Sexta-feira, 23 de Março de 2018

O macho ibérico (moderno)

2018-03-23 Fernando Rosas de suspensórios 1.jpg

Dizem que tinha uma tia fascista, mas o fascismo era demasiado mariquinhas para acolher a virilidade na acção exigida pelas suas convicções políticas, tanto que quando finalmente foi pacificamente removido não restavam mais do que pouco mais que uma centena de presos políticos nas prisões, marca somítica ao lado dos mais de quinhentos conseguidos pelo regime democrático durante o Período Revolucionário Em Curso, justamente depois de meter na prisão os da seita a que ele tinha aderido, e as únicas quatro vítimas directas mortais da revolução foram abatidas por um sniper que disparou cobardemente sobre a população civil desarmada na rua bem protegido pela janela por trás de onde se escondia. Uns bananas.

Quando chegou à idade das convicções políticas viu-se forçado a enveredar pelo maoismo, à época a seita com mais vítimas no curriculum vitæ, que entre grandes marchas, grandes fomes e grandes revoluções culturais, para não falar das grandes secas em que tudo isso devia resultar, tinha conseguido juntar a bonita soma de, dizem alguns e com contas não certificadas, 77 milhões de mortos, que comparavam favoravelmente, e continuam a comparar, com os 43 milhões do estalinismo e os mais modestos 21 milhões do nazismo. Este máximo absoluto ainda não foi ultrapassado, e só terá sido desafiado em termos relativos com o extermínio de um terço da população do Camboja, apesar da modesta soma absoluta de dois milhões de vítimas, pela seita-irmã do maoismo khmer rouge, e o nome francês não é uma insinuação de erudição mas uma justa homenagem à terra que acolheu a estudar e onde se radicalizou o líder Pol-Pot, de sua graça Saloth Sar, Paris, à época a pátria da radicalização dos pequeno-burgueses de fachada socialista. Uma escolha viril.

Nas suas deambulações por África por conta da emissora nacional para educar o povo não dispensa o uso de suspensórios, talvez por serem a única forma eficaz de suster uma formidável tomatada a partir dos ombros sem arriscar hérnias ou outros problemas de coluna resultantes das deslocações do centro de gravidade decorrentes da sua oscilação sempre que deambula.

Tem tanto cabelo como as mulheres da idade dele, o que desmente definitivamente o boato que circula entre algumas mulheres que os carecas são os mais viris, talvez resultante de os carecas se terem que esforçar mais do que os cabeludos para lhes cativar a atenção e o apreço pela exibição de qualidades alternativas à abundância de cabelo como a inteligência, o humor, a cortesia e a beleza física, e de elas verem nestes valores, erradamente como ele constitui a prova definitiva, sinais de virilidade.

Foi educado nos valores da família política e no princípio que as mulheres da família são umas meninas e as das outras famílias uma putas parideiras, e é feroz na defesa das meninas da família, pelo que quando algum estupor ousa dizer que não as queria para casar espeta-lhe logo com um processo em cima junto da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, o murro nas trombas e a bengalada são castigo caduco e pouco para tamanha desfaçatez, e a virilidade exige que não haja contemplações quando é necessário castigar.

É moderno, tolerante e de espírito desempoeirado, ninguém o pode acusar de preconceitos e até tem amigos gay, até dentro da família política. Mas quando vê passar um paneleiro do outro lado da rua dá-lhe uma coisinha, sobe-lhe o sangue à guelra, tolda-se-lhe a vista, e não consegue evitar rosnar contra as modernices. A tolerância tem limites, caraças, e um homem não é de ferro!

É um macho ibérico, e felizmente que a Ibéria é uma coutada para esta espécie em vias de extinção que tanta falta nos faz, pelo que estamos determinados na defesa da sua preservação.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:14
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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

É esta a luta?

Na semana passada houve um dia da Mulher, e merecia ser assinalado em todos aqueles lugares, e são a maioria, em que elas não são iguais aos seus concidadãos homens no acesso à educação, na liberdade de escolher os parceiros, na administração de bens, e ainda no tratamento não discriminatório da sua sexualidade; em suma, na igualdade perante a lei, o que as torna em cidadãos de segunda.

 

Não foi assim. E pelo contrário o dia assinalou-se com exuberância em muitos lugares onde todas essas coisas estão garantidas há muito, e sobretudo em Espanha, vá lá saber-se porquê, em desfiles tão grandiosos que uma querida amiga minha, esquerdista mas excelente pessoa, não hesitou em declarar que “esta greve feminista vai aparecer nos livros de história”.

 

Poder-se-ia talvez supor que o propósito seria a supressão daquelas bolsas onde tradições alheias ao estádio civilizacional em que nos encontramos sobrevivem nas nossas sociedades, afrontando as leis, como sucede dentro da comunidade cigana e em todas aquelas onde se mantém a tradição, importada de países quase sempre muçulmanos, da excisão genital feminina, ou de casamentos combinados, às vezes de moças apenas púberes, e um longo etc. de abusos sortidos de índole vária.

 

Mas não. Essas coisas não apenas sobrevivem perante geral passividade como uma parte dos manifestantes (a parte dos marxistas reciclados em engenheiros de costumes) que numas capitais ou outras entupiram as ruas aprova silenciosamente todas as práticas abusivas sobre a mulher desde que oriundas de sociedades medievais, em nome do multiculturalismo.

 

E o resto dos manifestantes, que são a maioria, prestaram, no melhor dos casos, algum serviço de boca ao que se passa em lugares como a Arábia Saudita mas dedicaram as suas imprecações ao que acontece entre nós.

 

O que é que se passa, então? Coisas simples: nos lugares de chefia e relevo nas empresas, nos partidos, no governo e na Assembleia da República, elas, que são a maioria dos habitantes, não estão em maioria; há uma diferença salarial que lhes é desfavorável, se se comparar o que ganha em média cada trabalhadora com o que ganha cada trabalhador; nas situações em que para progredir na carreira, ou em casos extremos simplesmente manter o emprego,  se depende da informação ou decisão de um superior, há casos de assédio sexual, e estes são sobretudo de homens sobre mulheres, desde logo porque são eles que detêm os lugares decisivos; e na maioria dos lares, em particular com filhos, não só é mais pesada a sua carga de trabalhos como é muito mais provável que, se houver violência doméstica, sejam elas as vítimas.

 

Porém, já não estão em minoria em certas profissões qualificadas, como por exemplo professores e juízes; e o desequilíbrio que já existe, a favor das mulheres, na formação académica na maior parte dos ramos do conhecimento, não pode senão traduzir-se a prazo, se a lógica não for uma batata, num reverter de situações.

 

Porquê então a assanhada barulheira das feministas de todo o bordo e feitio, os serviços governamentais dedicados à promoção da igualdade entre os sexos (de “género”, diz o palavreado inclusivo que o politicamente correcto recomenda), a barragem incessante de propaganda em torno de ideias falsas que de tão repetidas se aceitam acriticamente como verdades axiomáticas, v.g. a alegação de uma “evidente” disparidade de salários?

 

Despachemos a questão salarial primeiro: pode haver casos, e decerto haverá mas não aparecem denunciados, de salários diferentes para funções e desempenhos semelhantes, baseados em preconceitos misóginos de quem os decide. Porém, a diferença salarial documentada abundantemente pouco terá a ver com isto e muito com a diferença de funções: se as mulheres estão sub-representadas nos lugares de topo e em certas profissões de risco, que são os mais bem pagos, como se pode esperar que não haja diferenças nas médias? Logo, a alegação das diferenças salariais per se é inconsistente, e é-o também por outra razão: nas empresas que competem no mercado o decisor que, podendo escolher, decidisse empregar, para desempenhar o mesmo trabalho e com a mesma produtividade, sistematicamente os trabalhadores mais caros, ficaria em desvantagem perante o seu concorrente que oportunisticamente apenas contratasse mulheres. Onde estão elas, essas empresas que funcionam como o clube do Bolinha, mas ao contrário – menino não entra?

