opulência que nos escandaliza.

Temos uma palavra a dizer sobre o cumprimento dos contratos. Temas como se as turmas contratadas abriram e funcionaram mesmo, se a qualidade do ensino prestado foi a exigida contratualmente, se os serviços pagos foram integralmente prestados. Questões que certamente a justiça esclarecerá, mas que não têm a ver com a opulência que nos escandaliza.

Mas não temos nenhuma palavra a dizer sobre o modo opulento como, uma vez prestado o serviço e recebido o pagamento, os gestores do grupo o gastam. O meu oftalmologista tem um Porsche 911 Turbo 4 de matrícula recente. E a senhora que durante mais de trinta anos fez a limpeza da escada aqui no prédio vinha de Audi A3 1.9 Tdi, e a que a veio substituir vem de Smart For Two. E o que é que eu tenho a ver com isso? Não tenho nada! Prestam-me os serviços que lhes encomendo nos termos que acordámos e ao preço que acordámos, eu pago-lhes, e a partir do momento em que lhes pago o dinheiro deixou de ser meu e passou a ser deles e têm toda a legitimidade para o gastarem como entendem. Qualquer interesse adicional meu pelo modo como eles o gastam é calhandrice.

Se os gestores du grupo GPS se apropriaram para benefício pessoal ou de familiares ou amigos de património das empresas que gerem, e neste caso apropriaram-se para além de qualquer dúvida razoável, cometeram actos de gestão danosa que prejudicaram, não a nós que estamos sentados à mesa do café a escandalizarmo-nos com a chico-espertice deles, mas às empresas do grupo e aos seus accionistas, que parecem não ter grandes queixas dos gestores até por serem os mesmos. Os prejuízos que causaram a essas empresas e aos seus accionistas serão certamente esclarecidos pela justiça, mas não são eles que nos indignam.

Se  beneficiaram de regalias atribuídas pelas empresas sem o benefício ter sido tributado nos termos da lei, e neste caso beneficiaram para além de qualquer dúvida razoável, é assunto para ocupar o fisco, mas a que eu pessoalmente não me sinto em condições de superioridade moral para atirar a primeira pedra por, durante muitos anos, além de ter beneficiado da atribuição de carros da empresa para uso pessoal, os ter adquirido no fim do período de atribuição a preços substancialmente inferiores aos preços que eles valiam sem este benefício me ter sido tributado até ao século XXI. Os prejuízos que causaram ao fisco, e portanto a nós, que o fisco não é gente nem tem prejuízos, ao beneficiarem de rendimentos em espécie sem os declarar serão certamente esclarecidos pela justiça, mas também não são eles que nos indignam.

O que nos indigna é a má utilização que fizeram de dinheiro do Estado.

Ora o dinheiro que gastaram não era do Estado, a menos que as duas primeiras questões que levantei sobre a legalidade e o cumprimentos dos contratos tenham respostas negativas, o que não há informação pública que indicie, quanto mais sustente, pelo que a expressão da nossa indignação nos pode aliviar do sentimento de indignação mas não tem justificação. Aquilo com que nos indignamos não é da nossa conta.

 

Resta que temos uma palavra a dizer sobre a ética e o bom senso dos governantes que aceitam lugares em entidades que tutelaram, nomeadamente relativamente às quais participaram na tomada de decisões. A mera aceitação faz deles presumíveis culpados a quem passa a caber o ónus da prova de que as decisões que tomaram foram legais e que a oferta de trabalho posterior resultou numa prestação de trabalho efectivo pago a preços razoáveis no mercado de trabalho e não foi uma recompensa pelas decisões que tinham tomado. Pelo que se têm ética não têm bom senso, e se tem bom senso não têm ética.

Resta outra, que este caso vai ser usado pelos detractores do Estado Social, que coloca à disposição dos cidadãos serviços essenciais independentemente da capacidade económica deles, os que o confundem com Estado Socialista, que produz obrigatoriamente os serviços que coloca à disposição dos cidadãos, independentemente de os produzir com mais eficiência e menos fardo para a economia e os contribuintes, ou com menos eficiência e com custos mais elevados para os contribuintes e menos sustentabilidade económica a prazo do que se fossem prestados por prestadores privados, que o vão usar como uma ilustração pretensamente significativa das burlas dos privados com o dinheiro do Estado que sustenta que o Estado não deve recorrer a prestadores de serviços de privados. Nem é significativa, nem é dinheiro do Estado, nem recomenda, mas é disto que o populismo vigente se vai alimentar nos próximos tempos. E se formos atrás dele somos nós que nos vamos acabar por lixar e, como sempre, só nos aperceberemos disso quando for tarde para o evitar.

Quando a cabeça não tem juízo a perna é que as vai pagar.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:45
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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Mainstream "merdia" e fontes de informação fidedignas, ou falta de juízo é coisa que não falta

"Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed it has been said that democracy is the worst form of Government except for all those other forms that have been tried from time to time.…", disse um velho amigo meu em mais um dia em que se achou particularmente disposto a filosofar.

É tão estranho que a democracia, em que os votos de um velhaco ou o de um ignorante valem tanto como os de um santo ou de um sábio, todos vivem em liberdade e seja o que Deus quiser, seja menos má do que todos os outros sistemas políticos, que tendem a ser liderados por sábios santos e esclarecidos dedicados a promover o bem de todos e onde os inimigos do povo e do bem-estar são cuidadosamente neutralizados, como que a economia de mercado, em que os agentes económicos são movidos exclusivamente pelo egoismo e pela ganância do lucro, permita às suas vítimas usufruir, apesar da maldade deles, de prosperidade como nunca se viu no passado nem no presente, inclusivamente nos sistemas instituídos para oferecer o bem-estar e a prosperidade a todos, mesmo os que não são fundados num mero empirismo voluntarioso mas sempre falível mas num ramo da ciência económica, o Socialismo Científico. Mas a evidência empírica de uma e da outra é tão esmagadora que é preciso alguma dose de falta de juízo para não a reconhecer.

Mas falta de juízo é coisa que não falta.

E a democracia, para além de todos os defeitos estruturais inerentes à sua natureza, ainda tem outro circunstancial: uma grande permeabilidade à rejeição. Se outros sistemas políticos se dotam de meios para assegurar a sobrevivência, sempre baseados na gestão da informação, para evitar a disseminação de ideias subversivas, e na restrição da liberdade, para evitar a sua prática, é muito fácil derrubar uma democracia: basta convencer metade mais um dos eleitores a optarem por uma coisa diferente.

E falta de juízo é coisa que não falta.

A gestão da informação é pois um dos campos de batalha dos zangados com a democracia e no mundo da globalização mediática travam-se batalhas épicas e globais por ela e as armas mais letais usadas nesta guerra são as teorias da conspiração, historietas baseadas em algum fundo factual real que explicam as ligações entre os factos com base em relações especulativas que não são sempre plausíveis, algumas são até simplesmente delirantes, mas que encontram sempre crédulos prontos a acolhê-las como boas, principalmente se lhes confirmarem receios ou convicções prévias.

Um exemplo ilustrativo de uma boa teoria da conspiração é a denúncia recente por um whistleblower da actividade da empresa privada Cambridge Analytica que, com base em grandes volumes de informação que lhe foram facultados pelo Facebook pensando que se destinavam a fins académicos, oferecia serviços comerciais de manipulação de resultados de eleições através da colocação cuidadosa de mensagens cientificamente geradas e dirigidas para condicionar a opinião de cada eleitor.

