Naquela Gala, ía receber o seu primeiro prémio literário.
Como em tudo na sua vida, tinha previsto aquela noite ao minuto. Tudo pensado e planeado para a perfeição: "- Because yes, there is such a thing.".
As paredes da Biblioteca Nacional estariam fortemente iluminadas para que eles, os autores que a haviam precedido, pudessem ver o seu momento de glória. A constelação de mesas brancas, decoradas com velas douradas em castiças altos, não ofuscariam a imponência do salão, nem a verdadeira estrela da noite.
Ao subir ao púlpito, quando o Presidente a chamasse, Bárbara desfilaria lentamente, respirando cada segundo da sala, tomando tudo como devidamente seu, até ao altar do seu triunfal discurso: a apoteose para a qual Bárbara se preparara a vida toda e que, neste noite, finalmente, chegaria. E chegou.
Bárbara estava - sentia-se e diziam-lhe - deslumbrante.
O jantar decorria como delineado, os convidados comportavam-se como no filme que mil vezes tinha visto na sua cabeça: elegantes, comedidos, expectantes. Por ela, pelo seu momento.
Muitos flashes. Gigantes imagens suas nos écrans por detrás do palco.
O Presidente inicia o seu discurso: "Estamos hoje aqui para entregar este prémio..."
Sem se perceber como, num contínuo sem aviso, tudo ficou negro: "Que escuridão é esta? Que silêncio tomou conta de mim?"
Seguiu-se um burburinho, crescente, abafante. Abafou a festa, abafou o sonho, abafou Bárbara.
Simplesmente faltou a luz. Um corte de energia que ninguém foi capaz de repôr. Não se repôs.
A noite, improvisada, prosseguiu. À luz das velas. Ao som da voz. Sem amplificação.
A noite prosseguiu e o prémio foi entregue. Mas Bárbara nunca mais será a mesma.
*Desafio de escrever uma "very short story". Proposta a partir da frase inicial, com obrigação de incluir um elemento surpresa. Referenciada a esta fotografia (Andy Warhol, Candy Darling, 1974)
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