Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Quem quer casar com o João Ratão?

O engenheiro Ricardo Robles tem, diz quem se dedica à investigação do tema, um ar clean e olhos bonitos. O que não lhe deve dificultar a missão, se é que a tem, de encontrar uma alma gémea para viver o resto da vida, ou, se é que a tem, uma galdéria, e perdoem-me se estou a reduzir injustamente o mundo ao estereótipo heteropatriarca ao esquecer a possibilidade de ser um galdério, para passar o resto da noite.

2018-07-30 Ricardo Robles.jpg

É, além disso, um bom partido. Não pelo emprego, um lugar precário de vereador a tempo inteiro e com dedicação exclusiva na Câmara Municipal de Lisboa que lhe rende entre três e quatro mil euros brutos por mês, ou rendia, mas não é muito importante, mas por ter um património em que pode realizar, dizem as notícias dos jornais, uma mais-valia de mais de cinco milhões de euros a mielas com a irmã, o que lhe dá a ele mais de dois milhões de euros.

Rapaz de olhos azuis, mais de dois milhões de euros, não está nada mal para a idade que tem.

Mas, terá?

É só fazer as contas!

2018-07-30 Prédio Ricardo Robles.jpg

E para fazer as contas vamos olhar para o património do engenheiro Robles.

Ele e a irmã compraram num leilão da Segurança Social um prédio que, depois de despejado de inquilinos e remodelado com a adição de um andar deu para 11 apartamentos de pouco mais de 30 metros quadrados de área cada um e três lojas, uma com 120 quadrados e as outras com cerca de 50 e perto de 40.

Vamos dar de barato que a compra foi um negócio honesto, ou seja, que durante o leilão ninguém conseguiu saber os preços propostos pelos outros candidatos para lhos soprar e ele poder cobrir as ofertas dos outros por pouco, minimizando o que tinha que gastar para ganhar o leilão.

Vamos também dar de barato que a remodelação foi um processo honesto, ou seja, que as autorizações concedidas pela Câmara Municipal de Lisboa, incluindo a de acrescentar um andar ao prédio, não constituiram qualquer favorecimento ao então membro da Assembleia Municipal, e teriam sido deferidas nos mesmos termos e nos mesmos prazos se o requerente fosse um proprietário anónimo.

Vamos ainda dar de barato que a concessão do crédito para fazer a remodelação seguiu as boas práticas prudenciais do sector, apesar de à ápoca da aquisição o engenheiro Robles declarar por junto cerca de 21 mil euros de rendimentos anuais brutos, ou 1.500 euros por mês pagos 14 vezes.

E com os despejos não vale a pena gastar muita tinta numa reflexão sobre o valor comercial do imóvel.

E por maioria de razão vamos passar ao lado da gentrificação concretizada ao pegar num prédio modesto que podia ser habitado por gente modesta e com lojas dedicadas ao pequeno comércio tradicional e transformá-lo num prédio sem moradores permanentes nem pequeno comércio tradicional dedicado à exploração comercial do alojamento local, e da posição ideológica pregada pelo engenheiro a propósto da gentrificação, porque também não tem influência nenhuma na valorização do prédio.

Temos então o engenheiro e a irmã proprietários de um imóvel com 11 apartamentos de 30 metros quadrados e 3 lojas que lhes custou cerca de um milhão de euros entre preço de aquisição e obras de remodelação, que eles colocaram à venda, salientando a disposição apropriada para o negócio do alojamento local, por um colhão de massa, mais de cinco milhões de euros.

E o prédio vale-os?

Mais de cinco milhões de euros pelo prédio significa perto de 500 mil euros por cada apartamento de cerca de 30 metros quadrados que as fotografias divulgadas pelas agências que tiveram o prédio à venda mostram acabamentos sóbrios e de bom gosto, mas nada de luxuoso, mais provavelmente equipado no Ikea do que no Siza Vieira. Ora pouco mais de 500 mil euros declarou o presidente da CML pela compra do duplex de 200 metros quadrados nas Avenidas Novas num prédio de prestígio, pelo menos a avaliar pelo nomes dos restantes condóminos. Parece um exagero pedir quase o mesmo por pequenitos apartamentos simples e de bom gosto em Alfama.

Mas é para negócio, é para alojamento local, e as contas são completamente diferentes.

Pois são, e vamos fazê-las.