O conceito reune todos os factores críticos para constituir uma formidável teoria da conspiração: é revelado por um informador interno, tem escala global, tem poderes assustadores, tem interesses ocultos e passa a mensagem que a democracia é incapaz de representar a vontade do povo porque apenas representa o que lhe foi inoculado pelos seus manipuladores. E, acima de tudo, dá vontade de acreditar nela: os assessores do candidato populista que ganhou as eleições alegadamente graças a esta manipulação dos eleitores por a iniciativa fazer deles assessores geniais com um valor de mercado superlativo, os eleitores populistas que o elegeram pela superioridade na acção do populismo sobre a superioridade moral democracia que representa ganhar eleições manipulando eleitores, e os que perderam as eleições pelo conforto de as terem perdido, não por não as merecerem ganhar, mas porque o candidato que não merecia as ganhou à custa de batota.

Até eu tenho vontade de acreditar na teoria. Falta-me apenas acreditar que de facto os eleitores que elegeram o candidato populista decidiram o seu voto por terem sido cientificamente manipulados, manipulados são sempre os eleitores e é exactamente para oferecer uma oportunidade de os manipular fazendo acreditar no que os candidatos insinuam que há campanhas eleitorais, e não por a candidata incumbente ter, ao longo da campanha eleitoral e até ao fim, tido a postura demasiado confiante que lhe sugeriam as sondagens que lhe previam uma vitória folgada e menos esfoçada que o concorrente que, pelo mesmo motivo, lutou mais, e até ao fim? Estou até longe de acreditar que foi a Cambridge Analytica que deu a vitória ao candidato vencedor e que sem ela ele teria perdido. Ganhou porque se esforçou mais por ser o número dois na corrida.

Mas o facto de eu não acreditar não tira mérito a esta teoria da conspiração pela conjugação de factores que enumerei.

Regressando às guerras pela gestão da informação, um dos modos mais usados para aumentar a permeabilidade do público às teorias da conspiração é criar canais de comunicação alternativos à comunicação social instituída para as divulgar, simples blogues ou mesmo sites noticiosos com organização e estética semelhantes aos dos sites dos orgãos de comunicação social, e desacreditar esta para evitar que a informação fornecida pelos meios tradicionais lhe dê bases para duvidar delas. Os alt-media contra a mainstream media, na terminologia dos activistas dos primeiros, ou maistream merdia, feliz trocadilho que a língua portuguesa lhes ofereceu para clarificarem melhor o sentido das suas ideias.

Abrindo de novo um parêntesis pessoal, a informação veiculada pelos meios de comunição tradicional deve ser cuidadosamente interpretada. Há jornais com agendas políticas institucionais e há jornalistas com agendas políticas pessoais, nem todas coincidentes, mesmo quando se verificam tendências maioritárias, e todas as notícias podem ser objecto de alguma manipulação no sentido de, a partir dos factos que normalmente são reais, retirar interpretações e conclusões que são determinadas, não por eles, mas pela agenda política do jornal ou do jornalista. Cuidados básicos para não se deixar enganar por esta frequente tentativa de manipulação são, por exemplo, ter alguma cultura de base e sensibilidade à plausibilidade ou implausibilidade dos factos, verificar se os factos apresentados numa notícia são confirmados por notícias noutros jornais, se o título reflecte a informação contida no corpo da notícia ou se não passa de uma mensagem ideológica para enganar quem lê apenas os títulos, se comparativamente com toda a informação disponibilizada pelos outros jornais há uma filtragem de informação para sustentar aparentemente a mensagem que o jornalista pretende fazer passar. Em resumo, googlar abundantemente e pensar um bocadinho. Mas onde os mainstream media podem ter agendas políticas que recomendam cuidado na interpretação da informação que veiculam, os alt-media não passam de agendas politicas. O Breitbart tem exactamente as mesmas finalidades que o esquerda ponto net ou do Avante, que não são as mesmas do Diário de Notícias ou da Bola.

Regressando de novo ao tema, há estratégias mais eficazes do que outras para desacreditar os mainstream media. Uma alternativa laboriosa é pegar em notícias específicas e explicar detalhadamente como são manipuladas para enganar os leitores. É a estratégia bottom-up. Uma alternativa mais económica é convencer os leitores que tudo o que é noticiado por um jornal é falso. A estratégia top-down. É muito mais económica e em públicos reverentes e acríticos é possível conseguir resultados, e o exemplo mais acabado de sucesso neste exercício é a multidão que se recusa a acreditar em qualquer notícia do Correio da Manhã e toma por ignorante, por lumpen do leitor de jornais, qualquer leitor que não tenha a convicção que nesse jornal de massas é tudo falso.

Neste contexto das guerras pela gestão de informação todos os mainstream media são apontados como falsos, e o argumento mais forte para o demonstrar é que se recusam a noticiar as notícias que os alt-media noticiam e que provam a acentuada degeneração da democracia, ou do sistema, e recusam-se a noticiá-las para esconder a verdade aos leitores. Por mais que se folheiem os prestigiados Expresso ou Público, ou até o infecto Correio da Manhã, não se encontram as notícias da guerra civil que está a destruir a Escandinávia, nem das violações em massa de meninas alemãs por refugiados muçulmanos, nem da remoção das iluminações de Natal ou da imposição de ementas halal a todos os meninos das escolas andaluzas por exigência dos muçumanos. No limite informam-nos que a Junta de Freguesia de Belém tem optado por não instalar iluminações de Natal, mas dão-nos o falso pretexto de o fazer para desviar o dinheiro que elas custariam para iniciativas de solidariedade social. São temas censurados. Pior. Se temos amigos que foram recentemente à Escandinávia e lhes perguntamos pela guerra civil, dizem não a viram. Sabemos bem que é por as suas deslocações internas terem sido acompanhadas por controleiros que evitaram cuidadosamente que fossem aos campos de batalha, mas eles nem deram por isso e pensam que andaram livremente por onde queriam. Pobres inocentes. Andam-lhes, e andam-nos, a esconder a realidade.

Já os alt-media informam-nos diariamente destas realidades que os mainstream media nos escondem. Todos escondem? Todos. Com excepção dos russos, que furam este embargo para nos darem a conhecer o que se passa no mundo. Russia Today, Agência Sputnik, as sucessoras das velhas RIA Novosti e Voz da Rússia, são os únicos media tradicionais em que podemos confiar, os únicos que aceitam denunciar o demoronamento iminente do sistema.

Ora se acreditar em tudo o que os jornais dizem é demasiado crédulo e acrítico, não acreditar em nada é um bocado esquizofrénico. Uma amiga do Facebook, uma das pessoas mais informadas e lúcidas que não conheço, escreveu recentemente que as pessoas que acreditam nos boatos mais delirantes são também as que se recusam a acreditar em qualquer notícia de jornal, e que quanto mais da primeira, mais da segunda.

Esquizofrénico, delirante, já estou a insultar os activistas e os consumidores dos alt-media, e injustamente, como passo a provar com um caso exemplar.

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Durante a crise dos mercados financeiros a Russia Today conseguiu desencantar uma whistleblower no Banco Mundial, a grande instituição no coração do sistema financeiro mundial, uma dirigente que tinha sido despedida da instituição por denunciar escândalos de corrupção e que explicou que a crise financeira global tinha sido propositadamente desencadeada pela elite financeira que domina o mundo para obter ganhos que ela explica, e escuso-me a repeti-la passando a convidar os leitores a ouvi-lo da boca dela. 