 

Depois, é uma verdade gritante – e surpreendente – que a representação política tem um défice de mulheres enorme, e isso sucede, nas sociedades democráticas, qualquer que seja o sistema de escolha dos eleitos. Só não é assim quando se impõe o sistema de quotas. Cabe perguntar, então: se elas são a maioria dos eleitores, não escolhem mulheres porquê?

 

A resposta convencional é que há um acordo tácito entre homens, e costumes entranhados entre mulheres, em particular as mais velhas, que as levam a desconfiar das suas irmãs, fazendo portanto que o caminho de candidatas naturais até aos lugares cimeiros esteja pejado de obstáculos. As pobres necessitam de fazer as coisas pelo dobro para que o seu mérito seja reconhecido pela metade.

 

Será em parte assim, para muitas e em muitas situações, e tanto mais quanto mais perto do topo de certas carreiras. E para engenheiros sociais, como são sempre as pessoas de esquerda, parece um caminho natural o sistema de quotas imposto pelo Estado – nele próprio, para começo de conversa, e para já nas empresas cotadas porque lá se encontram os lugares mais sumarentos, e se pode invocar o controle público das regras que norteiam o funcionamento do mercado de acções e obrigações para obnubilar o facto de serem com frequência empresas tão privadas como as não cotadas.

 

Aberta esta porta, é apenas uma questão de tempo até que a imposição de quotas, de resto com números crescentes até que se atinjam os 52%, ou lá quanto é a percentagem exacta de mulheres, se estenda às restantes empresas. Primeiro às grandes, claro, porque algumas são maiores do que as cotadas, e essa desigualdade não pode verificar-se, credo!; depois às médias, dados os bons resultados que se verificarão nas grandes, tudo apoiado nos devidos estudos a demonstrar o ponto; e finalmente às pequenas, com adaptações para limitar os estragos do intervencionismo.

 

Quanto ao assédio sexual, que a lei hoje classifica naturalmente como crime, nem sequer precisamos de fazer votos para que as polícias e os tribunais funcionem com eficácia: a julgar pelo que se passa nos EUA (quer dizer, aqui, depois de vencido o atraso de alguns anos) uma acusação chega para se perder preventivamente o emprego; e o principal, e com frequência único, meio de prova é a confissão, ora chorosa ora ofendida, da putativa vítima. Já estivemos mais longe de uma mulher que seja uma notabilidade pública precisar de confessar, para garantir a carreira, algum obscuro atropelo, sob pena de ser considerada conivente com o generalizado crime ou, pior, feia.

 

Negar que na maior parte dos lares, e tanto mais quanto mais antigos os casamentos, é desigual a carga de trabalho doméstico entre homens e mulheres, é negar a evidência; e que, desde que as mulheres furaram as paredes do lar para irem para o mercado de trabalho, esse desequilíbrio se acentuou, é desafiar a lógica.

 

Nisto mais ainda do que no resto, seria bom que o Estado se abstivesse de intervir: a cozinha, a sala de estar e a cama são lugares absolutamente privados. Razões por que o bombardeio das nossas criancinhas com as ideias acertadas sobre o que devem ser o paizinho e a mãezinha ideais, e a parafernália publicitária de comissões e organismos públicos a promoverem lavagens de cérebro em nome da igualdade, não são mais do que o abandono da neutralidade religiosa do Estado, agora a benefício de uma religião civil.

 

As novas gerações não precisam de ajuda: as mulheres saberão, como crescentemente fazem, calçar os patins aos maridos que não lhes satisfaçam as expectativas; e os moços, cientes do facto, ou se conformam ou prudentemente evitam casar ou recasar, o que de resto muitos escolhem.

 

Não é portanto surpreendente que o vasto vento feminista que sopra no Ocidente seja sobretudo de esquerda: a engenharia social contra a desigualdade, qualquer desigualdade, é justamente o que a define, e disso retira a sua imaginária superioridade moral. Que porém mulheres de direita comprem o pacote todo, em particular na parte das quotas, a mim, não cessa de me surpreender.

 

Explico: existe um problema verdadeiro, e que a evolução dos costumes não resolverá, e esse é o de que nos anos fundacionais das carreiras profissionais ou políticas (isto é, na casa dos 20 aos 40 anos) as mulheres que queiram ser mães têm uma desvantagem. Não se pode confiar que os respectivos maridos, por muito cheios de boa vontade que estejam, as substituam com perfeição, e não apenas por não poderem dar de mamar; nem se pode impedir o divórcio dos casais com filhos pequenos, fonte principal das mulheres sós com filhos pequenos (homens também, mas em escassa – e a meu ver natural – minoria).

 

Estão portanto, objectivamente, em situação de desvantagem para competirem no mercado de trabalho. Razão pela qual, entre outras, muitas adiam as gravidezes ou põem-nas de parte, ou deixam de ter o número de filhos que desejariam.

 

Já houve um tempo, e não apenas porque ainda não tinha sido inventada a pílula, em que os filhos eram mãos úteis para a agricultura e para tratar dos animais, além da garantia de um amparo na velhice.

 

Era o tempo das famílias numerosas, de miséria e destituição felizmente pregressas, mas em que não havia previsões catastróficas de falência da segurança social por cada vez mais reformados viverem à custa dos descontos de cada vez menos empregados, nem muito menos suicídios civilizacionais derivados da importação massiva de homens e mulheres portadores de culturas insusceptíveis de integração, mas a produzirem filhos a velocidades muito superiores às das sociedades que os acolhem.

 

Não voltaremos ao tempo das famílias numerosas como regra; nem às mulheres remetidas à inferioridade e à dependência; nem a tendência para cada vez mais mulheres aparecerem em cada vez mais lugares de mando, nas empresas e no mundo político, declinará.

 

Mas uma coisa é a evolução natural das coisas; e outra é a discriminação positiva baseada em quotas, que não pode senão abrir a prazo uma guerra de sexos.

 

Porque fatalmente haverá homens discriminados por essa condição, não obstante serem melhores para este ou aquele lugar, ou seja, por se trocar uma discriminação baseada na tradição por outra baseada na lei; e porque naquelas funções atraentes onde elas já estão, ou venham a estar, em maioria, se porá o problema das quotas para homens.

 

Resta finalmente que as mulheres que têm filhos e que por esse facto são prejudicadas nas suas carreiras sinalizam às outras que ter filhos é um mau negócio, e as quotas, se podem minorar esse problema, não o podem resolver: as quotas não são, nem é defensável que sejam, para mulheres com filhos.

 

Por mim, impressionam-me pouco as mulheres que mostram as mamas com slogans pintados para reclamar igualdade; prefiro as que as mostram para amamentar. E veria com bons olhos que o grave problema de a população estar a diminuir fosse combatido com políticas públicas de apoio a mulheres que queiram ter e manter filhos, apoio em moeda sonante, em flexibilização de horários com a devida compensação às empresas, e no mais que a imaginação invente para resolver o problema.

 

Em nome da igualdade, isto é, para que os filhos não sejam um fardo que sobretudo a elas pesa; e em nome do realismo porque não nos adianta sermos iguais no suicídio colectivo.

 

É esta a luta? Não parece.

