Fui num pé a Vigo tratar de um assunto, e vim no outro. Parei na área de serviço de Barcelos, para uma água bem fresca, que estava um calor tropical, e vi de relance na TV Heloísa Apolónia, acho que no debate da moção de censura. A sua voz enchia o espaço - a voz da simpática Heloísa enche os espaços como o som de uma broca de dentista.
Dizia as coisas previsíveis que Heloísa Apolónia diz. Hesitei sobre se havia de ficar mais um pouco - gosto dos rituais parlamentares, da oratória, sempre fico à espera de uma boutade, uma frase mais conseguida, um argumento novo.
Fui à vida. Podia ligar o rádio para ouvir o debate, mas não, que gostar, gosto, mas nem tanto. E dei comigo a pensar que, depois da Heloísa, delegada do PCP para aquela coisa da Verdura e dos aumentos de tempo de intervenção no Parlamento, os moços do BE haveriam por certo de falar na colonização do aparelho de Estado pelos boys da nova Situação - se fosse com eles nomeariam pessoas de reconhecido mérito e credenciais democráticas fortemente de esquerda; e no falhanço das políticas de austeridade - se fosse com eles já Portugal liderava os países humilhados e ofendidos para obrigar a Europa do Norte a aceitar inflação, reescalonamento da dívida e endividamento novo para investimento público e expansão do Estado Social; e no caminho do falso rigor que Crato quer impor ao sistema de ensino - se fosse com eles far-se-ia mais com mais, porque recursos não faltariam, e os diplomas de todos os graus seriam atribuídos a quem soubesse a matéria porque os mereceria e a quem não soubesse porque são contra discriminações; e recomendariam novos impostos sobre os ricos, porque estes evidentemente não exilariam capitais, dado que ficariam prestes sem eles; e nacionalizariam bancos, mas não como aquela vigarice do BPN - se fosse com eles as nacionalizações seriam transparentes, justas, limpas, abundantes e rendosas, não havendo quaisquer riscos de retaliação ou sistémicos ou de crédito; e na Agricultura? Oh, na Agricultura, se fosse com eles, mil campos de papoilas floririam.
E assim por diante - não ouvi o debate mas foi como se ouvisse, sei do que a casa gasta.
Vendo bem, o gosto por debates é quase um vício indesculpável, visto que de um lado temos três interpretações da mesma melodia, o que a torna um tanto monótona. Do outro temos uma única, embora um ouvido treinado consiga detectar algumas fífias na orquestra. E no meio fica a secção de percussão, com os tambores rotos, os pratos esbotenados, as congas e os djembés feitos num oito.
Do meio e do lado direito falarei, ou não, noutra maré. Para já, deixo uma representação gráfica do lado esquerdo do hemiciclo, conforme o debate que adivinhei.
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