Quinta-feira, 28 de Março de 2019

Marcelo e Cavaco, ou a porcelana moldada e a pedra esculpida

Quando na última remodelação do governo António Costa, e por causa da promoção a ministra da secretária de Estado e filha do ministro José Vieira da Silva, Mariana Vieira da Silva, se tornou evidente que a endogamia que é a marca do primeiro-ministro desde sempre só tem tendência para se agravar com a ascensão a posições com mais poder e a aproximação do fim da legislatura, o presidente Marcelo correu a branqueá-la, afirmando que a nomeação de pessoas das mesmas famílias no seio do governo se devia a razões de mérito.

Não foi a primeira vez, nem será a última, que se terá precipitado ao colocar a mão por baixo do primeiro-ministro amparando-o em trapalhadas, asneiras ou sacanices puras e duras sem antecipar que esse apoio lhe poderia vir a trazer a ele custos políticos. Mas a falta de vergonha e descaramento dos socialistas do costismo, talvez encorajados pelo branqueamento normalmente assegurado pelo mais alto magistrado da nação, transformaram em poucos dias o que pode ter parecido uma excentricidade, um sintoma de uma constipação passageira, num bacanal de nomeações de irmãos, filhos, mulheres e amigos uns dos outros, uma pandemia com todas as condições para se tornar mortífera.

Não para ele.

Quando se apercebeu que o branqueamento da endogamia no governo socialista António Costa lhe podia custar caro a ele, o presidente Macelo fez exactamente aquilo que se pode, com um já bom grau de confiança, esperar dele como nulidade política mais do que comprovada: salvar o coiro. Acobardou-se e escondeu-se por trás da sombra do presidente Cavaco, explicando que "...se limitou a aceitar a designação feita pelo Presidente Cavaco Silva, que foi a de nomear quatro membros do Governo com relações familiares, todos com assento no Conselho de Ministros ... partindo do princípio de que o Presidente Cavaco Silva, ao nomear aqueles governantes, tinha ponderado a qualidade das carreiras e o mérito para o exercício das funções".

2019-03-27 Aníbal e Maria.jpg

Escolheu mal o alvo. Ao contrário dele, o presidente Cavaco Silva não cresceu a fazer travessuras à avó nem partidas ao dono do jornal que lhe deu emprego desde jovem, cresceu, como explica nas suas memórias, e debaixo da responsabilidade de ser o primeiro da família em cuja educação os pais investiram as poupanças em vez de as investirem na compra de propriedades agrícolas como era hábito no mundo onde cresceu, a passar as férias grandes a trabalhar no campo no único ano em que chumbou. Ao contrário dele, que foi moldado em porcelana, foi esculpido na pedra. E não se costuma ficar, e não se ficou.

E respondeu, respeitando a fórmula tradicional "entendo que não devo fazer qualquer comentário porque já foi dito tudo ou quase tudo e eu não acrescentaria nada de novo", para disparar comentários letais a tudo o que já tinha sido dito como "...Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo aquilo que foi revelado..." e "... não me recordo de ter conhecimento completo - já foi há muitos anos - entre relações familiares dentro do Governo, mas, por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido", e ainda que o presidente da república, nomeando embora os membros do governo, não pode interferir nas escolhas do primeiro-ministro para não correr o risco de vir a ser responsabilizado por qualquer coisa que corra mal na governação a pretexto de não ter deixado o primeiro-ministro escolher livremente os seus ministros. E aproveitou para esclarecer que, "por curiosidade fui verificar a composição dos meus três governos durante os dez anos em que fui primeiro-ministro e não detectei lá nenhuma ligação familiar". Poderia ter acrescentado que entre todas as pessoas que fizeram parte desses três governos, entre ministros e ajudantes de ministro, houve uma única que tratava por "tu", a colega de trabalho no Banco de Portugal e comadre Manuela Ferreira Leite. Não teve governos de família e amigos.

