Paulo Morais é o vice presidente de uma "associação cívica" cujo objectivo é combater a corrupção. Repetidamente, tem insistido em "denunciar" a "falta de transparência" nas privatizações. Considera que o governo "errou por ter nomeado uma comissão de acompanhamento interna" (presidida por Daniel Bessa), em lugar de abrir essa entidade à "sociedade civil" (presumo que presidida por ele).
Assegura também que o parlamento "não está isento de culpas", havendo "deputados coniventes" na CEAMPAFP (comissão eventual para o acompanhamento das medidas do programa de assistência financeira a Portugal). Especifica que Miguel Frasquilho (PSD), Pedro Pinto (PSD) e Adolfo Mesquita Nunes (CDS-PP) integram esta comissão "em real conflito de interesses". O primeiro devido à sua ligação ao BES (que agora estará a ser investigado), o segundo por estar ligado a empresas que fazem consultoria para a EDP e o último por colaborar no escritório de advogados que assessorou o Governo e a EDP no processo. Diz que estes senhores foram "contratados como consultores porque são deputados". E conclui que "isto já é mais que promiscuidade absoluta, é simples identidade", uma vez que "as pessoas das empresas e os parlamentares são exactamente os mesmos".
Estas afirmações fizeram as delícias dos vivaços mais activos das redes sociais, que as partilharam sem parar. É sabido que os opinadores das caixas de comentários têm grande apreço por notícias que confirmam as suas suspeitas. As suas suspeitas são, regra geral, circunscritas à ideia de que "eles querem é tacho". E as soluções são, invariavelmente, oferecidas em tonalidades de indignação que o pudor me impede de reproduzir, mas que passam sempre pela introdução dos mais variados items nos orifícios dos políticos, das mães dos políticos e das tias dos políticos.
Já o mesmo não aconteceu com o esclarecimento público em que Vieira da Silva, deputado do PS e presidente da CEAMPAFP, veio desmentir esta longa série de desabafos de Paulo Morais. De resto, a intervenção de Vieira da Silva não seria necessária se os jornalistas que dão tempo de antena a Paulo Morais se ocupassem (como deviam) de verificar o que ele diz. As competências das comissões parlamentares são públicas, e o currículum dos deputados, quando não é inteiramente público, é muito fácil de verificar. Adolfo Mesquita Nunes, por exemplo, não foi "contratado como consultor" por ser deputado. Isto é falso. Adolfo Mesquita Nunes já trabalhava para aquele escritório de advogados quando foi eleito deputado, o que aconteceu pela primeira vez na presente legislatura. Tal como consta do registo de interesses que se pode ler na página da Assembleia da República na internet.
Paulo Morais, de quem se espera competência e seriedade, orgulha-se de acusar de "mais do que promiscuidade absoluta" três deputados a quem atribui as actividades mais vis. Não se pode orgulhar de saber do que fala porque, sobre este assunto, mostra a sua total ignorância.
Paulo Morais usa o lugar que ocupa para dar livre expressão às suas obsessões. Com saliência e irresponsabilidade.
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