Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Já não há Minhotas

Eu nasci e vivi toda a vida em Lisboa, não há ninguém mais lisboeta do que eu, mas sou minhoto dos dois costados, do Alto Minho, das vilas banhadas pelo Rio Minho de Melgaço e Monção, passei todas as férias grandes até ao fim da adolescência em Melgaço, e sou do tempo em que os minhotos sovavam militantes e incendiavam sedes dos partidos políticos que desconfiavam, com razão ou sem ela, na medida certa ou com algum exagero, que lhes ameaçavam o património.

E aprendi desde novo as histórias das heroínas do Alto Minho que se distinguiram, invariavelmente, na liderança da resistência das populações das vilas fortificadas aos sitiantes castelhanos. A Inês Negra de Melgaço que, depois de um cerco tão longo que tanto sitiados como sitiantes estavam exaustos, propôs resolver o cerco andando à pancada com uma das mulheres sitiantes, e depois de a sovar eles levantaram o cerco e retiraram, e a maior de todas, a Deuladeu Martins de Monção que, perante a iminência de acabar a farinha, andou pela vila a recolher toda a que havia, cozeu pão e foi para o alto das muralhas atirá-lo aos castelhanos e anunciar que de onde aquele vinha havia muito mais, o que, também exaustos como estavam, os convenceu a levantar o cerco e a ir embora.

Isto eram as Minhotas que cresci a evocar e admirar, e a ter a prudência de não me meter com elas.

Hoje as minhotas elegem governantes e autarcas do Partido Socialista.

Quando um certo governante socialista megalómano e nem sempre demasiado honesto decidiu deixar para a posteridade a sua marca passando um rolo compressor no país que estava e eregindo no seu lugar um país moderno, líder na nova economia, nas competências tecnológicas e nas energias verdes, as minhotas foram-lhe na cantiga e, dos vinte e quatro deputados eleitos pelos distritos do Minho, ofereceram-lhe doze.

Do país moderno fazia parte também, e desde que ele, chegado da província e habilitado e experimentado nas artes do projecto de habitações, tinha conseguido socializar com as elites culturais da capital, uma exigência arquitectónica que o país que estava não estava à altura de satisfazer. E nomeadamente o prédio Coutinho de Viana do Castelo. E tratou de lançar um projecto ambicioso para alindar as cidades portuguesas, talvez por motivos de exigência estética, talvez para estimular a actividade económica no sector da construção e nos sectores associados como os dos projectos de arquitectura e engenharia, o programa Polis. Através da criação de uma rede de empresas como, para alindar a cidade de Viana do Castelo, a VianaPolis (assim tudo pegado).

A VianaPolis decidiu que o maior problema que era necessário resolver para alindar a cidade era o prédio Coutinho.

Eu nunca reparei por aí além no prédio Coutinho, se bem que ele seja visível à distância, e nunca estive próximo nem dentro dele, não tenho uma ideia precisa da qualidade de construção. Esteticamente não me parece extraordinariamente feio nem bonito, não me parece muito diferente dos edifícios de bairros construídos em Lisboa como a Portela. Se eu fosse um traficante de droga disposto a investir em património imobiliário preferiria investir o meu dinheiro em solares, que não faltam na região. Mas se fosse de classe média, ou imigrante com algum dinheiro amealhado depois de anos de trabalho lá fora mas insuficiente para comprar a empresas sediadas em paraísos fiscais apartamentos em prédios reabilitados com classe e sem olhar a custos, não me pareceria aberrante comprar lá um apartamento. Uma coisa assim para remediados.

E os moradores que lá compraram as casas viram-se de repente ameaçados pelo governante-rolo-compressor que lhes queria demolir o prédio e libertar espaço para eregir a sua utopia arquitectónica através da empresa VianaPolis criada para o expropriar e demolir, para além de albergar ou contratar à peça gente para desenhar a nova cidade. A maior parte, provavelmente ponderando que não tinha capacidade para resistir à investida de uma empresa muito mais poderosa do que eles e propriedade do governo e do município acabou por ceder à ameaça e aceitou entregar os seus apartamentos, mas uma minoria resistiu ao longo de décadas às investidas do governo, da Câmara Municipal e dos tribunais que a queriam expulsar e expropriar compulsivamente.

Até que acabou o prazo determinado para serem despejados.

