Terça-feira, 19 de Março de 2019

Marcelo

A Marcelo chamei, no facebook, um “básico”. Uma boa amiga (feminista, das que me restam – algumas, mais radicais, já me puseram a um canto, sob a cominação de “machista”) discordou, achando que ele, de básico, não tem nada.

 

Não tem, de facto. O escrever à flor dos dedos nem sempre propicia a melhor escolha das palavras.

 

Pior: outras pessoas cuja opinião respeito, e que ademais conheceram o homem pessoalmente, descrevem-no como “brilhante”.

 

À minha amiga, que não me comprou o discurso, respondi como segue. E como ninguém duvida de que Marcelo se vai recandidatar, e que a recandidatura será um passeio, parece-me a altura boa para me repetir e explicar como vejo a peça. Razões por que, além de um perverso gosto meio masoquista de me ver isolado na opinião, aqui vai:

 

Marcelo sempre me pareceu um equívoco: não tem, numa vida de escrita e de magistrado da opinião, um dito original, uma frase ou pensamento que não seja uma cedência ao ar do tempo, uma recomendação de um livro que valha a pena porque provavelmente nunca leu senão badanas ou best-sellers; não tem sobre o país, a UE e o mundo senão ideias comuns a qualquer medíocre recém-licenciado em relações internacionais; e o brilhantismo que se lhe reconhece em táctica política decorre da manipulação, em que é mestre, e do faro político para lhe permitir cambalhotas com validade a seis meses. É brilhante - um brilho de lantejoulas. E a sua simpatia, que se toma por natural, não é mais do que um expediente de angariação da admiração de multidões beatas para lhe lisonjear o ego desmedido - quem gosta de toda a gente não gosta de ninguém. A ideia que tem da estabilidade é que é um fim em si e não um meio, porque não sabe para quê. Não é comunista, é crente (provavelmente para garantir a salvação, que aquela peça não dá ponto sem nó) e daria um bom rei constitucional. É um péssimo presidente e deixará, provavelmente, boa memória, como deixam frequentemente os bons vendedores de banha da cobra que não foram descobertos.

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publicado por José Meireles Graça às 21:14
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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

In memoriam

Fui hoje à terra do meu avô paterno, para o enterro de uma filha dele. Morte devida há muito, que uma doença debilitante e dolorosa tinha transformado a vida num calvário, todavia suportado com um estoicismo, suspeito, alimentado a fé.

 

Era uma tia que tomou conta de mim num tempo que não lembro, por ser muito novinho. E contou-me, já muito doente e acamada, que o bebé, desde que lhe enchessem adequadamente o bandulho e estivesse seco, queria era dormir, embalado pela camioneta em que se fazia o traslado de uma aldeia para outra, cujas passageiras miravam com encanto o sossego do anjinho, espantadas, parece, com as longas pestanas que eram o enlevo dela.

 

Isto me disse de mão dada comigo, a voz já fraca, imensamente contente pela minha rara visita.

 

Não sei o que foi feito das pestanas e receio que o sono nem sempre seja tão descansado como, a acreditar na história, já foi.

 

Tivesse eu a mesma fé, e a mesma tranquila generosidade que a levou a servir os outros toda a vida – o marido, a filha, o irmão, meu Pai, que assistiu nos últimos meses de vida, e estaria certo de que do lado de lá encontraria as palavras certas para lhe agradecer, se do lado de lá ainda é preciso falar.

 

E daí talvez não, a não ser com uma licença especial. Que se no Além houver a justiça que neste falha, não estaríamos decerto no mesmo lugar.

 

Adeus, tia Fernanda.

publicado por José Meireles Graça às 16:44
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Desserviço Nacional de Saúde

O Serviço Nacional de Saúde é um sucesso socialista: foi concebido como sendo universal e tendencialmente gratuito, carácter que lhe vinha da Constituição (artº 64º).

 

Foi um triunfo, nos anos iniciais, ao melhorarem-se espectacularmente os indicadores de mortalidade infantil e esperança de vida, entre muitos outros, mesmo que a evolução científica e tecnológica, além de progressos no saneamento e nos hábitos de higiene, também tenham desempenhado o seu papel, habitualmente desconsiderado.

 

Na comparação com outros países, que é a que interessa quando se quer medir o desempenho, bastará dizer que Portugal, no indicador esperança de vida, ocupava em 2017 o 22º lugar em 201 países, à frente por exemplo da Alemanha, Dinamarca ou Reino Unido. É obra: só no futebol, e mesmo assim apenas enquanto Ronaldo não esgotar o prazo de validade, é que o nosso país se afasta do lugar que lhe cabe na hierarquia dos países medida em PIB por cabeça, onde aqueles três países estão naturalmente muito à frente de nós.

 

A Constituição poderá ser socialista deliberadamente, e a maioria dos cidadãos inconscientemente, mas o sector privado da Saúde nunca deixou de existir e crescer. Isso explica que o clamor que de há uns anos a esta parte tem vindo em crescendo contra o SNS não tenha o carácter explosivo que teria sem os privados: estes amortecem, para quem tenha seguros ou sistemas particulares como a ADSE ou os SAMS e muitos outros, as consequências da degradação,  obsolescência e esgotamento dos estabelecimentos de propriedade pública e os seus crescentes e desumanos prazos, falhanços e insuficiências.

 

Nada que surpreenda: o socialismo acaba, como se sabe, quando acaba o dinheiro dos outros. E como o establishment interiorizou finalmente que défices não, e intui que não pode continuar a aumentar a ordenha da vaca leiteira dos impostos indirectos, sob pena de o eleitor se aperceber que está a ser sangrado em vida, há um grande mal-estar. Daí a guerra com a ADSE e as greves cirúrgicas dos enfermeiros: o Poder não pode ceder porque não tem dinheiro para ceder; e a tentação cresce de demonizar os privados e tachar os trabalhadores públicos de serventuários de interesses obscuros.

 

O jornalismo, como é vulgar em situações de crise, vai colher a opinião dos senadores, e estes são entre nós, quase sempre, gente que caucionou durante décadas o tipo de políticas que na economia, na saúde, na justiça e no resto, nos trouxeram à condição, para a qual caminhamos velozmente, de lanterna-vermelha da Europa.

