João César das Neves é muito bem visto pelo meu lado do espectro político porque passa por ser um economista de direita, e é de facto - uma certa direita.
Ser de direita ou esquerda, hoje, não chega para fundamentar escolhas. Não chega porque ser conservador, ou liberal (no sentido europeu da palavra), ou libertário, ou democrata-cristão, não basta - é preciso ainda demonstrar que cada uma destas condições é a que melhor garante o crescimento económico. Sem isso nada feito, que o eleitor diz para os seus botões: ora bardamerda para as tuas tretas, que eu quero é saber se vou ter emprego e posso trocar de carro.
E também não chega apenas ser comunista, socialista ou social-democrata, em qualquer das múltiplas espécies que formam o género comuna e a família da esquerda, pelas mesmas razões.
Daí que haja economistas comunistas, uma evidente (para quem não for alucinado) contradição nos termos, que dão aulas de gestão do capitalismo e o querem aperfeiçoar tanto, mas tanto, que quando já está razoavelmente depurado dos seus defeitos se suicidou.
A comunistada é, aliás, além de desonesta, cómica nos seus esforços: querem eliminar o desemprego, e por isso extinguem o mercado de trabalho e comprometem a selecção dos melhores; aumentar a produção, a produtividade e a qualidade, mas sem concorrência; investir mas sem recompensa para investidores privados, que assim são substituídos por meros apparatchiks com essa função; e, sobretudo, conservar a liberdade amputando-a da económica, para garantia do que eliminam todas as outras. Tudo para assegurar a igualdade material entre as pessoas, no que fatalmente também falham porque a burocracia que instalam para reprimir em permanência o ressurgimento da dissensão e garantir a coerência do edifício acaba por reservar para si a melhor parte do bolo.
Mas num ponto quase todos os economistas são iguais, e esse é a suficiência com que, numa realidade que nunca abarcam completamente, isolam meia dúzia de gráficos, meia dúzia de números, meia dúzia de estatísticas, e daí ilustram uma tese que, por vir embrulhada em números, aparenta ser científica.
Neves é nisto pior ainda, se possível, que os seus colegas, porque exibe permanentemente o sorriso da sua imensa satisfação com a argúcia com a qual julga ter sido dotado pela Natureza (o próprio sem dúvida achará, dada a sua condição de teólogo católico amador, que foi Deus que se deu a esse trabalho), que verte na escrita sob a forma de qualificação como "palermices" de opiniões diferentes das suas.
Que diz então o preclaro? Que o consulado de Cavaco foi um tempo de leite e mel, decerto porque (adivinhamos nós) o tomou a ele, Neves, como consultor, em mais uma manifestação concreta do génio que aquele estadista tinha para seleccionar colaboradores. "Todos sabem, por exemplo, que foi no consulado governamental de Cavaco que a nossa agricultura, pesca e indústria foram desmanteladas a mando de Bruxelas" - diz, com fina ironia.
Todos? Os comunistas sem dúvida, frei Anacleto Louçã e as suas freirinhas do BE também; e decerto no PS, dos milhares de economistas que a seita acolhe e a muitos dá emprego - também a maior parte, seguramente. Mas daí para a direita as memórias que se guardam de Cavaco são a das privatizações, da abertura da televisão à iniciativa privada, da reforma fiscal e, sobretudo, da preparação do país para a adesão ao Euro.
Memórias boas, em parte. Mas também da consagração do dirigismo do Estado na economia (completo com o estatuto das carreiras dos funcionários públicos, uma bomba que Cavaco plantou, segundo Cadilhe veio a confessar muito mais tarde) e a escolha da Europa como o alfa e o ómega de todas as políticas - Cavaco nunca deixou de ser o deslumbrado que sempre interpretou o destino ideal do país como uma tradução em funcionalês do que de melhor se faz lá fora - para usar as expressões a que recorria no seu dialecto.
Sobre isto Neves diz nada, porque o destino traçado naquela época lhe parece ainda hoje inevitável e desejável. E compara, Deus lhe perdoe, o desempenho cavaquista na gestão dos fundos de coesão com a que fizeram os seus sucessores - como se ser melhor do que medíocre fosse necessariamente bom e não medíocre +.
Podia comparar com alguma época em que, sem fundos de coesão, sem défices, sem aumento sério do endividamento, e com moeda própria, a economia tivesse crescido muito mais, e nem precisava recuar muito - escusava de pesquisar no ridículo livrinho que escreveu há anos, que se intitulava, com característica petulância, "Dois milhões de Anos de Economia".
Triunfante, pergunta: "Deveríamos ter recusado a adesão à moeda europeia, ficando desligados do mercado único? E qual é a tal vantagem excelente de não ter o euro? Seria bom que o Estado continuasse a roubar-nos regularmente, desvalorizando o dinheiro que temos no bolso para beneficiar empresas exportadoras ineficientes? Querem eles que os trabalhadores e consumidores sejam habitualmente enganados, com salários mais baixos e preços mais altos, mascarados por moeda fraca? A desvalorização interessa muito a certos grupos de pressão, que influenciam os opinantes, mas não à população nacional, que bem sofreu nos anos da sua vigência".
Segundo Neves, a Noruega, a Suíça, que não estão na União Europeia, ou o Reino Unido ou a Dinamarca, que estão mas têm moedas próprias, não têm acesso ao Mercado Único. Trata-se de simples tolice: os que não estão na UE têm acesso via tratados; e os que estão nem de tratados precisam porque Europa do Euro e Mercado Único não são a mesma coisa.
Quanto às vantagens de não ter o Euro, faz tempo que deixaram de ser os comunistas e meia dúzia de eurocépticos (por cá; que noutras paragens sempre abundaram) a achar o passo da adesão desastroso e as consequências aterradoras; e pelo contrário é hoje relativamente pacífico que foi uma calamidade, que, segundo uns, urge corrigir com o reforço da integração das políticas orçamentais e financeiras e, segundo outros, assustados pelo abismo da saída, que será melhor não fazer nada, porque esses reforços não são populares e, adiando, sempre a realidade, qualquer que seja, se imporá.
Sem Euro, é mais do que provável que teríamos tido tanto ou mais défices do que tivemos, e governos de esquerda, e pântanos, e tangas. Mas o endividamento antes da falência nunca teria atingido a estratosfera a que chegou por trás da cortina do Euro, nem o desvio do investimento para sectores de bens não transaccionáveis teria sido o que foi, nem o desemprego tão elevado e tão duradouro, nem as empresas exportadoras eficientes teriam deixado de aparecer.
As empresas exportadoras, sobre as quais tudo o que Neves sabe é de oitiva, e da leitura de colegas que constroem a moda do pensamento na Academia, devem ter a sua vida dificultada, porque isso enrijece-as, no caso de não morrerem, diz o iluminado. Os governos seguintes acharam precisamente o mesmo e por isso nunca deixaram de lhes pendurar pedras fiscais, regulamentares e burocráticas ao pescoço, tudo a compensar, em casos contados, com subsídios - moda que Cavaco inaugurou. Ramalho Ortigão achava o mesmo, aplicado às criancinhas, mas para o ramo dos banhos gelados nas manhãs de Inverno, com pequeno-almoço no fim.
João César das Neves podia, discretamente, refugiar-se na prognose do desastre da saída e ir adiantando maneiras de lidar com a situação - é o que fazem os melhores dos seus colegas, como Vítor Bento.
Mas não, prefere dizer as merdas que diz. Os meus amigos e correligionários aplaudem.
Fazem, quase todos, parte do clube dos reflexos condicionados - se o coelho sai daquela lura é porque é bom. Eu não.
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