Sábado, 2 de Março de 2019

O teste do algodão da justiça portuguesa

2019-03-02 Críticos Neto de Moura.jpg

Pessoalmente considero o juiz que faz acordãos a citar a Bíblia um distúrbio social, não por citar a Bíblia nem por ter uma visão troglodita do papel dos homens e das mulheres na sociedade, mas por citá-la e usar as citações para oferecer a agressores domésticos uma imunidade que a lei não lhes oferece e que com frequência tem sido usada por eles para escalar as agressões até ao assassinato das mulheres queixosas. Penso que não sou o único a pensar assim.

Mas ao ameaçar processar criminalmente todos os que o criticam ele está afinal a assumir uma utilidade social: está a revelar que em Portugal a liberdade de opinião é limitada quando o alvo da opinião são magistrados judiciais que, ao contrário do que acontece quando os criticados são políticos ou polícias ou outros cidadãos quaisquer e as críticas que lhes fazem são julgadas por magistrados que não fazem parte da sua classe, julgam dentro da classe as críticas que lhes fazem. Ou da casta.

E está também a dar-lhes uma (última?) oportunidade para mostrar que estão na Justiça para servirem a justiça e não para se servirem a si próprios protegendo-se uns aos outros. Será o teste de algodão.

Veremos se estão à altura do desafio.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:25
link do post | comentar | ver comentários (2)
Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2019

Prova de vida para garantir um lugar no governo Costa

2019-02-22 Garrafas água.jpg

A água em garrafa vai duplicar de preço.

O anúncio recente de dar um prémio a quem devolvesse garrafas de plástico não reutilizáveis usadas era uma burla, mais uma burla do governo Costa que é um desperdício de competências não se dedicar ao negócia das cartas da Nigéria, que prometem prémios futuros a quem lhes der dinheiro à cabeça, porque a intenção real afinal é de cobrar depósito de vasilhame, também conhecido por tara, à cabeça quando elas se compram.

Recomendação do Grupo de Trabalho do Plástico, que também se podia chamar talvez com mais propriedade Grupo de Trabalho do Lixo. Como ainda não têm o valor do depósito de vasilhame definido mas citam o da Alemanha, de 15 cêntimos, o mais certo será as garrafas de água passarem a custar mais 15 cêntimos, o que duplica exactamente o preço actual de uma garrafa de 50 cl de água das Caldas de Penacova no Continente, que aconselho vivamente pela qualidade e pelo preço.

A actual prática ambientalmente responsável de separar o lixo e colocar as garrafas de plástico no contentor para embalagem perto de casa terá que ser substituída por levá-las a uma das 50 máquinas de recolha que serão instalados no território nacional e que reembolsam as garrafas devolvidas com um talão de compra, de Tesla, para quem tiver um, ou de carro a gasóleo para os outros, porque não há soluções geométricas que permitam espalhar 50 pontos de recolha num território de 89 mil quilómetros quadrados sem haver locais a menos do que várias dezenas de quilómetros do ponto mais próximo.

Isto podia ser mais uma das provas de vida de tontice desbocada esquerdista, em que se tem destacado claramente a ministra da Saúde mas a que até os governantes mais discretos e anóminos até agora andam a aderir, como foi o caso da secretária de Estado da Justiça ontem ao anunciar com poucas horas de intervalo a erradicação do género do Cartão de Cidadão e a sua reposição, que os membros do governo Costa parecem estar obrigados a fazer neste ano de eleições para garantirem o seu lugar no governo de tontos desbocados esquerdistas.

Podia, mesmo se o Ministro do Ambiente não tinha a necessidade de o fazer, porque já mais do que tem cumprida a sua obrigação de dizer tontices desbocadas esquerdistas. Mas sem saber quem vende e gere as máquinas de recolha de garrafas não ponho as mãos pelo fogo, que os socialistas deste Tempo Novo perdem-se por tontices desbocadas esquerdistas mas gostam ainda mais de dinheiro.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:48
link do post | comentar
Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Desserviço Nacional de Saúde

O Serviço Nacional de Saúde é um sucesso socialista: foi concebido como sendo universal e tendencialmente gratuito, carácter que lhe vinha da Constituição (artº 64º).