Um apartamento daquele tamanho naquele local em alojamento local poderá ter preços de 60 euros por dia. Dizem os entendidos que os investidores consideram optimista um cenário com taxas de ocupação de 50%, e pessimista com taxas de ocupação de apenas 25%. Sejamos optimistas, e um apartamento permitirá facturar 10.900 euros por ano. Mas todas as despesas, televisão e internet, água, electricidade e/ou gás, para além das limpezas e despesas de lavandaria, são por conta do proprietário. Esqueci o condomínio? Não faz mal. Vamos supor que custam cerca de 50 euros por semana para a tal taxa de ocupação de 50%, e temos um custo de 2.600 euros por ano. Acrescentemos 200 euros se o condomínio for muito em conta, e chegamos a uma margem de lucro de 8.100 euros por ano. Com tributação autónoma em sede de IRS à taxa libertória de 28%, um rendimento líquido de 5.800 euros por ano. Dizem também os entendidos que o limiar de rendibilidade para valer a pena investir neste negócio é de 5%. E chegamos ao valor de investimento de 116 mil euros por apartamento. Para os 11 apartamentos, perto de 1,3 milhões de euros. Acrescentem-se as lojas chegamos a um valor acima de 1,5 milhões de euros mas abaixo de 2 milhões. E não precisámos de pintar paredes a denunciar a gentrificação ou a exigir a disponibilidade de casas para alugar a preços acessíveis.

Temos então que o prédio do engenheiro Robles e da irmã lhes poderá proporcionar, se for vendido, uma mais-valia de 300 ou 350 mil euros a cada um. É bom? É óptimo! Mas não são os mais de 2 milhões para cada um que se esperava.

O que aconteceu então?

Os irmãos colocaram o prédio à venda por um preço astronómico e muito acima do que qualquer investidor racional estará disposto a dar por ele. E com isso, e a consequente mais-valia milionária se a venda se concretizasse a esse preço, o engenheiro Robles deu cabo de uma carreira política que eventualmente sobreviveria a uma mais-valia de 300 ou 350 mil euros.

Foi-se um vereador, foi-se um milionário. Restam os olhos bonitos.

Pelo que, meninas e meninos, se querem casar com ele por amor e pelos seus lindos olhos têm o meu beneplácito. Se querem casar com ele por interesse a contar com mais-valias façam bem as contas antes de dar o passo e fechar negócio.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:53
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Sábado, 28 de Julho de 2018

Uma legislatura dedicada à família e ao lar

2018-07-28 Família Costashian.jpg

Esta vai ficar conhecida como a legislatura em que os políticos da situação, do primeiro-ministro, e respectiva família ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e respectiva família, ao vereador da mesma câmara, e respectiva família, conseguiram fazer excelentes negócios em investimento imobiliário que conseguiram valorizar com intervenções de requalificação urbana autorizadas pela Câmara Municipal de Lisboa. É até aquela em que na véspera de tomar posse criou in-extremis uma agência de mediação imobiliária um ministro, e respectiva família, e passou à família a propriedade do seu gabinete de arquitectura envolvido em operações imobiliárias interessantes um vereador da mesma Câmara.

Uma legislatura dedicada à família e ao lar.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:37
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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Quem representam os deputados?

2018-07-19 Hieronymus Bosch cegos.jpg

história conta-se em poucas palavras. Na Comissão de Agricultura e Mar (CAM) da Assembleia da República o PSD e o PCP tinham chegado a acordo sobre o apoio do primeiro a uma proposta do segundo, suficiente para garantir a sua aprovação, para conceder aos proprietários cujos terrenos fossem integrados em faixas de gestão de combustível, e por isso sujeitos a operações de manutenção acrescidas ou a restrições na sua utilização, uma compensação. O presidente do PSD ordenou ao grupo parlamentar permitir o chumbo da proposta pelo PS, abstendo-se. E o grupo parlamentar seguiu as ordens do chefe e a proposta foi rejeitada com os votos contra do PS que reflectiu a posição contra do Governo.

Como sublinhou hoje o Henrique Pereira dos Santos, o PCP defendeu a propriedade privada através de uma compensação justa aos proprietários cujos terrenos sejam condicionados no seu uso pelo interesse colectivo, e os outros partidos deixaram-na cair, aceitando a opção do governo por impôr aos proprietários os custos deste condicionamento.

