Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

Jornal de campanha: aviso aos pais

Sabem onde estão os vossos filhos a esta hora?

2019-05-15 Pedro Marques escola.jpg

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:00
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Jornal de campanha: proximidade

O cabeça de lista do PSD às eleições europeias teve a ousadia de sobrevoar de hilicóptero as zonas assoladas pelos incêndios de 2017. A máquina de spin socialista não apreciou esta visão distante dos dramas e despachou-o com um twit a mostrar que "Em 2017, quando foi preciso, @pmdjmarques e @antoniocostapm não sobrevoaram as zonas dos incêndios, foram ao terreno, falaram e confortaram os afectados, procuraram responder à situação em articulação com as autarquias".

Proximidade, proximidade, proximidade.

2019-05-15 Twitter PS incêndios.jpg

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:46
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2019

Disco riscado

Aquando da Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão do BES o país pasmou com a litania de trafulhas e mentirosos que viu desfilar para explicar o buraco que ainda andamos a pagar. Aquilo era gente paga a peso de ouro, cobertos de condecorações alguns deles, e que durante décadas povoou os jornais de economia e as revistas do beautiful people.

 

Ricardo Salgado, o mais consistente dos aldrabões, ficou definitivamente marcado como o epítome do vigarista-mor e está ainda enredado, e presume-se que até que morra, numa floresta de processos judiciais que se vão arrastando sem fim à vista.

 

Se for a um lugar público é seguro que pode contar com uma pateada e desacatos de reais ou imaginários ex-clientes lesados pelas moscambilhas que engendrou para evitar a débâcle. E os vexames a que se exponha contam com o aplauso unânime dos indignados, que são toda a gente. Esta aliás, se consultada, dirá furibunda que todas aquelas personagens deveriam estar na cadeia, o juiz que os condenasse atirar ao mar as chaves das celas, e os bens que ainda detenham, por si ou interpostas pessoas, confiscados a bem do interesse público.

 

O país governado pela opinião pública, ou o que dela se adivinha nas redes sociais, é um lugar violento, repassado de crime e castigo; e os procuradores da populaça, na nossa democracia representativa, fazem o possível para satisfazer a sua clientela eleitoral abundando na indignação contra estes malvados, que expõem ao ridículo em inquirições públicas (não que os inquiridos precisem de ajuda – eles próprios alimentam o escárnio,  com o expediente de não estarem calados, evidenciando o que lhes vai nas cabeças retorcidas e nas almas emporcalhadas).

 

A recente audição de Joe Berardo foi um clímax: a personagem exprime-se num português sumário, sob a desculpa de que é fluente em inglês, presume-se de apreciador de pintura, com toilette a condizer, é ingenuamente insolente na sua franqueza despudorada, e deixa de modo geral a ideia que nunca na vida terá ganho um cêntimo honestamente – uma bênção para os humoristas, que um exemplar destes, se fosse inventado, não seria credível. A gente chega a ponto de se esquecer que Berardo foi condecorado por dois presidentes da República, um deles com a reputação, provavelmente justa, de ter sido a mais proba das personagens que passou pelo lugar, que durante décadas foi apresentado como um exemplo de sucesso do capitalismo português, e que a colecção de lixo que juntou, sob conselho de um especialista metido a marchand, goza de sólida reputação nos cognoscenti de arte contemporânea, e de grande sucesso de visitas no edifício grotesco que Cavaco mandou construir para celebrar o seu consulado de dom Joãozinho Segundo europeísta.

 

Berardo disse, a dado ponto, que a operação com o BCP foi o “pior desastre da sua vida”.  Foi. Sucede porém que, não fora o ambiente do tempo, e era desastre ao qual teria sido poupado. Porque Berardo foi induzido – a história, mais do que plausível, conta-a aqui o meu colega de blogue. Claro que, no processo, Berardo contava com gordas mais-valias, e estas eram a moeda de troca para servir de peão a Sócrates e à sua camarilha, que se faria pagar com nomeações de protegidos para lugares regiamente remunerados, adjudicações de obras faraónicas aos empreendedores do regime, e comissões pantagruélicas para ele e os outros capos – a ideia de que Sócrates pôde agir sem que as suas segundas e terceiras figuras nunca suspeitassem de nada pode ser, e é, engolida pelo eleitorado distraído com o futebol, que é quase todo, mas sofre de patente inverosimilhança.