 

Foi um triunfo, nos anos iniciais, ao melhorarem-se espectacularmente os indicadores de mortalidade infantil e esperança de vida, entre muitos outros, mesmo que a evolução científica e tecnológica, além de progressos no saneamento e nos hábitos de higiene, também tenham desempenhado o seu papel, habitualmente desconsiderado.

 

Na comparação com outros países, que é a que interessa quando se quer medir o desempenho, bastará dizer que Portugal, no indicador esperança de vida, ocupava em 2017 o 22º lugar em 201 países, à frente por exemplo da Alemanha, Dinamarca ou Reino Unido. É obra: só no futebol, e mesmo assim apenas enquanto Ronaldo não esgotar o prazo de validade, é que o nosso país se afasta do lugar que lhe cabe na hierarquia dos países medida em PIB por cabeça, onde aqueles três países estão naturalmente muito à frente de nós.

 

A Constituição poderá ser socialista deliberadamente, e a maioria dos cidadãos inconscientemente, mas o sector privado da Saúde nunca deixou de existir e crescer. Isso explica que o clamor que de há uns anos a esta parte tem vindo em crescendo contra o SNS não tenha o carácter explosivo que teria sem os privados: estes amortecem, para quem tenha seguros ou sistemas particulares como a ADSE ou os SAMS e muitos outros, as consequências da degradação,  obsolescência e esgotamento dos estabelecimentos de propriedade pública e os seus crescentes e desumanos prazos, falhanços e insuficiências.

 

Nada que surpreenda: o socialismo acaba, como se sabe, quando acaba o dinheiro dos outros. E como o establishment interiorizou finalmente que défices não, e intui que não pode continuar a aumentar a ordenha da vaca leiteira dos impostos indirectos, sob pena de o eleitor se aperceber que está a ser sangrado em vida, há um grande mal-estar. Daí a guerra com a ADSE e as greves cirúrgicas dos enfermeiros: o Poder não pode ceder porque não tem dinheiro para ceder; e a tentação cresce de demonizar os privados e tachar os trabalhadores públicos de serventuários de interesses obscuros.

 

O jornalismo, como é vulgar em situações de crise, vai colher a opinião dos senadores, e estes são entre nós, quase sempre, gente que caucionou durante décadas o tipo de políticas que na economia, na saúde, na justiça e no resto, nos trouxeram à condição, para a qual caminhamos velozmente, de lanterna-vermelha da Europa.

 

Constantino Sakellarides é um desses: fala muito e imprecisamente, e não tem na realidade nenhuma ideia nova sobre a forma de resolver os problemas com que se defronta o SNS: mais orçamento, mais isto e mais aquilo e mais senso – o dele – com menos reivindicações, esta a receita que ministra, envolta em frases evasivas e enigmáticas.

 

Confesso: Desmontar o chorrilho de meias verdades, equívocos, vacuidades e imprecisões da entrevista seria como andar à paulada a gambozinos no meio do nevoeiro. Dispenso-me.

 

Num ponto, porém, foi clara: o jornalista quis saber o que pensava Constantino do que disse Rui Ramos no Observador, onde se referia “a uma ideologia do SNS que teria ódio ao negócio da saúde e uma velha obsessão do socialismo com a estatização dos setores básicos da economia”.

 

O que Rui Ramos disse só não é um truísmo porque em Portugal, infelizmente, nem os factos contrariam as crenças esquerdistas. Pois o velho senador riu, e declarou:

 

É difícil encontrar tanto preconceito numa só frase! As pessoas não conhecem a história da saúde, não conhecem porque é que com a Revolução Industrial nós tivemos segurança social, porque é que a segurança social nos países mais avançados evoluiu de uma certa forma e nos países do sul da Europa evoluiu de uma forma diferente. O SNS não foi uma pessoa que num dia se sentou e disse ‘temos de ter um Serviço Nacional de Saúde’. Não foi um pecador que numa noite de desvario se sentou e criou um monstro. Isso que me leu, tenho pena que tenha sido escrito por uma pessoa com um background académico”.