A revelação do Russia Today abalou o mundo de uma maneira geral, e Portugal em particular por ter sido uma das vítimas desta conspiração financeira de elite mundial, e mesmo a referência de objectividade e rigor informativo que constitui o esquerda ponto net não deixou de dar voz a esta denúncia que mostrava preto no branco a origem da crise e o fundamento mais forte para renegarmos a dívida, reforçando a doutrina preconizada pelo célebre coordenador da ONU, o professor Artur Baptista da Silva, no Expresso do jornalista Nicolau Santos.

Além de denunciar a conspiração financeira, a whistleblower Karen Hudes explicou também o motivo pelo qual ela era escondida do mundo: as mentiras dos mainstream media que são dominados pela mesma elite que domina o mundo financeiro.

Mas Karen Hudes não se ficou por aqui. Talvez por se sentir inebriada pela projecção mediática que lhe estava a ser proporcionada depois de ter sido afastada e silenciada pelo Banco Mundial encheu-se de coragem e também denunciou que quem está na origem de todas as conspirações é uma second species de humanóides de origem extra-terrestre dotados de alta inteligência, baixa competência para as artes, e crânios oblongos que dominam o Vaticano, tese que se pode provar observando a forma oblonga das mitras ou das tiaras papais, os Jesuítas e ... o Banco Mundial!

Sim, a crise financeira foi provocada pelos extra-terrestres que dominam o Banco Mundial.

Pelo que, tendo ficado provado que qualquer insinuação de falta de juízo a quem renega os meios tradicionais e se informa pelos meios alternativos é injusta, encerro esta publicação a apresentar-lhes as mais sentidas desculpas por qualquer coisinha.

Eppur, falta de juízo é coisa que não falta.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:34
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Sexta-feira, 23 de Março de 2018

O macho ibérico (moderno)

2018-03-23 Fernando Rosas de suspensórios 1.jpg

Dizem que tinha uma tia fascista, mas o fascismo era demasiado mariquinhas para acolher a virilidade na acção exigida pelas suas convicções políticas, tanto que quando finalmente foi pacificamente removido não restavam mais do que pouco mais que uma centena de presos políticos nas prisões, marca somítica ao lado dos mais de quinhentos conseguidos pelo regime democrático durante o Período Revolucionário Em Curso, justamente depois de meter na prisão os da seita a que ele tinha aderido, e as únicas quatro vítimas directas mortais da revolução foram abatidas por um sniper que disparou cobardemente sobre a população civil desarmada na rua bem protegido pela janela por trás de onde se escondia. Uns bananas.

Quando chegou à idade das convicções políticas viu-se forçado a enveredar pelo maoismo, à época a seita com mais vítimas no curriculum vitæ, que entre grandes marchas, grandes fomes e grandes revoluções culturais, para não falar das grandes secas em que tudo isso devia resultar, tinha conseguido juntar a bonita soma de, dizem alguns e com contas não certificadas, 77 milhões de mortos, que comparavam favoravelmente, e continuam a comparar, com os 43 milhões do estalinismo e os mais modestos 21 milhões do nazismo. Este máximo absoluto ainda não foi ultrapassado, e só terá sido desafiado em termos relativos com o extermínio de um terço da população do Camboja, apesar da modesta soma absoluta de dois milhões de vítimas, pela seita-irmã do maoismo khmer rouge, e o nome francês não é uma insinuação de erudição mas uma justa homenagem à terra que acolheu a estudar e onde se radicalizou o líder Pol-Pot, de sua graça Saloth Sar, Paris, à época a pátria da radicalização dos pequeno-burgueses de fachada socialista. Uma escolha viril.

Nas suas deambulações por África por conta da emissora nacional para educar o povo não dispensa o uso de suspensórios, talvez por serem a única forma eficaz de suster uma formidável tomatada a partir dos ombros sem arriscar hérnias ou outros problemas de coluna resultantes das deslocações do centro de gravidade decorrentes da sua oscilação sempre que deambula.

Tem tanto cabelo como as mulheres da idade dele, o que desmente definitivamente o boato que circula entre algumas mulheres que os carecas são os mais viris, talvez resultante de os carecas se terem que esforçar mais do que os cabeludos para lhes cativar a atenção e o apreço pela exibição de qualidades alternativas à abundância de cabelo como a inteligência, o humor, a cortesia e a beleza física, e de elas verem nestes valores, erradamente como ele constitui a prova definitiva, sinais de virilidade.

Foi educado nos valores da família política e no princípio que as mulheres da família são umas meninas e as das outras famílias uma putas parideiras, e é feroz na defesa das meninas da família, pelo que quando algum estupor ousa dizer que não as queria para casar espeta-lhe logo com um processo em cima junto da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, o murro nas trombas e a bengalada são castigo caduco e pouco para tamanha desfaçatez, e a virilidade exige que não haja contemplações quando é necessário castigar.

É moderno, tolerante e de espírito desempoeirado, ninguém o pode acusar de preconceitos e até tem amigos gay, até dentro da família política. Mas quando vê passar um paneleiro do outro lado da rua dá-lhe uma coisinha, sobe-lhe o sangue à guelra, tolda-se-lhe a vista, e não consegue evitar rosnar contra as modernices. A tolerância tem limites, caraças, e um homem não é de ferro!

É um macho ibérico, e felizmente que a Ibéria é uma coutada para esta espécie em vias de extinção que tanta falta nos faz, pelo que estamos determinados na defesa da sua preservação.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:14
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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

É esta a luta?

Na semana passada houve um dia da Mulher, e merecia ser assinalado em todos aqueles lugares, e são a maioria, em que elas não são iguais aos seus concidadãos homens no acesso à educação, na liberdade de escolher os parceiros, na administração de bens, e ainda no tratamento não discriminatório da sua sexualidade; em suma, na igualdade perante a lei, o que as torna em cidadãos de segunda.

 

Não foi assim. E pelo contrário o dia assinalou-se com exuberância em muitos lugares onde todas essas coisas estão garantidas há muito, e sobretudo em Espanha, vá lá saber-se porquê, em desfiles tão grandiosos que uma querida amiga minha, esquerdista mas excelente pessoa, não hesitou em declarar que “esta greve feminista vai aparecer nos livros de história”.

 

Poder-se-ia talvez supor que o propósito seria a supressão daquelas bolsas onde tradições alheias ao estádio civilizacional em que nos encontramos sobrevivem nas nossas sociedades, afrontando as leis, como sucede dentro da comunidade cigana e em todas aquelas onde se mantém a tradição, importada de países quase sempre muçulmanos, da excisão genital feminina, ou de casamentos combinados, às vezes de moças apenas púberes, e um longo etc. de abusos sortidos de índole vária.

 

Mas não. Essas coisas não apenas sobrevivem perante geral passividade como uma parte dos manifestantes (a parte dos marxistas reciclados em engenheiros de costumes) que numas capitais ou outras entupiram as ruas aprova silenciosamente todas as práticas abusivas sobre a mulher desde que oriundas de sociedades medievais, em nome do multiculturalismo.

 

E o resto dos manifestantes, que são a maioria, prestaram, no melhor dos casos, algum serviço de boca ao que se passa em lugares como a Arábia Saudita mas dedicaram as suas imprecações ao que acontece entre nós.

