Sábado, 25 de Novembro de 2017

Ao pé da porta

Os telejornais, as redes sociais, as entrevistas de rua, a rapidez de reacção, a simpatia, a efusividade e as indignações encontram-se entre as piores pragas da política contemporânea.

 

Entendamo-nos: dos telejornais não se pode esperar muito mais do que as notícias do dia editadas a correr, os atropelos ao português, a absurda preponderância do tempo dedicado às trincas e mincas do futebol, o enviesamento governamental e de esquerda do alinhamento, ou a prevalência da faca e do alguidar, consoante os canais.

 

Está muito bem assim. E estaria melhor, sem corrigir um único destes vícios, se não existissem canais sustentados pelos contribuintes, porque nunca a televisão pública se distinguiu da privada senão por nos, aos contribuintes, custar dinheiro.

 

Vozes autoritárias e intervencionistas têm ideias claras sobre o que a televisão deveria ser, e estão dispostas, a golpes de organismos públicos e decretos-lei, a conformá-la de modo a aprimorar o gosto, garantir a independência, promover os valores que cada tribo acha deveriam ser os da grei, e de modo geral fazer uma televisão de qualidade, que consiste quase sempre em ignorar o que o patego do espectador quer e impingir-lhe o que se acha que ele deveria querer, com o louvável intuito de educar as massas e, de caminho, sustentar artistas sem mercado e lisonjear o poder do dia.

 

Já eu quereria que não houvesse canais públicos, nem ERC, nem limitação do número de canais que não decorresse de considerações técnicas de disponibilidade do espectro, nem processos obscuros de rateio de publicidade e de concessão de entrevistas; e apreciaria que os canais, em vez de serem alegadamente isentos e equidistantes, assumissem com clareza as suas simpatias e os seus parti-pris, políticos e outros.

 

As redes sociais são os gigantescos cafés e tertúlias da contemporaneidade; e nelas se forma, no meio do griteiro e do vozear com frequência asneirento de todos os que até ao advento delas estavam reduzidos ao silêncio, boa parte da opinião pública. São isto; e são também o que João Pires da Cruz diz aqui.

 

Está bem assim, e estaria melhor se o puritanismo americano e os poderes governamentais não exercessem explícita ou encapotadamente um controle de contornos nem sempre evidentes.

 

Qualquer jornalista acha normal, e mais do que isso de sua obrigação, agredir um político ou famoso ou vítima de qualquer coisa com um microfone que lhes põe debaixo do nariz, fazendo a pergunta estúpida, ou indiscreta, que julga que a opinião pública precisa de ver respondida.

 

Também está bem assim. Salvo que enquanto os famosos apenas o são quase sempre por exporem a sua intimidade para disso tirarem dividendos, e portanto renunciam ao direito à sua privacidade, já seria o tempo de os anónimos começarem a maltratar jornalistas atrevidos, dando-lhes com o microfone na cabeça em vez de exibirem um sorriso alvar para as câmaras; e que os políticos, em vez de coonestarem a falta de educação e maneiras do quarto poder, teriam talvez a ganhar em gravitas se se dessem ao respeito não malbaratando as suas palavras pelo hábito de as proferirem, sem estudo nem preparação, a torto e a direito e em qualquer lugar. O exemplo acabado entre nós desta modernidade pateta é Marcelo, e certamente tem ganho muito em popularidade em aliviar-se de inanidades que sublinha com um sorriso de plástico e uma solidariedade de fachada. Mas falta demonstrar que aquela resista a ventos adversos, se for chamado a tomar decisões grávidas de consequências; e nem a autoridade da presidência, nem o bem da comunidade, ganharam até agora um vintém com o exercício festivo do múnus presidencial popularucho.

 

Fenómeno estranho: existe hoje uma indústria da indignação, com especialistas, publicações dedicadas e meios de comunicação social atentos. Basicamente, do que se trata é sempre da luta do fraco contra o forte, do pobre contra o rico, do indefeso contra o poderoso, do puro contra o poluidor, do pacífico contra o violento, em suma, do inocente contra o culpado.

 

E como toda a gente aprecia imaginar-se virtuosa e encontra satisfação em diluir-se na massa dos bons, vagas sucessivas de indignações percorrem o país ou o mundo. A esquerda, de modo geral, é campeã a lançar ou cavalgar a maior parte destas ondas porque lhe pertence, e não à direita conservadora e antropologicamente céptica, o monopólio do amanhã das sociedades perfeitas; e porque o contraste entre o que, quando está no poder, consegue, e o que promete, necessita da designação permanente de inimigos, culpados e bodes expiatórios.

