Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

A crença no QREN

Há por aí alguém que seja contra a qualificação dos cidadãos? Ou que não queira  dinamizar o crescimento sustentado? Que veja com maus olhos a coesão social, encare com reservas a qualificação dos territórios e das cidades, e lance um olhar céptico sobre o aumento da eficiência e qualidade dos serviços públicos?

 

Se houver, essa avis rara terá a maçada de indicar qual o destino a dar a 21,5 mil milhões de Euros, que é quanto, generosamente, a União Europeia, desde 2007 e até 2013, já gastou e se propõe gastar para a prossecução dos nobres propósitos acima enunciados.

 

A ideia de "qualificar" os cidadãos costuma ser o manto ao abrigo do qual se gastam incontáveis milhões para formação profissional. Sucede que, descontando casos pontuais de sucesso, ligados à utilização da informática ou a necessidades imperativas das empresas, que de todo o modo sempre fariam formação, e pouco mais, os ziliões gastos desde a adesão nunca tiveram influência significativa na taxa de desemprego (senão para a aligeirar enquanto duram as formações, que consistem geralmente nuns formadores a fingirem que ensinam uns formandos que fingem que aprendem umas larachas que de todo o modo não vão servir para nada).

 

O crescimento sustentado, conceito já de si prenhe de equívocos - crescimento toda a gente sabe o que é, a sustentabilidade depende de imponderáveis e de concepções sobre o futuro desejável - costuma ser o manto sob o qual se desenham apoios à indústria ou agricultura (apoio é a palavra púdica com que se descreve o financiamento da concorrência desleal), ou à construção de novas vias de comunicação, ou seja o que for que permita pensar que, com o investimento, vamos viver melhor. Sucede que, à medida que a cornucópia dos milhões se foi despejando em cima das nossas bocas sequiosas foi crescendo o produto um pouco, e a dívida muito.

 

E não se levará assim a mal uma pergunta desajeitada: não era melhor que o que ainda falta investir fosse abatido à dívida pública, na parte em que a União Europeia é credora? Assim como assim, se estão dispostos a dá-lo, fazíamos-lhes a fineza dessa poupança e já escusávamos de pagar 5% sobre o que nos emprestam, no mesmo montante.

 

As agências que distribuem a pitança, e este organismo, que observa a distribuição, poderiam com tranquilidade ser extintos. Uma pequena poupança, decerto, mas é de grãos de areia que se fazem as dunas.

 

Não vai acontecer, é claro; que o mesmo organismo que nos salva emprestando-nos dinheiro a 5% é nosso amigo: quer que, mesmo assim, o Estado se ocupe da qualificação dos cidadãos, da dinamização do crescimento sustentado, e de todas as outras tretas, não vá a gente lembrar-se de viver dentro dos nossos meios e ignorar quem sabe melhor do que nós o que nos convém.

 

Ou seja, não temos dinheiro para a sopa. Mas, de sobremesa, fazem-nos falta uns docinhos. Eles sabem. Tartufo também.

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publicado por José Meireles Graça às 20:15
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