Traduzindo, esclareceu que quando indigitou o primeiro-ministro tinha esgotado todas as possibilidades legais de o evitar sem abrir uma crise política insustentável, que não fugiu a deixar claro na altura que não estava de acordo com a fórmula governativa montada pelo primeiro-ministro com o objectivo único de se salvar de uma morte política certa por ter perdido as eleições depois de prometer ao partido que as ganharia por muitos, que a escolha dos membros do governo é da responsabilidade do primeiro-ministro, e que ao dar-lhes posse não tinha feito, nem podia fazer, qualquer juízo de valor sobre a sua competência. E que no momento da tomada de posse não tinha qualquer informação factual que lhe permitisse antecipar o bacanal em que se transformou nos últimos meses, e descaradamente a partir da última remodelação, o jogo de nomeações de familiares e amigos e familiares de amigos como chefes de gabinete ou assessores para os gabinetes governamentais.

E escavacou o biombo atrás do qual se tinha escondido o presidente Marcelo, no argumento da nomeação porque não tinha legitimidade para intervir nas escolhas do primeiro-ministro, e no do mérito porque não lhes tinha avaliado mérito para lhes dar posse.

Pode ter dado ao presidente Marcelo uma lição útil, a de, nas troca-tintas e chico-espertices que vive a fazer e de que vive politicamente, se meter com quem tenha a estatura dele e evitar os de estatura maior. Que brinque com figurinhas de porcelana mas evite as estátuas de pedra, que se caem em cima das figurinhas as deixam em cacos.

É duvidoso que o presidente Marcelo tenha apreendido a lição.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:57
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Quarta-feira, 27 de Março de 2019

Matemática macabra

2019-03-27 Marta Temido.jpg

Depois de terem sido abandonados à sua sorte durante toda a legislatura por um governo que se dedicou a demoli-lo trocando o serviço aos utentes pela redução dos horários dos funcionários, a ministra da Saúde, que eu tenho apelidado, talvez não lhe conseguindo por defeito fazer justiça, de tonta fala-barato da extrema-esquerdaanunciou que até ao fim do ano de 2019, por coincidência um ano em que há duas eleições, todos os doentes à espera de consulta ou cirurgia há mais de um ano vão ser atendidos.

O que significa que não garante atendimento até ao fim de Dezembro aos que estão à espera há quase um ano, e que então estarão à espera há 21 meses.

Em Portugal morrem em média 7 doentes por dia à espera de consulta ou cirurgia. Quantos é que ela está a condenar à morte? É só fazer as contas. Mas passa dos 4 mil. Isto em ano de várias eleições. Agora imaginem em 2020, 2021 e 2022...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:15
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Terça-feira, 26 de Março de 2019

Lendas do sul

Uma lenda persistente corre em Lisboa: no Norte é que se come bem!

 

No Norte ninguém diz que em Lisboa é que se come bem. Mas não falta quem, no Norte, tenha pela cozinha alentejana um fraco, e o Alentejo, como é geralmente sabido, fica a sul – ao menos a sul de Lisboa, e, já se vê, do Norte.

 

Donde, não seria má ideia entendermo-nos sobre o que é “comer bem”, a ver se percebemos se isso tem ou não a ver com pontos cardeais.

 

Ponhamos de lado a cozinha gourmet. Não só no Minho, ou Trás-os-Montes, ou nas outras províncias a norte, os restaurantes gourmet são raros (não tanto como desejaria, mas não é o meu propósito entreter-me a cascar nessa cozinha para desnacionais metidos a besta) como em Lisboa não faltam. Não, não é de cozinha conceptual que está a falar, quem fala, quando gaba o que se come cá por cima.