2019-06-28 Prédio Coutinho.jpg

Não vale a pena repetir a história que tem sido sobejamente relatada, como aqui, por um proprietário de uma fracção no prédio. Os moradores estão barricados nas suas casas e não permitem a entrada aos burocratas que lá estão para tomar posse administrativa delas protegidos por agentes da autoridade e empresas de segurança privadas, e sabem que se sairem as portas das suas casas serão arrombadas, as fechaduras mudadas, e não conseguirão voltar a entrar. Pelo que permanecem dentro de casa há dias. Cá fora a sociedade VianaPolis mandou-lhes cortar a água, a luz e o gás, e não deixa entrar ninguém no prédio, nem para lhes levar alimentos nem para prestar cuidados sanitários e de saúde aos moradores de idade avançada que lá estão barricados. E os familiares só lhes têm conseguido fazer chegar água e alimentos através de sacos içados por cordas das varandas. Como num cerco medieval.

Como num cerco medieval como os de Melgaço e Monção.

Nesta luta desigual e degradante o sitiante é protegido pelo anonimato. Ao contrário dos políticos e dos autarcas que são, estando a comunicação social virada para o fazer, escrutinados até aos fundilhos, os burocratas da empresa VianaPolis que dirige o cerco e a guerra aos moradores são anónimos, não são interpelados nem questionados pelos jornalistas pelas indignidades que ordenam, não são reconhecidos nem apontados na rua, na escola dos filhos ou na missa como os facínoras que querem matar os velhotes do prédio. São anónimos.

Mas os anónimos também têm nome, e se a comunicação social lhes preserva o anonimato e a privacidade não temos motivos para a secundarmos. Olhemos então para o presidente da sociedade VianaPolis e deixemo-lo sair do anonimato.

O presidente executivo da VianaPolis chama-se Tiago Moreno Delgado e é irmão do secretário de Estado das Infraestruturas do ministério liderado pelo marido da chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. É portanto um socialista instalado na teia. Mas a teia das famílias socialistas é tão densa e confusa que dela não se podem extrair grandes conclusões sobre as qualidades técnicas e humanas do gestor. Mas tem uma qualidade que no PS actual é muito valorizada. É um grande mamão nas tetas dos contribuintes. Em 2010 conseguiu impingir por ajuste directo de 75.000 euros a "Prestação de serviços no âmbito da coordenação dos projectos e empreitadas previstas no âmbito das actividades desenvolvidas pelo Programa Polis Litoral Norte" durante o prazo de 365 dias à Parque Expo ao mesmo tempo que era director da Parque Expo. Estando dotado da competência de mamar nos dois lados ao mesmo tempo e fazendo parte das famílias certas pode-se considerar perfeitamente integrado no regime socialista.

E as minhotas?

As minhotas, em vez de lhe invadirem o palácio para o sovarem e expulsarem violentamente da cidade, estão muito caladinhas a assistir ao cerco, a deixar exaurir os velhotes de solidão, escuridão, fome e fraqueza até se renderem e entragarem as suas casas ao sitiante.

As minhotas de hoje não são as Minhotas do meu tempo.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:03
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Quinta-feira, 27 de Junho de 2019

A metade do dobro

Paulo Ferreira, neste excelente artigo sobre a Lei de Bases da Saúde, acaba assim:

 

Pensavam que a preocupação essencial do BE e do PCP era ver de que forma se pode prestar às populações os melhores cuidados de saúde possíveis aos melhores custos para os contribuintes?
Desenganem-se. Nada disso os preocupa. Nem isso nem o caos no SNS. A cegueira ideológica contra tudo o que é privado é mais importante. E essa não tem cura nem no melhor hospital do SNS, que é provavelmente uma PPP.

 

Henrique Pereira dos Santos, ao partilhar o artigo no Facebook, disse o seguinte:

 

E se dúvidas houvesse.
A pergunta para a qual não tenho resposta é a seguinte: sendo isto mesmo assim, e é de facto, sendo a generalidade das pessoas razoáveis, o que leva pessoas razoáveis a votar nisto que as prejudica directamente?

 

Comentei:

 

Suponho que uma parte da explicação esteja na forma como se encara a igualdade. A esquerda diz que a saúde não é um negócio e isso apela às pessoas a quem repugna que alguém ganhe dinheiro com os cuidados de saúde que lhe presta, e que são, creio, a maioria das pessoas, irmanadas nessa rejeição. Por estranho que pareça, muitas pessoas preferem cuidados de saúde piores desde que o vizinho (ou o patrão, ou o desconhecido, o outro numa palavra) não os tenha melhores.