 

Vai por aqui uma grande amálgama, porque o que eu queria era falar da transferência do Infarmed para o Porto.

 

A decisão de o transferir é uma idioteira de tal modo gritante que espanta que tenha defensores.

 

Fica o Infarmed mais barato se sair de onde está? Não, fica mais caro porque nem tudo pode ser transferido (parece que tem um laboratório onde se enterraram milhões, o qual evidentemente tem de permanecer) e a separação física de centenas de quilómetros entre pessoas pertencentes ao mesmo organismo ocasiona despesas escusadas. As empresas que precisam do Infarmed ganham alguma coisa se deixar de estar em Lisboa? Não, e de resto nem se pronunciaram nem ninguém curou de saber ou de as inquirir. A transferência pode fazer-se sem custos significativos? Não, não pode, e mesmo que não se tenha, como eu não tenho, uma excessiva preocupação com os interesses dos trabalhadores, a convulsão decorrente da transferência origina por si um custo humano que tem consequências negativas no funcionamento. Foi isto ponderado? Não, não foi. E a instalação no Porto é coisa barata? Não, não é: transferir e instalar mesmo que apenas uma parte de um organismo que tem quase 400 (!) funcionários  custa por si uma tal fortuna que, se houvesse juízo, o Infarmed teria de homologar um novo analgésico mais potente para as dores do contribuinte, um antipirético para a febre de indignação que assaltaria as pessoas conscientes e viagra cerebral para Costa e a sua entourage, a ver se espigam.

 

E então como é que se liga o longo introito das pragas que assolam a política e esta decisão de transferência?

 

Parece óbvio que Costa se precipitou ao anunciar a candidatura do Porto, e não Lisboa, na sequência de uma série de trapalhadas, todas inexplicáveis, a sede da Agência Europeia do Medicamento. E precipitou-se, como se precipita sempre, para aparecer no telejornal a uma luz favorável depois da barulheira que no Norte se estava a desenhar porque o vaidoso presidente de câmara local acha com razão que não é preciso muito para assoprar as brasas do bairrismo tripeiro, aliás com fortes e boas razões de queixa. As redes precisavam também de ser desarmadas, a patrulha do PS não é suficiente para as encomendas. E como a tal agência foi parar a Amsterdão, antes que se pusesse em causa o empenho das autoridades, e antes que ficasse a nu o amadorismo da operação, convinha dar um verniz de respeitabilidade ao conjunto do asneirol, fazendo crer que a regionalização, ou desconcentração, ou lá como se chama o processo de transferência de poderes para as regiões, era o verdadeiro motivo da ideia peregrina da mudança do Infarmed.

 

António Costa foi rápido desde o princípio. Mas depressa e bem há pouco quem. E ainda há menos, e certamente não ele, quem tenha uma ideia do interesse público que não coincida todos os dias com o que a volúvel opinião pública acha que se deve ou não fazer.

 

Isto se a história não envolver combinações obscuras com Rui Moreira e cálculos mesquinhos do que o eleitor portuense poderia ficar a pensar do governo geringôncico.

 

É possível que vá para o Porto alguma coisa, para fingir que Moreira sabe bater o pé e que a regionalização não é uma letra morta; ou pode acontecer que o assunto fique esquecido por ser substituído por uma nova indignação a respeito de outra irrelevância qualquer. Veremos.

 

O que não veremos, e aliás ninguém pergunta, é por que razão, se já existe uma agência europeia, cuja sede vai deixar de ser em Londres e que tem um orçamento de 322 milhões de euros para 113 milhões em despesas com o pessoal (2016), é necessária uma filial portuguesa com quase 60 milhões de euros de receita em 2016 e mais de dez milhões de despesas com o pessoal.

 

É que a receita destes elefantes vem da indústria do medicamento, o que significa que são os doentes que a pagam. E mesmo, como é provavelmente o caso, que estes organismos sejam indispensáveis, cabe perguntar se em Portugal se justifica um tal mastodonte ou se não será mais outra avantesma obesa e antro de parasitas do contribuinte, como é o banco de Portugal, este intocável por ser uma filial do BCE, o anjo da guarda do nosso desregramento financeiro.

 

Perguntas espúrias, claro. Que o que nos anima é saber exactamente se os nossos recursos são torrados na capital, parasitária por antonomásia, ou ao pé da porta, mesmo que neste último caso o esbulho fique ainda mais pesado.

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publicado por José Meireles Graça às 14:41
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