 

Quer dizer que o depoimento de Berardo na Comissão de Inquérito nos pode ter dado uma incontrolável vontade de rir, mas disso só não viria mal ao mundo se estivéssemos conscientes de que estamos a rir de nós, porque o lugar do depoente deveria ser ocupado pelos que escolhemos, e continuamos a escolher, para nos pastorear, isto é, socialistas de vária pinta e feitio.

 

Foi assim com Berardo. E com Salgado, foi muito diferente? Convém lembrar que o Banco Espírito Santo, nacionalizado em 1975, só começou um atribulado processo de reprivatização em 1986, com o apoio de uma instituição francesa porque o capital se havia evaporado (os revolucionários de 1975 não tinham conseguido acabar com os pobres, que de resto era o seu objectivo secundário, mas tinham conseguido acabar com os ricos). O capitalismo hiperconservador e sólido da Velha Senhora foi substituído pelo capitalismo assente na dívida e na engenharia financeira, com grande sucesso – o BES chegou a deter mais de um quinto do mercado bancário, mais de dois milhões de clientes e o primeiro lugar no crédito às PMEs. Mas a crise de 2008 veio expor não apenas um gigante com pés de barro mas uma construção delirante de perdas ocultas numa floresta de empreendedorismos familiares sortidos, tudo num contexto de promiscuidades com o poder do dia.

 

Isto significa que Salgado pode ter sido um Ícaro financeiro a quem, por ter subido de mais, depressa de mais, derreteu a cera das asas. Outro o ambiente político e social, outra a supervisão, e a crise abalaria sem necessariamente destruir.

 

Resta saber se destes dois desastres se retiraram lições. Não retiraram, desde logo porque a condenação pública, e a virtuosa indignação que a acompanha, obscurece o facto de que nada, absolutamente nada, garante que desastres da mesma envergadura não se possam repetir. Porque ao condenar os autores materiais dos crimes, onde os há, sem curar de identificar quem devia ter sabido e não soube, quem devia ter agido e não agiu, para não falar de quem foi cúmplice no melhor dos casos por omissão, o que se está a fazer é criar as condições para que os insucessos se voltem a repetir.

 

Dir-se-á que, não existindo já praticamente bancos nacionais, o BCE se encarregará de garantir que na banca, doravante, vigarices e loucuras não haverá. É uma fé extraordinária: o pessoal decisório é o mesmo ou da mesma igualha, oriundo das mesmas coudelarias, e no crédito à habitação e ao consumo não há sinais sérios de mais prudência; os gestores continuam a ser remunerados principescamente, com descaso da existência ou não de ajudas do Estado, e com a passividade deste perante os patentes abusos na cobrança de serviços bancários a depositantes indefesos, como se houvesse alguma contrapartida na remuneração de depósitos; e na supervisão continua a mesma gente proveniente do meio supervisionado ou, pior, de uma Academia que recobre uma ignorância quase sempre fatal dos mecanismos da criação de riqueza com albardas doutorais frequentemente esquerdizantes.

 

Os americanizados, que são legião, julgam que com a reforma das leis penais e processuais, diminuindo os direitos dos arguidos e enchendo as cadeias de condenados, se resolve o problema. Como se, no sol terreno que lhes serve de farol, que são os EUA, houvesse falta de troca-tintas financeiros; e como se atropelos à separação entre património das pessoas singulares e colectivas (patentes no caso de Berardo) não implicassem, por extensão, a multiplicação dos abusos que, já hoje, a Autoridade Tributária e a Segurança Social praticam sob o piedoso nome de reversões.

