Os interiores das casas portuguesas distinguem-se, além da irrepreensível limpeza, pela impecável apresentação das paredes, que todos os anos são cuidadosamente repintadas. Os proprietários, em tendo filhos, têm para com estes o maior desvelo, sem prejuízo da vida social que não desprezam - para a conjugação do que contratam baby-sitters, que existem às centenas de milhar.
Os pintores de paredes e as baby-sitters, porém, partilham com os picheleiros, os trolhas e os electricistas (que por lapso não são referidos no artigo) uma tara antissocial, que consiste em não passarem factura.
Isto é gravíssimo: se a este escândalo somarmos "outro tipo de dívidas, mais pesadas, de pessoas e de empresas, aquilo que se acumula no bolo da economia paralela pagaria cinco orçamentos da Saúde. São perto de 46 mil milhões de euros, cálculos feitos pelo Observatório de Economia e Gestão de Fraude".
De que forma é que este organismo chega ao cálculo daquele número redondo, quase um quarto do PIB, fica por saber - estes organismos sábios confiam, com razão, que ninguém se dará ao trabalho de ler o estudo que suporta a conclusão, a menos que seja gente que ganha a vida com revisões de contas, controleirismos sortidos, fiscais disto e daquilo, estatistas e esquerdistas de toda a forma e feitio, gente que, em resumo, imagina que o mundo perfeito é aquele em que o que o cidadão conserva no bolso apenas a pequena parcela que o Estado lhe permite generosamente que guarde, cujo gasto mesmo assim tem que ser fiscalizado, porque, se não for - há risco de evasão. E esta gente tem evidente interesse no resultado dos estudos, que sistematicamente enviesam, e defende sempre mais controlos, mais fiscais, mais leis, mais regulamentos, mais poder - mais Estado. Até ao ponto em que alguns, os que não sejam comunistas, atiram os braços ao ar e lamentam que já não haja dinheiro em Portugal para segurar os bancos em mãos portuguesas, e reclamam estudos para se apurar ao certo por que não há investimento.
Quem não viva sustentado pelo Orçamento e dirija empresas pequenas ou médias expostas à concorrência sabe que o nível de evasão não pode ter aquela expressão, a não ser que se considere evasão a simples engenharia fiscal que as grandes praticam - e mesmo assim.
Sabe isto, e sabe mais, mesmo sem ler estes estudos de chacha: que se alguém subtrair 100 ao Estado e os consumir o prejuízo do Estado nunca será de 100 mas, no máximo, de 77, porque ao consumir pagou IVA, para não falar do que vai pagar a empresa vendedora do bem, além do IVA; se os investir não apenas o Estado não perde nada como, possivelmente, acaba por vir a ganhar - os privados, ao contrário do Estado, tendem a fazer investimentos reprodutivos, porque podem ir à falência; e se os aforrar o benefício público aparece de imediato, porque as carpideiras no espaço público costumam queixar-se da taxa de poupança que, coitadinha, não dá sinal de si senão por tímidos vagidos.
A jornalista, claro, julga, e com ela julgam os leitores a quem este discurso é vendido há décadas, que em perseguindo baby-sitters e picheleiros poderá ser aliviado o que ela paga de impostos. Não lhe ocorre que o aparelho que persegue incumpridores é o mesmo que persegue os cumpridores e lhes inferniza a vida; que este aparelho tem custos inteiramente improdutivos; que os grandes evasores continuarão tranquilamente a sê-lo ou, se não puderem ser, mudam-se; e que, pior que tudo, o Estado gasta sempre mais do que o que tem - se cobrar mais gasta mais, ponto, na exacta medida em que os credores deixem, e mesmo estes só desde que acordaram.
Suponhamos que em Portugal nunca tinha havido um cêntimo de evasão fiscal. Qual seria o rácio da dívida pública sobre o PIB? Vou revelar o segredo, que é também um palpite: 129%.
Estudos a comprovar o ponto não tenho. Mas podia ter, se os quisesse comprar: é o bom que têm os estudos sobre economia - demonstram quase sempre aquilo em que acreditamos.
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