 

Do que está a falar é de tradição. E é verdade que em Bragança, ou Fafe, ou Vila Real, ou Braga, ou Porto, inúmeros outros locais, se encontram restaurantes (mas não para quem apenas procura sem perguntar a quem saiba) onde se cozinha como se cozinhava dantes, sem estados de alma, sem teorias, sem marketing, sem recomendações de jornais e sem ambições de enriquecer, que o negócio só não é modesto precisamente para quem é levado no andor da publicidade dos gastrónomos com coluna nos semanários e, frequentemente, sem a outra coluna, a vertebral, o que os leva a aceitar a oferta da refeição a troco de crítica favorável.

 

O respeito da tradição, e o respeito das regras da arte, chegam se estivermos a falar de comer bem. Não chegam se estivermos a falar de templos da comida. Porque uma coisa é um cozido à portuguesa, dos vários que existem consoante as regiões, com, por exemplo, o muito sanitário porco do supermercado e outra o mesmo cozido com porco criado a lavadura ilegal e morto ilegalmente por processos que arrepiam os votantes do PAN e os apreciadores de animais fofos; uma coisa é uma comum salada com vinagre comum e outra a mesma salada com vinagre feito em casa; assim como o arroz de pica-no-chão criado em explorações, mesmo que com alimentação sã, não é  mesma coisa que o mesmo arroz com animal criado em semi-liberdade e cevado a farelo e couve. Ou seja, boa parte da alta cozinha não mora na cabeça de criadores, mas em práticas que a vida moderna tornou obsoletas, a legislação ilegais e as polícias do gosto higienizado clandestinas.

 

Mas – lamento desiludir os lisboetas – em Lisboa também se come bem. Não no sentido de restaurantes genuinamente de quinta, ou que lá se abastecem, que de todo o modo são raríssimos em qualquer lado e que naquelas partes suspeito que talvez existam mas não conheço. Mas no sentido de comida despretensiosa mas feita com competência e artigos frescos. Caro, é certo, mas em Lisboa a vida está cara.

 

No fim de semana passado fui a Lisboa para a apresentação do Movimento 5.7. Casa cheia, organização competente, discursos oportunos e bem engendrados de três declinações diferentes da direita, assistência entusiasta de gente cansada do socialismo sufocante em que vivemos.

 

Depois, fui a uma cervejaria. Ninguém em seu juízo se lembra de gabar as  cervejarias onde se come marisco decente e pratos de snack tradicional (tradicional sim, a cervejaria é o fast-food avant-la-lettre e é preciso ser adolescente, autêntico ou retardado, e ter acne, para lhe preferir as batatas fritas pré-congeladas e a carne mastigada que se serve nos McDonald’s do nosso descontentamento). As ostras eram excelentes. E o pica-pau (à antiga, dizia a lista) era feito com lombo macio e saboroso, com o molho que a casa recomenda e que, aposto, é o mesmo há décadas. Um lisboeta murmurou: não é como em Matosinhos, mas não está mal! Não estava mal, de facto, e ainda bem que em Matosinhos não é bem assim – não há nenhuma razão para que cada terra não cultive a sua diferença.

 

No dia seguinte, fui almoçar a um restaurante popular (popular na amesendação e na frequência – uma cliente estava vestida com o equipamento do Benfica, que Deus lhe perdoe – mas os preços eram um pouco salgados) e vieram para a mesa ostras, um arroz de lingueirão, linguadinhos fritos com açorda e jaquinzinhos fritos. Tudo fresquíssimo, confecção canónica.

 

Então, em que ficamos? Por que carga d’água os locais, que veem facilmente na cidade superioridades que não existem, e que tendem a ser, mais vezes sim do que não, terrivelmente paroquiais, desconfiam dos seus estabelecimentos?

 

A meu ver, a multiplicação absurda de restaurantes para servir o turista, servindo o lixo a que se convencionou chamar cozinha internacional; mais o falso rústico e o falso tradicional, fundado por gente empreendedora que de comer sabe pouco e de cozinhar ainda menos; as cadeias internacionais que chegam com conceitos;  a prodigiosa quantidade de textos, programas de televisão, notícias em torno do tema da restauração, opiniões de nutricionistas, entendidos, amadores e especialistas:

 

Tudo concorreu para este sentimento de que é necessário regressar à autenticidade. E como lá no Norte está o campo, e a gente que diz palavrões, e esse povo que não é moderno, nem cosmopolita, nem socialista, tem que estar, fatalmente, a boa cozinha.