 

Constantino Sakellarides é um desses: fala muito e imprecisamente, e não tem na realidade nenhuma ideia nova sobre a forma de resolver os problemas com que se defronta o SNS: mais orçamento, mais isto e mais aquilo e mais senso – o dele – com menos reivindicações, esta a receita que ministra, envolta em frases evasivas e enigmáticas.

 

Confesso: Desmontar o chorrilho de meias verdades, equívocos, vacuidades e imprecisões da entrevista seria como andar à paulada a gambozinos no meio do nevoeiro. Dispenso-me.

 

Num ponto, porém, foi clara: o jornalista quis saber o que pensava Constantino do que disse Rui Ramos no Observador, onde se referia “a uma ideologia do SNS que teria ódio ao negócio da saúde e uma velha obsessão do socialismo com a estatização dos setores básicos da economia”.

 

O que Rui Ramos disse só não é um truísmo porque em Portugal, infelizmente, nem os factos contrariam as crenças esquerdistas. Pois o velho senador riu, e declarou:

 

É difícil encontrar tanto preconceito numa só frase! As pessoas não conhecem a história da saúde, não conhecem porque é que com a Revolução Industrial nós tivemos segurança social, porque é que a segurança social nos países mais avançados evoluiu de uma certa forma e nos países do sul da Europa evoluiu de uma forma diferente. O SNS não foi uma pessoa que num dia se sentou e disse ‘temos de ter um Serviço Nacional de Saúde’. Não foi um pecador que numa noite de desvario se sentou e criou um monstro. Isso que me leu, tenho pena que tenha sido escrito por uma pessoa com um background académico”.

 

Fantástico: as universidades, hoje e desde há poucas décadas, são mais vezes sim do que não coios de lunáticos e marxistas reciclados em engenheiros de costumes e magos da economia vudu, mas nem todas nem todos ꟷ Rui Ramos não faz parte da seita. Mas é historiador, e isso dá vontade de rir a Sakellarides, que é “professor” de políticas e administração de saúde, tem uma extensa carreira como funcionário do que está e julga conhecer bem a história da segurança social, provavelmente porque tresleu sobre o assunto meia dúzia de livros de autores suspeitos.

 

Não há outra gente? Há, claro. Mas não são de esquerda, e a nossa tragédia é esta: continuamos a querer resolver problemas com quem faz parte deles.

publicado por José Meireles Graça às 19:45
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Greve ao senso

Nos regimes comunistas não há greves. No sector privado não porque não há sector privado; e no público também não porque estando o povo trabalhador no poder o trabalhador propriamente dito não pode fazer greve contra si mesmo. Impecável lógica. Daí que, quando há tentativas de greves os inspiradores e aderentes acabem invariavelmente num qualquer gulag. Se não for assim o regime acaba, como acabou na Polónia de Jaruzelski quando o Pacto de Varsóvia já abria fendas por todos os lados e o Solidariedade andava por lá a arreganhar os dentes.

 

O povo em Portugal está no poder mas poucochinho, através do PCP e do BE, e portanto ainda há a possibilidade de greves. Na realidade, como reconhece candidamente este antigo fanático comunista, e actual fanático socialista e europeísta, referindo-se à greve cirúrgica dos enfermeiros:

 

(i) no caso dos serviços públicos, os trabalhadores não correm o risco de as suas greves porem em causa a sua existência e os seus próprios postos de trabalho, como sucede nas empresas privadas, sabendo que o Estado não pode encerrar os serviços públicos e despedir o pessoal; (ii) como as greves nos serviços públicos afetam maciçamente os respetivos utentes, em especial os de menores rendimentos, os governos veem-se muitas vezes forçados a ceder às reivindicações, mesmo que elas sejam despropositadas e orçamentalmente ruinosas”.

 

Tem razão. Sucede porém que quem ouvir os enfermeiros não acha as reivindicações despropositadas. E mesmo que não se compre o argumento da bastonária de que o governo não cede aos enfermeiros mas cede aos bancos (um assunto que dá pano para mangas mas do qual não me vou ocupar aqui) resta que os enfermeiros apenas usam contra o governo a sua própria retórica do virar a página da austeridade. A austeridade não acabou, como se sabe, apenas foi substituída pela loucura da redução de cinco horas do horário semanal, umas reversões aqui e ali, um aumento de taxas e de receitas induzidas pela diminuição do desemprego e pelo pálido crescimento económico, e uma intensa barragem de propaganda enquanto o nosso Ronaldo das Finanças se assegurava com mão férrea de que os orçamentos aprovados pela maioria geringonceira eram desrespeitados a benefício da redução do défice – o diagnóstico anda aí pela pena dos economistas sérios, uma raridade na Academia e nos jornais.

 

Então, que propõe o preclaro jurista coimbrão? A reversão do horário das 35 horas para as 40, em nome da igualdade entre o sector público e o privado, e que se lixem os sindicatos e a bastonária? A cedência, mesmo que negociada, e que se lixe o défice? A mesma cedência mas compensada com cortes na despesa pública, a indicar?

 

Não. A criação de um regime diferente para os sindicatos da função pública. E Vital não pega na coisa, como dizem os franceses, com as costas da colher:

 

“Sem pôr em causa substantivamente o direito à greve, há margem, por exemplo, para maior antecedência do pré-aviso, limites à duração das greves, interdição de greves parciais (como a greve às cirurgias), comunicação individual prévia dos trabalhadores que vão fazer greve (para permitir aos serviços adaptarem-se às greves). Além disso, pertencendo o direito à greve diretamente aos trabalhadores e não aos sindicatos, é de equacionar a hipótese de a declaração de greve sindical só abranger os seus próprios associados, tornando necessário um referendo em cada estabelecimento público para habilitar os demais trabalhadores a fazer greve.

 

Eh lá, gosto disto. E eu acrescentava a obrigatoriedade de o referendo ser em escrutínio secreto, mas mesmo sem isso já arremato. Somente, ao contrário de Vital, não quero os trabalhadores públicos com menos direitos, no âmbito do uso da bomba de neutrões que a greve é, do que os do sector privado, razão pela qual estas alterações, a fazerem-se, deveriam ser para todos os trabalhadores.