 

Na próxima crise cá nos encontraremos, com outros protagonistas e histórias muito diferentes, com a secreta esperança de novos Berardos que proporcionem copiosas barrigadas de riso. E pode ser que, então, já haja meios para os trancafiar expeditamente, e lhes catar o que, real ou putativamente, tenham ao sol.

 

Costa, hoje, confessou-se “chocado” pelo “desplante” de Berardo, do mesmo modo e pelas mesmas razões que cristãos-novos iam assistir aos autos-de-fé da Inquisição – não fosse alguém julgá-los heréticos; e Marques Mendes, uma aguadeira do regime, resume bem: Berardo teve um “tratamento que parece privilégio”. Não faz porém as perguntas, nem as denúncias, certas: i) Quem lho deu, e porquê; ii) Onde estão as pessoas que estavam por trás dos paus-mandados que lho deram; iii) Por que acreditamos que as mesmas pessoas, isto é, Costa e a sua entourage, não são capazes de engendrar os mesmos desastres, sob outra forma porque as circunstâncias serão diferentes, mas com o mesmo pano de fundo de promiscuidade entre o Estado e a economia, que é a receita que julgam que convém ao país?

publicado por José Meireles Graça às 19:58
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Domingo, 12 de Maio de 2019

Eutanásia

2019-05-13 Zurique.jpg

A Rosa entrou pela porta num pranto.

- O que é que aconteceu?

- A Zurique foi atropelada.

[A Zurique não é nenhum dos gatos cá de casa, é a gata da prima dela, mais ou menos contemporânea da nossa Laranjinha, mas ela tem uma ligação muito próxima com a prima, que viveu cá em casa quando veio fazer o estágio de advocacia em Lisboa e ela ainda era bebé de fraldas, e também com a Zurique, que a prima levou para casa quando nós já tínhamos uma experiência acumulada bastante apreciável de acolhimento de gatos em casa e portanto ela apoiou com know-how e logística, e afectividade.]

- Morreu?

- Não, está viva, mas está mal.

- Como foi?

- Ontem à noite ela chegou a casa com os miúdos e a Zurique não estava em casa, tinham deixado uma janela mal fechada e ela tinha mais uma vez saído [há uns meses a Zurique tinha andada desaparecida uma semana e só foi encontrada a alguns quilómetros de casa graças a aníncios colocados nas redes sociais], e quando foram à procura dela deram com ela atropelada na rua. Ela levou-a uma clínica veterinária perto de casa, onde a observaram e lhe fizeram uma radiografia, onde viram que tem o esterno partido mas não lhe detectaram lesões internas graves, e a medicaram com analgésicos, mas a Zurique passou a noite a gemer em sofrimento. E ela hoje de manhã tem um compromisso profissional a que é impossível faltar e deixou-a em casa para ir trabalhar, e pediu-me para ir lá a casa ver como ela está e levá-la à nossa veterinária, em cuja avaliação confiamos mais.

[E, chegados aqui, a gata atropelada em sofrimento apesar de medicada para as dores, alguma incógnita sobre se é recuperável ou não, fiz a pergunta]

- E ela está preparada para ser confrontada com tomar uma decisão sobre eutanásia, se a veterinária recomendar?

[Os gatos não são pessoas.

Mas há pessoas que desenvolvem com os gatos relações afectivas suficientemente intensas para lhes ser muito penoso sabê-los a sofrer, mesmo se os gatos exteriorizam muito pouco a dor, para sentir por eles compaixão semelhante à que sentiriam por um humano próximo delas. E ninguém é obrigado a sentir compaixão por gatos, de facto ninguém é sequer obrigado a sentir compaixão por humanos, mas quem tem capacidade de a sentir, por uns e/ou por outros, também não é obrigado a solidarizar-se com a falta de compaixão de quem não a tem, ou sequer de a considerar dentro do domínio da decência humana. Resumindo, há quem sinta compaixão pelo sofrimento dos gatos.