 

Fiquei a pensar nesta troca ligeira de opiniões e de que forma pode ela lançar alguma luz sobre a estranha contradição em que vivemos. É que não é só o Serviço Nacional de Saúde que todos os dias mostra o que lhe fizeram a redução do horário de trabalho, as cativações e os cortes no investimento: os jornais estão pejados de notícias sobre serviços públicos que não funcionam, atrasos injustificáveis, um clima geral de degradação e insatisfação, para não falar do colapso do Estado, ainda recente, na segurança e protecção de vidas e bens. O único serviço público que funciona aparentemente sobre rodas é o Fisco, cujos poderes para-totalitários, abusos sortidos e ganância predadora só há pouco e timidamente começaram a chegar aos meios de comunicação social, mesmo assim apenas porque a impunidade o levou a acções grotescas e de grande visibilidade pública, como o escândalo das penhoras de carros (aliás, já abafado) numa rotunda de Valongo.

 

De resto, os alegados triunfos na diminuição do défice baseiam-se na padiola juros baixos/aumento de receitas fiscais/cativações/corte nos investimentos, mas mesmo tendo em conta as reversões de cortes para funcionários e pensionistas é impossível que os cidadãos, até mesmo aquela maioria isenta de IRS, não se apercebam da vigarice do imposto sobre os combustíveis, dos aumentos demenciais de taxas e multas e da degradação dos serviços.

 

(Disse “alegados triunfos” porque o défice de 2010, objecto à época de uma grande baralhada quanto ao seu valor, foi revisto em 2014 para o bonito número de 11,2%, por sua vez sobre valores já anteriormente revistos. O tipo de trapaceiros que então estava no Governo é o mesmo que hoje lá está. E o celebrado Centeno já deu provas mais do que abundantes que é perfeitamente capaz de torcer a sua imaginária independência, e a sua propalada competência técnica, a tal ponto que pede meças ao mais prestigiado – in illo tempore – dos economistas saídos da coudelaria do PS, a saber Vítor Constâncio. A prova mais recente, numa litania delas, é esta entrevista em que declara que “eu tenho a certeza de uma coisa: o Serviço Nacional de Saúde, hoje, é melhor do que era em 2015. Não tenho nenhuma dúvida sobre isto”).

 

O Estado que nos entra todos os dias em casa pela televisão, a qual estende um microfone obediente e lisonjeiro a quanto governante sai do seu gabinete em Lisboa para se dedicar à propaganda, não é o Estado com que as pessoas lidam; o governo que temos não foi sufragado nem nos seus apoios, que não foram aventados na campanha eleitoral, nem nos seus processos, que assentam num respeito pelas contas públicas sem tradição no PS e sem arautos na mesma campanha; é tentador, mas não é realista, achar que o eleitorado é suficientemente estúpido e ignorante para comprar acriticamente a barragem de propaganda. Por que razão então o PS se mantém teimosamente à frente nas sondagens e ganhou as europeias?

 

Dizem muitos que há um divórcio crescente entre o eleitorado e os eleitos, do que é prova o teimoso abstencionismo a mais do que 50%. E, pressurosos, oferecem soluções para curar este afastamento, através da reforma das leis eleitorais. Sob o mérito destas reformas disse o que me parecia. Mas mesmo que as taxas de abstencionismo viessem para níveis aceitáveis, e mesmo que se acredite que as pessoas mais disponíveis para votarem à direita são as que ficam em casa, quem confiar em que a direita tem muito a ganhar, ou a perder, pelo mero efeito de os candidatos dependerem mais dos eleitores e menos dos directórios partidários, está a sonhar.

 

Parece hoje razoavelmente pacífico que, desde que a geringonça entrou nos costumes, a direita desunida entre os seus dois partidos tradicionais, mais os que entretanto foram surgindo, dificilmente pode chegar ao Poder, salvo em caso de nova falência. E ela, a falência, não sendo impossível, tornou-se pouco provável sem que a União Europeia rua, porque o novo PS tornou-se no bom aluno de que falava Cavaco e o BCE amparará até onde puder os bons alunos.