 

Fantástico: as universidades, hoje e desde há poucas décadas, são mais vezes sim do que não coios de lunáticos e marxistas reciclados em engenheiros de costumes e magos da economia vudu, mas nem todas nem todos ꟷ Rui Ramos não faz parte da seita. Mas é historiador, e isso dá vontade de rir a Sakellarides, que é “professor” de políticas e administração de saúde, tem uma extensa carreira como funcionário do que está e julga conhecer bem a história da segurança social, provavelmente porque tresleu sobre o assunto meia dúzia de livros de autores suspeitos.

 

Não há outra gente? Há, claro. Mas não são de esquerda, e a nossa tragédia é esta: continuamos a querer resolver problemas com quem faz parte deles.

publicado por José Meireles Graça às 19:45
link do post | comentar | ver comentários (1)

As dúvidas de Marcelo

2019-02-19 Marcelo com dúvidas.jpg

Marcelo promulgou com dúvidas o aumento do salário mínimo na função pública para 635 Euros, por ser superior ao salário mínimo em vigor para o sector privado, de 600 Euros.

É sempre bom ter dúvidas, porque a dúvida aguça o engenho. Mas neste caso são desnecessárias, porque a diferenciação faz todo o sentido.

No privado, se o negócio não sustentar salários mais altos esgota-se o dinheiro dos fregueses, depois o dinheiro que os sócios estão dispostos a colocar na empresa, e por fim esgota-se tudo e a empresa fecha e os empregados ficam desempregados.

Na função pública, quando os salários aumentam mais do que a conta certa há sempre dinheiro dos contribuintes, e quando os governos receiam espremer demais os contribuintes por causa das eleições haverá o dinheiro dos contribuintes futuros para pagarem a dívida que é contraída para pagar estes salários, de modo que o dinheiro nunca se esgota e os empregados nunca ficam desempregados.

Simples, não é? Ó senhor presidente, deixe-se de dúvidas e assine lá essa merda para não fazer esperar o senhor primeiro-ministro.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:23
link do post | comentar
Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019

E isto sou eu, que não acredito em bruxas

2019-02-18 Lacerda Machado.jpg

Os negócios em Portugal dos sócios do patrão do melhor amigo do primeiro-ministro seguem de vento em popa.

E isto sou eu, que não acredito em bruxas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:34
link do post | comentar
Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2019

Revolucion y muerte 3

E se um dia os funcionários públicos no activo e aposentados se aperceberem que no novo modelo de gestão implementado pelo governo António Costa os beneficiários da ADSE já estão representados nos orgãos de gestão da instituição que é integralmente sustentada pelas contribuições deles por representantes dos sindicatos e organizações de reformados que concorreram a representá-los numa eleição para a qual nenhum outro grupo de funcionários tinha estrutura nem logística para se organizar e montar uma candidatura, e nenhum apresentou nenhuma, e em que só 2,2% dos beneficiários votaram?

E se se aperceberem que os representantes, em teoria deles mas na prática escolhidos pelos sindicatos e organizações de reformados, estão lá, não a defender os seus interesses, a sua saúde a e sua vida, mas a tentar concretizar na ADSE a agenda ideológica das organizações que lá os colocaram, de erradicação dos privados do sector da saúde para chegar ao socialismo, pelo menos na saúde, com um modelo de SNS exclusivamente público?