 

O que é que se passa, então? Coisas simples: nos lugares de chefia e relevo nas empresas, nos partidos, no governo e na Assembleia da República, elas, que são a maioria dos habitantes, não estão em maioria; há uma diferença salarial que lhes é desfavorável, se se comparar o que ganha em média cada trabalhadora com o que ganha cada trabalhador; nas situações em que para progredir na carreira, ou em casos extremos simplesmente manter o emprego,  se depende da informação ou decisão de um superior, há casos de assédio sexual, e estes são sobretudo de homens sobre mulheres, desde logo porque são eles que detêm os lugares decisivos; e na maioria dos lares, em particular com filhos, não só é mais pesada a sua carga de trabalhos como é muito mais provável que, se houver violência doméstica, sejam elas as vítimas.

 

Porém, já não estão em minoria em certas profissões qualificadas, como por exemplo professores e juízes; e o desequilíbrio que já existe, a favor das mulheres, na formação académica na maior parte dos ramos do conhecimento, não pode senão traduzir-se a prazo, se a lógica não for uma batata, num reverter de situações.

 

Porquê então a assanhada barulheira das feministas de todo o bordo e feitio, os serviços governamentais dedicados à promoção da igualdade entre os sexos (de “género”, diz o palavreado inclusivo que o politicamente correcto recomenda), a barragem incessante de propaganda em torno de ideias falsas que de tão repetidas se aceitam acriticamente como verdades axiomáticas, v.g. a alegação de uma “evidente” disparidade de salários?

 

Despachemos a questão salarial primeiro: pode haver casos, e decerto haverá mas não aparecem denunciados, de salários diferentes para funções e desempenhos semelhantes, baseados em preconceitos misóginos de quem os decide. Porém, a diferença salarial documentada abundantemente pouco terá a ver com isto e muito com a diferença de funções: se as mulheres estão sub-representadas nos lugares de topo e em certas profissões de risco, que são os mais bem pagos, como se pode esperar que não haja diferenças nas médias? Logo, a alegação das diferenças salariais per se é inconsistente, e é-o também por outra razão: nas empresas que competem no mercado o decisor que, podendo escolher, decidisse empregar, para desempenhar o mesmo trabalho e com a mesma produtividade, sistematicamente os trabalhadores mais caros, ficaria em desvantagem perante o seu concorrente que oportunisticamente apenas contratasse mulheres. Onde estão elas, essas empresas que funcionam como o clube do Bolinha, mas ao contrário – menino não entra?

 

Depois, é uma verdade gritante – e surpreendente – que a representação política tem um défice de mulheres enorme, e isso sucede, nas sociedades democráticas, qualquer que seja o sistema de escolha dos eleitos. Só não é assim quando se impõe o sistema de quotas. Cabe perguntar, então: se elas são a maioria dos eleitores, não escolhem mulheres porquê?

 

A resposta convencional é que há um acordo tácito entre homens, e costumes entranhados entre mulheres, em particular as mais velhas, que as levam a desconfiar das suas irmãs, fazendo portanto que o caminho de candidatas naturais até aos lugares cimeiros esteja pejado de obstáculos. As pobres necessitam de fazer as coisas pelo dobro para que o seu mérito seja reconhecido pela metade.

 

Será em parte assim, para muitas e em muitas situações, e tanto mais quanto mais perto do topo de certas carreiras. E para engenheiros sociais, como são sempre as pessoas de esquerda, parece um caminho natural o sistema de quotas imposto pelo Estado – nele próprio, para começo de conversa, e para já nas empresas cotadas porque lá se encontram os lugares mais sumarentos, e se pode invocar o controle público das regras que norteiam o funcionamento do mercado de acções e obrigações para obnubilar o facto de serem com frequência empresas tão privadas como as não cotadas.

 

Aberta esta porta, é apenas uma questão de tempo até que a imposição de quotas, de resto com números crescentes até que se atinjam os 52%, ou lá quanto é a percentagem exacta de mulheres, se estenda às restantes empresas. Primeiro às grandes, claro, porque algumas são maiores do que as cotadas, e essa desigualdade não pode verificar-se, credo!; depois às médias, dados os bons resultados que se verificarão nas grandes, tudo apoiado nos devidos estudos a demonstrar o ponto; e finalmente às pequenas, com adaptações para limitar os estragos do intervencionismo.

 

Quanto ao assédio sexual, que a lei hoje classifica naturalmente como crime, nem sequer precisamos de fazer votos para que as polícias e os tribunais funcionem com eficácia: a julgar pelo que se passa nos EUA (quer dizer, aqui, depois de vencido o atraso de alguns anos) uma acusação chega para se perder preventivamente o emprego; e o principal, e com frequência único, meio de prova é a confissão, ora chorosa ora ofendida, da putativa vítima. Já estivemos mais longe de uma mulher que seja uma notabilidade pública precisar de confessar, para garantir a carreira, algum obscuro atropelo, sob pena de ser considerada conivente com o generalizado crime ou, pior, feia.

 

Negar que na maior parte dos lares, e tanto mais quanto mais antigos os casamentos, é desigual a carga de trabalho doméstico entre homens e mulheres, é negar a evidência; e que, desde que as mulheres furaram as paredes do lar para irem para o mercado de trabalho, esse desequilíbrio se acentuou, é desafiar a lógica.

 

Nisto mais ainda do que no resto, seria bom que o Estado se abstivesse de intervir: a cozinha, a sala de estar e a cama são lugares absolutamente privados. Razões por que o bombardeio das nossas criancinhas com as ideias acertadas sobre o que devem ser o paizinho e a mãezinha ideais, e a parafernália publicitária de comissões e organismos públicos a promoverem lavagens de cérebro em nome da igualdade, não são mais do que o abandono da neutralidade religiosa do Estado, agora a benefício de uma religião civil.

 

As novas gerações não precisam de ajuda: as mulheres saberão, como crescentemente fazem, calçar os patins aos maridos que não lhes satisfaçam as expectativas; e os moços, cientes do facto, ou se conformam ou prudentemente evitam casar ou recasar, o que de resto muitos escolhem.

 

Não é portanto surpreendente que o vasto vento feminista que sopra no Ocidente seja sobretudo de esquerda: a engenharia social contra a desigualdade, qualquer desigualdade, é justamente o que a define, e disso retira a sua imaginária superioridade moral. Que porém mulheres de direita comprem o pacote todo, em particular na parte das quotas, a mim, não cessa de me surpreender.

 

Explico: existe um problema verdadeiro, e que a evolução dos costumes não resolverá, e esse é o de que nos anos fundacionais das carreiras profissionais ou políticas (isto é, na casa dos 20 aos 40 anos) as mulheres que queiram ser mães têm uma desvantagem. Não se pode confiar que os respectivos maridos, por muito cheios de boa vontade que estejam, as substituam com perfeição, e não apenas por não poderem dar de mamar; nem se pode impedir o divórcio dos casais com filhos pequenos, fonte principal das mulheres sós com filhos pequenos (homens também, mas em escassa – e a meu ver natural – minoria).

 

Estão portanto, objectivamente, em situação de desvantagem para competirem no mercado de trabalho. Razão pela qual, entre outras, muitas adiam as gravidezes ou põem-nas de parte, ou deixam de ter o número de filhos que desejariam.

 

Já houve um tempo, e não apenas porque ainda não tinha sido inventada a pílula, em que os filhos eram mãos úteis para a agricultura e para tratar dos animais, além da garantia de um amparo na velhice.

 

Era o tempo das famílias numerosas, de miséria e destituição felizmente pregressas, mas em que não havia previsões catastróficas de falência da segurança social por cada vez mais reformados viverem à custa dos descontos de cada vez menos empregados, nem muito menos suicídios civilizacionais derivados da importação massiva de homens e mulheres portadores de culturas insusceptíveis de integração, mas a produzirem filhos a velocidades muito superiores às das sociedades que os acolhem.