 

Se o PS se tornou no bom aluno que o PSD se orgulhava de ser, então o eleitorado não tem nenhum motivo forte para despedir o PS, nem aliás para sair de casa para ir votar. Acresce que Rui Rio, um evidente erro de casting, consegue ser, para a guerrilha partidária, um nabo, e para uma estratégia de conquista do Poder e reforma do Estado, uma inexistência.

 

Quanto ao CDS, esperar a herança dos votos perdidos do PSD tem-se mostrado ilusório: os antigos eleitores, agora abstencionistas, não fazem muita questão de mudar para quem só se distingue do resto da direita porque vai muito à missa.

 

A direita precisa de se unir em torno de um programa comum de mínimos, está mais que visto, e a oportunidade apresentar-se-á, pela lógica inelutável das coisas, depois das legislativas, daqui a três meses, a menos que o futuro, mesmo próximo, não rape da manga uma surpresa qualquer que altere tudo, como tem o detestável hábito de fazer. Essa surpresa bem podia ser uma coligação PS/PSD pós-eleitoral, que teria a grande vantagem de acabar de vez com o equívoco de se agregar debaixo da mesma bandeira o PSD de Passos Coelho, que não é socialista, com o PSD de Pacheco Pereira, que é.

 

Esse programa mínimo não pode ter como bandeira o equilíbrio orçamental, que por ser um dado adquirido já não separa águas. E não lhe chegará desmontar a intensa barragem de propaganda que é a marca de água do PS (Portugal não pára de bater recordes de endividamento), antes terá que apresentar uma estratégia clara e reformista para sustar o lento deslizar do país para a vizinhança dos mais pobres da Europa.

 

Tudo isto é relativamente pacífico para quem não sofra de infecção por qualquer dos vírus mutantes da doença socialista. Mas aqui tiro o meu antecipado chapéu a quem tiver de encabeçar a empresa. Porque é preciso vencer a resistência do eleitor que foi convencido por quatro décadas de lavagem cerebral que a igualdade material é motor de qualquer outra coisa que não seja estagnação, e que o segredo do progresso está num Estado melhor em vez de uma sociedade mais livre. À pergunta de Henrique Pereira dos Santos, que transcrevi cima, respondo com uma história verídica:

 

No tempo das inflacções altas, quando havia frequentes e nominalmente significativos aumentos de salários, administrava uma empresa com mais de cem operários, e o momento da revisão era sempre fonte de tensão. A uma funcionária que se me veio queixar expliquei pacientemente quais os critérios que havia seguido, e por que motivo, ligado à avaliação que fazia do desempenho, não atribuía a mesma percentagem de aumento a todos os trabalhadores. A moça, que de estúpida tinha nada, ouviu com atenção e respondeu: Olhe, Sr. Fulano, pode até ter razão mas eu preferia ter um aumento mais pequeno se todos o tivessem por igual.

 

Nem todos os eleitores serão assim, mas há uma quantidade impressionante que é. Dantes, quando as feministas ainda não se tinham transformado nas chatas obsessivas que hoje são, diziam ocasionalmente, com exagero, que as mulheres tinham de fazer tudo pelo dobro para que o seu mérito fosse reconhecido pela metade. Sem exagero, um político de direita tem o mesmo obstáculo: esforçar-se o dobro para convencer o eleitor de que com uma empresa grande todos, a prazo, beneficiam.

publicado por José Meireles Graça às 16:45
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Sábado, 22 de Junho de 2019

Guerra perdida

Compareci no hospital à hora marcada, em jejum, para o efeito de me enfiarem pelo rabo acima um gadanho para inquirir in loco dos desmandos de uma víscera indisciplinada. Como uma desgraça nunca vem só, a maré foi julgada oportuna para estadear dentro de um tubo, imóvel, ao som de várias escaramuças de metralhadora, por espaço de mais de meia hora, com o propósito de apurar o estado de uma outra, usualmente discreta, mas que em exame anterior havia dado de si indicações ominosas.

 

É bom de ver que o estado de espírito não era excessivamente bem-disposto. E a ausência da ração de três cafés com que há muito tempo começo um novo dia recomendava, para quem me conhece, a precaução de me passar ao largo.

 

A menina na recepção, após um pequeno tempo de espera, disse:

 

 ꟷ Prontos, Sr. José, é sempre em frente, na sala tal, serviço tal.