Em todo o caso, o que me fez fazer a pergunta foi um raciocínio muitos simples. Eu gostava muito que a Zurique sobrevivesse e recuperasse das lesões e ficasse boa, mas se a veterinária avaliasse que não conseguiria resistir às lesões e comulativamente estivesse em sofrimento preferia que fosse eutanasiada e cessasse rapidamente o sofrimento a que tivesse uma agonia dolorosa, como parecia estar a ter.

Faria o mesmo raciocínio se em vez de uma gata fosse um humano, nomeadamente um humano com quem eu tivesse uma relação afectiva? Não sei, e respondo assim mais por nunca ter sido confrontado com uma decisão desta natureza do que por ter grande dúvida sobre o que decidiria se fosse.

Mas suponho que já convivi com uma decisão desta natureza, mesmo sem, por pudor, a ter tentado clarificar. A minha mãe morreu nos cuidados intensivos de um hospital depois de ter estado vários dias inconsciente e mantida viva através de ventilação mecânica e outros meios químicos de que também não me procurei inteirar em pormenor, ligada à máquina como se costuma dizer. Visitava-a diariamente, falava com ela, mais porque nos filmes se diz que as pessoas naquela situação conseguem ouvir e compreender, e a ser verdade cada palavra que lhes dizemos merecer ser dita e ser uma oportunidade que não devemos perder, do que por me parecer que de facto ela estivesse a ouvir e compreender, porque me parecia que não. E uma hora de jantar, algumas horas depois de lá ter estado, o médico telefonou-me a comunicar o falecimento, que aceitei com o conformismo de quem estava à espera da notícia sem nenhuma esperança de receber uma diferente.

Nem durante o período em que foi mantida viva artificialmente, nem quando me comunicou o falecimento, confrontei o médico com o que estava a ser feito, se era o melhor para ela, se haveria alternativas mais eficazes, se teria sido possível prolongar-lhe mais a vida. Confiei no juízo dele, não quis interferir, e respeitei-lhe as decisões. Mesmo estando convencido que a última decisão dele terá sido desligar voluntariamente a máquina por ter avaliado que já não havia nada a fazer para a trazer de volta e portanto não valia a pena continuar a prolongar-lhe uma vida que já não era bem vida, mesmo acreditando que ela não estaria a sofrer. Desligar a máquina deve ser uma decisão suficientemente pesada para um médico não necessitar de ter os familiares dos doentes a moer o juízo a quem a toma com dúvidas e recriminações. E eu não lho quis moer.

E para dizer que, resumindo, estou convencido que não foi Deus que decidiu terminar-lhe a vida naquela hora mas o médico num processo de decisão grave mas respeitável e que eu respeitei, e que estou convencido que todos os dias muitos médicos se vêem confrontados com a decisão de desligar máquinas podendo-as manter ligadas, e que são decisões nobres, mesmo se a alternativa de manter os doentes vivos e eles virem a recuperar fosse infinitamente mais apelativa para todos. Se fosse possível.

E falei de casos em que se põe termo à vida de um doente sem o envolver na decisão por cessar a esperança de a recuperar, seja para lhe pôr fim a um sofrimento atroz, seja pela razão ainda menos premente de não ter sentido manter artificialmente uma vida sem viabilidade, nem sequer entrei por casos em que é o próprio doente a, com as expectativas que tem, decidir que não quer continuar a viver e pedir ajuda para morrer condignamente e sem sofrimento.

E não vi nenhum crime nos factos que descrevi nestas linhas, vi apenas afecto, compaixão e responsabilidade.]

- Está, se for essa a opinião da veterinária.

Enquanto ela se preparou e não preparou para sair o tempo foi avançando, quando passou pelo trabalho da prima para ir buscar as chaves de casa a prima já estava despachada do compromisso inadiável e foram as duas, e quando chegaram a casa a Zurique já descansava em paz. Sepultaram-na sem ter que tomar uma decisão sobre eutanásia.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:58
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Sábado, 11 de Maio de 2019

Testa de ferro

2019-05-11 Joe Berardo.jpg

Vamos fazer um exercício de supônhamos.