 

Fantasias. Que de socialistas há avonde, isso é praga que aterrou no país todo, mas boas cozinhas nem por isso. Salvo se, já se vê, inquirirem junto deste vosso criado, que todavia também em Lisboa começa a estar habilitado a ministrar conselhos.

publicado por José Meireles Graça às 15:13
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Terça-feira, 19 de Março de 2019

Marcelo

A Marcelo chamei, no facebook, um “básico”. Uma boa amiga (feminista, das que me restam – algumas, mais radicais, já me puseram a um canto, sob a cominação de “machista”) discordou, achando que ele, de básico, não tem nada.

 

Não tem, de facto. O escrever à flor dos dedos nem sempre propicia a melhor escolha das palavras.

 

Pior: outras pessoas cuja opinião respeito, e que ademais conheceram o homem pessoalmente, descrevem-no como “brilhante”.

 

À minha amiga, que não me comprou o discurso, respondi como segue. E como ninguém duvida de que Marcelo se vai recandidatar, e que a recandidatura será um passeio, parece-me a altura boa para me repetir e explicar como vejo a peça. Razões por que, além de um perverso gosto meio masoquista de me ver isolado na opinião, aqui vai:

 

Marcelo sempre me pareceu um equívoco: não tem, numa vida de escrita e de magistrado da opinião, um dito original, uma frase ou pensamento que não seja uma cedência ao ar do tempo, uma recomendação de um livro que valha a pena porque provavelmente nunca leu senão badanas ou best-sellers; não tem sobre o país, a UE e o mundo senão ideias comuns a qualquer medíocre recém-licenciado em relações internacionais; e o brilhantismo que se lhe reconhece em táctica política decorre da manipulação, em que é mestre, e do faro político para lhe permitir cambalhotas com validade a seis meses. É brilhante - um brilho de lantejoulas. E a sua simpatia, que se toma por natural, não é mais do que um expediente de angariação da admiração de multidões beatas para lhe lisonjear o ego desmedido - quem gosta de toda a gente não gosta de ninguém. A ideia que tem da estabilidade é que é um fim em si e não um meio, porque não sabe para quê. Não é comunista, é crente (provavelmente para garantir a salvação, que aquela peça não dá ponto sem nó) e daria um bom rei constitucional. É um péssimo presidente e deixará, provavelmente, boa memória, como deixam frequentemente os bons vendedores de banha da cobra que não foram descobertos.

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publicado por José Meireles Graça às 21:14
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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

In memoriam

Fui hoje à terra do meu avô paterno, para o enterro de uma filha dele. Morte devida há muito, que uma doença debilitante e dolorosa tinha transformado a vida num calvário, todavia suportado com um estoicismo, suspeito, alimentado a fé.

 

Era uma tia que tomou conta de mim num tempo que não lembro, por ser muito novinho. E contou-me, já muito doente e acamada, que o bebé, desde que lhe enchessem adequadamente o bandulho e estivesse seco, queria era dormir, embalado pela camioneta em que se fazia o traslado de uma aldeia para outra, cujas passageiras miravam com encanto o sossego do anjinho, espantadas, parece, com as longas pestanas que eram o enlevo dela.

 

Isto me disse de mão dada comigo, a voz já fraca, imensamente contente pela minha rara visita.

 

Não sei o que foi feito das pestanas e receio que o sono nem sempre seja tão descansado como, a acreditar na história, já foi.

 

Tivesse eu a mesma fé, e a mesma tranquila generosidade que a levou a servir os outros toda a vida – o marido, a filha, o irmão, meu Pai, que assistiu nos últimos meses de vida, e estaria certo de que do lado de lá encontraria as palavras certas para lhe agradecer, se do lado de lá ainda é preciso falar.