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publicado por José Meireles Graça às 16:35
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Vais sendo pó e em pó te hás-de tornar

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Hoje ficámos todos mais pobres com a morte de um dos raros que conseguem ver o que está lá mas mais ninguém vê, entretido o mundo que está a ver o que não está lá mas toda a gente pensa que vê.

E, libertado ele do corpo que o albergou nestes 76 anos, deu-me para filosofar um bocadinho sobre o corpo.

Há muitas coisas sobre as quais todos temos dúvidas de que nos procuramos libertar tentando formar convicções, umas vezes com mais sucesso, algumas delas com batota, outras com menos, e outras com insucessos redondos.

Temos dúvidas sobre se a vida resultou de uma conjugação de factores quase infinitamente improvável mas que, na infinita dimensão e variedade do Universo, acabou mesmo por acontecer, ou se houve alguma mãozinha a fazê-la acontecer apesar da improbabilidade. Temos dúvidas sobre se vivemos melhor com a liberdade que permite a cada um fazer o que entenda desde que não obrigue os outros, admitindo que, mesmo sabendo que não há, resulta como se houvesse uma mão invisível a construir alguma coisa nesta anarquia aparente, ou regulados por alguém que saiba e determine o que cada um deve fazer para viver melhor e vivermos melhor. Temos dúvidas sobre se devemos levar o carro e arriscar demorar ainda mais por perder tempo à procura de um lugar de estacionamento, ou apanhar o metro e arriscar uma molha da estação de metro ao nosso destino. E se, levando-o, devemos meter moedinhas no parquímetro e ficar sem elas ou arriscar a multa da Emel.

Mas há uma coisa sobre a qual não temos dúvidas.

Não temos dúvidas nenhumas sobre a nossa existência como indivíduos, nem sobre a existência e individualidade física do nosso corpo. O nosso corpo nasce, cresce, transforma-se, e acaba sempre por por morrer, mas temos ao longo da vida a consciência que é sempre o mesmo corpo que nos acompanha, ou nos alberga, do berço à cova.

Mas pode não ser, e deviamos ter.

Um amigo e colega de tertúlias imaginárias sobre temas filosóficos disse um dia a alguém, especulo que alguém com uma deficiência na capacidade de auto-avaliação da dimensão do próprio ego, "és pó e em pó te hás-de tornar". É verdade no sentido metafórico de dimensionar de modo realista a importância que cada um de nós tem para o Mundo, que é muito diferente da importância que se atribui a si próprio. E é verdade no sentido químico de retratar fielmente as reacções e transformações que sofre a matéria que constitui os nossos corpos. A biologia não passa de uma habilidade da natureza que pega em matéria inerte quando desarrumada e a mistura de modo a formar agregados organizados que, temporariamente, são seres vivos que se conseguem manter organizados numa guerra permanente contra a entropia que os tenta voltar a desarrumar, que a entropia ganha sempre, acabando por voltar a produzir matéria tão inerte como a inicial. Se há uma mão invisível a fazer isto, ou se é apenas a natureza a obedecer às suas próprias leis que os costrói e os deixa desmoronar, nunca perguntei ao meu amigo.

Mas não é a guerra da biologia contra a entropia tão bem sintetizada na frase dele que me traz aqui hoje, mas a questão da existência e individualidade física do corpo.

O corpo é constituído por células, estas por moléculas, e estas por átomos, para ficarmos por aqui, mas é essencialmente constituído por água, e quem tem 80 quilos como eu tem para aí uns 60 litros de água no corpo. E bebe, se for como eu, pelo menos um litro de água por dia no inverno e dois no verão, e vai libertando água pelas vias conhecidas. O que significa que a cada um ou dois meses o corpo renova os seus 60 litros de água. Isto não é exactamente assim, porque a água que segregamos não é necessariamente a que nos chegou há mais tempo ao corpo, mas chega para ilustrar o princípio. Dos 80 quilos da matéria que constituem o meu corpo hoje, que eu tenho consciência de ser o mesmo que tinha há dois meses, e quando nasci, e terei quando morrer, 60 quilos não estavam cá nessa altura. O corpo é o mesmo, mas a maior parte da matéria que o constitui não é, é outra.

Restam-nos no corpo, como indivíduos, 20 quilos de matéria que parece ser nossa e não se renova como a água. Mas a matéria que, para além da água, constitui as células, também se renova. A qualidade de não ser biólogo nem químico permite-me elaborar saltando muitos detalhes que não domino, e o texto perde em rigor o que ganha em clareza sem lhe deturpar o sentido.

Por um lado, há células no corpo que se renovam, nascendo, crescendo e morrendo e sendo segregadas, substituídas por outras ou não. Como as unhas, o cabelo ou a pele, que sabemos que se renovam por estarem à vista. Se eu fosse biólogo e soubesse dizia-vos quantas e quais são, mas não sou nem vos posso dizer. Mas que as há, há-as. O que significa que, mesmo que outras células se mantenham no corpo do berço à cova, uma parte delas não se mantém ao longo da vida, vai chegando, permanecendo temporariamente e partindo para dar lugar a outras. Alguma da matéria que constitui o meu estômago, se o estômago for dos orgãos que têm células que se renovam, não fazia parte dele há uns tempos e não vai fazer parte dele daqui a uns tempos. Passa por ele.

Por outro as células, quer sejam as que residem no corpo do berço à cova, quer sejam as que apenas residem temporariamente, passam o seu tempo a sofrer reacções químicas em que se vão combinando com moléculas que lhes vão chegando e libertando outras, de modo que a própria matéria que constitui uma célula não a constitui em  permanência. Como não sou químico também não estou em posição de vos dizer que proporção da matéria de uma célula permanece ao longo da sua vida e que proporção se renova. Mas alguma da matéria que a constitui apenas passa por ela.

Tudo junto, grande parte da matéria que forma o corpo, e se eu fosse biólogo e químico saberia substituir esta quantificação genérica grande parte por outra mais precisa como tantos por cento, ou eventualmente por toda, que faz parte dele em cada momento, apenas passa por ele e não é sempre a mesma. No limite, toda a matéria, todos os átomos, que faz em determinado momento parte do corpo pode não ter feito parte dele em momentos passados e voltar a não fazer em momentos futuros. O corpo não tem uma existência física individualizada, é apenas o ponto de passagem de uma comunidade de matéria que vai chegando, permanecendo e partindo. Mesmo que entre a fase do pó ao nascimento e a da morte ao pó nos pareça sempre o mesmo.

De modo que na próxima tertúlia com o meu amigo vou-lhe propor uma correcção na frase, substituindo és pó, que sugere uma continuidade vitalícia, por vais sendo pó, que retrata melhor a dinâmica material do corpo.

E quem sente, pelo menos, o conforto de ter um corpo que é seu e só seu antes de tornar ao pó, que se desengane. É apenas dono de um ponto de passagem.

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:34
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Segunda-feira, 12 de Março de 2018

Abrir os partidos à sociedade civil

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O novo presidente do PSD Rui Rio declarou, tanto ao longo da campanha eleitoral para as eleições directas no partido, como no 37º Congresso Nacional em que a sua nomeação como presidente do partido foi formalizada, a urgência em reformar o sistema político para lhe recuperar a credibilidade abrindo os partidos à sociedade civil. Consequente com este diagnóstico, foi buscar à sociedade civil para integrar a Comissão Política Nacional como vice-presidente a advogada Elina Fraga, anterior bastonária de Ordem dos Advogados que colocou em tribunal os membros do governo de Passos Coelho por causa do encerramento de tribunais decorrente da implementação do novo mapa judiciário. E as críticas de muitos militantes e antigos dirigentes do partido a esta escolha valeram-lhe a solidariedade expressa nas redes sociais de muitos socialistas e bloquistas.