Suponhamos que somos o primeiro-ministro de um governo socialista.

Suponhamos que no país há um banco privado que, por ter sido criado de raiz como um caso de almanaque, atingiu uma dimensão e um sucesso sem paralelo na história do país.

Suponhamos que, sendo socialistas, e porque acreditamos que a gestão pública cria mais valor que a gestão privada, ou que um banco público pode ser usado para financiar projectos de investimento alinhados com a estratégia económica do governo e portanto mais válidos para a economia e a sociedade, ou até que dispondo de um banco público podemos canalizar dinheiro para os nossos amigos, ambicionamos, se não nacionalizar esse banco privado, pelo menos entregar o seu controlo a gestores de confiança do nosso governo.  E que os gestores actuais são até ligados a organizações muito longe do nosso governo, como a Opus Dei.

Suponhamos que o banco público tem, porque há muita liquidez no mercado, muita liquidez.

Então, poderiamos ser tentados a ordenar ao banco público para comprar uma posição de controlo accionista no banco privado.

Mas suponhamos que a gestão do banco privado tinha ao longo dos anos conseguido blindar os estatutos de modo  blindar o seu próprio poder contra o dos accionistas e proprietários do banco através de uma provisão estatutária que limita os direitos de voto de um accionista individual a 10%, mesmo que tenha 20%, 50% ou até 80% do capital do banco.

Então, ordenar ao banco público a aquisição de grandes lotes de acções do banco privado não seria suficiente para firmar uma posição de controlo da sua gestão.

Suponhamos que em vez de o banco público comprar grandes lotes de acções do banco privado elas fossem adquiridas na mesma quantidade mas por diversos investidores independentes uns dos outros, cada um conseguindo obter 10% dos direitos de voto, sendo que nesse caso bastariam 5 investidores independentes para conseguir obter os 50% dos direitos de voto suficientes para destituir a administração em funções e a substituir por outra votada por eles, até uma administração ligada ao banco público e da nossa confiança se eles decidissem apresentar e aprovar uma lista de administradores ligados ao banco público e da nossa confiança.

Suponhamos que os investidores independentes não tinham meios para adquirir parcelas tão significativas do capital de um banco tão grande, nem grande motivação para cederem com o seu dinheiro, e assumindo os riscos da operação, o controlo do banco privado ao banco público, para além da natural, mas limitada, disponibilidade para servir o interesse público e os desejos do primeiro-ministro, proprocionando-lho.

Suponhamos que o banco público montava um conjunto de operações de concessão de crédito aos investidores para terem meios de adquirir os lotes de acções do banco privado, garantindo-lhes, ao não lhes exigir quaisquer garantias pessoais para além das acções compradas com o crédito concedido, que o seu património pessoal não seria prejudicado se a operação corresse mal.

Suponhamos que toda a operação era orquestrada por nós, lembram-se que neste supônhamos somos o primeiro-ministro? com o apoio e a coordenação activa do governador do banco central e toda a disponibilidade da administração do banco público para financiar a operação.

Então, todas as condições estão reunidas para concretizarmos a aquisição do controlo do banco privado através da nomeação de uma administração da nossa maior confiança.

Suponhamos que mais tarde as acções do banco cujo controlo de gestão foi adquirido neste processo desvalorizam para um centésimo do valor a que foram adquiridas.

Então os investidores, sem meios para reembolsar o crédito que lhes foi concedido, entregam as acções que o garantiam. E o banco público que montou a operação fica a arder com uma garantia que vale um centésimo do dinheiro que tinha emprestado para a concretizar.

Suponhamos que uns anos mais tarde um dos investidores a quem o banco público concedeu crédito sem garantias para adquirir um lote de acções do banco privado que, em conjunto com os de outros investidores, contribuiu para substituir a administração que estava no banco por outra alinhada connosco, com o governo de então, e depois de esse crédito se ter revelado ruinoso para o banco público por as garantias não serem nem perto de suficientes para compensar o seu não-reembolso, é chamado a uma comissão parlamentar de inquérito para apresentar as suas razões para não ter reembolsado o crédito que o banco público lhe concedeu.