 

E daí talvez não, a não ser com uma licença especial. Que se no Além houver a justiça que neste falha, não estaríamos decerto no mesmo lugar.

 

Adeus, tia Fernanda.

publicado por José Meireles Graça às 16:44
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Segunda-feira, 11 de Março de 2019

E a taça por tirar mais combóios de circulação vai para...

2019-03-11 CP descarrilamento.jpg

Com a meta das eleições à vista a CGTP está a colocar todas as suas fichas num forcing contestatário e grevista para ver se, num sprint final, o PCP consegue finalmente deixar para trás o lastro de se ter submetido ao PS durante toda a legislatura que lhe custou uma humilhação inédita nas últimas eleições autárquicas onde perdeu para os socialistas um terço das câmaras que ainda mantinha dos velhos tempos da tradicional implantação autárquica comunista. Até para actrizes queques que nunca tinham posto um pé na outra banda perdeu câmaras no coração da cintura industrial de Lisboa.

E há-que lhe reconhecer que tem conseguido impôr perturbações de serviço em todos os serviços, públicos, que no sector privado onde a falência na prestação dos serviços pode conduzir rapidamente à falência das empresas e à destruição dos empregos que elas sustentam as equações são outras, cuja prestação os sindicatos têm capacidade para perturbar. A perda de peso eleitoral do PCP não sido acompanhada por perdas evidentes na sua capacidade de prejudicar toda a gente paralizando os serviços públicos de que toda a gente, principalmente a que depende mais deles por falta de meios para recorrer a alternativas, os pobres, depende.

Será este forcing suficiente para recuperar o atraso com que o PCP entrou na recta da meta eleitoral?

O Público fez simpaticamente as contas e publicou um balanço dos últimos 2 anos, 2017 e 2018, os anos do miolo da legislatura. Citando, 

  • "Em 2017 e 2018, a CP suprimiu nas linhas do Oeste, Alentejo (Casa Branca – Évora) e Algarve 3322 comboios, dos quais 2411 devido a falta de material. As greves explicam a supressão de 855 comboios nestas linhas, tendo havido ainda 56 circulações que não se realizaram devido a ocorrências ligadas com a infra-estrutura. Estes números mostram que no conjunto destes 720 dias, circularam menos cinco comboios por dia do que estavam planeados, devido a este conjunto de circunstâncias."

A incompetência do governo António Costa para manter os comboios da CP em circulação foi responsável pela supressão de 2411 composições nestas linhas por falta de material circulante, que é a consequência das avarias a que o material envelhecido vai sendo crescentemente sujeito, da incapacidade de as reparar por falta de peças sobressalentes, que para ser suprida obriga por sua vez a imobilizar composições para as canibalizar retirando-lhes peças para substituir as peças avariadas nas composições que se tentam manter em funcionamento, da falta de pessoal nas oficinas, reclamam os sindicatos, do recurso ao aluguer de comboios à Renfe que se revelam ainda mais caquéticos que os da CP chegando a deixar cair o motor em plena linha, à absoluta falta de investimento, tanto na reposição como na aquisição de composições novas, tudo radicando na falta de dinheiro que o governo optou por canalizar, talvez com perspicácia eleitoralista, para aumentos salariais da função pública em vez de manter os serviços ao público em funcionamento. Talvez.

Já as greves devidas à competência da CGTP para paralizar os serviços públicos foram responsáveis pela supressão de apenas 855 composições nas mesmas linhas, um terço das supressões devidas à incompetência do governo para os manter a funcionar.

Com uma desvantagem de um para três é muito improvável que com a meta à vista o PCP consiga anular o atraso que que chegou a esta etapa final da legislatura.

Vai perder a corrida, e vai-se tornar até dispensável para apoiar o próximo governo António Costa a quem bastará o apoio do BE para continuar a governar. Quase cem anos de história delapidados no apoio a um vigarista incompetente. Merecidamente.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:28
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Domingo, 10 de Março de 2019

Feminismo. A teoria e a prática.

