Os moucos que me perdoem, mas a Oração, do António Calvário, é a minha canção favorita vencedora de todos os festivais RTP da Canção.
Um poema sobre pecado, arrependimento e redenção, improvável num dos maiores cómicos (na época ainda não havia humoristas, eram meramente cómicos) portugueses da época, o Francisco Nicholson, mas capaz de fazer chorar as pedras da calçada, uma linha melódica soturna que poderia ter saído da pena de um Shostakovich, à época um moço mais novo do que eu sou agora, se bem que mais desgastado pelo terror vivido por quem viveu numa ditadura a sério, e eu vivia numa mera ditadura das bananas, e uma canção histórica, a primeira portuguesa no festival da Eurovisão. De onde saiu com zero pontos, na época explicavam-nos que por eles terem inveja das nossas possessões ultramarinas, como agora têm inveja do Euro 2016 e se querem vingar com sanções no festival do Eurogrupo, antes de passarem a ser derrotadas pelos interesses comerciais das multinacionais editoras luxemburguesas e israelitas. Mas uma bela canção.

O presidente Marcelo, o católico mais eficaz de Portugal, conseguiu, à força de rezar muitos terços, conquistar o Euro 2016. O seleccionador-engenheiro Fernando Santos ainda o acompanhou na fuga ao pelotão, mas ficou para trás quando o presidente prometeu uma ida a Fátima no seu sprint final. Vitória isolada do camisola amarela, não confundir com os colégios, onde ele vestiu a camisola rosa apesar de se ter declarado amarelo no coração.
E isto é uma faceta do problema mais geral do presidente. Há muito quem tenha votado nele devido ao "perjúrio de tantas promessas", e agora se sinta "maltratado" e "desprezado". Se, como ele deu a antender, "Este amor é mais puro que a jóia mais rara, que o mais puro amor", tem muito que fazer para reconquistar o coração de quem confiou nele e se sente enganado. Não basta pedir perdão ao Senhor numa oração, mesmo que o perdão seja reforçado com uma maratona de terços. Qualquer dia tem mesmo que dar uma satisfação aos seus eleitores.
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