 

Logo ali, signifiquei carrancudo à funcionária que Sr. José era o meu jardineiro. E na tal sala outra recepcionista, igualmente novinha, simpática e ignorante, foi objecto do mesmo esclarecimento e da desnecessária informação de que o meu sobrenome figurava no papel que tinha na mão.

 

O médico, jovenzinho (há uns anos uma profusão de profissionais me começaram a parecer jovenzinhos) era surpreendentemente da mesma escola, mas prudentemente abstive-me de lhe dar a formação, antes do exame, em normas de trato de que carecia; guardei-a para depois.

 

Os resultados dos exames vieram e, como esperava (pratos ruins não caem abaixo do louceiro), não havia nada além da patine e das mazelas comuns para a idade e estilo de vida.

 

Fui mostrá-los ao meu médico, amigo antigo e anormalmente (para a profissão) sensato, na clínica que dirige.

 

Actualizou o meu cadastro, inquiriu, como habitualmente, se já tinha deixado de fumar e, como habitualmente, foi inteirado de que sim, há cerca de dez minutos, preencheu requisições para análises lá para Setembro, e como na recepção da clínica já tivesse havido o ritual do “Sr. José” para a frente e “Sr. Graça” para trás, contei-lhe a história – da clínica dele e do hospital privado onde torturam as pessoas a requisição médica e, sem requisição, se lhes dirigem como se pertencêssemos todos à geração mais bem formada de sempre.

 

Disse-me que era uma guerra perdida ꟷ a malta nova era incapaz de aprender fórmulas correctas de trato. Mas que, se eu julgava que a coisa era fácil de explicar, lhe mandasse um texto simples. Claro que o que ele queria era fechar-me a matraca, mas o expediente escolhido não era o mais indicado para mim, que tendo a ser incontinente verbal, e pior ainda por escrito.

 

O texto que lhe enviei, sumário e simples, figura abaixo.

 

Convenções sociais são as normas, geralmente não escritas, e que evoluem lentamente, pelas quais se regem os cidadãos nas suas relações com os outros. É em nome delas que ninguém em seu juízo comparece a um velório de pijama ou vai a um casamento em fato de banho; e é em nome da evolução dos costumes que já ninguém é tratado por “Vossa Mercê”.

 

Variam com o tempo e têm vindo há muito a mudar de mais para menos formais. Não cabe porém aos funcionários deste estabelecimento ou qualquer outro serem inovadores em matéria de trato social, mas antes respeitarem as normas comummente aceites, o que se verifica frequentemente não acontecer.

 

Razões por que abaixo se dão, em termos práticos, orientações sobre as fórmulas de trato que devem ser seguidas quando os funcionários se dirijam a utentes desta Casa de Saúde.

 

Em relação a utentes do sexo feminino

 

Quando exista e se conheça o grau académico, as senhoras devem ser tratadas por esse grau, por exemplo: Sra. Dra., Sra. Engenheira, Sra. Arquitecta, etc. Deste modo, e NUNCA simplesmente por Dra., Engenheira, Arquitecta, etc.

 

Se porém o funcionário não se estiver a dirigir directamente à pessoa mas a chamá-la de entre um grupo (o caso mais vulgar é a sala de espera) deverá, além do Sra. [grau académico] acrescentar o primeiro e o último nome, por exemplo: Sra. Dra. Maria Alves, Sra. Engenheira Antónia Ferreira, Sra. Arquitecta Francisca Silva, etc.

 

Quando não exista ou não se conheça o grau académico, as senhoras devem ser tratadas pelo nome próprio, precedido de Sra. Dona. Por exemplo, Sra. D. Maria, Sra. D. Antónia, Sra. D. Francisca, etc. É preferível, porém, se a pessoa tiver dois nomes próprios, usar os dois, como segue: Sra. D. Maria da Glória, Sra. D. Antónia Maria, Sra. D. Francisca da Anunciação, etc. NUNCA Sra. Maria, Sra. Antónia, Sra. Francisca, etc.

 

Se porém o funcionário não se estiver a dirigir directamente à pessoa mas a chamá-la de entre um grupo (por exemplo, na sala e espera) deverá, além do Sra. D. [nome ou nomes próprios], acrescentar o último sobrenome, tal como: Sra. D. Maria Alves, Sra. D. Antónia Ferreira, Sra. D. Francisca Silva, etc.