 

Não voltaremos ao tempo das famílias numerosas como regra; nem às mulheres remetidas à inferioridade e à dependência; nem a tendência para cada vez mais mulheres aparecerem em cada vez mais lugares de mando, nas empresas e no mundo político, declinará.

 

Mas uma coisa é a evolução natural das coisas; e outra é a discriminação positiva baseada em quotas, que não pode senão abrir a prazo uma guerra de sexos.

 

Porque fatalmente haverá homens discriminados por essa condição, não obstante serem melhores para este ou aquele lugar, ou seja, por se trocar uma discriminação baseada na tradição por outra baseada na lei; e porque naquelas funções atraentes onde elas já estão, ou venham a estar, em maioria, se porá o problema das quotas para homens.

 

Resta finalmente que as mulheres que têm filhos e que por esse facto são prejudicadas nas suas carreiras sinalizam às outras que ter filhos é um mau negócio, e as quotas, se podem minorar esse problema, não o podem resolver: as quotas não são, nem é defensável que sejam, para mulheres com filhos.

 

Por mim, impressionam-me pouco as mulheres que mostram as mamas com slogans pintados para reclamar igualdade; prefiro as que as mostram para amamentar. E veria com bons olhos que o grave problema de a população estar a diminuir fosse combatido com políticas públicas de apoio a mulheres que queiram ter e manter filhos, apoio em moeda sonante, em flexibilização de horários com a devida compensação às empresas, e no mais que a imaginação invente para resolver o problema.

 

Em nome da igualdade, isto é, para que os filhos não sejam um fardo que sobretudo a elas pesa; e em nome do realismo porque não nos adianta sermos iguais no suicídio colectivo.

 

É esta a luta? Não parece.

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publicado por José Meireles Graça às 16:35
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Vais sendo pó e em pó te hás-de tornar

2018-03-14 Stephen Hawkins zero-G.jpg

Hoje ficámos todos mais pobres com a morte de um dos raros que conseguem ver o que está lá mas mais ninguém vê, entretido o mundo que está a ver o que não está lá mas toda a gente pensa que vê.

E, libertado ele do corpo que o albergou nestes 76 anos, deu-me para filosofar um bocadinho sobre o corpo.

Há muitas coisas sobre as quais todos temos dúvidas de que nos procuramos libertar tentando formar convicções, umas vezes com mais sucesso, algumas delas com batota, outras com menos, e outras com insucessos redondos.

Temos dúvidas sobre se a vida resultou de uma conjugação de factores quase infinitamente improvável mas que, na infinita dimensão e variedade do Universo, acabou mesmo por acontecer, ou se houve alguma mãozinha a fazê-la acontecer apesar da improbabilidade. Temos dúvidas sobre se vivemos melhor com a liberdade que permite a cada um fazer o que entenda desde que não obrigue os outros, admitindo que, mesmo sabendo que não há, resulta como se houvesse uma mão invisível a construir alguma coisa nesta anarquia aparente, ou regulados por alguém que saiba e determine o que cada um deve fazer para viver melhor e vivermos melhor. Temos dúvidas sobre se devemos levar o carro e arriscar demorar ainda mais por perder tempo à procura de um lugar de estacionamento, ou apanhar o metro e arriscar uma molha da estação de metro ao nosso destino. E se, levando-o, devemos meter moedinhas no parquímetro e ficar sem elas ou arriscar a multa da Emel.

Mas há uma coisa sobre a qual não temos dúvidas.

Não temos dúvidas nenhumas sobre a nossa existência como indivíduos, nem sobre a existência e individualidade física do nosso corpo. O nosso corpo nasce, cresce, transforma-se, e acaba sempre por por morrer, mas temos ao longo da vida a consciência que é sempre o mesmo corpo que nos acompanha, ou nos alberga, do berço à cova.

Mas pode não ser, e deviamos ter.

Um amigo e colega de tertúlias imaginárias sobre temas filosóficos disse um dia a alguém, especulo que alguém com uma deficiência na capacidade de auto-avaliação da dimensão do próprio ego, "és pó e em pó te hás-de tornar". É verdade no sentido metafórico de dimensionar de modo realista a importância que cada um de nós tem para o Mundo, que é muito diferente da importância que se atribui a si próprio. E é verdade no sentido químico de retratar fielmente as reacções e transformações que sofre a matéria que constitui os nossos corpos. A biologia não passa de uma habilidade da natureza que pega em matéria inerte quando desarrumada e a mistura de modo a formar agregados organizados que, temporariamente, são seres vivos que se conseguem manter organizados numa guerra permanente contra a entropia que os tenta voltar a desarrumar, que a entropia ganha sempre, acabando por voltar a produzir matéria tão inerte como a inicial. Se há uma mão invisível a fazer isto, ou se é apenas a natureza a obedecer às suas próprias leis que os costrói e os deixa desmoronar, nunca perguntei ao meu amigo.

Mas não é a guerra da biologia contra a entropia tão bem sintetizada na frase dele que me traz aqui hoje, mas a questão da existência e individualidade física do corpo.

O corpo é constituído por células, estas por moléculas, e estas por átomos, para ficarmos por aqui, mas é essencialmente constituído por água, e quem tem 80 quilos como eu tem para aí uns 60 litros de água no corpo. E bebe, se for como eu, pelo menos um litro de água por dia no inverno e dois no verão, e vai libertando água pelas vias conhecidas. O que significa que a cada um ou dois meses o corpo renova os seus 60 litros de água. Isto não é exactamente assim, porque a água que segregamos não é necessariamente a que nos chegou há mais tempo ao corpo, mas chega para ilustrar o princípio. Dos 80 quilos da matéria que constituem o meu corpo hoje, que eu tenho consciência de ser o mesmo que tinha há dois meses, e quando nasci, e terei quando morrer, 60 quilos não estavam cá nessa altura. O corpo é o mesmo, mas a maior parte da matéria que o constitui não é, é outra.

Restam-nos no corpo, como indivíduos, 20 quilos de matéria que parece ser nossa e não se renova como a água. Mas a matéria que, para além da água, constitui as células, também se renova. A qualidade de não ser biólogo nem químico permite-me elaborar saltando muitos detalhes que não domino, e o texto perde em rigor o que ganha em clareza sem lhe deturpar o sentido.

Por um lado, há células no corpo que se renovam, nascendo, crescendo e morrendo e sendo segregadas, substituídas por outras ou não. Como as unhas, o cabelo ou a pele, que sabemos que se renovam por estarem à vista. Se eu fosse biólogo e soubesse dizia-vos quantas e quais são, mas não sou nem vos posso dizer. Mas que as há, há-as. O que significa que, mesmo que outras células se mantenham no corpo do berço à cova, uma parte delas não se mantém ao longo da vida, vai chegando, permanecendo temporariamente e partindo para dar lugar a outras. Alguma da matéria que constitui o meu estômago, se o estômago for dos orgãos que têm células que se renovam, não fazia parte dele há uns tempos e não vai fazer parte dele daqui a uns tempos. Passa por ele.

Por outro as células, quer sejam as que residem no corpo do berço à cova, quer sejam as que apenas residem temporariamente, passam o seu tempo a sofrer reacções químicas em que se vão combinando com moléculas que lhes vão chegando e libertando outras, de modo que a própria matéria que constitui uma célula não a constitui em  permanência. Como não sou químico também não estou em posição de vos dizer que proporção da matéria de uma célula permanece ao longo da sua vida e que proporção se renova. Mas alguma da matéria que a constitui apenas passa por ela.