Já a presidente do CDS Assunção Cristas foi buscar à sociedade civil para integrar o grupo de personalidades que vai elaborar o programa eleitoral do partido às eleições legislativas de 2019 Nadia Piazza, a mãe que perdeu o filho no incêndio de Pedrogão Grande, confessou que encontrou conforto em saber que o filho tinha morrido envolvido nos braços do pai, foi a principal promotora da formação da Associação de Familiares de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, e recusou convidar para o almoço de Natal da associação o primeiro ministro que reagiu à tragédia em termos odiosos, fugiu de férias e encomendou estudos para descobrir como minorar os danos politicos da tragédia para ele e para o governo. E os mesmos socialistas e bloquistas que se tinham solidarizado com a outra dedicaram a esta a insinuação de ter recusado o convite ao primeiro ministro e aceite o convite para colaborar com o CDS por "oportunismo", "vantagens" e "interesses".

É quase a mesma coisa, não é?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:36
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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

Professores com deficit de habilitações académicas

Eu dei aulas no Instituto Superior Técnico sem ser licenciado.

O professor Diamantino Durão, na altura Catedrático no departamento de Engenharia Mecânica do IST, regente de várias cadeiras do ramo de Termodinâmica Aplicada, presidente do Conselho Directivo e mais tarde ministro da Educação, tinha que ir fazer um trabalho nos EUA e reconvidou-me, já me tinha convidado quando acabei o 4º ano onde tinha sido aluno das aulas teóricas dele nas cadeiras de Transmissão de Calor e Massa que ele regia mas eu entretanto tinha aceitado um convite para bolseiro de investigação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil e não tinha aceitado o dele, para assegurar as aulas da cadeira como Monitor.

Nunca me chegou a explicar o motivo de o convite não ter sido precedido de um rigoroso concurso público, mas admito que o facto de eu ser o melhor aluno do curso de Engenharia Mecânica e de ter tido 19 na cadeira possa ter tido alguma influência. E suspeito que possa não ter sido por motivações políticas, porque eu só ingressei no PSD trinta e dois anos depois de acabar o curso e em 1983, entre governos do dr. Pinto Balsemão, resgates do FMI e governos do Bloco Central, interessava-me muito pouco pelo PSD, e não faço ideia se ele próprio era do PSD apesar de mais tarde ter sido ministro num dos governos de doutor Cavaco Silva.

Durante dois ou três meses assegurei sozinho as aulas da cadeira de Transmissão de Calor e Massa I, tanto as práticas como as teóricas, porque o professor que costumava dar as teóricas estava ausente. Não quero maçar os leitores com as technicalities, mas depois de duas ou três semanas dedicadas a ilustrar os princípios mais simples de transmissão de calor por condução e por convecção em regime estacionário e em corpos homogéneos de geometria simples e unidimensional passei para outras duas ou três a apresentar a Equação do Calor e a derivar várias soluções em coordenadas ortogonais, assim como em coordenadas cilíndricas e esféricas que não vos maço com a demonstração nem sequer a ilustração. Era isto.

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Mesmo dada por um aluno imberbe era aquilo a que se podia chamar uma cadeira para alunos de barba rija, ou um cadeirão.

Entretanto eu acabei o curso e fui admitido numa empresa privada a que me candidatei e não me pareceu conveniente perturbar o início da carreira a acumular o trabalho absorvente na empresa com ausências para continuar a dar aulas, o professor Diamantino Durão regressou dos EUA com disponibilidade para retomar as aulas, e acordamos pacificamente a cessação do meu trabalho como Monitor no IST em Janeiro de 1984.

Felizmente este episódio não chegou aos jornais, nessa época não havia redes sociais, e investigadores notáveis como o professor doutor Rui Bebiano ou a professora doutora Raquel Varela não tiveram conhecimento dele nem vieram para a praça pública indignar-se contra a destruição da universidade pública pelo nepotismo partidário através da decadência da exigência do nível científico inerente à contratação de professores não doutorados, exigência que eles próprios garantem como referências científicas sólidas com base nos graus académicos que outros como eles lhes atribuiram.

E o IST não caiu no pântano em que merecia apodrecer por recrutar, pior que assistentes e professores convidados não-doutorados para ensinarem matérias, nomeadamente tecnológicas, que nenhum docente da carreira dominava, alunos para darem aulas a outros alunos, nem a Ordem dos Engenheiros recusou a atribuição do grau profissional de Engenheiro aos licenciados que foram meus alunos de Transmissão de Calor e Massa I, e graças à discrição com que o episódio foi tratado o IST até manteve, se não aumentou, o renome de universidade de excelência que conquistou ao longo de muitas décadas.

Não certamente ao nível daquelas onde eles investigam através do método de escolher os factos que sustentam as opiniões, muito mais assertivo e proactivo que o método mais modesto seguido no IST de formar conclusões com base nos factos. Método em que desgraçadamente me formei, e que limita seriamente quaisquer ambições que possa vir a ter de conseguir vir a ser intelectualmente trafulha como eles.

A academia pode perfeitamente ser colonizada por idiotas e trafulhas, mas deve ser reservada a doutorados. Ou então de esquerda.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:19
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Terça-feira, 6 de Março de 2018

E a gratuitidade dos transportes públicos para as mulheres que fazem aborto?

Na sua primeira iniciativa legislativa nesta legislatura o Bloco de Esquerda conseguiu mobilizar a maioria de esquerda para extinguir em Novembro de 2015 a taxa moderadora de 7,75 € para o aborto que tinha sido aprovada nesse Verão e entrado em vigor na semana imediatamente anterior às eleições de 6 de Outubro.

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Os agregados familiares com rendimento per capita superior a 631,98 euros, os de rendimento inferior a este limite estão isentos de todas as taxas moderadoras, deixaram de ser sujeitos a este pesado castigo e obstáculo à sua liberdade de escolha que se manteve apenas para consultas de medicina geral ou de especialidade no centro de saúde, no hospital ou no domicílio, ou mesmo sem a presença do utente, consultas de enfermagem, recurso às urgências hospitalares e meios complementares de diagnóstico e terapêutica. Ou seja, apenas para os doentes.

Que a imposição de uma taxa moderadora de 7,75 €, igual à de uma consulta de especialidade no Serviço Nacional de Saúde, entretanto reduzida para 7 €, às mulheres de agregados familiares com rendimento per capita superior a 631,98 € que abortavam fosse um retrocesso nos direitos sexuais e reprodutivos ou uma punição para as mulheres que recorrem ao aborto, como tinham defendido os bloquistas e os comunistas durante a discussão da proposta do CDS para a instituir, ou que empurrasse as mulheres para o aborto clandestino, como avisou a Sociedade Portuguesa da Contracepção, chega a parecer quase delirante.

Por ter que pagar por um aborto 7,75 €, mais ou menos o que gastam no quiosque semanalmente se ela comprar a revista Cristina e ele o jornal Expresso, ou vice-versa se for um casal que rasga com os estereotipos de género, uma mulher de um casal com um filho em que ela e o marido tenham um salário mensal de pelo menos mil euros cada um predisposta a abortar desistiria de o fazer, ou ponderaria recorrer ao aborto clandestino, cujas tabelas de preços não conheço mas admito que não sejam muito diferentes deste valor multiplicado por cem? Eu acho que as médicas e os médicos da Sociedade Portuguesa da Contracepção deviam ir ao médico para lhes investigar a origem da sua manifesta falta de bom-senso, das deputadas e deputados bloquistas e comunistas já tenho o diagnóstico feito há muito tempo, que não é o mesmo para os dois grupos, e confirma-se a cada novo exame. Ou seja, a resposta é não, por causa de uma taxa moderadora de 7,75 € ela não desistiria de abortar nem recorreria ao aborto clandestino.

É defensável no plano da justiça social sujeitar a taxas moderadoras os doentes, que por vezes são portadoras de doenças provocadas pela sua falta de cuidado com a saúde, por exemplo por terem fumado cigarros ou comido croquetes ou bebido laranjadas, mas muitas vezes não decorrem de nenhuma falta de cuidado mas de fatalidades genéticas que nenhum cuidado pode evitar, mas isentar delas as mulheres que querem abortar, e é sempre por falta de cuidado que elas engravidam sem o desejar? Não é defensável coisa nenhuma.

Mas pronto, vivemos em democracia e eles mandam em nós porque ganharam as aleições, apesar de as terem perdido, e até a lei ser de novo alterada o aborto vai continuar a ser isento de taxas moderadoras.

No entanto, estudos científicos recentemente publicados detectaram um novo retrocesso nos direitos sexuais e reprodutivos e punição para as mulheres que recorrem ao aborto.

estudo elaborado pela Escola de Gestão de Informação da Universidade Nova de Lisboa detectou que, mais do que por causa das taxas moderadoras, os utentes do Serviço Nacional de Saúde desistem de ir a consultas, tratamentos e episódios de urgência por causa do custo dos transportes para se deslocarem aos locais onde esses cuidados de saúde são prestados. Em 2016, 539.824 utentes desistiram de consultas hospitalares por este motivo, contra apenas 260.905 pelo efeito conjugado do custo dos transportes a das taxas moderadoras. Mais do dobro.

Removido, pelo menos naquelas cabecinhas, o grande obstáculo à liberdade de escolha das mulheres que pretendem abortar em condições de higiene e segurança adequadas, a taxa moderadora de 7 €, emerge um obstáculo ainda mais grave, o custo do transporte para se deslocarem ao estabelecimento hospitalar para o fazer.

Se eu soubesse que estas linhas só são lidas por neoliberais como eu era capaz de deixar aqui ao Bloco de Esquerda a sugestão irónica de tomar uma iniciativa legislativa de tornar os transportes públicos gratuitos para as mulheres que pretendem abortar, com uma provisão para as reembolsar do custo do taxi ou da ambulância quando não há disponibilidade de transporte público para realizar as deslocações entre a casa e o hospital.

Mas como tenho receio que haja bloquistas a lê-las, regular ou ocasionalmente, para recarregarem as suas baterias de indignação com e de dispensa de ódio ao neoliberalismo, e iniciativas legislativas disparatadas já eles têm que chegue  espontaneamente, mesmo sem a minha colaboração com sugestões construtivas, não o faço.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:46
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Domingo, 4 de Março de 2018

As saudades que para aí andam do tempo em que se saneavam professores...

Eu sou do tempo em que o cançonetista Zeca Afonso era regularmente impedido pelo Estado Novo de exercer a sua verdadeira profissão, e a que lhe proporcionava o ganha-pão, a de professor do ensino oficial.

2018-03-04 Zeca Afonso Liceu de Faro.jpg

Distraído com coisas menores, só ontem pela madrugada me apercebi, através da leitura circunstancial de uma publicação no blogue de uma amiga, do movimento que se formou espontaneamente para impedir o ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho de assumir um lugar como professor convidado numa universidade pública.

Confesso que, ou por falta de tempo ou por falta de interesse, não dediquei nenhum esforço a descodificar os rosnados da matilha que se formou para tentar perceber se a exigência de expulsão do novo professor se deve à insuficiência das suas qualificações académicas, uma mera licenciatura pré-Bologna, para dar aulas numa universidade, ou às suas qualificações políticas manchadas indelevelmente pelo crime de ter salvado Portugal da última falência socialista, devendo atribuir-se ao adjectivo numeral última o sentido relativo de ter sido a última até agora mas não a última de todas, porque outras se seguirão, e não o absoluto.

Também deixo claro que, relativamente a esta questão de a falência socialista de que o Pedro Passos Coelho nos salvou ser a última até agora mas não a última de todas, não pretendo tentar esclarecer os socialistas e afins, os membros da matilha, que são suficientemente burros para acreditar nos seus próprios números de ilusionismo, mas apenas deixá-lo escrito para um dia poder dizer "eu bem vos avisei". Também sei que não ficarão desassossegados quando a próxima chegar, porque também são suficientemente burros para acreditar que ela se deverá, não às boas políticas socialistas do governo que acarinham e protegem, mas a causas exógenas de que ele não terá responsabilidade nem permitirão colocar em dúvida a qualidade das suas políticas, como por exemplo a pesada herança do governo Passos por ter governado sem dinheiro, a maldade dos mercados financeiros quando deixarem de acreditar nas qualidades do ilusionista por terem percebido o truque, e as crises cíclicas do capitalismo mundial que há mais de cem anos anunciam o seu fim e a sua substituição pelo socialismo.

Não sei se a proposta de expulsão do ensino oficial do professor Pedro Passos Coelho tem por objectivo proteger os futuros alunos de uma menor exigência na qualidade do ensino ou proteger a sociedade da presença de um político indesejável por desmentir a narrativa em que ela deve acreditar para ser feliz, pelo menos nos intervalos entre crises e falências em que, se quer sair delas, é mesmo obrigada a chamar políticos competentes? Se o saneamento que exigem é académico ou político?

Talvez o saneamento seja académico?

O Estatuto da Carreira Docente UniversitáriaDecreto-Lei n.º 448/79, de 13 de novembro, alterado pela Lei n.º 19/80, de 16 de Julho, e pelos Decretos-Leis n.os 316/83, de 2 de julho, 35/85, de 1 de fevereiro, 48/85, de 27 de fevereiro, 243/85, de 11 de julho, 244/85, de 11 de julho, 381/85, de 27 de setembro, 245/86, de 21 de agosto, 370/86, de 4 de novembro, e 392/86, de 22 de novembro, pela Lei n.º 6/87, de 27 de janeiro, e pelos Decretos-Leis n.os 145/87, de 24 de março, 147/88, de 27 de Abril, 359/88, de 13 de outubro, 412/88, de 9 de novembro, 456/88, de 13 de dezembro, 393/89, de 9 de novembro, 408/89, de 18 de novembro, 388/90, de 10 de dezembro, 76/96, de 18 de junho, 13/97, de 17 de janeiro, 212/97, de 16 de agosto, 252/97, de 26 de setembro, 277/98, de 11 de setembro, e 373/99, de 18 de setembro, e 205/2009, de 31 de agosto (que procede à sua republicação), alterado pela Lei n.º 8/2010, de 13 de maio, e que me perdoem os que se perderam no parágrafo antes de chegar aqui mas não fui capaz de resistir à citação deste extraordinário preâmbulo, prevê, logo no seu Artigo 3º Pessoal especialmente contratado, a contratação para as categorias de assistente convidado, professor convidado ou leitor, "individualidades, nacionais ou estrangeiras, de reconhecida competência científica, pedagógica ou profissional, cuja colaboração se revista de interesse e necessidade inegáveis para a instituição de ensino superior em causa". A contratação de professores como o Pedro Passos Coelho não apenas não é ilegal como está expressamente prevista na Lei. Mas o facto de ser legal não comprova só por si a virtude ou a conveniência de o fazer.

