Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

Do regicídio, dos males da idade e do respeito pelos concidadãos

Mário Soares em entrevista ao I que sairá este fim-de-semana:


“Cavaco devia lembrar-se da história do século xx. Por muito menos que isto foi morto o rei D. Carlos”


Dizer que isto é uma afirmação grave é um eufemismo. O que Soares diz é de uma gravidade tremenda. E não apenas porque Cavaco Silva representa a mais alta instituição da nação. Sobre qualquer outra pessoa, o mais comum dos cidadãos, dizer o mesmo configura uma clara ameaça e um incentivo fortíssimo a que algum louco pegue num instrumento letal e realize a afirmação do ex-Presidente. Sim. Ex-presidente, o que significa uma adicional responsabilidade de Soares, um homem que ainda hoje representa todos os portugueses, e além disso é amplamente repercutido pela comunicação social.


Dúvida: o que Soares diz configura crime? Provavelmente sim, e poderá ser considerada uma ameaça à integridade física?

 

Do Código Penal:  

Artigo 153.º - Ameaça

 

1 - Quem ameaçar outra pessoa com a prática de crime contra a vida, a integridade física, a liberdade pessoal, a liberdade e autodeterminação sexual ou bens patrimoniais de considerável valor, de forma adequada a provocar-lhe medo ou inquietação ou a prejudicar a sua liberdade de determinação, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias.

2 - O procedimento criminal depende de queixa.

 

Mas não há quem, no séquito de apoiantes de Soares, o chame à razão e lhe faça ver que está claramente a exagerar, correndo o risco enorme de inflamar ainda mais a opinião pública num momento tão crítico para o país? E se a resposta da oposição a Soares for no mesmo estilo? E se amanhã começarem a pedir a cabeça de Soares pela sua incoerência histórica, primeiro-ministro de austeridade em 83 que levou uma estalada de operários em público, e agora o maior opositor à austeridade praticada por outro governo? Bem sei que Soares tem pouco a perder dada a avançada idade mas, um pouco de juízo e cabeça fria, estaria na altura de recuperar.


Disclaimer: acho Cavaco Silva um péssimo presidente, acho que foi um mau primeiro-ministro e não penso defendê-lo nas suas acções. Penso apenas que há limites para o que se pode dizer em democracia e Soares está a infringi-los clara e repetidamente em plena impunidade.


A impunidade de alguns protegidos do regime é o contrário de democracia e mesmo a um ancião venerando deve exigir-se o respeito pelos valores por que tantos lutaram e alguns deram a vida.   


Mário Soares: por favor, comporte-se, se não por iniciativa de consciência própria, pelo menos por respeito, para com todos os portugueses. 

(Nunca me passou pela mente, puxar as orelhas a um ex-presidente da República, mas penso que é uma obrigação cívica e mais deviam fazê-lo). 

publicado por João Pereira da Silva às 21:07
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

As bochechas do mundo

 

 

Houve há dias uma conferência em Lisboa, sob a modesta epígrafe "Portugal no Mundo", estrelada com personalidades que não se coibiram de dizer coisas a benefício da ilustração das elites mundiais, incluindo Mr. Barroso, o qual no entanto tinha ademais o prosaico propósito de tratar da futura candidatura a Presidente da República.

 

É discutível se o Mundo estaria com grande atenção; e mesmo àquela parte do Mundo, à qual pertencemos, que está em crise, talvez tenha escapado o altíssimo nível das intervenções e o acerto de algumas previsões e diagnósticos.

 

Mário Soares, por exemplo, avisou sem rebuço que "se não se colocarem os mercados no lugar, se pode caminhar para uma terceira guerra mundial". Isto porque "são os mercados que governam e os governos não têm margem, porque não querem ter".

 

Isto é de gelar o sangue: Mário Soares não estará a referir-se apenas àqueles governos que substituíram os socialistas, caso em que bastaria que os eleitorados caíssem em si para tudo se compor, evitando-se a hecatombe da III Guerra Mundial. Não: inclui certamente aqueles que, como o Sr. Hollande, têm impecáveis credenciais democráticas mas esqueceram os ensinamentos da velha guarda socialista, da qual ele próprio e o Sr. Gonzalez, que estava ali mesmo ao lado, fazem parte.