Tudo junto, grande parte da matéria que forma o corpo, e se eu fosse biólogo e químico saberia substituir esta quantificação genérica grande parte por outra mais precisa como tantos por cento, ou eventualmente por toda, que faz parte dele em cada momento, apenas passa por ele e não é sempre a mesma. No limite, toda a matéria, todos os átomos, que faz em determinado momento parte do corpo pode não ter feito parte dele em momentos passados e voltar a não fazer em momentos futuros. O corpo não tem uma existência física individualizada, é apenas o ponto de passagem de uma comunidade de matéria que vai chegando, permanecendo e partindo. Mesmo que entre a fase do pó ao nascimento e a da morte ao pó nos pareça sempre o mesmo.

De modo que na próxima tertúlia com o meu amigo vou-lhe propor uma correcção na frase, substituindo és pó, que sugere uma continuidade vitalícia, por vais sendo pó, que retrata melhor a dinâmica material do corpo.

E quem sente, pelo menos, o conforto de ter um corpo que é seu e só seu antes de tornar ao pó, que se desengane. É apenas dono de um ponto de passagem.

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:34
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Segunda-feira, 12 de Março de 2018

Abrir os partidos à sociedade civil

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O novo presidente do PSD Rui Rio declarou, tanto ao longo da campanha eleitoral para as eleições directas no partido, como no 37º Congresso Nacional em que a sua nomeação como presidente do partido foi formalizada, a urgência em reformar o sistema político para lhe recuperar a credibilidade abrindo os partidos à sociedade civil. Consequente com este diagnóstico, foi buscar à sociedade civil para integrar a Comissão Política Nacional como vice-presidente a advogada Elina Fraga, anterior bastonária de Ordem dos Advogados que colocou em tribunal os membros do governo de Passos Coelho por causa do encerramento de tribunais decorrente da implementação do novo mapa judiciário. E as críticas de muitos militantes e antigos dirigentes do partido a esta escolha valeram-lhe a solidariedade expressa nas redes sociais de muitos socialistas e bloquistas.

Já a presidente do CDS Assunção Cristas foi buscar à sociedade civil para integrar o grupo de personalidades que vai elaborar o programa eleitoral do partido às eleições legislativas de 2019 Nadia Piazza, a mãe que perdeu o filho no incêndio de Pedrogão Grande, confessou que encontrou conforto em saber que o filho tinha morrido envolvido nos braços do pai, foi a principal promotora da formação da Associação de Familiares de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, e recusou convidar para o almoço de Natal da associação o primeiro ministro que reagiu à tragédia em termos odiosos, fugiu de férias e encomendou estudos para descobrir como minorar os danos politicos da tragédia para ele e para o governo. E os mesmos socialistas e bloquistas que se tinham solidarizado com a outra dedicaram a esta a insinuação de ter recusado o convite ao primeiro ministro e aceite o convite para colaborar com o CDS por "oportunismo", "vantagens" e "interesses".

É quase a mesma coisa, não é?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:36
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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

Professores com deficit de habilitações académicas

Eu dei aulas no Instituto Superior Técnico sem ser licenciado.

O professor Diamantino Durão, na altura Catedrático no departamento de Engenharia Mecânica do IST, regente de várias cadeiras do ramo de Termodinâmica Aplicada, presidente do Conselho Directivo e mais tarde ministro da Educação, tinha que ir fazer um trabalho nos EUA e reconvidou-me, já me tinha convidado quando acabei o 4º ano onde tinha sido aluno das aulas teóricas dele nas cadeiras de Transmissão de Calor e Massa que ele regia mas eu entretanto tinha aceitado um convite para bolseiro de investigação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil e não tinha aceitado o dele, para assegurar as aulas da cadeira como Monitor.

Nunca me chegou a explicar o motivo de o convite não ter sido precedido de um rigoroso concurso público, mas admito que o facto de eu ser o melhor aluno do curso de Engenharia Mecânica e de ter tido 19 na cadeira possa ter tido alguma influência. E suspeito que possa não ter sido por motivações políticas, porque eu só ingressei no PSD trinta e dois anos depois de acabar o curso e em 1983, entre governos do dr. Pinto Balsemão, resgates do FMI e governos do Bloco Central, interessava-me muito pouco pelo PSD, e não faço ideia se ele próprio era do PSD apesar de mais tarde ter sido ministro num dos governos de doutor Cavaco Silva.

Durante dois ou três meses assegurei sozinho as aulas da cadeira de Transmissão de Calor e Massa I, tanto as práticas como as teóricas, porque o professor que costumava dar as teóricas estava ausente. Não quero maçar os leitores com as technicalities, mas depois de duas ou três semanas dedicadas a ilustrar os princípios mais simples de transmissão de calor por condução e por convecção em regime estacionário e em corpos homogéneos de geometria simples e unidimensional passei para outras duas ou três a apresentar a Equação do Calor e a derivar várias soluções em coordenadas ortogonais, assim como em coordenadas cilíndricas e esféricas que não vos maço com a demonstração nem sequer a ilustração. Era isto.

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Mesmo dada por um aluno imberbe era aquilo a que se podia chamar uma cadeira para alunos de barba rija, ou um cadeirão.

Entretanto eu acabei o curso e fui admitido numa empresa privada a que me candidatei e não me pareceu conveniente perturbar o início da carreira a acumular o trabalho absorvente na empresa com ausências para continuar a dar aulas, o professor Diamantino Durão regressou dos EUA com disponibilidade para retomar as aulas, e acordamos pacificamente a cessação do meu trabalho como Monitor no IST em Janeiro de 1984.

Felizmente este episódio não chegou aos jornais, nessa época não havia redes sociais, e investigadores notáveis como o professor doutor Rui Bebiano ou a professora doutora Raquel Varela não tiveram conhecimento dele nem vieram para a praça pública indignar-se contra a destruição da universidade pública pelo nepotismo partidário através da decadência da exigência do nível científico inerente à contratação de professores não doutorados, exigência que eles próprios garantem como referências científicas sólidas com base nos graus académicos que outros como eles lhes atribuiram.

E o IST não caiu no pântano em que merecia apodrecer por recrutar, pior que assistentes e professores convidados não-doutorados para ensinarem matérias, nomeadamente tecnológicas, que nenhum docente da carreira dominava, alunos para darem aulas a outros alunos, nem a Ordem dos Engenheiros recusou a atribuição do grau profissional de Engenheiro aos licenciados que foram meus alunos de Transmissão de Calor e Massa I, e graças à discrição com que o episódio foi tratado o IST até manteve, se não aumentou, o renome de universidade de excelência que conquistou ao longo de muitas décadas.

Não certamente ao nível daquelas onde eles investigam através do método de escolher os factos que sustentam as opiniões, muito mais assertivo e proactivo que o método mais modesto seguido no IST de formar conclusões com base nos factos. Método em que desgraçadamente me formei, e que limita seriamente quaisquer ambições que possa vir a ter de conseguir vir a ser intelectualmente trafulha como eles.

A academia pode perfeitamente ser colonizada por idiotas e trafulhas, mas deve ser reservada a doutorados. Ou então de esquerda.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:19
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Terça-feira, 6 de Março de 2018

E a gratuitidade dos transportes públicos para as mulheres que fazem aborto?