2019-02-14 Eugenio Rosa.jpg

E se se aperceberem que o membro colocado no Conselho Directivo da ADSE pela CGTP em representação deles até se gaba no seu blogue, onde retrata os prestadores de cuidados de saúde privados como associações de criminosos organizados para se apropriarem indevidamente do dinheiro dos associados da ADSE, de os representantes dos beneficiários, de que ele é o membro mais proeminente e poderoso por integrar a direcção, terem sido determinantes para forçar a gestão da ADSE a impôr aos privados com contrato de convenção com a ADSE o processo de regularizações, em que depois de ao longo dos anos facturarem a ADSE pelos serviços que prestaram aos beneficiários pelos quais eles apenas pagaram taxas moderadoras lhes pede posteriormente reembolsos milionários imprevisíveis, que está a conduzir à rescisão das convenções que eles têm comunicado oficialmente nos últimos dias?

2019-02-14 Eugenio Rosa blogue.jpg

E se se aperceberem que, por perderem a possibilidade de recorrer a prestadores de cuidados de saúde privados ao abrigo das convenções que lhes possibilitam pagar apenas taxas moderadoras comportáveis no momento da prestação e passarem a ter de pagar integralmente os cuidados, e alguns cuidados de saúde são incomportáveis para a capacidade de tesouraria mesmo de muita classe alta, para depois solicitar o seu reembolso parcial à ADSE, ou seja, vão passar a pagar mais, adiantar o custo integral, e nos casos não tiverem meios de o fazer terão que desistir de se tratarem num privado e que se conformar com as listas de espera do SNS público?

E se se aperceberem que o PCP, que está a ser levado para a cova pelo governo António Costa por lhe ter assegurado a sustentação parlamentar e, ao fazê-lo, ter prescindido do seu papel de alternativa à esquerda aos socialistas pelo que os seus eleitores podem passar a votar no PS sem qualquer consequência substancial, neste caminho para a cova está determinado a levar com ele os funcionários públicos destruindo-lhes, porque actualmente ela é deles, a ADSE? E que o governo socialista, em parte porque tem que alimentar a aliança com os bloquistas que lhe permitirá continuar a governar sem conquistar maioria nas eleições, mas em parte também porque os socialistas predominantes na orientação política actual do partido estão ideologicamente mais próximos da extrema-esquerda dos bloquistas do que da raiz ideológica original de socialismo democrático do partido, são bloquistas que ingressaram no PS porque dentro do PS a carreira política era mais promissora do que nas seitas de extrema-esquerda onde militavam antes ou poderiam militar, não está a fazer nada para o evitar?

E se, apercebendo-se do que lhes estão a tirar, em vez de esperarem pelas eleições para manifestar ordeiramente a sua discordância com a perda dos direitos que tinham, sem ter de os mendigar a ninguém por serem eles que os pagavam, se virarem à paulada, metafórica, aos governantes, sindicalistas e dirigentes de associações de reformados que colocaram a gerir a ADSE gente com o objectivo de extinguir a única utilidade que a ADSE tem para eles e justifica a contribuição de 3,5% do salário, o acesso a cuidados de saúde no sector privado em prazos e com qualidade aceitáveis que o SNS não lhes garante?

Os governantes, sindicalistas e dirigentes de associações de reformados agredidos metaforicamente irão para a bicha do centro de saúde da residência para se tratarem no público, ou vão ao privado?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:17
link do post | comentar
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Greve ao senso

Nos regimes comunistas não há greves. No sector privado não porque não há sector privado; e no público também não porque estando o povo trabalhador no poder o trabalhador propriamente dito não pode fazer greve contra si mesmo. Impecável lógica. Daí que, quando há tentativas de greves os inspiradores e aderentes acabem invariavelmente num qualquer gulag. Se não for assim o regime acaba, como acabou na Polónia de Jaruzelski quando o Pacto de Varsóvia já abria fendas por todos os lados e o Solidariedade andava por lá a arreganhar os dentes.