Suponhamos que ele se limita a contar a verdade, ou seja, que apenas aceitou participar na operação a pedido do banco público e depois de obter do banco garantias que o seu património pessoal não seria colocado em risco se a operação corresse mal.

Suponhamos que ao contar a verdade não terá querido ou conseguido esconder a satisfação por de facto o seu património pessoal não ter sido afectado pela operação, rindo.

E chegamos ao ponto onde estamos, um país a espumar de raiva por um devedor não pagar uma dívida ao banco e ainda por cima se rir por não ter que a pagar.

E nós, o governo da altura, relembrêmo-lo, enquanto o país se indigna com o pequeno testa de ferro da operação de grande envergadura que montámos com sucesso por termos atingido o nosso objectivo de substituir a administração do banco privado por uma da nossa inteira confiança e, distraído a indignar-se com ele, não se lembra de olhar para a operação para se indignar com quem a montou e orquestrou, para nós, rimo-nos ainda mais. Saímos por cima.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:02
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Movimento 5.7

Ontem o Movimento 5.7 promoveu uma conferência no Porto com o tema “A Europa e o Futuro”.

 

Os participantes eram Rui Moreira, Rui Ramos e Miguel Morgado.

 

Para quem não saiba, este Movimento agrega quem, no espaço da direita democrática e não-socialista, queira discutir e ver discutir fora de peias partidárias assuntos de interesse colectivo. E corresponde a um sentimento difuso de que, no sufocante ambiente social e político da geringonça, há valores de direita que, nem que seja pela negativa – não somos socialistas – justificam encontros, palestras, debates, em suma, que nos conheçamos melhor, já que os adversários, e por que o são, conhecemos nós bem.

 

Como está a decorrer uma campanha eleitoral para as europeias, o assunto é oportuno.

 

Não está ainda disponível o podcast do encontro, por isso falo de memória. Mas vou já dizendo que, como esperava, os três palestrantes são europeístas convictos, e a moderadora (que, felizmente, não conhecia) da variedade militante, com, porém, diferenças de grau e de ângulo. E como eu acho a união europeia uma construção impossível e, se fosse possível, indesejável, digamos que o conjunto das intervenções não caiu particularmente bem na minha alma sensível.

 

Um ponto prévio: em Portugal toda a gente, com excepção dos comunistas, é europeísta. À Europa se atribuem as autoestradas, o SNS, a melhoria das condições de vida, o extraordinário benefício de podermos pagar com a mesma moeda dos alemães sem passar pela humilhação de a cambiar com uma local provavelmente cotada ao quilo, o Erasmus, as estrelas rock que incluem Portugal nos seus roteiros, os frequentes prémios internacionais no âmbito cultural, e todo o internacionalismo, e toda a modernidade, que conferem aos portugueses a enraizada convicção que Portugal é uma Dinamarca com ligeiramente menos dinheiro.

 

Tudo isto é falso, ou no mínimo uma verdade distorcida. Porque progresso houve em quase toda a parte, o que decorre da evolução da ciência e da tecnologia, e nada permite a certeza absoluta de que a famosa TINA da troica (There Is No Alternative) se aplique também ao caminho inelutável da integração europeia. E o progresso português recente é menor, nos últimos vinte anos, e não maior, do que o do resto do mundo e do que o do resto da Europa, cuja importância mundial não cessa ela própria de diminuir. Para utilizar uma linguagem cavaquista, a carruagem portuguesa no comboio da UE é cada vez mais próxima da última; e este vai mais devagar do que os outros.

 

Depois, o português que aqui não encontra emprego ou sequer uma remuneração condigna, vai, naturalmente, para a emigração, e esta é facilitada pela livre circulação; e, como disse com satisfação um dos conferencistas (creio que Rui Moreira) quase toda a gente tem hoje um filho que casa no estrangeiro, ou um parente que lá se radicou.