 

O Sr. Gonzalez, aliás, salientou a pouca margem que os governos têm, referindo que "quem manda é Wall Street e a City”. Que se desenganem os ingénuos que imaginam que os desequilíbrios começaram com o Euro, e aqueles que se queixam amargamente da Chanceler, e do BCE, e da evolução demográfica, e da deriva despesista, e do catano: "A crise começou nos EUA", diz Mário Soares. "Fomos vítimas da bolha especulativa”, afirmou o socialista espanhol.

 

Ora cá está: A Senhora Merkel nunca foi um Diabo muito convincente - pode desempenhar um papel abominável mas por trás tem os mercados, a City e Wall Street.

 

Se formos ver a questão de perto, e sem preconceitos, como estes dois lúcidos estadistas, o verdadeiro culpado é a América. Por sorte, para amenizar, está ao leme por aqueles lados um socialista. Mas ai! - também não é da Velha Guarda.

 

Resignemo-nos: a III Guerra vem a caminho.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:38
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

Os 50 Estados Unidos

 

 

Estive a contar os Estados, um por um, e são de facto 50 (cinquenta). Para o caso do dr. Mário Soares querer continuar a corresponder-se com Obama, segue a lista por ordem alfabética com a respectiva capital:

 

ALABÃ - Mongómer

ALÉZCA - Genô

ERZOM - Finicz

ARCANÇÁ- Lidelró

QUÉLAFORHRNIA - Sacarmente

CLURÁ: Denva

CANÉRICA: Rárfa

DELAUÉ - Dôva

FLORDE - Taláçe

JORGE - Atelã

RAUAI - Rónólu

AIDÃO - Bois

ILANÕES - Ceprinfil

INIÃ - Inianapel

AIUÁ - Demói

QUENCE - Topé

QUENTÚ - Franfó

LUIZIÃ - Vatonrú

MÂE - Ogusta

MERILÂ - Anapel

MACHACHÚÇA - Bosta

MICHIGÃ - Lancim

INEZÓCA - Sanpó

MIÇIÇIPE - Jacz

MIZUR - Gefrç

MONTANHA - Ilena

NEBRÁZC - Linc

NEVÉDER - Carçoncite

NIU RAMPXA - Concordo

NIUJERÇE - Treta

NIU MEQUEÇICA - Çantafer

NIUIÓRH - Albarrã

NORÇ QUÉRLAI - Rali

NORÇ DACÓTE - Bizmar

ORRÁIO - Culumbú

OCLARROMA - Oclarromacite

ORGÃ - Sales

PENÇELVÃ - Errisbú

RODAILÃ - Providê

SÁUÇ QUÉRLAI - Culumbi

SÁUÇ DACÓTE - Pié

TÉNEÇI - Nachevil

TÉQUEÇAZE - Ostil

IUTÁ - Satleiçi

VERHRMÕ - Mompelé

BALGÍNIA - Rhitchemã

UÓCHINTOM - Olívia

UÉZ BALGÍNIA - Chalzte

UEZCONÇE - Médiçe

AIÔMI - Chiã

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 16:44
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Sábado, 20 de Outubro de 2012

Liçõ de frônsé

 

 

Para quem não teve oportunidade de ouvir, deixo o segmento mais importante da entrevista que o dr. Mário Soares deu à Radio France Culture. Vai sem tradução, que é para não adulterar:

 

"Sétiune situaçiõ de grande crise, qui nuçó mantrã de tenir, êje pançe que se guvérnemã é um guvérnemã qui égzizte lá, qui é tã guvérnemã qui fé débétize. Tuletã.

 

Parce quil di une chôze, apré il di alôtre, apré i anfã. Icé tujur il valétre plupápizte que le pápe, il valétre plu forte que lá tróica.

 

Lá tróica disse sé necessér ã miliõ, il vondir sé necessér da miliõ, êtuce lá. Ê la situaciõ sé que tule pêí é contre le regime. Pále regime! Tule pêí é danse mômã contre le guvérnemã."

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 22:37
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Os apertos de mão

 

 

 

Entre os comportamentos que considero verdadeiramente desprezíveis encontram-se os apertos de mãos firmes e cordiais.

 

Um aperto de mão firme e cordial parece saído de um curso intensivo de "Criatividade, Empreendedorismo e Inovação". Estes cursos não servem para nada, e esta é uma das razões: toda a vida houve quem soubesse dar apertos de mão firmes e cordiais. São os chamados vigaristas.

 

Um aperto de mão firme e cordial inspira confiança, o que é um péssimo sinal. Vê-se logo que, mais tarde ou mais cedo, nos vão querer vender qualquer coisa. E quando essa coisa se estragar, eles nunca mais nos vão atender o telemóvel.