2019-03-10 Costa, Tadeu, Palla.jpg

A boleia que o primeiro-ministro António Costa apanhou das manifestações feministas do dia da Mulher pondo a render a militância feminista da mãe no seu roteiro meticuloso para pescar votos em todos os segmentos do eleitorado, desta vez lançando as redes ao eleitorado sensível aos direitos das mulheres, como recentemente as tinha lançado ao eleitorado sensível às questões raciais numa pergunta boçal à deputada Assunção Cristas, fez-me recordar a minha mãe.

A minha mãe nunca foi feminista, nem nada que se aproximasse.

Mas logo que acabou o liceu começou a trabalhar nos CTT onde ficou até se reformar, integrou concursos para cargos de chefia dos CTT onde pela primeira vez participaram mulheres, não complementou o apelido de nascença Vilarinho com o apelido Pires do meu pai, e cada um tinha a sua conta na Caixa Geral dos Depósitos.

Em casa tinhamos criada, pelo que na distribuição das tarefas domésticas não havia uma distinção assim tão evidente entre o papel da mulher e o papel do marido, a não ser na culinária, onde ela se dedicava a coisas mais de fundo, nomedamente na doçaria, e ele se limitava a petiscos ao sábado de manhã, que fazia com alguma arte, e ao arroz minhoto magistral, que tinha aprendido com a minha avó. E nenhum deles mandava claramente mais do que o outro.

As únicas coisas que talvez a pudessem associar aos estereótipos do binário de género heteropatriarcal eram nunca ter fumado, nunca ter usado calças, e nunca tirado a carta de condução por achar que conduzir lhe fazia nervos. E, vá lá, tricotar e fazer crochet.

Como eu não atribuía a nenhuma destas coisas uma conotação de submissão, e como a minha mãe toda a vida praticou sem pregar a igualdade de género, não tive a oportunidade de crescer num mundo heteropatriarcal sufocante nem de me formar nos valores da insubordinação contra as indignidades que impõe, principalmente às mulheres, por mais que alguns filósofos da moda insinuem que não, pelo contrário. Perda a minha.

E ao lembrar-me dela lembrei-me também de uma feminista encartada portuguesa, pioneira há décadas de causas igualitárias como a despenalização do aborto, e que pelo pioneirismo quase se pode reclamar titular do franchise em Portugal de Maio de 68 e do feminismo.

E lembrei-me porquê? Por semelhança com a prática da minha mãe? Não, por contraste com ela.

Como disse acima, a minha mãe manteve por toda a vida o apelido de solteira, nenhuma das duas mulheres com quem casei alterou o apelido por se ter casado comigo, e eu não tenho nada contra as pessoas que adoptam o apelido do cônjuge, nem contra o desequilíbrio estatístico abissal entre o número de mulheres e de homens que o fazem, que faz com que seja mais realista sem perder em rigor estatístico falar de mulheres que adoptam o apelido do marido do que de pessoas que adoptam o apelido do cônjuge. Apenas não foi assim que eu cresci e vivi. E, mesmo sem ter nada a criticar, não deixo de considerar, mesmo correndo o risco de cair na alçada dos vigilantes da ideologia do género, que também os há a par dos vigilantes da homofobia ou da misoginia, a adopção do apelido do marido um indício de uma submissão das mulheres aos homens em que não fui educado.

Já a tal feminista mítica casou três vezes e ficou para sempre com o apelido do segundo marido. Não o do primeiro, não o do terceiro, mas o do segundo. Não sei porquê, nem me interessa, nem tenho nada a ver com o assunto, nem tenho, como expliquei acima, nada a censurar ou sequer a criticar.