Chegados aqui há que fazer uma primeira observação, até para se perceber a razão para uma aparentemente inesperada conjugação de posições entre o PCP e o PSD. O PCP e o PSD são, e digo isto sem nenhum estudo sociológico que o comprove mas convencido que não é uma asneira, os dois partidos mais próximos daquilo a que se chama o país real. O PCP com a sua implantação tradicional entre o operariado e o campesinato, tão nuclear que faz de meros empregados de escritório intelectuais na classificação que o partido usa para os seus próprios militantes, e o PSD com a sua implantação tradicional entre pequenos agricultores, pequenos industriais e pequenos prestadores de serviços, a classe esmagadora no tecido económico português dos que não são assalariados nem funcionários públicos e todos os dias têm que lutar pela vida. O que significa que, para além das diferenças ideológicas que nem vale a pena enumerar, são partidos que quando se fala de imposição de obrigações e limitação da liberdade de utilização do seu património a pequenos proprietários sabem exactamente do que se fala, de quem atinge, e das consequências, conhecimento do terreno que não é óbvio em partidos de quadros, de funcionários, de activistas ou de cientistas sociais.

E, portanto, o PCP e os membros do PSD na CAM tinham acordado que os proprietários deviam ser compensados pela sua perda de liberdade na utilização do seu património para servir o interesse público, e o Rui Rio deu ordem ao grupo parlamentar do PSD para deixar cair o compromisso. Com que ganhos políticos que justifiquem o prejuízo político potencial de negar aos proprietários qualquer contrapartida por se verem impedidos de dar aos seus terrenos o uso que entendam, desse modo associando-se ao governo socialista no desrespeito pela propriedade privada, não explicou.

O que me suscita uma interrogação habitual. Quem devem representar os deputados: os eleitores que os elegeram, ou a direcção do partido cujas listas integraram?

Formalmente os deputados representam os eleitores e são donos dos mandatos que recebem deles. Uma vez um deputado eleito para a Assembleia da República só pode ser removido por perda de mandato, e apenas em circunstâncias de gravidade bastante definidas na lei, ou por renúncia do próprio.

Na prática sabemos que podem estar sujeitos a fidelidades informais, nomeadamente em sistemas eleitorais como o nosso em que os deputados são eleitos em listas e não em candidaturas individuais. A escolha dos deputados é determinada em grande parte pela direcção do partido quando os coloca nas listas de candidatos em lugares de eleição garantida, de risco ou impossível, pelo que pode ser possível terem assumido compromissos prévios com a direcção do partido antes de serem colocados nas listas. O que não altera em nada o anterior, porque qualquer compromisso desta natureza não pode ter força de lei nem lhes pode ser imposto contra a sua vontade, mas pode ter o valor que tem um acordo de cavalheiros.

Com quem não assumiram garantidamente compromissos antes de ser eleitos é com futuras direcções do partido em cujas listas se candidataram e foram eleitos. Pelo que não é impossível haver alguma diferença de objectivos, de estratégias e de posições entre um grupo parlamentar de um partido e a sua direcção quando a direcção mudou depois das últimas eleições. Diferença que, em função da capacidade de liderança da nova direcção e da relação que desenvolver com o grupo parlamentar em funções pode ser facilmente ultrapassada, e costuma ser facilmente ultrapassada com o grupo parlamentar a alinhar as suas posições com as da direcção, ou radicalizada, com o grupo parlamentar a ser forçado a escolher entre a sua própria orientação política e as ordens da direcção do partido.

De modo que, bem ou mal, os deputados do PSD que estão na Assembleia da República representam os eleitores que os elegeram, e representam-me tanto a mim, que sou filiado no partido e dirigente local, como a minha vizinha do 2º andar, que não é filiada mas votou no PSD tal como eu, como o presidente Rui Rio, que acredito que também tenha votado no PSD como eu e ela.

O que significa que quando, depois de tomarem uma posição no parlamento em minha representação, que os elegi, os meus representantes a alteram por pressão da direcção do partido, prescindiram de me representar a mim para a representar a ela.

O risco que corre o partido com a desautorização pública do grupo parlamentar é o de alienar os votos dos eleitores que se sentiam representados por ele mas não se sentem representados por quem os desautoriza.

É o de se dirigir para um pântano, e às cegas.