Na sua primeira iniciativa legislativa nesta legislatura o Bloco de Esquerda conseguiu mobilizar a maioria de esquerda para extinguir em Novembro de 2015 a taxa moderadora de 7,75 € para o aborto que tinha sido aprovada nesse Verão e entrado em vigor na semana imediatamente anterior às eleições de 6 de Outubro.

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Os agregados familiares com rendimento per capita superior a 631,98 euros, os de rendimento inferior a este limite estão isentos de todas as taxas moderadoras, deixaram de ser sujeitos a este pesado castigo e obstáculo à sua liberdade de escolha que se manteve apenas para consultas de medicina geral ou de especialidade no centro de saúde, no hospital ou no domicílio, ou mesmo sem a presença do utente, consultas de enfermagem, recurso às urgências hospitalares e meios complementares de diagnóstico e terapêutica. Ou seja, apenas para os doentes.

Que a imposição de uma taxa moderadora de 7,75 €, igual à de uma consulta de especialidade no Serviço Nacional de Saúde, entretanto reduzida para 7 €, às mulheres de agregados familiares com rendimento per capita superior a 631,98 € que abortavam fosse um retrocesso nos direitos sexuais e reprodutivos ou uma punição para as mulheres que recorrem ao aborto, como tinham defendido os bloquistas e os comunistas durante a discussão da proposta do CDS para a instituir, ou que empurrasse as mulheres para o aborto clandestino, como avisou a Sociedade Portuguesa da Contracepção, chega a parecer quase delirante.

Por ter que pagar por um aborto 7,75 €, mais ou menos o que gastam no quiosque semanalmente se ela comprar a revista Cristina e ele o jornal Expresso, ou vice-versa se for um casal que rasga com os estereotipos de género, uma mulher de um casal com um filho em que ela e o marido tenham um salário mensal de pelo menos mil euros cada um predisposta a abortar desistiria de o fazer, ou ponderaria recorrer ao aborto clandestino, cujas tabelas de preços não conheço mas admito que não sejam muito diferentes deste valor multiplicado por cem? Eu acho que as médicas e os médicos da Sociedade Portuguesa da Contracepção deviam ir ao médico para lhes investigar a origem da sua manifesta falta de bom-senso, das deputadas e deputados bloquistas e comunistas já tenho o diagnóstico feito há muito tempo, que não é o mesmo para os dois grupos, e confirma-se a cada novo exame. Ou seja, a resposta é não, por causa de uma taxa moderadora de 7,75 € ela não desistiria de abortar nem recorreria ao aborto clandestino.

É defensável no plano da justiça social sujeitar a taxas moderadoras os doentes, que por vezes são portadoras de doenças provocadas pela sua falta de cuidado com a saúde, por exemplo por terem fumado cigarros ou comido croquetes ou bebido laranjadas, mas muitas vezes não decorrem de nenhuma falta de cuidado mas de fatalidades genéticas que nenhum cuidado pode evitar, mas isentar delas as mulheres que querem abortar, e é sempre por falta de cuidado que elas engravidam sem o desejar? Não é defensável coisa nenhuma.

Mas pronto, vivemos em democracia e eles mandam em nós porque ganharam as aleições, apesar de as terem perdido, e até a lei ser de novo alterada o aborto vai continuar a ser isento de taxas moderadoras.

No entanto, estudos científicos recentemente publicados detectaram um novo retrocesso nos direitos sexuais e reprodutivos e punição para as mulheres que recorrem ao aborto.

estudo elaborado pela Escola de Gestão de Informação da Universidade Nova de Lisboa detectou que, mais do que por causa das taxas moderadoras, os utentes do Serviço Nacional de Saúde desistem de ir a consultas, tratamentos e episódios de urgência por causa do custo dos transportes para se deslocarem aos locais onde esses cuidados de saúde são prestados. Em 2016, 539.824 utentes desistiram de consultas hospitalares por este motivo, contra apenas 260.905 pelo efeito conjugado do custo dos transportes a das taxas moderadoras. Mais do dobro.

Removido, pelo menos naquelas cabecinhas, o grande obstáculo à liberdade de escolha das mulheres que pretendem abortar em condições de higiene e segurança adequadas, a taxa moderadora de 7 €, emerge um obstáculo ainda mais grave, o custo do transporte para se deslocarem ao estabelecimento hospitalar para o fazer.

Se eu soubesse que estas linhas só são lidas por neoliberais como eu era capaz de deixar aqui ao Bloco de Esquerda a sugestão irónica de tomar uma iniciativa legislativa de tornar os transportes públicos gratuitos para as mulheres que pretendem abortar, com uma provisão para as reembolsar do custo do taxi ou da ambulância quando não há disponibilidade de transporte público para realizar as deslocações entre a casa e o hospital.

Mas como tenho receio que haja bloquistas a lê-las, regular ou ocasionalmente, para recarregarem as suas baterias de indignação com e de dispensa de ódio ao neoliberalismo, e iniciativas legislativas disparatadas já eles têm que chegue  espontaneamente, mesmo sem a minha colaboração com sugestões construtivas, não o faço.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:46
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Domingo, 4 de Março de 2018

As saudades que para aí andam do tempo em que se saneavam professores...

Eu sou do tempo em que o cançonetista Zeca Afonso era regularmente impedido pelo Estado Novo de exercer a sua verdadeira profissão, e a que lhe proporcionava o ganha-pão, a de professor do ensino oficial.

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Distraído com coisas menores, só ontem pela madrugada me apercebi, através da leitura circunstancial de uma publicação no blogue de uma amiga, do movimento que se formou espontaneamente para impedir o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho de assumir um lugar como professor convidado numa universidade pública.

Confesso que, ou por falta de tempo ou por falta de interesse, não dediquei nenhum esforço a descodificar os rosnados da matilha que se formou para tentar perceber se a exigência de expulsão do novo professor se deve à insuficiência das suas qualificações académicas, uma mera licenciatura pré-Bologna, para dar aulas numa universidade, ou às suas qualificações políticas manchadas indelevelmente pelo crime de ter salvado Portugal da última falência socialista, devendo atribuir-se ao adjectivo numeral última o sentido relativo de ter sido a última até agora mas não a última de todas, porque outras se seguirão, e não o absoluto.

Também deixo claro que, relativamente a esta questão de a falência socialista de que o Pedro Passos Coelho nos salvou ser a última até agora mas não a última de todas, não pretendo tentar esclarecer os socialistas e afins, os membros da matilha, que são suficientemente burros para acreditar nos seus próprios números de ilusionismo, mas apenas deixá-lo escrito para um dia poder dizer "eu bem vos avisei". Também sei que não ficarão desassossegados quando a próxima chegar, porque também são suficientemente burros para acreditar que ela se deverá, não às boas políticas socialistas do governo que acarinham e protegem, mas a causas exógenas de que ele não terá responsabilidade nem permitirão colocar em dúvida a qualidade das suas políticas, como por exemplo a pesada herança do governo Passos por ter governado sem dinheiro, a maldade dos mercados financeiros quando deixarem de acreditar nas qualidades do ilusionista por terem percebido o truque, e as crises cíclicas do capitalismo mundial que há mais de cem anos anunciam o seu fim e a sua substituição pelo socialismo.

Não sei se a proposta de expulsão do ensino oficial do professor Pedro Passos Coelho tem por objectivo proteger os futuros alunos de uma menor exigência na qualidade do ensino ou proteger a sociedade da presença de um político indesejável por desmentir a narrativa em que ela deve acreditar para ser feliz, pelo menos nos intervalos entre crises e falências em que, se quer sair delas, é mesmo obrigada a chamar políticos competentes? Se o saneamento que exigem é académico ou político?