 

Mas é claro que para todos os trabalhadores não pode ser porque valha-me Deus, as conquistas de Abril, a Constituição e não sei quê. Nem para os públicos, aliás, até agora: nenhum socialista se lembraria de uma tal revolução se a greve dos enfermeiros não tivesse vindo pôr a nu que, como ainda não temos um regime comunista, das duas uma: ou se limitam severamente as greves no sector público ou se privilegiam as PPPs da Saúde, e se generaliza a ADSE, de forma a que uma greve não possa paralisar uma parte esmagadora da prestação de cuidados de saúde por estes não serem prestados, como deviam, pelo sector privado em múltiplos estabelecimentos.

 

Não fui eu quem concebeu o SNS, nem sou eu quem o defende com a configuração que tem. Mas é uma saborosa ironia que um socialista de impecáveis credenciais venha defender o que sempre defenderam os comunistas: no público greves não; no privado sim, desde que não exista.

publicado por José Meireles Graça às 21:43
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019

Circulatura ou lá o que é

Maria João Avillez tem nome no jornalismo: entrevista há décadas meio mundo da política e escreveu abundantemente sobre os pais da pátria democrática. Invariavelmente, porém, perde um tempo infinito com a pequena história, porque não imagina outra. Podemos estar certos de que, se tivesse entrevistado Churchill, não quereria saber o que pensava ele do Império Britânico, do qual foi um tempo diligente soldado, e sua ruína, mas antes quantos charutos fumava por dia; e se Salazar, não sobre a herança futura de uma sociedade sem anticorpos para o esquerdismo, mas sim se era verdade a história do galinheiro em S. Bento a vender ovos para a vizinhança e se namorou ou não namorou realmente com Christine Garnier.

 

É uma fórmula de sucesso. Toda a gente quer conhecer a intimidade e as humanas fraquezas dos poderosos; e a poucos interessa o papel que cada notável desempenha no processo histórico, as consequências para a comunidade das escolhas que fez, e os paralelos com situações pretéritas.

 

Pois bem: há dias saiu no Observador uma entrevista com Lobo Xavier, o conhecido senador do comentariado, a propósito da transferência de canal do vetusto programa Quadratura do Círculo. E raras vezes uma tão completa e natural sintonia, entre entrevistado e entrevistador, se fez patente.

 

É impossível não gostar de Lobo Xavier, desde logo porque o próprio gosta de toda a gente, além de ser inalteravelmente cortês. Na entrevista, manifesta simpatia pelos colegas do programa, por Portas, Pires de Lima, Cristas, a nova geração do CDS, Francisco Mendes da Silva, Adolfo Mesquita Nunes, Passos Coelho, traça rasgados elogios a Marcelo, Deus lhe perdoe… e não tem uma palavra simpática para Jerónimo, ou Catarina, ou as manas Mortágua, decerto porque Maria João não se lembrou de o levar para aí.

 

Gostar de toda a gente não é muito diferente de não gostar de ninguém. E mesmo que se atribua esta generosidade ao catolicismo que serve de norte espiritual a Xavier, a que junta um feitio amável, resta que não é possível, se se tiver um módico de lucidez sobre o estado do país e os caminhos que trilha, deixar de verberar acerbamente a tropa fandanga que nos pastoreia e desde logo o par de colegas no programa: Pacheco Pereira, uma esponja de más leituras progressistas que vai debitando como se fossem pérolas de sabedoria; e Jorge Coelho, o manhoso e simpático aguadeiro de serviço do PS, que desmente a alegação do entrevistado da independência dos três em relação aos respectivos partidos. A urbanidade do trato e os laços de amizade resistiriam a um exercício de rigor? Duvida-se.

 

Portugal, hoje, mostra sinais de esgotamento: O Estado está mais obeso do que nunca, o controlo do défice (fruto da dura lição que a troica deu, e que o PS, benza-o Deus, interiorizou) foi conseguido, além de evidente martelanço, à custa do aumento de impostos,  a somar ao brutal de Vítor Gaspar, e de uma retoma de mais que duvidosa sustentabilidade. O país apenas cresce por arrasto, e menos do que os outros. Isto está preso por arames, dizia há tempos Daniel Bessa, com brutal sinceridade.

 

E todavia no único momento da entrevista em que Lobo Xavier disse alguma coisa de substantivo sobre a situação política exprimiu-se assim: “Acho até que se a direita, as direitas, não se comprometem com a redução da desigualdade não têm futuro”.

 

É extraordinário. Há mais de quatro décadas que todos os partidos prometem a redução das desigualdades, apenas diferindo no modo de a alcançar, pelo que se estranha que os denodados esforços empreendidos não tenham ainda sido suficientes. E em nome deste meritório objectivo se destruíram os grandes grupos económicos que existiam antes dos Cravos, cuja reconstituição apenas se fez, e parcialmente, com endividamento e com o nascimento de empórios de mercearia; e se aumentaram os impostos sobre o rendimento de forma demencial. Em consequência do que, associado à expansão imprudente do Estado assistencialista e patrão, se alienaram ao exterior sectores monopolistas da economia e se criaram condições para a banca ser quase toda estrangeira, enquanto gente profunda diz, melancolicamente, que em Portugal há falta de capital. Pois há, mas sobra igualdade.

 

Estaria a falar da igualdade dos cidadãos perante a lei, aquela que a Direita consistente defende, hoje comprometida mais do que nunca com os preços absurdos no acesso à Justiça? Ou dos poderes inquisitoriais da Autoridade Tributária, que reduzem a pó os direitos de cidadania àqueles cidadãos que têm a desdita de ser apanhados pela máquina impiedosa e acéfala do Estado predador? Não, estava a falar de igualdade no sentido que a esquerda dá à palavra, isto é, a pilhagem dos ricos para ficarmos todos remediados na teoria, e pobres na prática.

 

A Direita que levanta bandeiras de esquerda, sob pretexto de que vai à missa e tem bom coração, essa é que não tem futuro. Porque o eleitor hesitante prefere, e bem, os originais às cópias hipócritas.

 

Não sei quem inventou, para dar o pendão retroactivo para o 25 de Abril, o mote dos três dês. Não vou falar aqui da democracia (que acho, ao contrário de muito reformador social que anda por aí, um relativo sucesso), nem da descolonização, que é de todo o modo um processo encerrado. Mas de desenvolvimento estamos conversados: ainda há dias um estudo concluía que em breve estaremos em quinto lugar, em termos de rendimento por habitante,  a contar do fim, dentro da EU, tendo perdido seis lugares em apenas quase duas décadas. Apesar da chuva de 79.000 milhões da EU e de a dívida no mesmo período ter explodido.