 

Em relação a utentes do sexo masculino

 

Quando exista e se conheça o grau académico, os senhores devem ser tratados por esse grau, por exemplo: Sr. Dr., Sr. Engenheiro, Sr. Arquitecto, etc. Deste modo, e NUNCA simplesmente por Dr., Engenheiro, Arquitecto, etc.

 

Se porém o funcionário não se estiver a dirigir directamente à pessoa mas a chamá-la de entre um grupo (por exemplo, na sala de espera) deverá, além do Sr. [grau académico] acrescentar o primeiro e o último nome, a saber: Sr. Dr. Mário Alves, Sr. Engenheiro António Ferreira, Sr. Arquitecto Francisco Silva, etc.

 

Quando não exista ou não se conheça o grau académico, os senhores devem ser tratados pelo nome próprio e último sobrenome, precedido de Senhor, quer os funcionários se lhes estejam a dirigir directamente quer estejam a ser chamados, por exemplo na sala de espera. Quer dizer, no caso, Sr. Mário Alves, Sr. António Ferreira, Sr. Francisco Silva, etc. Ou, alternativamente, apenas por Senhor seguido do último sobrenome, por exemplo Sr. Alves, Sr. Ferreira, Sr. Silva, etc., mas neste último caso apenas quando o funcionário se esteja a dirigir directamente ao utente.

 

A razão de ser desta distinção é que quando se chama uma pessoa na sala de espera devem ser limitadas ao máximo as probabilidades de confusão, para além de ser útil significar publicamente, pelo formalismo do trato, o respeito que à instituição merecem todos os clientes.

Em relação a crianças e adolescentes

 

Crianças podem ser tratadas pelo nome próprio e por tu, se muito novinhas, mas se chamadas, por exemplo na sala de espera, deve preceder-se o nome próprio e sobrenome de “menino” ou “menina”, por exemplo menino Mário Alves, menino António Ferreira, menina Francisca Silva, etc.

 

Com adolescentes, se ainda novos, pode suprimir-se o “senhor” e “senhora”, mas não se deve utilizar o “tu”.

 

É em nome do respeito devido a todos os clientes desta casa que se recomenda a atenção às normas de trato vigentes, cuja ignorância pode ofender, cujo atropelo não tem quaisquer vantagens e cuja memorização não apresenta particulares dificuldades.

publicado por José Meireles Graça às 16:28
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2019

Os twelve steps do caminho para o socialismo na Saúde

2019-06-14 Marta Temido.jpg

O caminho para o socialismo na Saúde tem doze passos:

1. Começa-se com hospitais com gestão privada que oferecem aos utentes do SNS cuidados melhores e a custo mais baixo para os contribuintes que os de gestão pública.

2. Deixam-se, com reduções de horas trabalhadas que provocam faltas de pessoal e cativações que não permitem comprar consumíveis nem manter os equipamentos a funcionar, os utentes dos hospitas públicos ao abandono.

3. É-se apanhado a aldrabar listas de espera para consultas e cirurgias com consequências mortais para os doentes cujos cuidados foram adiados que morreram à espera de os receber.

4. A culpa é do Passos.

5. Quer-se fazer cumprir o preceito ideológico que diz que todos os estabelecimentos do SNS devem ter gestão pública.

6. Mas os que têm gestão pública funcionam mal, e pior que os que têm gestão privada.

7. Monta-se uma manobra de divisão.

8. Revela-se ao país com justa indignação que os hospitais geridos por PPP internam doentes nos refeitórios e nas casas de banho.

9. Anuncia-se a não renovação dos contratos de gestão dos hospitais com PPP, os malandros que metem os doentes nos refeitórios e casas de banho.

10. Faz-se, para aproveitar a maioria circunstancial de esquerda, uma lei que obrigue as futuras maiorias para todo o sempre, baptizando com o nome de Lei de Bases da Saúde, e com este nome blindando-a contra futuras mudanças de ideias.

11. Para o Marcelo não chatear, que ele ameaça mas depois amansa facilmente, e para alimentar alguma ilusão de variedade na oferta eleitoral da esquerda e, com ela, alargar o mercado a todos os segmentos, os que querem PPP e os que não querem PPP, deixa-se cair a proibição de PPP para todo o sempre, mas previne-se que só em casos excepcionais é que poderá voltar a haver.

12. Em Outubro, se até lá não houver catástrofes naturais, os combóios, o metro e os cacilheiros ainda não tiverem todos parado ou afundado, e a justiça for suficientemente lenta a investigar crimes e teias de corrupção para ainda haver socialistas em liberdade, ganham-se as eleições.

