Terça-feira, 24 de Abril de 2018

"A democracia nunca foi compatível com o capitalismo"

2018-04-24 Boaventura.jpg

O bom do Boaventura, catedrático em Achismo e empresário de inúmeros combatentes da revolução que tem no payroll e vai conseguindo espalhar pelo mundo, do parlamento ao governo portugueses, ao parlamento europeu, deu mais uma entrevista.

A um jornalista tão subserviente como qualquer ditador pode aspirar a ter a entrevistá-lo, daqueles cujas perguntas não fazem mais do que rasgar auto-estradas para o entrevistado ter o caminho livre de trânsito e de interrogações ou contraditório para expôr o brilho e a superioridade moral, inquestionados como se fossem inquestionáveis, do seu pensamento, abriu o coração e a boca para dizer as asneiras do costume baseadas nos lugares comuns do costume, as denúncias do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado. O costume.

De tudo o que ele disse acharam por bem resumir a entrevista no título emblemático "A democracia nunca foi compatível com o capitalismo".

A ser verdade a tese, não haveria nenhuma democracia a funcionar em nenhum país onde o sistema económico em vigor seja o capitalismo.

Há alguma evidência empírica a questioná-la, nomeadamente o facto de nalguns países onde vigora como sistema económico o capitalismo vigorarem sistemas políticos que parecerem exibir algumas das características próprias da democracia, como a liberdade, ou as liberdades básicas próprias das democracias, a escolha e legitimação dos detentores circunstanciais dos orgãos de soberania através de eleições livres e universais, e um Estado de direito salvaguardado pelo princípio da separação dos poderes. Mas ela não foi questionada na entrevista.

Há mesmo alguma evidência empírica a sugerir que a democracia nunca foi compatível com qualquer sistema que não fosse o capitalismo, e certamente que não com o socialismo, como o facto de todos os regimes socialistas se terem rapidamente, sempre que não foi o seu ponto de partida, transformado em estados totalitários que negam aos cidadãos as liberdades mais básicas, com sistemas políticos de partido único, e sujeição de todos os poderes, nomeadamente o judicial, ao partido único. Mas esta evidência também não foi introduzida na discussão pelo entrevistador.

Para ser rigoroso, há-que reconhecer que em países que foram separados ao meio pelo jogo de xadrez geoestratégico entre o capitalismo e o socialismo, a metade socialista foi baptizada de "democrática" e a metade capitalista não. A Coreia socialista ainda se chama República Democrática Popular da Coreia e a capitalista simplesmente República da Coreia. A Alemanha socialista chamou-se República Democrática Alemã, e a capitalista República Federal Alemã. Neste sentido o entrevistado paraaece ter alguma lógca. Mas só doidos, que os há, e ele é um deles, eram ou são capazes de acreditar que esses países onde vigoravam ou vigoram sistemas de partido único sujeitos a censura férrea e vigiados por polícias políticas omnipresentes e omnipotentes eram ou são democracias, de modo que o nome de baptismo não constitui prova de democraticidade, e subsiste alguma, ou para dizer a verdade, toda a, evidência de que a democracia pode ser compatível com o capitalismo mas é incompatível com o socialismo. 

Mas a asneira é livre, pelo menos nas democracias que funcionam em países com sistema económico capitalista, e certamente que na democracia portuguesa, que é uma delas, a defesa dos totalitarismos também, com excepção do facismo, cuja defesa ficou expressamente proibida no Ponto 4. do Artigo 46º da Constituição da República Portuguesa votada em 1976, e a negação dos crimes dos totalitarismos também, incluindo a dos crimes dos socialismos, com excepção do negacionismo do holocausto do nacional-socialismo alemão que é criminalizado em múltiplos países.

Pelo que as asneiras do Boaventura Sousa Santos não são novas, nem ilegais, nem ilegítimas, nem há mesmo nada a dizer sobre elas.

O que é mais interessante e digno de nota na entrevista não são as respostas. São as perguntas. É a subserviência do jornalista que se apaga como representante dos leitores para colocar ao entrevistado as questões, e o confrontar com as contradições, que eles gostavam que ele esclarecesse e se assume como representante do entrevistado que apenas lhe abre o caminho para debitar inquestionado o seu discurso, se presta a fazer entrevistas em estilo Dupont & Dupond que poderiam muito bem ser feitas na República Democrática Popular da Coreia aos seus queridos líderes sem trazer dissabores ao entrevistador.