 

Quem sabe destes assuntos é o dr. Mário Soares, que anda nisto há muitos anos, tornando-se por isso um profissional de referência obrigatória. Um aperto de mão firme e cordial tem como objectivo afirmar conceitos sagrados, como honra, lealdade e compromisso. Mas não vive no pântano dos valores ultrapassados pela história, porque sabe que estes conceitos correspondem a normas de comportamento obsoletas e está preparado para agir em conformidade.

 

Para evitar sarilhos, é importante desenvolver um aperto de mão frouxo e afectado. Se possível, húmido. Assim não se promete nada, e aumentam-se as probabilidades de afastar a outra pessoa para todo o sempre. Que é o objectivo final de qualquer aperto de mão.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:14
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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

25 de Abril sempre

 

Excepto se aproveitados para uma ponte, os feriados civis provocam-me um indizível tédio - são ainda mais chatos que o Domingo. E dos religiosos gosto apenas por respeito difuso à tradição que a comunidade a que pertenço santificou há séculos, e ainda, em havendo crianças por perto, porque elas neles vêem encanto.


Dos discursos é melhor nem falar: o dia das Comunidades costuma ser um longo desfiar de inanidades, e nos feriados das mudanças de regime aproveita-se para "mensagens" e "recados", que diligentemente o Chefe de Estado, os representantes dos Partidos e um ou outro Senador propinam com generosidade.


A comunicação social excita-se com umas e outros, uma semana após o rumor esmorece - para o ano há mais.

 

De tanto discurso e tanta intenção benévola ou venenosa não resta, que me ocorra, uma linha memorável.


O 25 de Abril, porém, é diferente porque está ainda viva muita gente que o viveu. E isso faz com que não haja, na realidade, um único mas vários 25 de Abris. Lembro alguns: o dos militares que o fizeram, ou a ele aderiram, com maior ou menor risco pessoal; o daqueles que foram presos, exilados, prejudicados nas suas carreiras profissionais ou de alguma forma ofendidos pelo regime deposto; o dos que nutriam silenciosa antipatia pela Velha Senhora, mas, no interesse próprio e no das suas famílias, se abstiveram de a manifestar publicamente; o dos que o viveram como uma festa, mas eram demasiado novos para ter sentido a opressão sufocante do Salazarismo; e os outros, isto é, a maioria que tratava da sua vidinha e à política dizia nada, como a política nada lhes dizia, e que descobriu que, se berrasse o suficiente, se faria ouvir.


O primeiro grupo não era unívoco: irmanados na aversão a um regime que os condenava a uma guerra sem fim à vista, tinham que inventar à pressa uma doutrina que desse cobertura ideológica ao propósito do golpe de Estado, cujo motivo principal (carreiras sem futuro, exílio para longínquos teatros de guerra de guerrilha, intuição de que os ventos da História não sopravam para onde os responsáveis diziam que eles sopravam) não era fundamento bastante para um regime novo.


Daí o manicómio em autogestão a que se chamou o PREC: os militares não escolheram todos, no pronto-a-vestir ideológico, o mesmo figurino, e os pais da malta do 5Dias pescaram abundantemente naquelas águas revoltas, a ver se pariam uma democracia autêntica, com Trotzkys, Ches, Fideis e outros barbudos. Cunhal, a Raposa Branca, à espreita, que seria ele o herdeiro da bagunça e em devido tempo limparia o sebo aos desvios de esquerda, logo a seguir a tê-lo limpo à direita fascista e reaccionária.


O resto é conhecido: ganhou a facção "moderada", Soares e outros cavalgaram a imensa mole da população que não queria comunistadas, e Eanes ajudou a recolher os militares aos quartéis.


Os militares ganhadores, que ficaram pela maior parte na Associação 25 de Abril, e os civis que lançaram as bases do regime que temos, ficaram donos dele, e por conseguinte da comemoração deles, à qual ficaram românticamente associados os comunistas de todos os bordos porque foi linda a festa, pá, e ainda temos a Constituição.


Depois escolheram o Euro e a UE, enquanto vinha a globalização. E os ganhadores do regime não perceberam nada disso, e continuaram a festa como se não houvesse amanhã. Mas havia - é hoje.


E por isso não querem celebrar o 25 de Abril oficial. E têm razão - o 25 de Abril deles acabou.


Oxalá o outro, onde cabem todos e que não tem donos, subsista. 

 

publicado por José Meireles Graça às 00:28
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