 

O povo em Portugal está no poder mas poucochinho, através do PCP e do BE, e portanto ainda há a possibilidade de greves. Na realidade, como reconhece candidamente este antigo fanático comunista, e actual fanático socialista e europeísta, referindo-se à greve cirúrgica dos enfermeiros:

 

(i) no caso dos serviços públicos, os trabalhadores não correm o risco de as suas greves porem em causa a sua existência e os seus próprios postos de trabalho, como sucede nas empresas privadas, sabendo que o Estado não pode encerrar os serviços públicos e despedir o pessoal; (ii) como as greves nos serviços públicos afetam maciçamente os respetivos utentes, em especial os de menores rendimentos, os governos veem-se muitas vezes forçados a ceder às reivindicações, mesmo que elas sejam despropositadas e orçamentalmente ruinosas”.

 

Tem razão. Sucede porém que quem ouvir os enfermeiros não acha as reivindicações despropositadas. E mesmo que não se compre o argumento da bastonária de que o governo não cede aos enfermeiros mas cede aos bancos (um assunto que dá pano para mangas mas do qual não me vou ocupar aqui) resta que os enfermeiros apenas usam contra o governo a sua própria retórica do virar a página da austeridade. A austeridade não acabou, como se sabe, apenas foi substituída pela loucura da redução de cinco horas do horário semanal, umas reversões aqui e ali, um aumento de taxas e de receitas induzidas pela diminuição do desemprego e pelo pálido crescimento económico, e uma intensa barragem de propaganda enquanto o nosso Ronaldo das Finanças se assegurava com mão férrea de que os orçamentos aprovados pela maioria geringonceira eram desrespeitados a benefício da redução do défice – o diagnóstico anda aí pela pena dos economistas sérios, uma raridade na Academia e nos jornais.

 

Então, que propõe o preclaro jurista coimbrão? A reversão do horário das 35 horas para as 40, em nome da igualdade entre o sector público e o privado, e que se lixem os sindicatos e a bastonária? A cedência, mesmo que negociada, e que se lixe o défice? A mesma cedência mas compensada com cortes na despesa pública, a indicar?

 

Não. A criação de um regime diferente para os sindicatos da função pública. E Vital não pega na coisa, como dizem os franceses, com as costas da colher:

 

“Sem pôr em causa substantivamente o direito à greve, há margem, por exemplo, para maior antecedência do pré-aviso, limites à duração das greves, interdição de greves parciais (como a greve às cirurgias), comunicação individual prévia dos trabalhadores que vão fazer greve (para permitir aos serviços adaptarem-se às greves). Além disso, pertencendo o direito à greve diretamente aos trabalhadores e não aos sindicatos, é de equacionar a hipótese de a declaração de greve sindical só abranger os seus próprios associados, tornando necessário um referendo em cada estabelecimento público para habilitar os demais trabalhadores a fazer greve.

 

Eh lá, gosto disto. E eu acrescentava a obrigatoriedade de o referendo ser em escrutínio secreto, mas mesmo sem isso já arremato. Somente, ao contrário de Vital, não quero os trabalhadores públicos com menos direitos, no âmbito do uso da bomba de neutrões que a greve é, do que os do sector privado, razão pela qual estas alterações, a fazerem-se, deveriam ser para todos os trabalhadores.

 

Mas é claro que para todos os trabalhadores não pode ser porque valha-me Deus, as conquistas de Abril, a Constituição e não sei quê. Nem para os públicos, aliás, até agora: nenhum socialista se lembraria de uma tal revolução se a greve dos enfermeiros não tivesse vindo pôr a nu que, como ainda não temos um regime comunista, das duas uma: ou se limitam severamente as greves no sector público ou se privilegiam as PPPs da Saúde, e se generaliza a ADSE, de forma a que uma greve não possa paralisar uma parte esmagadora da prestação de cuidados de saúde por estes não serem prestados, como deviam, pelo sector privado em múltiplos estabelecimentos.

 

Não fui eu quem concebeu o SNS, nem sou eu quem o defende com a configuração que tem. Mas é uma saborosa ironia que um socialista de impecáveis credenciais venha defender o que sempre defenderam os comunistas: no público greves não; no privado sim, desde que não exista.

publicado por José Meireles Graça às 21:43
link do post | comentar

Jamaica somos todos nós

"Jamaica somos todos nós", disse o solidário ministro da Administração Interna.

