Domingo, 31 de Dezembro de 2017

A passagem de ano não existe, mas mesmo assim desejo um bom ano para todos

2017-12-31 Ano novo.jpg

Há poucas reportagens que eu considere menos dignas de notícia do que o acompanhamento em directo do percurso do autocarro da Selecção e o fogo de artifício nos locais de outras longitudes onde o ano já passou enquanto o nosso ainda está para passar.

Até porque a passagem de ano é uma mera convenção social que não tem qualquer fundamento cosmológico.

Ao contrário, por exemplo, da Páscoa, que é o primeiro Domingo depois da primeira Lua Cheia da Primavera, e este dia de significado religioso tão profundo não podia ter fundamento mais pagão, ou do Carnaval ou do Corpo de Deus, que são, respectivamente, 47 dias antes e 60 dias depois da Páscoa, ou dos equinócios e solstícios que delimitam as estações do ano, não há nada cosmologicamente marcante no dia em que está convencionado começar o ano.

De modo que, para fugir às reportagens de foliões que vão enfiando o barrete ou a cartola sucessivamente pelo mundo fora ao longo do dia de hoje, e do de amanhã, vou desmontar alguns mitos astronómicos, só para chatear.

  • O dia tem 24 horas

Tenham paciência, mas não tem.

Todos os dias têm uma duração diferente uns dos outros, e não estou a falar do dia como o período do dia com o Sol acima do horizonte que alterna com a noite, mas do dia completo, de um meio-dia solar, em que o Sol passa exactamente a Sul visto da nossa latitude no hemisfério Norte, ao meio-dia solar do dia seguinte.

Passo a explicar. Por obediência às leis da Física, neste caso a da conservação do momento de inércia, a Terra tem uma velocidade de rotação constante, pelo menos com a precisão dos relógios suíços, ainda que os relógios atómicos possam detectar variações ínfimas na velocidade de rotação devidas a movimentos de massas, sejam os oceanos, seja a matéria que constitui o núcleo.

Quer isto dizer que a Terra faz uma rotação completa de 360º em 24 horas? Não, porque quando termina a rotação de 360º está de novo alinhada com os mesmos corpos celestes a distâncias que se possam considerar infinitas com que estava alinhada 360º antes, mas por ter avançado cerca de 1º no movimento de translacção à volta do Sol em que percorre os 360º em cerca de 365,25 dias, ainda tem que rodar mais cerca de 1º até voltar a ter o mesmo alinhamento com o Sol no dia seguinte.

Quer isto dizer que todos os dias duram o tempo que a Terra demora a rodar os mesmo cerca de 361º em cada 24 horas? Não, porque o movimento de translacção da Terra não é circular com o Sol no centro, mas elíptico com o Sol num dos focos da elipse, o que significa que ela não está sempre à mesma distância do Sol, havendo um ponto, o periélio, em que ela se aproxima até cerca de 147 milhões de quilómetros por volta do dia 4 de Janeiro, e outro, o afélio, em que se afasta até cerca de 152 milhões de quilómetros por volta do dia 4 de Julho. Outra vez por causa da mesma lei da conservação do momento de inércia, a Terra anda mais rapidamente quando está mais próxima do Sol e mais lentamente quando está mais afastada. Tal como um pêndulo, ainda que num movimento diferente. O que significa que os cerca de 361º de movimento de rotação que duram os dias solares são um bocadinho mais longos quando a Terra está mais próxima do periélio e anda mais depressa, e um bocadinho mais curtos quando ela anda mais devagar próxima do afélio. E como a velocidade de rotação é constante, os dias têm todos durações diferentes uns dos outros, entre uma duração máxima quando a Terra passa pelo periélio no início de Janeiro e uma mínima quando passa pelo afélio no início de Julho.

Esqueçam que os dias têm 24 horas. Ponto.

  • Nos equinócios a duração do dia e da noite são iguais

Tenham paciência, mas só duram o mesmo quando calha.

Um equinócio, tal como um solstício, não é um dia, é o momento preciso em que a Terra passa por um dos dois pontos precisos onde o seu eixo de rotação é exactamente perpendicular à linha que une o seu centro com o do Sol. Se a Terra ficasse quieta a andar à roda nesse ponto, o dia teria exactamente a mesma duração que a noite em todo o planeta. Mas ela anda, e um segundo depois já se afastou 30 quilómetros e, mesmo estando a 150 milhões de quilómetros do Sol, estas linhas imaginárias deixaram de ser perpendiculares. O que significa que o dia só será exactamente igual à noite num equinócio nos locais da Terra cuja longitude coloque aproximadamente ao meio-dia solar, e naqueles onde é meia-noite solar, no momento preciso do equinócio. E mesmo assim não é exactamente assim, porque os equinócios não coincidem com o periélio nem com o afélio, em que a aceleração e a desaceleração da Terra são simétricas nas 12 horas que os precedem e nas 12 que lhes sucedem, mas podem tomar como bom que o dia e a noite num equinócio só têm a mesma duração numa longitude precisa próxima daquela em que o meio-dia ou a meia-noite solares são no momento do equinócio.

Esqueçam que o dia e a noite são iguais nos equinócios. Ponto.

Que mais mitos é que eu tenho para estragar? Há sempre o da hora legal vs hora solar, estes fenómenos dependem da longitude exacta dos locais que determina a sua hora solar, e a hora legal agrega no mesmo fuso horário  tipicamente locais onde a hora solar tem desde menos meia-hora a mais meia-hora do que a hora no ponto central do fuso em que corresponde, e apenas aproximadamente, à hora solar, com variações ainda maiores devido ao fuso e à hora legal a não serem determinados apenas pela longitude mas pela legislação que os fixa em cada país ou região.

Mas já passei aqui a escrever mais de hora e meia livre das sucessivas reportagens sobre os foliões do ano novo fuso horário a fuso horário pelo mundo fora, e agora vou ligar a televisão a ver se o autocarro da Selecção está a passar nalgum local que se veja.

Boa noite, espero que se divirtam entre foliões de barrete, ou de cartola, ou mesmo de cabeça descoberta, ou preferencialmente em casa com a família ou amigos, ou mesmo sozinhos, para aqueles que vivem bem na sua própria companhia, e principalmente desejo um bom ano para todos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:42
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