 

É disto que se tem tratado, sequer como pano de fundo, na defunta Quadratura e se vai tratar na futura Circulatura (raio de nome), a partir de 7 de Fevereiro? Claro que não. Aquilo é malta porreira, trata de coisas porreiras, e dos sucessos do António, e dos deslizes do António, o ex-colega que utilizou o programa para sanear o concorrente Seguro, primeiro, e perder as eleições ganhando o governo depois, e dos asneiróis semanais do Poder, que criticam com tolerância porque a política é isto: um jogo de grupos de pessoas, do qual, com gosto, fazem parte.

 

A política não é isto, e por isso a Quadratura há muito tempo deixou de ser um programa de debate. Pode ser que dure mais um ano ou outros catorze anos. Mas está moribunda, como o regime.

publicado por José Meireles Graça às 21:53
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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2019

Fim de ano e de semana

Este ano fui para fora cá dentro. E, para encher os dias, fui ver o tesouro da Sé, que é mais tesouro do que imaginava; o castelo de S. Jorge, cuja porta não franqueei porque havia uma gigantesca fila de turistas à espera do privilégio de entrar para poderem dizer que lá tinham estado; ao palácio nacional de Queluz, onde contemplei a decadência e sujidade que com esplendor lá se guardam; aos Jerónimos, que continham mais visitantes a tirar selfies, a atrapalhar a circulação e a consultar com empenho os telemóveis do que alguma vez, no passado, monges – um Cristo moderno bem podia expulsar aquele lúmpen moderno de compralhões no templo, ao menos com o expediente de os fazer pagar bilhete; ao palácio Fronteira, fechado “para férias”, mas cujo aspecto exterior não me deixou uma irreprimível vontade de o ver por dentro; e ao “palácio” de Monserrate, por duas vezes, a primeira para bater com o nariz na porta por o concelho de Sintra, aparentemente, ter mais problemas de circulação automóvel que a cidade de Nova Iorque, o que me fez chegar tarde. Os jardins merecem a visita que o “palácio” não merece: não é um palácio, para começar, é uma folly em ponto grande; a decoração, de inspiração mourisca, é um exemplo daquela mania romântica de recrear espaços de civilizações perdidas, góticas, árabes ou orientais, e haverá decerto textos contemporâneos (que infelizmente não conheço) a classificar o exercício de um industrial inglês com a mania das grandezas por aquilo que era – uma piroseira, como são quase sempre os pastiches. De resto, o senhor D. Luís deu ao homem o título de visconde, e fez muito bem, porque Cook, que não deve ter sido meigo a explorar os miseráveis nas suas fábricas inglesas, no auge da Revolução Industrial, veio aliviar a sorte dos outros miseráveis que por aquele tempo habitavam aquelas serranias.

 

O “palácio” está despido de quase tudo o que continha, porque tudo foi leiloado nos anos 40, salvo erro, e parece que quem o administra tem a intenção de recomprar algumas coisas. Faz bem, é claro, como é claro que falhará: aqui como em todos os outros lados, nota-se uma terrível falta de dinheiro.

 

Ora isto é extraordinário. Portugal é um país pobre de monumentos, apesar dos seus 900 anos de história, mas precisamente por isso deveria estimar os que tem. E aqui, como em Mafra, ou nos castelos, conventos e igrejas espalhados pela província, o que salta à vista é uma confrangedora pelintrice.

 

O país é pobre, não pode? Tretas: de passagem, vi no Terreiro do Paço um cone com ar de chupa-chupa gigante, que me disseram ser uma árvore de Natal, e o resto do espaço estava obstruído com palcos, decerto para uns piolhosos irem para lá ganir umas musiquetas. É o mesmo, à escala, nos mais de 300 concelhos do país: subsídios à cultura da chupice, do espectáculo, do berreiro, dos artistas e das clientelas. E em todas estas coisas circula dinheiro público, o mesmo dinheiro que nunca há para conservar o património.

 

Talvez faça sentido: afinal a gente que vi nos Jerónimos, sem o menor vestígio de respeito pelo lugar, que ainda é de culto, ou de atenção pela arquitectura, que impressiona, é a que vota nos Marcelos ou Medinas desta vida.

publicado por José Meireles Graça às 22:16
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

Sentados no muro

Há hoje uma doença, que afecta comentadores, políticos e articulistas tidos como de direita, que consiste na mania de ficarem em cima do muro do centrismo. Nota-se em relação, por exemplo, às causas fracturantes, ao feminismo na versão MeToo, como a Trump, Bolsonaro e a certos políticos neonacionalistas da antiga Europa comunista.

 

O muro está muito sobrecarregado. E quem o ocupa está lá porque, julga, vê melhor para os dois lados. Mas deveria lembrar-se que do muro pode cair-se; e do chão não.

 

Este equilibrismo decorre do horror a ser considerado fascista, ou extremista, ou reaccionário. Ou seja, decorre da chantagem da esquerda, que há décadas detém o monopólio das classificações do opróbrio, das quais porém exclui a mais infamante de todas, que seria o ser tachado de comunista, se a história da doutrina e das suas realizações pretéritas e presentes fosse bem conhecida.

 

Mas há mais: todo o discurso de esquerda repousa na ideia da superioridade moral, vertida nos anseios pela igualdade (como se outra que não a perante a lei não desse necessariamente origem a violências, esbulhos e exacções), pela justiça social (interpretada como se toda a diferença material, conquistada ou herdada, fosse ilegítima), pela engenharia de costumes (como se toda a tradição devesse ceder o passo às crenças das franjas mais inovadoras da sociedade, portadoras do facho da modernidade) e pelo determinismo histórico (a história tem um sentido, e esse é o da superação do capitalismo, não para algo que ainda se não conheça, mas para fórmulas que se conhecem bem demais).

 

Isto é tudo evidente, para quem não tenha a cabeça feita pela propaganda sufocante do bem-pensismo. Não é tão evidente o peso das relações pessoais: à força de conviver e debater com comunistas e bloquistas, que enquanto pessoas não são melhores nem piores do que as com ideias decentes, acaba-se por achar que uns e outros são adversários como quaisquer outros. Não são: comunistas e bloquistas defendem, com graus diferentes de hipocrisia (esta decorre de se apresentarem sempre como querendo melhorar o capitalismo, que todavia querem destruir), modelos alternativos de sociedade. E nestes não cabem os que estejam dispostos a resistir, o que faz com que, objectivamente, comunistas e bloquistas sejam inimigos dos democratas, não adversários. Pessoalmente, conto com alguns espécimes de quem sou sinceramente amigo, mas sem ilusões: na minha sociedade eles têm lugar; na deles eu não teria.

 

A forma temporária de que hoje se reveste o progresso esquerdista é o reforço dos poderes do Estado e o aumento do esbulho fiscal. As duas tendências vão na mesma direcção: é preciso que a sobrevivência fora do Estado, e sobretudo contra ele (isto é, contra quem o representa) não seja possível; e é necessário que ninguém acumule recursos que lhe permitam investir ou que só o possa fazer se puder contar com a benevolência dos poderes públicos.

 

É por este conjunto de razões que as taxas de IRS, para rendimentos que nem sequer podem ser considerados altos senão por comparação com a modéstia generalizada, se aproximam de 50%; que a maior parte dos contribuintes nada paga a este título; que do remanescente qualquer consumo origina 23% de imposto; que certos impostos, como o IRS ou o IVA, são pagos ou adiantadamente ou sem nenhum facto tributário real que lhes subjaza; que para certos bens, todavia essenciais à actividade económica, como os combustíveis, o imposto anda pelos 60%; que existe uma gigantesca floresta de taxas sem qualquer relação com o serviço que teoricamente remuneram; que as multas para um extenso e crescente catálogo de infracções são demenciais; que se  falsifica a relação entre o cidadão e o Estado pelo expediente de fazer crer que são as empresas que pagam a maior parte da segurança social (não são, ficariam exactamente na mesma se essa responsabilidade fosse do trabalhador, com os salários aumentados em igual montante ao que resulta da taxa da responsabilidade do empregador); e que o sistema fiscal é uma absurda moxinifada só inteligível a especialistas, e às vezes nem a estes dada a instabilidade e diarreia legislativas, com a única constante de os impostos aumentarem sempre em valor e ocasionalmente diminuírem em relação ao PIB, até ao dia em que este se retrai por uma qualquer crise, caso em que a punção fiscal passa para um novo patamar.

 

É aqui, na evolução do papel do Estado, que entronca o enriquecimento ilícito (agora crismado de “injustificado”). Este é um velho cavalo de batalha de toda a esquerda e toda a direita envergonhada: quem é que ousará dar a impressão, por causa de esquisitices ligadas a conceitos jurídicos e civilizacionais que poucos entendem, de defender o enriquecimento “injustificado”?

 

Ninguém defende. E todavia, o problema não é, nem nunca foi, o de defender ilícitos, é o de saber a quem incumbe prová-los.

 

Ninguém tem dúvidas que se um indivíduo for acusado de um dos crimes da extensa lista do Código Penal, ou legislação avulsa, quem acusa tem de provar. Teoricamente, o acusado pode até fechar a matraca que nem por isso o crime se dá como automaticamente provado.

 

O Tribunal Constitucional acha que com o enriquecimento injustificado o problema não é diferente, em acórdão cuja leitura não recomendo, dada a extensão e a prolixidade pedante. Acha bem, a meu ver. Todavia, há quem assim não entenda e, ó surpresa, é um corifeu do comentariado de direita. E então, que diz João Miguel Tavares?

 

Começa por afirmar que “os senhores deputados estão tão interessados em reforçar a transparência como eu estou em arrancar os dentes do siso”, e isto porque “está prometido um novo código de conduta dos deputados, regras mais apertadas quanto à exclusividade de funções e a regulação do lobbying”, e esses preciosos diplomas não há maneira de saírem.

 

A Tavares, que opina sob o signo do simplismo, não ocorre que tais matérias não sejam fáceis, desde logo porque a exclusividade, se levada ao extremo, pode convir ao PCP, cujos deputados são funcionários do Partido, e cujos lugares estão na disponibilidade da direcção, mas se aplicada aos outros não fará mais do que estreitar o leque dos potenciais candidatos a deputados. Nem toda a gente estará interessada em suspender as suas carreiras para se dedicar ao trabalho parlamentar, a troco de uma remuneração que não é competitiva com o que ganham muitas pessoas capazes e bem sucedidas, e isto durante anos, para no final voltar ao ponto em que estava, como se o mundo e o mercado estivessem em suspenso, à espera do regresso.

 

De resto, o mesmo comentador já se terá por certo queixado da falta de ligação à vida real de muitos deputados e do carreirismo de outros, porque é o que toda a gente diz, com o cenho franzido de preocupação e o dedo acusador espetado, contando com aguerrido e indignado apoio nas redes sociais. A exclusividade melhora esses aspectos? Não, e pelo contrário reforçaria o stock de advogados, funcionários públicos, professores com vínculo e jotinhas.

 

Quanto à regulação do lobbying, ela não se aplica, que eu saiba, a deputados, que já estão impedidos de o praticar. A menos que o conceito abranja a defesa de certas empresas, actividades, organismos e regiões, caso em que eu temeria pelo futuro do queijo limiano e da CGTP.

 

O lobbying será regulado, sim. E a regulação será inteiramente inútil, na minha opinião, porque com as nossas tradições em matéria de cunhas, na versão soft, e de tráfico de influências, na hard, a única maneira de combater a corrupção é diminuir o peso do Estado regulador e empreendedor. Isso vai suceder com governos de esquerda? Não, absolutamente. E com governos de direita? Sim, um poucochinho.

 

Aqui chegamos ao prato de resistência, assim: “E, no entanto, poucas coisas são tão importantes quanto a criminalização do enriquecimento injustificado, reclamada por quase todos os sectores da Justiça, com a excepção (óbvia) da Ordem dos Advogados. É verdade que o Tribunal Constitucional chumbou as propostas anteriores devido à inversão do ónus da prova, já que o crime era (erradamente) aplicável a qualquer cidadão. Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se  centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos”.

 

O chumbo do TC não ficou a dever-se à aplicabilidade da inversão do ónus a todos os cidadãos, mas sim ao facto de anular a presunção de inocência, que é um princípio estruturante do nosso direito penal. A excepção, “óbvia”, da Ordem dos Advogados, a Tavares não faz impressão, mas faz-me a mim. Porque são os advogados quem defende os cidadãos injustamente acusados, não as polícias, nem as magistraturas, nem a opinião pública, nem as redes sociais, nem os Tavares deste mundo.

 

Acresce que, com geral satisfação da parte invejosa, igualitarista e justicialista da sociedade, já existe essa inversão no domínio do Direito Fiscal. E saberá Tavares que ao abrigo dela se acusam empresários cujas vidas são destruídas enquanto os processos se arrastam em tribunal até à eternidade, que nem sempre se pode sequer aceder à Justiça porque para isso é necessário pagar ou apresentar garantias, que os funcionários interpretam abusivamente disposições legais para alargarem os seus poderes enquanto são premiados porque o abuso é elogiado e as acusações delirantes incentivadas?

 

Tavares não sabe. Eu sei. E sei também que provar o acusado que não fez isto e aquilo é com frequência ainda mais difícil do que a prova do acusador. E que a verdadeira razão porque o desastre da inversão do ónus da prova não chegou à opinião pública é que o empresário não quer, porque isso lhe diminui o crédito, que se saiba do que é acusado; os trabalhadores não sabem, porque a informação apenas lhes causaria ansiedade; os advogados não têm interesse em divulgar porque isso iria prejudicar o seu cliente, nem outra maneira de reagir que não seja o caminho deliberadamente eriçado de escolhos da impugnação ou recurso; os juristas mais cínicos porque a legislação abstrusa, obtusa e abusadora lhes aumenta a clientela; os católicos, que são mais ou menos quase toda a gente, porque acreditam que de toda a maneira é mais difícil entrar um rico no reino dos céus do que passar um camelo pelo buraco de uma agulha; e os comunistas e primos sortidos porque acreditam ou fingem acreditar, e disso convenceram toda a gente, que empresário quer dizer gatuno – salvo prova em contrário que o próprio tem de fazer. E todos, como é normal quando o Estado se transformou num monstro iníquo, porque acreditam que os problemas apenas acontecem aos outros – a eles não porque são virtuosos.

 

Fecha Tavares com um tropo grandiloquente: “Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos. As próprias Nações Unidas têm alertado para a necessidade de criminalizar o enriquecimento injustificado, e qualquer pessoa compreende que existe uma desproporção gigantesca entre a facilidade com que um político inocente comprova a licitude dos seus rendimentos ao Ministério Público e a dificuldade que o Ministério Público tem em comprovar a ilicitude dos rendimentos de um político corrupto”.

 

Ponhamos de lado a invocação disparatada das Nações Unidas, uma associação escrava das suas maiorias de Estados anti-democráticos, retrógrados e terceiro-mundistas, liderada nominalmente por um papa-açorda e coio de organizações enxeridas, corruptas e lunáticas. Quer Tavares que as diferenças entre as declarações de património e rendimentos no início e no fim dos mandatos, ou periodicamente, sejam fiscalizadas exaustivamente por um organismo especializado (por exemplo o Tribunal de Contas, desde que provido dos meios materiais e humanos) e que, nesse contexto, e para esse grupo delimitado de pessoas detentoras de imperium, possa exigir a inversão do ónus de prova quando haja manifesta evolução desproporcionada?

 

Nada a opor. Mas não é disso que Tavares, singelamente, está a falar. O que quer é, batendo no peito assumidamente de direita, poder pertencer orgulhosamente à parte dela dita civilizada, que é a que a esquerda tolera. Fazia melhor em dar uma vista de olhos ao que, já em 2009, dizia Francisco José Viegas, num texto hoje em parte desactualizado por entretanto a gente que está sentada em cima do muro a que me referia acima ter consentido no avanço aparentemente imparável do combate à evasão fiscal, e da justiça social, e da equidade, e de todos os outros bolos com que se enganam tolos.

publicado por José Meireles Graça às 17:26
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018

Banco de estiramento IV

Exmo. Senhor Anónimo:

 

Notei a V/ carta de 23 de Outubro pºpº, recebida anteontem, sobre o assunto em epígrafe [Necessidade de actualização do Comprovativo de Identidade e Assinatura].

.

 

VV. Exªs têm o desplante de me notificar para comparecer num dos vossos balcões/lojas para o efeito de exibir o meu Cartão de Cidadão, que “se encontra expirado”. Ou seja, acham normal que vá perder tempo e dinheiro a um dos vossos estabelecimentos para o efeito de cumprir uma exigência meramente burocrática, ao abrigo de um diploma legal, a Lei 83/2017, cuja disposição pertinente não invocam (nem poderiam, tal disposição não existe).

 

Não se encontra o Cartão em apreço caducado, porque foi tempestivamente renovado. E do facto dei em devido tempo, porque me foi pedido, informação, esclarecendo que o número permanecia o mesmo. Acrescento agora que a minha assinatura continua igual, porque não fui entretanto vítima de qualquer acidente de índole vascular ou outra que me tivesse alterado a escrita, e que eu próprio guardo as feições com que tenho vivido desde a primeira e todas as várias vezes que perdi tempo com inutilidades no vosso balcão de Fafe.

 

Fui ler a lei que referem (em diagonal, que tem 191 artigos que só por si terão feito o ganha-pão de milhares de burocratas e parasitas sortidos), que se destina a combater o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo (o que bastava para considerar grotesca e até insultuosa a invocação de uma tal lei para me obrigar  a incomodar-me para exibir um documento a um funcionário cujo tempo decerto poderia ser destinado a actividades mais úteis), e apenas encontrei um artº, o 23º, que remotamente poderiam invocar, quando reza, na alínea d): “Existam dúvidas sobre a veracidade ou a adequação dos dados de identificação dos clientes previamente obtidos”.

 

Claro que VV. Exªs não têm dúvidas, nem razão para a as ter, apenas inventaram uma maneira cómoda para os vossos serviços, e incómoda para os clientes, de passarem a imagem, imagino que para a entidade de supervisão, de grande empenho no referido combate.

 

Mas como pudicamente solicitam que que me desloque a um vosso balcão, mas logo a seguir formulam ameaças, e portanto o que estão a fazer é exigir, informo o seguinte:

 

Estou disponível, em qualquer dia e hora, para receber um funcionário vosso, na minha residência ou no meu local de trabalho, para lhe exibir o meu Cartão de Cidadão actual, exactamente igual ao anterior que serviu para abertura da conta, salvo na data de validade, que é agora 25/09/2022.