Mas não consigo deixar de pensar que, se a minha mãe praticou sem pregar a igualdade de género, há feministas que a pregam sem praticar.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:52
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Terça-feira, 5 de Março de 2019

Agressões domésticas e o juiz Neto de Moura

2019-03-05 Neto de Moura.jpg

A discussão que se levantou sobre o juiz Neto de Moura é toda ao lado do problema.

O problema real que existe é a falta de protecção do Estado às vítimas de violência doméstica referenciadas, que constituem uma parte muito significativa das vítimas de feminicídeo (também há vítimas homens mas a desproporção é tão grande que lhe podemos chamar feminicídio correndo o risco de ser politicamente incorrecto mas sem correr grande risco de erro estatístico).

O problema é a desvalorização do risco que as mulheres queixosas com precedentes de ameaças ou agressões correm quando vencem a inércia e a vergonha e apresentam queixa, a abstenção de usar medidas de protecção eficazes que legalmente poderiam ser usadas, como a prisão preventiva ou meios electrónicos de vigilância da localização dos agressores e das vítimas, a anulação de decisões prévias com base em tecnicalidades sem compensar as decisões anuladas por outras de eficácia de protecção da vítima pelo menos equivalente, como por exemplo a substituição de pulseira electrónica recusada pelo agressor por prisão preventiva, a suspensão de penas, e muitas outras haverá que os que vivem o problema por dentro conhecerão, todas contribuindo para criar uma circunstância em que a reincidência evitável é a norma e a grande maioria dos casos que culminam no assassinato da vítima poderia ter sido evitada.

O problema são todos os que as deviam proteger e não as protegem, polícias, ministério público e juízes, e até legisladores, se for necessário acrescentar legislação à que já existe, o que normalmente não é o caso porque normalmente a legislação existente é suficiente para resolver os problemas desde que haja determinação em resolvê-los.

O problema não se resolve apontando um juíz ridículo por fazer e escrever nos acordãos afirmações arcaicas e ridicularizando-o ou defendendo o seu direito ao bom nome, que é para onde a discussão pública sobre o juiz Neto de Moura derivou.

Resolve-se identificando e responsabilizando todos os que, podendo tê-lo resolvido em circunstâncias em que intervieram e tinham meios para o resolver, não o resolveram. O juiz Neto de Moura, mas também todos os outros juízes do colectivo que participaram na decisão com ele, e de outros que participaram em decisões como a dele, os magistrados do Ministério Público que desqualificaram os crimes que lhes foram reportados e, desqualificando-os, abrandaram as obrigações de protecção das vítimas queixosas, fazem todos parte do problema.

E é isto que devia andar a ser discutido, e não as citações do juiz Neto de Moura e o seu direito ao bom nome.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:46
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Sábado, 2 de Março de 2019

O teste do algodão da justiça portuguesa

2019-03-02 Críticos Neto de Moura.jpg

Pessoalmente considero o juiz que faz acordãos a citar a Bíblia um distúrbio social, não por citar a Bíblia nem por ter uma visão troglodita do papel dos homens e das mulheres na sociedade, mas por citá-la e usar as citações para oferecer a agressores domésticos uma imunidade que a lei não lhes oferece e que com frequência tem sido usada por eles para escalar as agressões até ao assassinato das mulheres queixosas. Penso que não sou o único a pensar assim.

Mas ao ameaçar processar criminalmente todos os que o criticam ele está afinal a assumir uma utilidade social: está a revelar que em Portugal a liberdade de opinião é limitada quando o alvo da opinião são magistrados judiciais que, ao contrário do que acontece quando os criticados são políticos ou polícias ou outros cidadãos quaisquer e as críticas que lhes fazem são julgadas por magistrados que não fazem parte da sua classe, julgam dentro da classe as críticas que lhes fazem. Ou da casta.

E está também a dar-lhes uma (última?) oportunidade para mostrar que estão na Justiça para servirem a justiça e não para se servirem a si próprios protegendo-se uns aos outros. Será o teste de algodão.

Veremos se estão à altura do desafio.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:25
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