O meu pai dizia que quem sabe faz, e quem não sabe ensina. Mas há excepções. Na minha passagem como aluno pelo Instituto Superior Técnico tive várias cadeiras ministradas por assistentes ou professores convidados, que se distinguiam dos professores integrados na carreira académica por, por um lado, não serem doutorados nem possuirem qualquer grau académico superior à licenciatura, e por outro, serem engenheiros de profissão que ensinavam no IST aquilo que faziam nas empresas onde trabalhavam. Eram os que sabiam e ensinavam. Pelo que não é inédito as universidades, mesmo as que conquistaram um renome superlativo, recrutarem professores que não têm as qualificações académicas requeridas para a integração na carreira académica mas têm competências profissionais suficientemente relevantes para partilhar com os alunos.

Também é verdade que a matilha que pretende a expulsão do professor Pedro Passos Coelho tende a acreditar em charlatões que, instalados nas universidades, maioritariamente nos departamentos de ciências sociais que se prestam mais do que os das ciências exactas a fingir que opinião pode ser ciência, utilizam o púlpito que elas lhes proporcionam para pregar opiniões como se fossem ciência, os Paes Mamede, os Louçã ou os Boaventura que em bom tempo nos prometeram de ciência certa que a rebelião da Grécia contra os ditâmes do Eurogrupo e da senhora Merkel, e agora permitam-me abrir mais um parêntesis para relembrar que a senhora Merkel é de facto uma senhora que merece o título que é usado para a designar, para além de ter exercido a profissão de investigadora doutorada em Química Quântica antes de se dedicar a tempo inteiro à política, a salvaguardaram da crise em que Portugal caiu com a sua submissão à Europa, postulado que a matilha nunca se lembrou, ou lembrou mas evitou para não se sentir embaraçada com a sua própria burrice, confrontar com os factos que entretanto vieram a ocorrer. O rigor científico também não parece ser o que os move.

Também é verdade que algumas universidades podem cair na tentação de convidar professores especialmente contratados, não para partilharem com os seus alunos as competências adquiridas ao longo da sua carreira profissional, mas para aquilo a que se pode designar, de modo simplista e redutor mas suficientemente claro para comunicar o conceito, por lhes fazer favores políticos. Para dar um exemplo, o politico António Guterres, portador do grau de licenciado, foi admitido quando saiu do governo que liderava como professor catedrático convidado pelo IST, não sei especificar exactamente para que objectivo, nem se chegou a cumpri-lo ou se o seu cartão de ponto na universidade ficou tão virgem de registos como o da entidade petronal onde exercera a profissão antes de ingressar no governo, o Instituto de Participações do Estado IPE. Será esta a motivação para os que agora pretendem expulsar o professor Pedro Passos Coelho do ensino? Acredito que seja, pelo menos para os que agora pretendem expulsá-lo e na época também pretenderam expulsar o professor António Guterres do IST. Que são, tanto quanto me foi dado enumerar até agora, nenhum.

Ah, mas o Guterres teve média de 19 no IST! Pois teve, mas eu não encontrei no estatuto nenhuma provisão que assegura aos alunos com média de licenciatura elevada um lugar de professores convidados na universidade onde se licenciaram. Aliás, se alguém conhecer ou conseguir encontrar essa provisão na lei, gostava que me informasse se a média de 17 é suficiente para também assegurar um lugar de professor no IST? É para um amigo.

Ah, mas o Guterres é de esquerda! Pois é, e nesta explicação eu já acredito. Recrutar para professor convidado um ex-primeiro ministro socialista é louvável, mas recrutar um ex-primeiro ministro não socialista é execrável e merece um movimento a exigir a expulsão do professor.

O saneamento exigido é, pois, político.

E, sendo político, não consegui que deixasse de me fazer recordar o saneamento do ensino oficial do cantor José Afonso antes do 25 de Abril de 1974. Cada matilha inspira-se naquela em que gosta de se inspirar, e esta gosta de calçar as botas do Estado Novo, ou gostaria, se tivesse mais meios para o fazer do que o voluntarismo de alguns militares de Abril já enferrujados que não é acompanhado pelo dos 800 homens que eles precisavam que os seguissem para derrubarem o regime e, no que nos interessa agora, sanearem o Pedro Passos Coelho.

E, recordado, andei à procura de testemunhos históricos desse saneamento, e encontrei alguns de ex-alunos sobre a experiência de o terem tido como professor. Para não correr o risco de os encontrar tendenciosos evitei procurá-los no mural da actriz e internauta Maria Vieira, e acabei por encontrar este no insuspeito e objectivo esquerda.net de uma antiga aluna que registou no seu diário a primeira aula dele no Liceu Nacional de Setúbal a 4 de Outubro de 1967 a uma turma do sétimo ano do liceu. Passo a transcrever.

 

" - Vocês são o 7º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.

Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.

Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.

Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria. ".

 

Espero não escandalizar os que vêem no José Afonso um homem santo, mas tenho algumas dúvidas sobre a qualidade desta pedagogia, e admito que mesmo numa democracia madura, como vai sendo a nossa, ela pudesse ser suficiente para os pais reclamarem à instâncias próprias e para se ponderar o afastamento do professor?

Uma das conclusões possíveis de retirar disto tudo é que a exigência do saneamento do Pedro Passos Coelho tem motivações aparentemente académicas mas também podem ser políticas, e o saneamento do José Afonso teve motivações aparentemente políticas mas também podiam ser académicas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:11
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Sábado, 3 de Março de 2018

Correio spam

Às quintas-feiras, vejo a Quadratura do Circulo para efeitos de saber o que pensa a nomenclatura do regime, na parte não-comunista.

 

Sabe-se em que consiste aquele duradouro e bem-sucedido programa, na sua versão actual: um entrevistador socialista moderado e três comentadores residentes - um socialista cristão, um socialista negocista e um socialista radical.

 

Serei talvez injusto quanto ao comentador Pacheco. Este pode a qualquer momento mudar de orientação, como faz periodicamente, em se dando o caso de ter lido recentemente três livros que recomendem uma cambalhota e permitam manter o panache de intelectual arguto, lúcido e culto que julga, com bastante razão, conferir com a sua imagem pública, e, sem razão nenhuma, com a realidade.

 

No último programa Carlos Andrade mencionou o famoso e-mail que a Autoridade Tributária dirigiu a um número indeterminado de cidadãos, e que reza assim (não arranjei graficamente o texto por ser, também sob esse aspecto, uma moxinifada):

 

“Em colaboração com o Ministério da Administração Interna e o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural enviamos uma comunicação, bem como um folheto informativo em anexo, sobre a importância da limpeza de terrenos e árvores na prevenção de incêndios. 

Comunicação do Ministério da Administração Interna e do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural.

Antes que seja tarde, antes que o atinja a si, limpe o mato 50 metros à volta da sua casa e 100 metros nos terrenos à volta da aldeia.

Até 15 de março é obrigatório e vital.

É obrigatório:

  • Limpar o mato e cortar árvores:
  • 50 Metros à volta das casas, armazéns, oficinas, fábricas ou estaleiros;
  • 100 Metros nos terrenos à volta das aldeias, parques de campismo, parques industriais, plataformas de logística e aterros sanitários;
    • Limpar as copas das árvores 4 metros acima do solo e mantê-las afastadas pelo menos 4 metros umas das outras;
    • Cortar todas as árvores e arbustos a menos de 5 metros das casas e impedir que os ramos cresçam sobre o telhado;

Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. As coimas podem variar entre 140 a 5 mil euros, no caso de pessoa singular, e de 1500 a 60 mil euros, no caso de pessoas coletivas.

E este ano são a dobrar.

Até 31 de maio, as Câmaras Municipais podem substituir-se aos proprietários na limpeza do mato. Os proprietários são obrigados a permitir o acesso aos seus terrenos e a ressarcir a Câmara do valor gasto na limpeza.