 

Este sentimento é tão esmagador que – Deus me perdoe – se houvesse um referendo em Portugal que perguntasse aos portugueses se queriam empandeirar as suas instituições estatais (presidência da república, assembleia da república, tribunais) por troca de um subsídio de 20.000 milhões de euros/ano, estes responderiam entusiasmados que sim, com a condição de o gauleiter ser louro, os juízes bebedores de cerveja morna e a legislação traduzida – como, em parte, já é.

 

Rui Ramos deteve-se longamente no Brexit, e confessou-se escandalizado por uma matéria de tanta transcendência ter sido decidida por uma maioria circunstancial de 4 pontos (52 contra 48%, num contexto em que a maioria dos jovens não votou, ou votou esmagadoramente a favor da permanência); e, se bem percebi, acha mal que escolhas desta complexidade possam ser feitas por uma opinião pública volátil, condenando a comunidade britânica a consequências gravosas que, por provocarem arrependimento, só podem ser sanadas com um novo referendo. Um que dê (suposição e conclusão minhas) um resultado inverso, caso em que a exiguidade da maioria já não terá verdadeiramente relevância, por o eleitorado ter finalmente feito a opção certa.

 

Rui Moreira também vê com maus olhos o Brexit, pelas mesmas razões, isto é, o Brexit é uma coisa que nos chateia, pá, os filhos da Ilha não são fiáveis nem sabem o que lhes convém (interpretação – muito – livre minha), e aproveitou para se lançar numa diatribe contra a disfuncionalidade do euro. Segundo Moreira (e eu, já agora) é uma moeda alemã que serve os interesse alemães, inconveniente para economias frágeis, mas a única maneira de a corrigir é aumentar massivamente as transferências para as economias periféricas, isto é, fazer crescer o orçamento da União para níveis americanos, exemplar federação onde estados como o Montana e o Wyoming recebem transferências significativas. Os outros dois intervenientes guardaram neste ponto um silêncio presumivelmente discordante, decerto porque um e outro entendem que a moeda única, por implicar uma gestão sã – isto é, sem défices – das contas públicas, já está mais do que suficientemente justificada.

 

Miguel Morgado, aparentemente o menos europeísta dos três, preferiu acentuar a importância do artº 50º do tratado de Lisboa, que consagrou o princípio de os Estados se poderem retirar da União, e que foi invocado pelo Reino Unido há dois anos, uma lembrança muitíssimo oportuna nas circunstâncias. Nas outras intervenções tinha perpassado uma sobranceria, para não dizer desprezo, em relação a esses malditos ingleses mais velhos, uma gente desconfiada de construções supranacionais e inconscientemente agarrada a nacionalismos obsoletos.

 

Na fase de perguntas, quis saber onde os conferencistas colocavam limites aos progressos da integração, agora que já se fala de “harmonização” fiscal e de exército europeu. Quase me fiquei pela pergunta porque a moderadora, incompreensivelmente com muito menos predisposição e gosto do que eu para me ouvir, me cortou nos prolegómenos, precaução que todavia não adoptou com o interpelante seguinte.

 

Rui Moreira confessou-se veementemente contra a competição fiscal, que acha desonesta; Miguel Morgado deu uma resposta algo críptica, mas na qual se podia perceber que, excepto quanto às implicações do euro, a Europa dele é a das nações, pelo que não vê com bons olhos um tal exército; e Rui Ramos disse nada.

 

Muito mais se disse, quem quiser que vá ver na página do Movimento.

 

Encerrada a sessão, fui a uma cervejaria na avenida da Boavista com alguns dos marcados reaccionários com que me dou. E, a páginas tantas, disse a um deles, que admiro pela acutilância da escrita e a independência das opiniões: Já viste que bom que seria se não houvesse a esquerda comunista e socialista? Sem sair da direita, já temos divergências que chegue.

 

Ele concordou com entusiasmo. Com o que a noite acabou numa nota de boa disposição.

publicado por José Meireles Graça às 19:14
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