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:35
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Sexta-feira, 6 de Julho de 2018

As guerras das tarifas

O estilo errático dos anúncios, essencialmente através de tweets, do presidente Donald Trump não aconselha prognósticos antes do fim dos jogos, porque o que ele diz hoje não é parecido nem coerente com o que disse ontem, e certamente que amanhã dirá outra coisa diferente destas duas e eventualmente contraditória.

Os detratores do presidente americano atribuem esta variabilidade a falta de juízo, mas os apoiantes mais entusiastas acreditam que é pura estratégia negocial, e até é plausível que o seja, porque com quem não diz coisa com coisa ninguém gosta de discutir e as pessoas normais querem é distância, o que facilita os processos negociais por falta de comparência da outra parte, e pelo meio de um processo negocial pode ter havido tweets tão delirantes que qualquer proposta final que pareça minimamente razoável lhes pode parecer uma conquista inesperada da sensatez sobre a loucura, e aceitável, mesmo que não seja a desejada ou a ideal. E assim, simulando loucura, pode-se ganhar uma negociação.

Um dos domínios onde a sucessão de posições aparentemente erráticas tem sido evidente é no comércio internacional. Entre anúncios de ameaças de tarifas sobre os inimigos comerciais dos EUA, que incluem sempre a Europa e o Canada, as proposta de erradicação total das tarifas, as recusas em subscrever acordos que incluem compromissos de as reduzir, anúncios de novas ameaças de tarifas, e anúncios de intenção de afinal não as introduzir, nenhum dia é igual ao anterior e a única constante é a inconstância.

Um dos campos de batalha mais importantes é o da indústria automóvel, uma das que são comulativamente grandes e sexy. Saindo dos anúncios e das especulações sobre intenções que todos os dias há dados novos para ilustrar, e ficando pelos factos, a UE impõe uma taxa de 10% sobre a importação de automóveis americanos e os EUA impõem uma taxa de 2,5% sobre a importação de automóveis europeus, e uma taxa mais elevada sobre os pesados que não vale a pena discutir aqui. Outro facto, que não tenho quantificado mas que é tão evidente que não vale a pena googlar para quantificar, é que os americanos importam muito mais automóveis europeus, principalmente alemães, do que os europeus automóveis americanos. E outro ainda para baralhar as contas, mas que pode não valer a pena trazer à discussão, dois grandes produtores de automóveis na Europa, a Opel e a Ford, são americanos, e a fábrica que exporta mais automóveis dos EUA é europeia, da BMW.

Primeira constatação, a taxa é assimétrica, e a UE penaliza mais a importação de automóveis americanos que os EUA a de automóveis europeus, o que justifica inegavelmente algum desagrado do governo americano.

Segunda, que é provável que a desproporção nos volumes de importações cruzadas seja tão elevada que, apesar de a taxa ser de apenas um quarto da simétrica, é provável que o governo americano arrecade mais taxas pela importação de automóveis europeus do que os governos europeus pela de automóveis americanos.

Terceira, que as tarifas alfandegárias não são um imposto imposto aos exportadores para o país que o impõe, são um imposto pago pelos consumidores desse país que compram produtos importados, um acréscimo aos impostos ao consumo pagos por eles. Quando nos dizem que as exportações americanas vão pagar uma tarifa alfandegária estão-nos a dizer na realidade que os consumidores europeus vão pagar mais caro por essas importações, não que os exportadores americanos a vão pagar, e vice-versa. O que significa que a imposição de tarifas às importações, comulativamente com agradar aos produtores locais de bens concorrentes com os bens importados taxados que podem ser favorecidos pelo aumento dos preços de venda deles aumentando as suas quotas de mercado, também desagrada aos consumidores que vêem os preços dos produtos que preferem consumir aumentar por causa de um novo imposto.

Quarta, e decorre da anterior, a imposição de tarifas alfandegárias traz a uma sociedade ganhos, e até pode criar empregos, principalmente se não houver retaliação, mas também pode destruir empregos se houver, com um balanço final indeterminado, também lhe traz perdas, até políticas, por ser paga pelos consumidores do país que as impõe. Se eu tiver o sonho de possuir um BMW e tiver dinheiro para o comprar mas de repente, por o preço do BMW ter aumentado, me vir forçado a optar por um Chevrolet, posso ficar chateado com o governo que me estragou o sonho com o seu aumento de impostos.

