(Originalmente publicado no Senatus, em 11 de Março 2012)
Faço os possíveis por evitar sessões de anedotas. É mortal. Às vezes até começa assim assim. O pior é ter começado. A coisa vai deprimente até chegar o primeiro totó, a salentear-se com uma piadola grosseira. Não interessa o enredo, só tem que incluir mamas, rabos, pássaras ou pilas. Segue-se um riso alarve da audiência, que não achou graça nenhuma mas percebeu que era a deixa para se rir. O que não é mau, sempre alivia a tensão.
A seguir vem um encadeado de dichotes, frases feitas e trocadalhos. Os mais entusiastas começam a corrigir os outros entusiastas, porque a história não era "assim", "espera, deixa-me eu contar", "sim, mas antes tinhas que dizer que" não sei quê. Se houver casais presentes, é certo e sabido que um dos elementos conta o fim da anedota assim que o outro começa. Depois desentendem-se e ficam de trombas. É bom, são duas baixas. E há sempre aqueles puristas que fazem questão de devolver o rigor da coisa, o que implica ouvir aquilo tudo outra vez.
Alguns convivas começam a desfazer migalhas de pão. Naquele ponto, já ninguém ouve as graçolas dos outros. A rapaziada só espera que o comediante no uso da palavra acabe de contar o seu pesadelo, para cumprir o .protocolo (rindo-se) e procurar uma aberta para contar aquela piada que ouviu no outro dia, "Deus queira que não me esqueça da punch line". Já toda a gente conhece? Não interessa. "Agora chegou a minha vez". Depois, há dezassete foliões que contam a mesma anedota, com versões ligeiramente diferentes. "Eu sabia era assim": e bumba. Sem medo, sem qualquer espécie de misericórdia.
Aos mais débeis, nos quais me encontro, começa a faltar o pulso. Graças a Deus, nestes grupos, há sempre um alentejano. Ou uma alentejana, se estivermos com sorte. Nesses intervalos, pode-se respirar.
A partir de certa altura, começam a intercalar-se uns silêncios, cada vez mais embaraçantes, em que toda a gente olha para os pormenores decorativos do compartimento, na esperança de um milagre. Mas não. Segurem-se, chegou a hora das piadolas regionais. Costumo agarrar-me a um pacemaker.
Nas piadolas regionais as palavras acabam todas em "i", se a ideia for imitar um alentejano, e repete-se o vocábulo "compadri", frase sim, frase sim, com a pronúncia e a cantada de um palhaço rico. Não me vou debruçar sobre o que fazem às piadolas do norte porque, além da pronúncia trágica, revertem ao ponto já focado das grosserias.
Quando menos se espera, e o tormento parece já não poder agravar-se, entramos na fase do inglês, do francês e do português. Ou do alemão, do espanhol, e do curdo. Ou do cigano, do preto e do chinês. Não importa a etnia, este período é o mais asfixiante. Porque se trata de uma combinação letal de todos os ingredientes anteriores. Os enredos são sempre muito compridos, os comediantes voltam muitas vezes atrás, corrigem-se uns aos outros, já toda a gente ouviu aquilo, esquecem-se da punch line, fazem pronúncias e entram, uma em cada poucas ocorrências, na categoria mais ordinária.
A sessão acaba, invariavelmente, com um maduro resistente que não se cala em variantes de um tema qualquer. Na plateia, já poucos respiram. Deste ponto em diante não posso relatar. As duas últimas vezes que me vi nestes sarilhos acordei toda entubada, no hospital Amadora-Sintra, sem saber dizer o nome.
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