2019-02-13 Jamaica.jpg

Quer dizer, Jamaica são vocês, que às cinco da manhã se vão meter na fila para tentar marcar uma consulta no centro de saúde para o médico de família vos passar uma guia para poderem marcar uma consulta de especialidade no hospital meses ou anos depois, e nessa consulta entrarem pelo fim na lista de espera para cirurgias, e até serem tratados mais alguns anos depois têm que morder o cinto e aguentar as dores, ou melhor ainda morrer e dar lugar a outros. Deixem-nos governar mais uns anos e trataremos de assegurar que serão todos Jamaica.

2019-02-13 Duplex Costa Av Liberdade.jpg

Nós vivemos em duplexes na Avenida da Liberdade, em condições que não vos explicamos porque se soubessem tudo faziam como nós fazemos e a Avenida da Liberdade seria uma chunguice, que largamos discretamente quando a visibilidade se intensifica por mudarmos de funções. Mas somos perseguidos pelo nosso tom de pele, que seria de nós se não fossemos?

Somos todos Jamaica, vocês com as penas que têm que arrastar e nós com as nossas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:56
link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2019

Revolucion y muerte 2

2019-02-10 Marta Temido.jpg

A ministra da Saúde Marta Temido parece uma tonta desbocada de extrema-esquerda que não consegue esconder as inclinações ideológicas num mundo em que a esquerda só consegue ganhar eleições, ou perdê-las por suficientemente pouco para conseguir cozinhar maiorias parlamentares que sustentam governos, escondendo-as. E responder às questões dos jornalistas sobre as consequências para os utentes da rescisão das convenções com a ADSE dos hospitais da CUF e da Luz que os utentes não ficam sem cuidados de saúde porque têm à sua disposição os estabelecimentos do SNS só confirma esta impressão.

Mas é manhosa e mafiosa.

Lembram-se da burla que o governo Costa fez para esconder o agravamento dos tempos de espera por consultas de especialidade e cirurgias, em cujas listas morrem mais de dois mil doentes por ano, retirando administrativamente da lista os doentes mais antigos através do expediente de inventar que tinham faltado a convocatórias que nunca lhes foram enviadas e recolocando-os depois no fim da fila com o tempo de espera a voltar a zeros, e deste modo reduzindo o tempo de espera médio das estatísticas oficiais?

Fazem alguma ideia de quantos desses doentes deslocados do início para o fim da lista e que, por esse motivo, viram prolongar a sua espera pela primeira consulta de especialidade necessária para dar início ao tratamento ou à cirurgia morreram durante esse prolongamento? Eu não sei, mas sou capaz de admitir que alguns dos 7 doentes que em média morrem por dia à espera de cirurgia possam ser destes.

Sabem onde foi montada e de onde foi coordenada a burla nas listas de espera? Na Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).

Sabem quem dirigia a ACSS ao tempo da burla? O nome está no texto, era a actual ministra da Saúde.

Se não foi promovida a ministra como prémio pela burla que montou, tem pelo menos o perfil ideal para ser membro de um governo António Costa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:55
link do post | comentar

Revolucion y muerte

Desde que na legislatura anterior as contribuições dos funcionários públicos para a ADSE passaram de 1,5% para 3,5% dos salários a ADSE passou de sub-sistema de saúde reservado a privilegiados parcialmente financiado pelos contribuintes a seguro de saúde integralmente suportado pelas contribuições dos utentes.

Continuou no entanto a ser um instituto público gerido pelo governo e, como tudo o que é gerido pelos governos, a acumular as atribuições que lhe são atribuídas por lei com a condição de instrumento das políticas do governo que está.