Mission acomplished, e os doentes que se f.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:56
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Segunda-feira, 10 de Junho de 2019

Curativo para o cancro

O senhor presidente da República anunciou há dias uma crise na direita e ofereceu-se para servir de fiel na balança dos equilíbrios políticos para logo a seguir aos resultados das próximas legislativas. Rui Rio, que lidera uma parte do PSD e que convencionalmente a comunicação social descreve como “líder da oposição”, não gostou: para ele há uma crise sim, mas no sistema político democrático como um todo, do que seriam prova, presume-se, os quase sete milhões e meio de abstencionistas nas recentes eleições para o “parlamento” europeu, num universo de pouco mais de dez milhões e setecentos mil eleitores.

 

Almas atormentadas e engenhosas oferecem soluções para esta alegada crise do regime democrático e encontram o remédio numa reforma das leis eleitorais, sem a qual o eleito cada vez estará mais distante do eleitor – daí o grau crescente do abstencionismo. O eleitor não conhece o deputado, que realmente não elege, salvo talvez o cabeça de lista e eventualmente um ou dois nomes, e aquele depende portanto dos jogos de poder internos dos partidos, e da confiança do líder, e não do eleitor do seu círculo. Ah, que se o candidato a deputado dependesse directamente de quem o elege, como na Velha Albion, veríamos a qualidade média do deputado subir esplendorosamente e o Parlamento dar todos os dias prova de grande independência em relação aos poderes dos líderes, que por sua vez cessariam de viver embrulhados em obscuras moscambilhas para lhes perpetuar o poder.

 

Ribeiro e Castro é um campeão desta maneira de ver as coisas. E oferece uma solução completa, equilibrada e respeitando ao mesmo tempo a proporcionalidade e a responsabilidade directa de ao menos uma parte dos deputados.

 

Intelectualmente, a proposta é atraente. Sucede porém que quem dela espera a solução para a “crise”; quem julga que algum dos problemas sérios do país será com ela ultrapassado; quem sonha com um parlamento “de direita” lá onde está um parlamento de esquerda; e quem imagina que no lugar de calões, subservientes, parlapatões, inúteis e medíocres, passaríamos a ter direito a intelectuais probos, oradores brilhantes, estadistas lúcidos e cidadãos independentes que o sucesso das suas carreiras profissionais garantiria, está a enfiar um dedo no olho até ao cotovelo.

 

Por partes:

 

Marcelo nunca viu, em toda a vida, nada para além dos joguinhos tácticos, nos quais é brilhante, para obtenção e conservação do poder, nem nunca fez ou disse, nem sabe fazer, dizer ou pensar, nada de relevo para qualquer reforma do país, cujos problemas identifica com a estabilidade do regime falido e exangue a que alegremente preside com um sorriso beato e auto-congratulatório. O que diz é apenas um expediente para realçar o seu desejo de estar no centro dos acontecimentos, conforme aliás toda a gente que pensa percebeu. O eleitorado, porém, não; e nessa ignorância, distracção ou inconsciência faz Marcelo, provavelmente bem, a sua aposta. Deixemo-lo em paz, que na realidade é apenas um doutoral Tino de Rans.

 

Sucede que quase toda esta gente tem razões de queixa do sistema actual, que em algum momento os triturou por lhes ter vedado o acesso, ou não terem podido manter-se, ao andor do poder. Só isto já nos deveria fazer desconfiar porque decerto acham que, fosse o sistema outro, e não teriam sido maltratados. Mas um módico de senso deveria fazê-los ver que o sistema que recomendam não os recomendaria necessariamente a eles aos olhos do eleitor; nem há nenhuma garantia de que não trocaríamos as não-pessoas que agora elegemos por advogados do queijo limiano, demagogos sortidos e tresloucados de vária pinta.