 

Recebam VV. Exªs, como habitual, de cumprimentos, quanto baste.

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

CC nº xxxxxxxx

Contribuinte nº xxxxxxxxx

Travessa xx xxxx xxxxx, nº xxx, xxxx-xxx Guimarães.

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publicado por José Meireles Graça às 19:26
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

O genial Costa

Este artigo de Luís Aguiar-Conraria parece cheio de senso comum, mas senso é precisamente o que não tem. E como Conraria é socialista mas com frequência zurze no asneirol mais evidente do governo PS, foi objecto de apreciação favorável nos meus lados. Trata-se todavia de uma peça de propaganda embrulhada em raciocínios capciosos. Vejamos:

 

“Ou melhor, pensava que seria aprovado [o orçamento], rejeitado por Bruxelas e que, quando Portugal tivesse de fazer as devidas alterações, o PCP se recusaria. Enganei-me, portanto”.

 

O PCP andava atarefado, quando o autor nasceu em 1974, a ocupar o aparelho de Estado e o da comunicação social. É sabido que acumulou nestas meritórias tarefas grandes sucessos e que foi de vitória em vitória até à derrota no 25 de Novembro de 1975. Os outros partidos queriam uma democracia ocidental, portanto com liberdade para a existência de partidos comunistas, e o PCP sobreviveu intacto. Ao PS, por outro lado, convinha um PCP relativamente forte, para poder apresentar-se como o partido charneira do sistema e manter à distância a concorrência. Isso, mais o pendor esquerdizante do eleitorado da época, explica por que razão as revisões da Constituição tardaram e foram (ainda hoje são) insuficientes.

 

O PCP passou a ter como tarefa a manutenção, e se possível o reforço, da sua influência no aparelho do Estado, em particular a Educação, na esfera sindical e nas empresas públicas.

 

Tem tido sucesso: não há nenhum outro partido comunista em democracias ocidentais com tanta influência nas políticas públicas. Imaginar que este partido agarrou a mão oportunista que Costa lhe estendeu sem medir bem as consequências e que sairia ao fim de uns meses sem nenhum ganho palpável só se compreende com um absoluto desconhecimento do que o PCP foi e é. No que toca ao passado, a ignorância só é compreensível se sobre o apogeu da comunistada naquela época nada tivéssemos lido e andássemos de bibe; e no que toca ao presente apenas se continuarmos a andar.

 

“A solução mais fácil teria sido formar um governo minoritário à imagem do de Cavaco Silva em 1985. É provável que o PS se abstivesse no primeiro orçamento. É altamente improvável que o segundo orçamento alguma vez conseguisse passar. Voltávamos aos tempos de instabilidade, com a agravante de ser extraordinariamente improvável que as eleições fossem esclarecedoras. Enquanto uma fórmula governativa estável não fosse encontrada, a instabilidade inerente facilitaria a criação de movimentos populistas. Não que o nosso sistema político não precise de uma regeneração, mas, idealmente, não será esse o caminho”.

 

A estabilidade é útil e necessária quando sirva para promover políticas úteis, mas não é, nem se percebe porque houvera de ser, um valor em si. O PS estava disponível para respeitar as instruções de Bruxelas; o PSD e o CDS também. Com isso adquirido, as clivagens só poderiam ser sobre a forma de as respeitar sem comprometer o crescimento económico, e é absurdo imaginar, para quem não seja socialista, que a solução lógica e respeitadora da nossa tradição eleitoral seria pior que o patético governo que temos.

 

Luís não explica quais seriam os contornos da necessária regeneração do nosso sistema político. Mas não é difícil imaginar: será algo em que tenha protagonismo e lugares, em conjunto com outros pensadores que são muito críticos da direita, muito compreensivos com a esquerda, nada comunistas, muito europeístas, e imensamente modernos e lúcidos.

 

“Uma solução menos fácil, mas que era a preferida pelos líderes da PàF e pelo Presidente da República da altura, era ter um governo “pafiano” com o apoio do PS, que até poderia estar representado no governo. Esta solução, apesar de preferida, seria a pior possível. Com grande probabilidade, grande parte do eleitorado do PS sentir-se-ia traído e procuraria alternativas à esquerda. O Bloco de Esquerda não perderia a oportunidade de se tornar ainda mais populista para captar os votos dos descontentes. Tal como aconteceu em vários outros países, havia o risco de o Partido Socialista implodir. Sendo o PS um dos pilares da nossa democracia, as consequências seriam imprevisíveis”.

 

O PS poderia implodir? Olha que bênção. E os herdeiros seriam frei Anacleto Louçã, a Sarah Bernhardt do teatrinho das Visões Úteis e as manas Mortágua? A sério? 

      

“Com a geringonça, conseguiu-se não só um governo estável, em que o essencial dos compromissos europeus foi cumprido, mas alcançou-se mais do que isso. O BE e o PCP sujeitaram-se à realidade. E se não é de esperar que o PCP, dada a sua matriz ideológica bem definida, mude, é bem possível que o BE faça o caminho dos Verdes alemães. Este é um aspecto muitas vezes frisado por Nuno Garoupa no programa que tem comigo (e com outros) na Rádio Renascença, Conversas Cruzadas. Na Alemanha, os Verdes começaram por ser um partido anti-sistema de esquerda, que gradualmente se tornou num partido confiável. Neste momento, é até o partido que mais tem crescido na Alemanha e é cada vez mais claro que sem ele a esquerda não voltará a recuperar a chancelaria. Em conversa privada, Garoupa pôs mesmo a hipótese de que ‘o Bloco percorra em 20 anos o caminho que levou 40 aos Verdes alemães”.

 

 

Que o BE se “sujeitou à realidade” não se duvida, se com isso se quer dizer que hoje procura, de forma com frequência cómica na sua evidência, acaparar uns lugares no governo e, mais tarde, nas empresas públicas. Aburguesaram-se, benza-os Deus, e se herdassem o eleitorado do PS isso quereria dizer que seriam o PS com outro nome, outras caras e outras toilettes. Ou seja, ficávamos na mesma, salvo talvez com um pouco mais de retórica fracturante e toilettes mais modernas.