Talvez o saneamento seja académico?

O Estatuto da Carreira Docente UniversitáriaDecreto-Lei n.º 448/79, de 13 de novembro, alterado pela Lei n.º 19/80, de 16 de Julho, e pelos Decretos-Leis n.os 316/83, de 2 de julho, 35/85, de 1 de fevereiro, 48/85, de 27 de fevereiro, 243/85, de 11 de julho, 244/85, de 11 de julho, 381/85, de 27 de setembro, 245/86, de 21 de agosto, 370/86, de 4 de novembro, e 392/86, de 22 de novembro, pela Lei n.º 6/87, de 27 de janeiro, e pelos Decretos-Leis n.os 145/87, de 24 de março, 147/88, de 27 de Abril, 359/88, de 13 de outubro, 412/88, de 9 de novembro, 456/88, de 13 de dezembro, 393/89, de 9 de novembro, 408/89, de 18 de novembro, 388/90, de 10 de dezembro, 76/96, de 18 de junho, 13/97, de 17 de janeiro, 212/97, de 16 de agosto, 252/97, de 26 de setembro, 277/98, de 11 de setembro, e 373/99, de 18 de setembro, e 205/2009, de 31 de agosto (que procede à sua republicação), alterado pela Lei n.º 8/2010, de 13 de maio, e que me perdoem os que se perderam no parágrafo antes de chegar aqui mas não fui capaz de resistir à citação deste extraordinário preâmbulo, prevê, logo no seu Artigo 3º Pessoal especialmente contratado, a contratação para as categorias de assistente convidado, professor convidado ou leitor, "individualidades, nacionais ou estrangeiras, de reconhecida competência científica, pedagógica ou profissional, cuja colaboração se revista de interesse e necessidade inegáveis para a instituição de ensino superior em causa". A contratação de professores como o Pedro Passos Coelho não apenas não é ilegal como está expressamente prevista na Lei. Mas o facto de ser legal não comprova só por si a virtude ou a conveniência de o fazer.

O meu pai dizia que quem sabe faz, e quem não sabe ensina. Mas há excepções. Na minha passagem como aluno pelo Instituto Superior Técnico tive várias cadeiras ministradas por assistentes ou professores convidados, que se distinguiam dos professores integrados na carreira académica por, por um lado, não serem doutorados nem possuirem qualquer grau académico superior à licenciatura, e por outro, serem engenheiros de profissão que ensinavam no IST aquilo que faziam nas empresas onde trabalhavam. Eram os que sabiam e ensinavam. Pelo que não é inédito as universidades, mesmo as que conquistaram um renome superlativo, recrutarem professores que não têm as qualificações académicas requeridas para a integração na carreira académica mas têm competências profissionais suficientemente relevantes para partilhar com os alunos.

Também é verdade que a matilha que pretende a expulsão do professor Pedro Passos Coelho tende a acreditar em charlatões que, instalados nas universidades, maioritariamente nos departamentos de ciências sociais que se prestam mais do que os das ciências exactas a fingir que opinião pode ser ciência, utilizam o púlpito que elas lhes proporcionam para pregar opiniões como se fossem ciência, os Paes Mamede, os Louçã ou os Boaventura que em bom tempo nos prometeram de ciência certa que a rebelião da Grécia contra os ditâmes do Eurogrupo e da senhora Merkel, e agora permitam-me abrir mais um parêntesis para relembrar que a senhora Merkel é de facto uma senhora que merece o título que é usado para a designar, para além de ter exercido a profissão de investigadora doutorada em Química Quântica antes de se dedicar a tempo inteiro à política, a salvaguardaram da crise em que Portugal caiu com a sua submissão à Europa, postulado que a matilha nunca se lembrou, ou lembrou mas evitou para não se sentir embaraçada com a sua própria burrice, confrontar com os factos que entretanto vieram a ocorrer. O rigor científico também não parece ser o que os move.

Também é verdade que algumas universidades podem cair na tentação de convidar professores especialmente contratados, não para partilharem com os seus alunos as competências adquiridas ao longo da sua carreira profissional, mas para aquilo a que se pode designar, de modo simplista e redutor mas suficientemente claro para comunicar o conceito, por lhes fazer favores políticos. Para dar um exemplo, o politico António Guterres, portador do grau de licenciado, foi admitido quando saiu do governo que liderava como professor catedrático convidado pelo IST, não sei especificar exactamente para que objectivo, nem se chegou a cumpri-lo ou se o seu cartão de ponto na universidade ficou tão virgem de registos como o da entidade petronal onde exercera a profissão antes de ingressar no governo, o Instituto de Participações do Estado IPE. Será esta a motivação para os que agora pretendem expulsar o professor Pedro Passos Coelho do ensino? Acredito que seja, pelo menos para os que agora pretendem expulsá-lo e na época também pretenderam expulsar o professor António Guterres do IST. Que são, tanto quanto me foi dado enumerar até agora, nenhum.

Ah, mas o Guterres teve média de 19 no IST! Pois teve, mas eu não encontrei no estatuto nenhuma provisão que assegura aos alunos com média de licenciatura elevada um lugar de professores convidados na universidade onde se licenciaram. Aliás, se alguém conhecer ou conseguir encontrar essa provisão na lei, gostava que me informasse se a média de 17 é suficiente para também assegurar um lugar de professor no IST? É para um amigo.

Ah, mas o Guterres é de esquerda! Pois é, e nesta explicação eu já acredito. Recrutar para professor convidado um ex-primeiro ministro socialista é louvável, mas recrutar um ex-primeiro ministro não socialista é execrável e merece um movimento a exigir a expulsão do professor.

O saneamento exigido é, pois, político.

E, sendo político, não consegui que deixasse de me fazer recordar o saneamento do ensino oficial do cantor José Afonso antes do 25 de Abril de 1974. Cada matilha inspira-se naquela em que gosta de se inspirar, e esta gosta de calçar as botas do Estado Novo, ou gostaria, se tivesse mais meios para o fazer do que o voluntarismo de alguns militares de Abril já enferrujados que não é acompanhado pelo dos 800 homens que eles precisavam que os seguissem para derrubarem o regime e, no que nos interessa agora, sanearem o Pedro Passos Coelho.

E, recordado, andei à procura de testemunhos históricos desse saneamento, e encontrei alguns de ex-alunos sobre a experiência de o terem tido como professor. Para não correr o risco de os encontrar tendenciosos evitei procurá-los no mural da actriz e internauta Maria Vieira, e acabei por encontrar este no insuspeito e objectivo esquerda.net de uma antiga aluna que registou no seu diário a primeira aula dele no Liceu Nacional de Setúbal a 4 de Outubro de 1967 a uma turma do sétimo ano do liceu. Passo a transcrever.

 

" - Vocês são o 7º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.

Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.

Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.

Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria. ".

 

Espero não escandalizar os que vêem no José Afonso um homem santo, mas tenho algumas dúvidas sobre a qualidade desta pedagogia, e admito que mesmo numa democracia madura, como vai sendo a nossa, ela pudesse ser suficiente para os pais reclamarem à instâncias próprias e para se ponderar o afastamento do professor?

Uma das conclusões possíveis de retirar disto tudo é que a exigência do saneamento do Pedro Passos Coelho tem motivações aparentemente académicas mas também podem ser políticas, e o saneamento do José Afonso teve motivações aparentemente políticas mas também podiam ser académicas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:11
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