Na saúde o governo que está é assumidamente de esquerda, e não há nada que o comprova melhor do que a pergunta retórica feita pela ministra da saúde Marta Temido aos jornalistas quando a questionaram, na apresentação da proposta da nova Lei de Bases da Saúde, se desvirtuava pela esquerda a proposta elaborada pela Comissão da Revisão da Lei de Bases da Saúde presidida pela antiga ministra socialista, anterior presidente do PS e candidata presidencial não apoiada pela direcção actual do PS, Maria de Belém Roseira, "Então mas este não é um Governo de Esquerda?". É.

2019-02-10 Marta Temido.jpg

E o que é uma política de esquerda para a Saúde? É uma política que garanta a todos os cidadãos, mesmo aos que não têm meios para os suportar, cuidados de saúde adequados, dignos e humanos? Não, isto pode ser o enunciado de uma política de Saúde de alguém que se considera de esquerda como eu por conter o termo definidor "...garanta a todos os cidadãos, mesmo aos que não têm meios para os suportar...", mas não é uma política de esquerda. Política de esquerda para a Saúde é evoluir no sentido da ambição de um Sistema Nacional de Saúde exclusivamente público, em que qualquer Euro pago a prestadores privados é um Euro desviado dos prestadores públicos para os privados e, portanto, desperdiçado, mesmo que esse Euro consiga assegurar a prestação pelos privados de serviços que em prestadores públicos custaria mais do que custou nos privados.

E porque ambiciona a esquerda um SNS exclusivamente público que pode sair, e sai sempre, mais ineficaz e mais caro, e presta cuidados de saúde piores do que um SNS que garanta o acesso universal a cuidados de saúde prestados por quem é mais capaz de os prestar com a qualidade requerida ao custo mais baixo, mesmo que sejam prestadores privados? Seja porque as raízes ideológicas de onde brotam lhes dizem que tudo o que é privado é perverso e ganancioso e só quer obter lucros sem se preocupar com a saúde dos doentes, seja porque os sindicatos preferem negociar com patrões públicos a quem o dinheiro não sai do bolso e que são sempre impedidos de falir pela boa obra dos contribuintes, seja pelo raio que os parta, ou pela puta que os pariu como diria qualquer minhoto de cepa, a esquerda está-se nas tintas para os doentes, que trata como meras vítimas colaterais na batalha contra os privados que trava no âmbito mais geral da guerra ao capitalismo.

Nesta guerra contra os privados a ADSE é um irritante, como gosta de dizer o primeiro-ministro. Porque os funcionários públicos se quotizam e pagam contribuições do bolso deles apenas para terem a possibilidade de acesso a prestadores de saúde privados, porque aos do SNS já eles têm acesso tendencialmente gratuito como todos os cidadãos. Enquanto houver ADSE há centenas de milhares de utentes dispostos a pagar para terem acesso a cuidados de saúde privados, mesmo depois de financiarem com os seus impostos o SNS público.

E para os impedir de frequentar os prestadores de saúde privados e com essa preferência manter um negócio de saúde privado só há uma de duas alternativas: melhorar o SNS público tanto que os utentes da ADSE criem a percepção que não vale a pena pagar mais para terem o acesso aos prestadores privados; ou rasgar a ligação entre a ADSE e os prestadores privados de saúde.

A primeira alternativa seria uma solução óptima, não só porque desoneraria os funcionários públicos das contribuições actuais para a ADSE de 3,5% do salário por passarem a ter acesso a cuidados de saúde de qualidade satisfatória sem qualquer custo adicional, mas porque os cuidados de qualidade satisfatória estariam acessíveis a qualquer cidadão, mesmo aos que não têm meios para pagar um seguro de saúde nem são funcionários públicos com direito à ADSE. Mas não existe no domínio das possibilidades, porque a tendência tem sido justamente de degradação dos níveis de serviço do SNS por falta de capacidade da gestão pública de os manter, quanto mais melhorar.

A segunda é a única que resta para implementar uma verdadeira política de esquerda na Saúde.