A quinta, digo-a no fim.

Neste mundo de notícias todos os dias diferentes das do dia anterior e que não indiciam o que dirão as do dia seguinte torna-se quase impossível acompanhar para discutir informadamente o enredo do filme, mas podem-se analizar e discutir fotogramas. E o fotograma de hoje diz o quê? Diz "Bruxelas admite baixar tarifas às importações de eutomóveis para agradar a Trump", ou "Recuo de Trump impulsiona bolsas e BCE ajuda euro", adaptando a mesma notícia às preferências dos trumpistas por uma vitória negocial do Trump ou dos europeistas por um recuo do Trump.

2018-07-05 Guerra das tarifas.jpg

Traduzido em miúdos, que a UE vai reduzir a tarifa alfandegária de 10% sobre as importações de automóveis americanos, provavelmente para um valor idêntico ao aplicado às importações de automóveis europeus nos EUA, e que o governo americano vai desistir da intenção anunciada de aumentar as tarifas alfandegárias sobre os automóveis europeus para 20%. Ou mesmo que as vão anular, o que irá conduzir mais ou menos ao mesmo.

O que se segue não é aconselhável aos que olham para a política internacional como um combate de wrestling entre o Donald Trump e a Angela Merkel, nomeadamente aos que, por parecerem andar a tomar esteróides que lhes dão força, ou anfetaminas que lhes dão a sensação de força, distribuem murros metafóricos no ar traduzidos em insultos e ameaças enquanto assistem ao combate.

Deixar cair a taxa alfandegária actual de 10% sobre a importação de automóveis americanos em troca de o governo americano não lançar uma de 20% sobre os automóveis europeus parece uma medida inteligente, e até cínica, da UE. É que não é a taxa de 10%, e o consequente aumento de 10% no preço de venda, que desencoraja os consumidores europeus de comprarem automóveis americanos, mas o facto de acharem que eles não prestam, de modo que a eliminação desta taxa não vai certamente desencadear uma invasão de importações americanas que prejudique a indústria europeia. Não é a tarifa alfandegária que a protege, mas a diferença na qualidade percebida pelos consumidores europeus que justifica que os automóveis europeus, e principalmente os alemães, e principalmente os alemães de fabricantes europeus como a Mercedes, a BMW, a Audi, a VW ou a Porsche, sustentem um preço premium comparativamente com os americanos.

Já a taxa de 20% sobre os automóveis europeus importados nos EUA aumentaria o seu preço de venda de modo a afectar certamente as exportações da indústria automóvel europeia, mesmo que os consumidores americanos estejam dispostos, como estão, a pagar preços premium pelos automóveis europeus por considerarem que são melhores que os oferecidos pela indústria local.

O acordo registado no fotograma de hoje é pois favorável à indústria automóvel europeia que estava na iminência de ser prejudicada no mercado americano sem a penalizar no mercado europeu. Não é desfavorável à indústria americana comparativamente com a situação actual, se bem que possa ser aparentemente menos favorável que a imposição de tarifas mais elevadas às importações de automóveis europeus no mercado americano, mas também não a vai favorecer significativamente no mercado europeu, por não ser a tarifa de 10% que desincentiva os europeus de comprar automóveis americanos mas a sua falta de qualidade percebida comparativamente com a produção europeia. Dá aos adeptos do status quo europeu alguma estabilidade. E dá aos adeptos do Donald Trump um título de jornal vitorioso onde a UE cede para agradar a Trump. Em suma, todos ganham.

Todos menos os americanos de Detroit que tanto precisam dos american jobs que lhes foram prometidos pelo Donald Trump, não estou a falar dos que a conjuntura lhes oferece tal como os oferece aos portugueses governados pelo socialista António Costa, e pelos quais o Donald Trump parece estar a lutar com as suas guerras das tarifas, mas que não chegarão, sem tarifas ou com elas. É que não é com tarifas alfandegárias ou acordos comerciais que se resolve o desequilíbrio da balança comercial entre os EUA e a UE, mas com produtos bons e competitivos. E andar a discutir tarifas não é o caminho para a indústria americana os melhorar, é, pelo contrário, um bom pretexto para evitar reconhecer o problema e deixar tudo ficar na mesma à espera que a política o resolva.  O que está nos antípodas da american way, em que é tradicional ser a sociedade, e não a política, a tomar o seu destino nas mãos.

E esta foi a quinta constatação.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:31
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

O "traidor" Manuel Alegre ou, a credulidade em demasia não faz de ninguém lúcido

À força de se esforçarem por acreditar que têm boas razões para acreditar naquilo que à força querem acreditar, as pessoas chegam a fazer figuras caricatas.

Há quem queira acreditar que o Manuel Alegre foi um traidor.

É muito simples esclarecer. Fazer resistência a uma ditadura não é traição, é patriotismo, seja em Cuba, no Chile, em Portugal ou na Checoslováquia. Mas, por exemplo, divulgar segredos militares e, com isso, colocar em risco ou mesmo provocar a morte de soldados portugueses é traição.

O Manuel Alegre fez resistência à ditadura e, por isso, foi um patriota, mesmo que haja quem o queira considerar um traidor por ter feito resistência à ditadura. Pode ter revelado segredos militares que podem ter colocado em risco ou mesmo provocado a morte de soldados portugueses, e se o fez foi mesmo um traidor. Se se quiser determinar se o Manuel Alegre foi efectivamente um traidor é isso que é necessário esclarecer. Eu não tenho informação que me permita esclarecer isto, nem sou dos que fazem de a procurar um objectivo de vida. Não sei se é ou se não é. Se um dia souber que sim considerá-lo-ei um traidor, até lá não considero.

O que não faz dele traidor é acreditar em notícias falsas. Por exemplo, acreditar na imagem de um suposto cartão de militante da Frente Nacional de Libertação de Angola, ou FNLA, que circula nas redes sociais.

2018-07-04 Manuel Alegre FNLA.jpg

E acreditar na autenticidade do cartão não é grande referência como garante da lucidez do crédulo.

Primeiro, é preciso estar disposto a acreditar que uma organização terrorista, como lhe chamava o governo português de então, ou um movimento de libertação clandestino que também se dedicava à guerrilha, como era visto na época pela generalidade dos governos ocidentais e provavelmente pelos próprios, tinha uma máquina burocrática que passava aos seus militantes cartões de membro, talvez para eles poderem facilmente ser identificados como membros do movimento se fossem revistados pela Pide.

Segundo, é preciso estar disposto a acreditar que a imagem que circula é uma fotografia a cores de um cartão real, apesar do ar imaculado do cartão supostamente fotografado, sem um vinco, sem um risco, sem uma amolgadela, tão perfeita como se fosse uma impressão do PDF do cartão original, e esquecer que nos anos 60 do século XX não havia PDF, não havia imagens digitais, nem sequer havia fotocópias a cores, havia cartões de cartão escritos à mão ou à máquina com o retrato colado a que se podiam tirar fotografias se se estivesse interessado em fotografá-los.

Terceiro, se o cartão supostamente fotografado tivesse um formato do tipo das clássicas cartas de condução, é preciso acreditar que a página um, a capa, poderia ser fotografada lado a lado com a página três, a que continha o retrato e os dados do membro, ou que a capa estaria na página dois, ou os dados do membro na página quatro. E, se fosse um cartão de frente e verso, acreditar que se conseguia fotografar a frente e o verso simultaneamente, Tudo problemas que o PDF resolve de uma penada, mas os cartões reais não resolviam.

Quarto, é preciso acreditar que o Manuel Alegre usava camisas havaianas, que era um resistente da ditadura que se vestia como o Wolfman Jack.

Quinto, porque não é esta a única "fotografia" do cartão da FNLA que circula nas redes sociais, que o Manuel Alegre se vestia no mesmo alfaiate que o inglês a quem calhou o outro cartão da FNLA idêntico ao dele, e escolhiam juntos as camisas havaianas.

Sexto, mas ainda é preciso continuar? não é, mas vamos até ao fim para ninguém ter desculpas para não perceber, que o Manuel Alegre morava na Argélia na mesma rua onde morava o inglês que morava em Hareford, na Inglaterra.

Tudo junto, espero que a esta hora já tenham percebido que, independentemente de o Manuel Alegre ter cometido actos de traição ou não, o cartão da FNLA do Manuel Alegre é forjado e sem grande cuidado para dirfarçar a trafulhice. E que os que chegados aqui ainda acreditam na sua autenticidade são tontos.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:28
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