 

Agora, que ao PCP tenha sucedido o mesmo implica acreditar que desistiu do comunismo, do colocar de pedras no xadrez do poder, e dos seus objectivos primários e secundários. Ou o autor não sabe o que diz, mas devia, ou sabe, e deveria abster-se de, para branquear a tropa repugnante que nos pastoreia, dar estes tratos de polé à história e à realidade.

 

António Costa domesticou o principal foco de populismo em Portugal, o Bloco de Esquerda, transformando-o num partido institucional. Daqueles que se curvam perante a realidade. Ou seja, politicamente, a geringonça não se limitou a cumprir o que prometeu: fez bem mais do que isso”.

 

Viva Costa, o estratega Costa, o incomparável Costa, o genial Costa. Meteu o PCP e o BE no bolso.

 

Não foram só aqueles dois infelizes partidos.

publicado por José Meireles Graça às 14:32
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Bolsonaro

Assunção Cristas, perguntada sobre em quem votaria se fosse brasileira, respondeu que não votaria …  porque não seria capaz de escolher entre um partido que "destruiu o sistema democrático brasileiro" e um candidato de "extremismos" em que não se revê.

 

Respondeu mal. Porque um candidato ao lugar de primeiro-ministro deveria dizer algo do género: não tenho de, nem devo, pronunciar-me sobre preferências eleitorais em países amigos.

 

Deixemos de lado o detalhe de Assunção, se fosse brasileira, e tendo menos de 70 anos, ter de votar, sob pena de multa. E dêmos-lhe o benefício exculpatório de hoje todo o responsável, de Trump a Juncker passando pelo incontinente e irrelevante Marcelo, comentar sem rebuço a vida política de estados terceiros.

 

Não deveria comentar porquê? Por várias razões: i) Portugal, país pequeno e dependente, não precisa de inimigos. E mesmo que as relações pessoais, de amizade ou inimizade, contem menos do que os interesses, não é um bom ponto de partida que em Brasília venha a morar quem gratuitamente se hostilizou. Nem em Brasília, nem em Luanda, nem em Pequim, nem em Washington, nem em qualquer outro lugar; ii) Os cidadãos portugueses que se interessam por algo mais do que o destino da selecção e o valor exacto da sua pensão ou ordenado não precisam que os dirigentes políticos lhes digam o que pensar sobre os sucessos noutras terras que não a nossa, excepto se e quando algum interesse nacional corra o risco de ser afectado. Não precisam porque estão abundantemente servidos de comentadores, mesmo que na comunicação social haja, como há, uma superabundância de comentadores de esquerda, e uma não negligenciável dos que se dizem de direita mas não se distinguem substancialmente dos primeiros; iii) O CDS é há mais de 40 anos uma espécie de reserva da república para quando o país ganhar juízo ou as circunstâncias o forçarem a tê-lo. E tendo várias capelas (a católica, a europeísta, a negocista, a nacionalista, a liberal, a conservadora, fora as misturas e as oscilações tácticas) sempre teve o cuidado de praticar a tolerância interna, quando não há muito seria o MRPP da direita. Declarações que impliquem divisão são inevitáveis quando se trate de estabelecer um rumo necessário, porque agradar a todos é o caminho mais seguro para a inoperância e para não agradar a ninguém. Mas a gente cá em baixo não precisa de ajudas para se zangar por questões alheias.

 

Sucede que nas redes logo se estabeleceram duas correntes, uma a favor da abstenção, que concorda com Cristas, e outra a favor de Bolsonaro, que não concorda. E já havia os que votariam Haddad porque são de esquerda, ou porque não são fascistas, e os que votariam Bolsonaro porque são de direita, ou não são comunistas, para não falar em José Manuel Fernandes, que não sabe se votaria num ou noutro porque, votando em branco, dependeria de quem lá pusesse a cruzinha.

 

Tenho-me divertido a acompanhar a polémica, sem me comprometer. Instintivamente, as minhas simpatias vão para Bolsonaro, mas não faltam declarações do candidato num sentido autoritário, troglodita e primário, que fazem com que, em levando a sério o que o homem diz, se fuja a sete pés. Evidenciar simpatia pela tortura e pelos torturadores do tempo da ditadura militar, por exemplo, já seria suficiente, em tempos normais, para esperar que o autor se refugie num qualquer grupo ultra-minoritário onde os membros se confortem uns aos outros nos seus ódios medievais e nas suas certezas de selvagens.

 

Os tempos, no Brasil, porém, não são normais. O PT pode não ter instaurado uma ditadura comuno-bolivariana como na Venezuela, e ter preservado os mecanismos da democracia. Mas criou uma vasta clientela de dependentes do Estado que sufocam a economia exangue pelo fim da alta dos preços das matérias primas que o país exporta e pelo intervencionismo dirigista, ao mesmo tempo que promoveu a corrupção a níveis intoleráveis.

 

Pergunta-se: Haddad tem condições para redimir o Brasil? Não, não tem, absolutamente nada no seu programa, no seu passado e nas suas declarações, na parte em que são credíveis, permite pensar que o PT aprendeu alguma coisa e remediará alguma coisa. Pelo contrário: os lulistas raivosos, de lá e de cá, acrescentariam à gestão inerentemente inepta da economia o revanchismo contra o sistema judicial. E este, que deu provas de ser um baluarte contra o Estado clientelar, passaria a vítima, e com ele o Estado de Direito. O que significaria que, se o Brasil com o PT ficou de joelhos mas não se venezuelizou, desta vez bem correria esse risco.

 

Então, se eu fosse brasileiro e católico, faria o sinal da cruz e votava Bolsonaro; e, se fosse agnóstico, substituía o sinal da cruz por figas.

 

Haddad é que nunca, em que pese aos meus amigos bem-pensantes, como o Adolfo Mesquita Nunes, o Alexandre Homem Cristo, o Bruno Alves, a Maria João Marques (esta amiga a 50%, porque a aprecio sem que retribua), outros muitos ainda aos quais escapa o que está em jogo no Brasil, como lhes escapou o que estava em jogo nos EUA.

 

É aliás o mal das posições ao centro: costuma ser o lugar geométrico de coisa nenhuma. Mas isso fica para outra maré.

publicado por José Meireles Graça às 23:23
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