Para a levar a cabo o governo alterou o modelo de gestão da ADSE, agora integralmente financiada pelas contribuições dos beneficiários, de modo a integrar nos seus orgãos de gestão representantes dos beneficiários, o que tem todo o sentido. E quem se candidatou a representar os beneficiários da ADSE nos seus orgão de gestão? Como é óbvio, quem estava suficientemente organizado para preparar uma candidatura, os sindicatos e as associações de aposentados. Numa eleição onde participaram 2,2% dos beneficiários da ADSE foram eleitos  representantes dos beneficiários comunistas e socialistas para os diversos orgãos de gestão, desacando-se o economista comunista Eugénio Rosa no Conselho Directivo.

Assegurando a gestão por representantes do governo, dos sindicatos e das associações de aposentados, todos movidos pelo mesmo objectivo ideológico de fazer evoluir o SNS para um sistema exclusivamente público, a ADSE te-se dedicado a impor aos prestadores privados condições tão leoninas que passem o limite do inaceitável, e já estão a obter os resultados desejados, com a ameaça de três grupos privados, Luz, José de Mello Saúde e Hospitais Particulares do Algarve, de rescindirem as convenções que mantêm com a instituição. Neste processo de guerra aos privados tem participado a esquerda parlamentar que já convocou a ministra, a direcção da ADSE e os representantes dos utentes, ou seja a esquerda extra-parlamentar, para irem esclarecer o parlamento sobre a "chantagem dos hospitais privados".

Entretanto, o grupo José de Mello Saúde formalizou o anúncio da suspensão da convenção com a ADSE nos hospitais CUF a partir do dia 12 de Abril, mantendo a ameaça de a rescindir definitivamente se a ADSE mantiver a sua posição negocial actual de não negociar. A suspensão da convenção, nos termos da qual os utentes apenas pagam taxas moderadoras quando recebem cuidados de saúde do prestador privado que depois factura a instituição para receber o resto do preço da prestação convencionado, obriga os utentes a recorrerem ao sistema de reembolso, em que pagam ao prestador o preço integral da prestação e depois pedem o reembolso parcial à instituição. Como exemplo para perceber a diferença para os utentes, numa cirurgia sem grande complexidade mas com anestesia geral e um dia de internamento isto significa deixarem de pagar algumas centenas de euros de taxa moderadora para passarem a adiantar alguns milhares de euros enquanto não recebem o reembolso parcial da intervenção. Se tiverem disponibilidade para adiantar esses milhares de euros. Se não tiverem, podem-se sempre fazer tratar no SNS.

Os funcionários públicos estão portanto de parabéns pelo governo que alterou o modelo de gestão da ADSE para incluir representates dos utentes e pelos comunistas e socialistas que estão lá a representá-los em nome dos sindicatos porque mais ninguém estava organizado para se candidatar. Vão ficar sem convenção nos Hospitais CUF e outros se seguirão. Daqui por uns tempos, quando quiserem uma consulta de especialidade irão às cinco da manhã para as filas do Centro de Saúde da sua área de residência para conseguirem uma consulta do médico de família que lhes passará uma guia para marcarem a consulta de especialidade num hospital e, com sorte, em dois ou três anos serão finalmente consultados pelo especialista, se ainda estiverem vivos. Isto por apenas um desconto adicional de 3,5% no salário.

Votem nos socialistas, deixem-nos continuar a sua revolução contra o sector privado e sejam carne para canhão.

 

PS: O Grupo Luz Saúde também anunciou o fim da convenção com a ADSE a partir de 15 de Abril. E a ADSE já anunciou que conta com o sector social, os hospitais das Misericórdias, para compensar o fim das convenções com os privados. Deixem-se estar quietos, deixem, deixem-nos continuar a fazer a revolução socialista, e o Senhor que tenha misericórdia de vós.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:01
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Falhei. Como é sina de quem faz algo...Não juntei ...
o cavaquistão está mais morto que os blogs
Fui ler os recentes e relembrar os passados public...
Esta febre de se ser politicamente incorrecto para...

Arquivos

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

donald trump

educação

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds