O nosso Governo decidiu e falou. E como os outros dos países que estão ou vão ser intervencionados, persiste em macaquear os efeitos da saída do Euro, tendo aliás a comunidade dos alquimistas da Economia um nome para isto: chama-se desvalorização interna.
Esta desvalorização, que inclui uma redução do salário mínimo, é em si positiva: muitas (?) empresas que iriam fechar ou sobrevivem ou duram mais tempo; alguns (?) despedimentos que teriam lugar serão poupados; e alguns (?) postos de trabalho serão criados, por o custo do trabalho ter descido.
O preço para isto, porém, é alto: alguns patrões serão tentados, sem que seja necessário para a viabilidade da empresa, a empochar a redução dos custos salariais. E mesmo que isso não prejudique o ambiente de trabalho (o que aliás é um problema do empresário e não da comunidade) ficará um lastro de percepção pública de que o Governo quis, numa situação de crise, poupar o patrão e esmagar o trabalhador. Num País com uma tão consolidada e difusa convicção de que há pobres porque há ricos, isto é o que se chama um tiro nos pés, e terá o seu preço em votos. De resto, a comunistada, a da Bayer e a das fracturas práfrentex, já esfrega as mãos, e, no lugar deles, também esfregava as minhas, porque o aumento violento da contribuição do trabalhador é um bodo para o discurso do "eles comem tudo".
Mas isto ainda é o menos. Porque há um aumento de impostos com data marcada e uma redução da despesa pública sem data e sem credibilidade, de tanto se falar nela e tão pouco se fazer. E há também a percepção de que nos rentismos das PPPs e da energia, bem como na tolerância aos oligopólios, aos abusos da Banca e ao aparelho do Poder Local, para já não falar na RTP, ou nas múltiplas excepções aos cortes de subsídios - tudo permanece igual.
Desvalorização interna, é? A moeda que temos não é a nossa moeda, é a moeda da economia que não temos e o écran por trás do qual nos endividamos tanto que a dívida pública, mesmo que exangues de tanto imposto, continua a crescer.
Temos pela frente uma interminável guerrilha do ressentimento: os socialistas de velha ou fresca data já falam de mais impostos sobre o capital (a ver se ele foge ainda mais) e sobre o património (a ver se o que resta de construção civil morre de vez). E isto porque, num barco a afundar, a percepção de que o grau de aflição não é o mesmo para toda a gente é letal.
Há uma maneira de perdermos todos, ou quase todos, e lambermos as nossas feridas em conjunto enquanto restauramos a casa escangalhada: é sair do Euro.
O sucedâneo nunca é tão bom como o original.
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Nota: A fotografia é da Margarida.
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