O Governador do Banco de Portugal diz, com inusitada frequência, coisas. E valem a pena porque são, quase sempre, extraordinárias.
Vejamos a eructação mais recente: Há "evidência" de dificuldades de acesso de crédito por parte das empresas, mas acrescenta que neste momento a instituição ainda está a tentar perceber "o que se passa".
Também gostava de saber o que se passa na cabeça do Dr. Costa, porque o que se passa nas empresas não é difícil de perceber. Se eu constatasse a "evidência" de um problema tão grave como a falta de financiamento às empresas e tivesse a obrigação de o resolver, convocava os senhores dirigentes dos bancos e perguntava-lhes porque não emprestam; depois confirmava as informações e esclarecia-me das dúvidas; finalmente, tomava medidas, se tivesse competência para as tomar, ou propunha-as a quem de direito. O que não vinha era para a praça pública confessar ignorância e revelar impotência.
Mas, magnânimo, dou umas dicas: imagine, Dr. Costa, que o Estado não paga o que deve, por exemplo no âmbito do IVA; e que uma empresa deixa, por causa disso, de pagar a um banco, dado que a alternativa é não pagar a um fornecedor que não dá crédito por causa do "risco País". E que o que o banco lhe debita pela mora, mediante o expediente de a considerar descoberto na conta DO, é, com autorização sua, Dr. Costa, 25 ou 27%. Não sei se está a ver o quadro - depois ainda é preciso produzir, e exportar, e dar crédito ao cliente - só estou a levantar uma pontinha do véu, que eu ganho mal pelo meu trabalho bem feito, enquanto o Amigo ganha bem pelo que faz mal ou nem faz de todo.
Mas a inutilidade palavrosa e a ignorância contumaz a gente atura - nenhum pequeno empresário exportador espera realmente que um membro da elite dirigente da coisa pública, ou da Academia, a começar pelo Presidente da República, passando pelo Ministro das Finanças, dezassete catedráticos de Economia e acabando no adjunto do adjunto da Secretaria de Estado da Reforma da Contabilidade Fortemente Informática, saiba realmente do que está a falar quando fala de pequenas empresas.
Mas já é mais difícil aturar frases como esta: "O problema é que há empresas financeiramente inviáveis que perturbam a análise dos agregados monetários e análise de crédito".
Ou seja, traduzindo: as empresas financeiramente viáveis são as que não necessitam de crédito à tesouraria; uma vez eliminadas passa a haver grande abundância de crédito, e Costa fica assim dispensado de esmiuçar a embrulhada.
Costa, desculpa só ter para ti frases banais: Porqué no te callas?
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