E as perguntas são tão reveladoras do resultado da entrevista que vale a pena transcrevê-las sem necessidade de transcrever as respostas, que se intuem das perguntas sem grande risco de erro. Pelo que as transcrevo, acrescentando apenas excertos da resposta anterior quando as perguntas os citam implicitamente.

  • Lula foi eleito com o voto das classes médias, em 2002, tendo depois perdido esse apoio. A que se deve o ódio das classes médias ao ex-presidente?
  • Isso apesar dos governos de Lula terem tirado 30 milhões de pessoas da pobreza e terem feito ascender um número comparável de pessoas à classe média?
  • Independentemente de ele não ter feito essas reformas, há uma outra coisa que se pode imputar, a esquerda latino-americana parece funcionar só com lideranças populistas.
  • Daí [quando a direita está no poder domina a política, a sociedade, a economia, quando a esquerda está no governo tem o poder político, mas não tem o económico e social] o populismo?
  • O populismo, apesar disso [Não é por vontade própria], parece-lhe sempre negativo?
  • Defende uma espécie de reafirmação da esquerda?
  • Um dos aspetos mais curiosos e gritantes dessa polaridade que se vive em grande parte do mundo é o papel do racismo como forma de separar as pessoas, seja no Brasil, seja no muro de Trump ou na islamofobia na Europa. Porquê esse recrudescimento?
  • Como é que essa narrativa [O que o capitalismo fez foi reconfigurar esses preconceitos para desvalorizar o trabalho e os recursos] encaixa com o racismo na Europa, onde essas populações não têm recursos de terra nem de água?
  • Durante muitos anos os liberais diziam que havia uma correspondência perfeita entre democracia e capitalismo. Hoje é visível que a democracia encontra-se em regressão um pouco por todo o lado.
  • A democracia foi sempre reduzida pelo capitalismo?
  • Participou no Fórum Social Mundial que no seu apogeu defendia que uma outra globalização é possível. Neste momento para haver democracia não é necessário regressar em parte à soberania do Estado Nação?
  • Como se pode combater este poder gigantesco do capital financeiro senão se travar a globalização existente?
  • Neste contexto é possível manter a democracia?
  • Mas ele [Lula] é [um preso político] ou não é?
  • Às vezes o Podemos diz que esses [os independentistas catalães presos] são presos de consciência.
  • Os governos brasileiro e dos EUA impediram o PS de ir à iniciativa [encontro de solidariedade com a democracia no Brasil e contra a prisão de Lula da Silva organizado pelo Centro de Estudos Sociais e pela Fundação Saramago que teve a presença de Boaventura Sousa Santos, Pilar del Rio, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, o ex-presidente do PT, Tarso Genro, o candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, e a líder do BE, Catarina Martins]? Foi por essa razão que Ana Catarina Mendes e a presidente do PSOE faltaram?

Deixo esta magnífico exemplo de entrevista a um querido líder socialista, mesmo que não seja líder de coisa nenhuma a não ser dos revolucionariozinhos de gabonete a quem dá emprego, que pode ser instrutivo para os que, por recearem, ou terem esperança, que venha aí o socialismo, e gostariam de enveredar pelo jornalismo numa futura democracia socialista, podem encontrar nos ensinamentos do jornalista Nuno Ramos de Almeida um verdadeiro guia para a sobrevivência profissional de jornalistas num regime socialista.

Boas aquisições de competências!

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:02
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2 comentários:
De João Sousa a 26 de Abril de 2018 às 11:56
Este Nuno Ramos de Almeida, "jornalista" e frequente artista de palcos da esquerda folclórica como o Aspirina B, esquerda.net e 5dias.net, deve ser o mesmo Nuno Ramos de Almeida ex-dirigente da JCP que, em 2003, abandonou o PCP pela recusa deste em "criar pontes" com outros "projectos anti-neoliberais" como o Bloco de Esquerda. Portanto, quer-me parecer que o exibido aqui não é mera subserviência a Boaventura mas sim absoluta fé no oráculo. Também tenho a ideia de que não é um jornalista que pretende sobreviver num regime socialista - é, sim, um jornalista que sonha viver num regime socialista.

Quando a Boaventura Santos dizer que a democracia nunca foi compatível com o socialismo, podemos contrapor com o facto de Boaventura Santos nunca ter sido compatível com ambos.
De João Sousa a 27 de Abril de 2018 às 18:37
Errata: onde se lê "Quando a Boaventura Santos dizer que a democracia nunca foi compatível com o socialismo (...)", deve-se ler "Quanto a Boaventura Santos dizer que a democracia nunca foi compatível com o capitalismo (...)".

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