É Importante:

  • Mantenha-se informado do risco de incêndio na sua área de residência
  • Verifique se o sistema de rega e mangueiras funcionam
  • Limpe telhados e coloque rede de retenção de fagulhas na chaminé
  • Mantenha afastados da casa e edificações:
  • Sobrantes da exploração agrícola ou florestal
  • Pilhas de lenha
  • Botijas de gás ou outras substâncias explosivas

É vital:

A vida da sua família e a segurança dos seus bens dependem do seu gesto.

Para mais informações ligue 808 200 520

Portugal sem fogos está nas mãos de todos.

Esta informação, não dispensa a consulta do DL n.º 124/2006, de 28 de Junho, na sua redação atual.

 

Com os melhores cumprimentos

Manuel Gonçalves Cecilio

Subdiretor Geral

Área do Planeamento, Organização e Comunicação”

 

Lobo Xavier foi um dos que, como eu, não receberam este e-mail, mas dele teve conhecimento por amigos. Portanto, desvalorizou-o, dando a entender que se tratava de uma tolice, um deslize. Compreende-se: que a Autoridade Tributária incomode centenas de milhares de cidadãos com correspondência spam, abusando do conhecimento que tem dos respectivos endereços electrónicos, só seria grave se o incluísse, e presume-se que a outros fiscalistas, no abuso; como não foi o caso, não passa de um pecadilho, mesmo que en passant referisse alguns evidentes disparates do articulado.

 

Pacheco, campeão noutras marés das liberdades cívicas, achou muito bem: os disparates da lei quanto à distância dos troncos às casas, quanto à distância entre copas, quanto aos depósitos de lenha para consumo junto às casas, e um imenso etc.? Ora, lérias, é preciso manter a pressão e isso são detalhes.

 

O último comentador, com os olhos em alvo e o coração apertado, abundou no discurso governamental, como abunda sempre: ai!, temos de acabar com esta calamidade dos incêndios, pelo que é obrigação de alguns, que são os proprietários, garantir a tranquilidade de quase todos, que são sobretudo os citadinos espectadores das notícias, e a segurança dos seus vizinhos.

 

A mesma segurança que o Estado não garante nem sequer no que directamente administra, e isto independentemente de terem ou não meios para o fazer, e de terem de o fazer todos os anos porque todos os anos o problema renasce. Doravante, fica escancarada a porta à execração pública, sempre que houver um incêndio, de quem na área queimada não tenha escrupulosamente cumprido a lei incumprível; e fecha-se a da responsabilidade dos serviços do Estado, e sobretudo do governo, que apenas poderá ser censurado por não ter aplicado tempestivamente a quantidade suficiente de multas, ou das câmaras, que apenas poderão ser censuradas por nem sempre saberem a quem mandar a conta do trabalho lerdo e provavelmente desastrado a que se vão, com municipal vagar, dedicar, ou por não terem os meios, que aliás sempre lhes faltam.

 

Comecemos pelo princípio: pode a Autoridade Tributária usar os endereços que lhe foram confiados para facilidade de comunicações no âmbito estritamente fiscal para veicular propaganda de outros departamentos? Não, não pode, é um claríssimo abuso de poder. Se a moda pega, amanhã os proprietários de automóveis serão informados, por causa da mortalidade nas estradas, do que sobre a matéria entende o Comando-Geral da GNR, com a habitual redacção  insolente e imperativa, e a listagem conscienciosa das multas terroristas, que são a marca de água do Estado socialista; o ministério da Saúde não deixará, se confrontado com um surto de qualquer maleita, de se dirigir aos utentes informando-os do que podem fazer para aliviar os hospitais, que mesmo sem surtos de nada já são pela maior parte deploráveis; e todos os restantes serviços encontrarão razões, em nome de bens maiores, para bombardearem o cidadão com o cumprimento de obrigações sob ameaça, reforçando a tradicional inoperância e inimputabilidade do Estado e seus agentes.

 

Ou seja, este abuso da AT não é inocente: destina-se a transferir habilidosamente as responsabilidades futuras do governo, que se constata falhou clamorosamente, para os próprios cidadãos. Estes, se tiverem queixas, devem endereçá-las aos outros, ao governo nunca. E ele, o governo, passa de responsável a vítima.

 

Continuando: o e-mail não foi enviado apenas a proprietários rurais, ou de espaços abandonados, ou de terrenos manifestamente em risco; foi enviado indiscriminadamente. E não vem assinado sequer por um secretário de Estado, menos ainda pelo primeiro-ministro, o autor, ou alguém por ele, desta torpe manobra. Não: um subdirector-geral serve perfeitamente.

 

Talvez não se possa esperar de um subdirector-geral que saiba interpretar a lei. E esta, que não fui ler (ninguém me paga para trabalhos forçados), parece que exclui jardins. Mas o dr. Cecílio não exclui e manda cortar as árvores 50 metros à volta das casas. Sim, dr. Cecílio, devo abater a minha faia rubra, e a japoneira, e o metrosidério, e muitas outras árvores inocentes que gente de tino e gosto mandou plantar antes de eu nascer?

 

E na fábrica onde trabalho, localizada num parque industrial, que tem um renque de plátanos ao longo da fachada, aí a uns 4 ou 5 metros da parede, vai tudo raso?

 

E sobre o meu cedro, abraçado pela copa da tília, que achas, Cecílio? Vai abaixo ele ou ela? Já agora: não te ocorreu que, se deixares espaços entre as copas, a luz que chega ao solo vai acelerar o crescimento da vegetação rasteira?

 

E as copas, meu chapa? Queres que limpe até 4 metros de altura ou acima de 4 metros? E limpar quer dizer o quê? Cortar ramos secos ou cortar tudo o que fica acima ou abaixo daquela altura funesta? Tu não deves ter um gosto muito apurado, Cecílio, mas olha que há árvores que em as despindo desde a base ficam com a saúde abalada; e outras que em as cortando acima dos 4 metros ficam uns tocos.

 

Hum, e os ramos por cima do telhado? A tal faia rubra, o maior exemplar que conheço nas redondezas, atira os seus ramos quase até meio da casa. Se os amputar a árvore fica desequilibrada (já não digo feia, sei que a isso não ligas) e no próximo temporal pode vir abaixo. E como está num socalco e no nível inferior passa um caminho público, não é impossível que ao cair estronque a cabeça de um socialista que vá a passar, responsabilidade que não quero sobre os meus ombros cansados. Assim como não devem faltar casas rurais com situações semelhantes.

 

Escrevo estas linhas enquanto o recuperador vai consumindo uns reconfortantes toros de lenha. E estou tranquilo que, se a lenha acabar no cesto, posso ir buscar mais ao depósito, que fica logo ao sair da porta da sala, da parte de fora. Não posso? E também não poderia se a casa fosse rural? E as pilhas de lenha têm que estar afastadas, mesmo que cozinhe a lenha e a água do banho seja aquecida também a lenha? Enlouqueceste, Cecílio?

 

E se eu tiver uma quinta de recreio, cheia de árvores, que mesmo bem cuidada não dá senão despesas, na extrema da qual erigiram um parque industrial, em lugar dos campos que lá estavam, tenho de abater 100 metros de árvores à minha custa para não pôr em risco os edifícios cuja construção foi licenciada sem que eu tivesse metido prego nem estopa? Ah.

 

Em resumo, tudo isto é um desastre. E para os que acharem, como Pacheco, que é preciso fazer alguma coisa, seja o que for, e que não há incêndios onde não houver matéria para arder, lembro duas coisas: no Sara não há incêndios; as pessoas que realmente sabem deste assunto, que é muito mais complexo do que o que pode caber numa cabeça pachequiana, ou na de um Cecílio qualquer, não acreditam nos efeitos benéficos desta lei.