 

A inspiração em sistemas alheios é uma velha pecha nossa, como o é a ideia de que a mudança da arquitectura do regime arrasta consigo a mudança da realidade da nossa tradição histórica, do nosso atraso atávico, da falta de competitividade do país, do nosso perfil sociológico e do peso das nossas circunstâncias geopolíticas. Esse Reino Unido cujos parlamentares, directamente eleitos em círculos uninominais, invejamos, não tem na casa da democracia representantes de pequenos partidos, isto é, não representa directamente correntes demasiado pequenas do pensamento político; e nos Estados Unidos, o outro grande país onde a democracia não é um enxerto, pode o titular do poder executivo ser eleito sem uma maioria absoluta de eleitores e os senadores da câmara alta representam os Estados federados, independentemente do seu número de votantes. Ou seja, são democracias “imperfeitas”, excepto pelo detalhe de funcionarem satisfatoriamente. Não agradam, é claro, a britânicos e americanos, sobretudo aos derrotados em cada eleição, mas não lhes ocorre mudar o sistema. Talvez por intuírem que a democracia é um sistema imperfeito que desagrada a quase toda a gente, e a ditadura um em que quem manifestar o seu desagrado vai preso.

 

As principais campainhas de alarme para este desconforto são o abstencionismo nas últimas eleições (ligeiramente acima de 69%, cerca de 3 pontos acima das anteriores europeias) e a patente derrota da chamada direita. Não costuma ser incluído no perímetro da “crise” o desastre do PCP, que perdeu 188.000 eleitores, decerto porque, destes, 176.000 foram para o BE e portanto julgar-se-á que ficou tudo mais ou menos na mesma. Porém, o PCP era apenas um tumor estável da democracia, com o qual o corpo social se habituou a lidar; e o BE é suficientemente equívoco para arrastar atrás de si fatias do eleitorado que acreditam que há um país rico e justo à espera de ser decretado, e isto quando o resultado líquido das políticas bloquistas só pode ser uma venezuelização europeia do país. Donde, é duvidoso que tenha havido qualquer progresso, mas adiante.

 

Sucede que os eleitos para o PE vão para lá defender subsídios para o país e vantagens para eles e os nossos emigrantes, e isto qualquer que seja a sua origem partidária. Donde, não fazia realmente diferença que fosse eleito o Chico ou o Manel, a menos que as eleições fossem utilizadas como uma mega-sondagem à popularidade do governo PS. Sobre isto, o eleitorado disse o seguinte: como o PSD actual aprecia boas contas e é europeísta, e o governo PS é europeísta e aprecia boas contas, não vale a pena mudar. E disse-o claramente, com uma votação cuja abstenção só foi percentualmente maior do que nas eleições similares anteriores porque o universo eleitoral foi engordado com um milhão e oitenta e três mil eleitores residentes no estrangeiro, que naturalmente se abstiveram (o número de votantes, entre 2014 e 2019, cresceu mais de 30.000) Há uma percepção difusa de que algo vai mal no SNS e nos outros serviços públicos, e começa lenta, muito lentamente, a passar para a opinião pública a ideia de que o país não cresce, mas isso não chegou para aconselhar a mudança.

 

Pois não, não cresce, nem pode crescer com o PS a taxar tudo o que mexe, a empurrar a dívida com a barriga, a engordar o Estado com a compra de votos e benefícios o mais barato que possa ser mas ainda assim alguma coisa, e a recobrir o conjunto com uma eficaz propaganda que a comunicação social compra.

 

O papel da direita, assumidamente difícil porque o regime democrático criou e mantém uma maioria sociológica de esquerda, acoitada no Estado e no sistema de pensões (ideia que se ausentou do comentariado mas não, infelizmente, da realidade) deveria ser martelar esta ideia do atraso relativo até à náusea, indicando os caminhos da redenção crescimentista. Tem feito isto? Não, tem tentado pescar em águas despesistas que não são suas (como no caso lamentável da contagem do tempo de serviço dos professores), tem corrido atrás de todos os descontentamentos e todos os tiques grotescos e pequenos ilícitos de uma governação oca, corrupta e inepta, mas sem um trabalho sério, o mais das vezes, sobre a reforma do Estado, que tem de emagrecer, a fiscalidade, que tem de baixar, e sobretudo salientando as diferenças entre o PSD e o CDS como se algum dos partidos, isolado, guardasse em si um potencial de vitória e não precisassem os dois de um programa mínimo comum.

 

Se julgam que algum destes males se vai remediar com a reforma das leis eleitorais, boa sorte lá com isso. A terem sucesso, depois de consumirem energias na empresa e na guerrilha que gerará, descobrirão daqui a uns anos que temos uma democracia quase perfeita, a par de um produto por cabeça igual ao da Roménia. Já faltou mais.

publicado por José Meireles Graça às 20:28
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