 

Não há nada a fazer? Num post escrito em Outubro do ano passado remetia para estudos e especialistas. Algum deles recomenda estes delírios? Não me parece.

publicado por José Meireles Graça às 15:43
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O Partido do Proletariado vai-se reorganizando como pode

2018-02-25 Elisa Ferreira Ana Gomes.jpg

A eurodeputada Ana Gomes ainda alimenta secretamente o sonho de juventude de reorganizar o Partido do Proletariado, agora a partir do Partido Socialista onde se infiltrou para desenvolver o seu combate político em condições de prosperidade material minimamente condignas, e manda o internacionalismo proletário que se combata Israel, a única democracia burguesa e capitalista do Médio Oriente, onde as mulheres têm direitos que agridem a cultura milenar de misoginia e fundamentalismo da região. Na Palestina sê palestino, como gosta de se dizer por cá quando se vê uma imigrante a agredir com o seu véu ou a sua burka a nossa cultura milenar de tolerância e democracia.

Agora decidiu convidar para uma conferência em Bruxelas, onde montou há anos a base da sua militância proletária, Omar Barghouti, o defensor dos direitos humanos e fundador do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), um dos movimentos com mais sucesso do proletariado mundial fundado para, através do Boicote a Israel e às empresas que mantêm relações comerciais com Israel, assim como a quem mantém relações desportivas, culturais ou académicas com o país, do Desinvestimento em empresas israelitas ou que mantenham relações comerciais com Israel, e das Sanções militares, de comércio e diplomáticas a Israel, isolar económica, social e diplomaticamente o Estado de Israel e projectá-lo na falência de modo a deixar de ter meios para se defender militarmente dos povos vizinhos que pretendem libertar a região desta democracia burguesa e capitalista que a oprime e conspurca.

Movimento onde militam figuras ilustres do proletariado mundial como o célebre cançonetista Roger Waters, o pedagogo que anunciou ao mundo que as crianças não precisam de educação e apelou aos professores para as deixarem em paz, no que é perfeitamente coerente com o seu combate contra o único Estado que na região mantém níveis de educação comparáveis com os dos países do primeiro mundo, que apela ao boicote aos concertos e à compra de discos de todos os cançonetistas que actuam em palcos israelitas com o nobre desígnio de evitar que um dia se tornem milionários como ele.

Protestaram contra o convite, debalde, os movimentos pró-Israel, sempre activos a tentar a limitar os direitos de reunião, associação e expressão dos proletários oprimidos de Bruxelas.

A proletária Ana Gomes saltou-lhes ao caminho e denunciou que o movimento que protestou "é extremista, não representa o povo de Israel e alimenta conotações racistas e intenções destruidoras a quem quer a paz com Israel, como Omar Barghouti", tendo-lhe deixado o aviso que "Essa gente está habituada a intimidar, mas a mim não me intimidam". Dá-lhes nas fuças, Ana!

 

PS: Bem, o Expresso do grande social-democrata genuíno Pinto Balsemão, a chamar "lóbi" ao judaico mas "movimento" ao anti-semita.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:52
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Sexta-feira, 2 de Março de 2018

A 10 à hora

Porque não há tecnicamente qualquer problema em limitar a velocidade dos próprios veículos, acabando de vez com os excessos: basta instalar limitadores invioláveis, que aliás já estão em uso em camiões (e até em alguns ligeiros por acordo entre fabricantes).

 

Isto disse eu há pouco mais de um mês. E, por causa desta notícia, vejo-me obrigado a concluir com desgosto que ando a ser lido em Bruxelas, um lugar notoriamente mal frequentado onde ao dobrar de cada esquina se pode tropeçar seja num muçulmano seja num europeísta, duas categorias de pessoas que a prudência recomenda se mantenham a uma saudável distância, as segundas mais perigosas por se vestirem de forma a não se distinguirem das pessoas comuns.

 

Duvido que seja possível até Maio que os novos automóveis já venham com estas extraordinárias modificações. E suponho que algumas mudanças implicarão “investimentos” dos poderes públicos no reforço da sinalização que seja mais facilmente reconhecível pelo hardware que vem nos veículos, assim como numerosos acertos tanto nas mudanças a introduzir na tecnologia para satisfazer todos os delírios securitários das “autoridades” como na legislação para garantir que não haverá quebra duradoura de receitas oriundas de multas.

 

E estranho que não haja ainda reacções dos condutores alemães a este português atrevido e com cara de conas (sim, o burocrata que decide é português) que nunca ninguém elegeu para coisa alguma, e que graças a Deus era até agora apenas mais um parasita anónimo, entre milhares, ocupado a encanzinar a vida de quem gordamente o paga, sobre a impossibilidade de guiarem, na maior parte das autoestradas do seu país, nos seus seguríssimos carros, à velocidade que entendem.

 

Isto tem porém pernas para andar. Preenche o velho sonho igualitarista de andarmos à mesma velocidade, já que não podemos todos ter automóveis com o mesmo grau de luxo ou performance, nem a mesma apetência e competência para andar depressa; torna as viagens de médio curso (Porto/Lisboa, por exemplo) de tal modo maçadoras que não é impossível que acicate o interesse pelo transporte colectivo, uma velha reivindicação da esquerda, que sempre torceu o nariz à liberdade e autonomia que o transporte individual proporciona; e não é impossível que numa primeira fase (antes de se constatar que cessará a evolução em travões, suspensões e outros sistemas de segurança activa, que sempre progrediram para satisfazer os transgressores, e não os cumpridores) se verifique uma diminuição das consequências dos acidentes viários, por terem lugar a velocidades inferiores. Tão inferiores que o que se recomenda, e vai impor, para as cidades, é a velocidade de um cavalo a galope, sem que ninguém tenha feito um estudo sério sobre as consequências, para a densidade do tráfego, da diminuição da velocidade média.

 

Seja. Eu discordo de numerosas disposições do Código da Estrada, mormente as que se referem a limites de velocidade (v.g., quanto às minhas razões, o post acima referido), mas estou ciente de que elas reflectem a posição na matéria da maioria esmagadora dos cidadãos.

 

Mas a Assembleia da República, mesmo que povoada com indivíduos em pijama e mais trajes contraindicados para o lugar, esganiçadas, comunistas e outros exemplares lamentáveis da espécie humana, tem legitimidade democrática; e também a tem o governo do dia, mesmo que inviamente eleito e mesmo que presidido por uma barrica de unto demagógica e aldrabona. Agora, um tal Avenoso, bruxelense?

 

A Europa sempre foi, desde a queda do Império Romano, um lugar de diversidade. E não faltam teses a sustentar que a variedade de soluções, e arranjos, para problemas semelhantes, foi uma das razões para a sua proeminência, hoje decadente.

 

A rasoira burocrática não quer saber de diferenças: somos todos iguais na nossa inferioridade face às superiores competências de um inimputável que sabe muito de trânsito porque sim. O velhinho alemão que no seu Audi se desloca a duzentos na autoestrada e que nunca teve um acidente é igual ao francês médio que, no seu Mégane, está de olho no velocímetro, não vá ultrapassar os numerosos limites diferentes que um Avenoso qualquer, engenheiro de estradas ou oficial da Gendarmerie, semeou por critérios que só ele entende. E os dois não são diferentes do condutor tuga que decerto encontrará maneira, se houver, de furar estes disparates.

 

O velhinho alemão pode votar no AfD, com a esperança de mandar os Avenosos para casa; eu tenho que me contentar com a esperança de que os acidentes que nunca tive não se convertam em acidentes por adormecer ao volante.

publicado por José Meireles Graça às 00:53
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