Terça-feira, 3 de Abril de 2018

Aquecimento global ou alterações climáticas? Ou coisa nenhuma?

Não sei se deva confessar isto, porque têm-me dito que quem não acredita no aquecimento global é como se acreditasse que a Terra é plana ou se defendesse o geocentrismo e o criacionismo. Eu até confesso, mas peço-vos o favor de não divulgarem nas redes sociais para as pessoas não suspeitarem desta minha triste condição.

2018-04-04 ISS Portugal.jpg

Eu posso garantir que a Terra é redonda porque já vi fotografias. E domino a física newtoniana suficientemente bem para garantir que o sistema solar é heliocêntrico. E consigo acompanhar a plausibilidade estatística do evolucionismo, pelo que acredito mais no evolucionismo do que no criacionismo, em que aliás não acredito mesmo nada, até porque não recebi a graça da Fé.

Mas não estou convencido que o aquecimento global seja real. Não por estar convencido que não seja real, mas por saber que não tenho informação suficiente para acreditar que seja.

Mas nas alterações climáticas acredito.

Mas não vale a pena terem esperança na minha redenção antes de lerem até ao fim.

O clima era, quando eu dei Ciências Naturais nos primeiros anos do Liceu, uma estatística de longo prazo das condições meteorológicas, o tempo, em períodos de pelo menos 30 anos. E suspeito que continua a ser. O que não simplifica a tarefa de tentar perceber se está a mudar, e muito menos a quem tenha pressa para chegar a conclusões.

Não basta estar mais quente à hora de almoço do que de madrugada, nem hoje estar mais quente do que ontem por esta hora, ou do que nos conseguimos lembrar ou registámos que estava neste mesmo dia há um ano atrás, ou nos últimos 5 ou 10 anos. O clima hoje é o tempo que esteve de 1988 a 2018, com todas as oscilações sistemáticas ou caóticas que sofreu.

Com esta definição, para avaliar se o clima está a mudar é necessário recorrer a estatísticas do tempo de pelo menos 60 anos, por exemplo, comparar o período de 1988 e 2018 com o de 1958 a 1988. Isto porque acompanhar a evolução de médias móveis, por exemplo, os últimos 30 anos terminados em 2018 com os 30 terminados em 2013, apenas permite comparar o período final do período mais recente com o período inicial do período mais antigo, ou seja, no exemplo, os cinco anos de 1988 a 1993 com os cinco de 2013 a 2018, todos os outros anos de 1993 a 2013 estando presentes nas duas amostras, e de amostras de apenas 5 anos não se podem tirar conclusões que exigem amostras de pelo menos 30 anos.

Com a complicação de saber que valores usar, medidos em que locais e como, se as medidas são comparáveis ao longo do tempo, que valores se desprezam na estatística por serem considerados outliers, tudo variáveis metodológicas que dão uma certa liberdade de manipular os números para chegar a um valor preferido quando se prefere usar a ciência para sustentar uma mensagem a usá-la para perceber o que acontece.

Mesmo com estas dificuldades e armadilhas metodológicas todas, é hipoteticamente possível aferir a hipótese do aquecimento global, através do aumento da temperatura global: se a hipótese for verdadeira alguma tendência de aumento nas estatísticas de temperatura tem que aparecer. Se o cientista for rigoroso e honesto há razões para acreditar na estatística que apresenta. Se tiver uma agenda política, para não acreditar. Na ausência de informação, para manter um prudente cepticismo. Mas mesmo com todas as condicionantes é possível testar a hipótese de a temperatura estar a aumentar.

Mas é impossível aferir, e, aferindo, poder rejeitar, a hipótese de o clima estar a sofrer alterações climáticas. O clima está garantidamente sempre a mudar, não porque o tempo está sempre a mudar, que está, mas porque é virtualmente impossível todas as estatísticas relativas a condições meteorológicas permanecerem imutáveis 30 anos depois.

A grande vantagem de substituir o aquecimento global, que é possível ir tentando aferir apesar de ser muito complicado fazê-lo num fenómeno tão oscilatório e caótico como o clima, pelas alterações climáticas é que, estando o clima em alteração permanente, se bem que não necessariamente no sentido de aumento da temperatura global, acerta-se sempre na previsão.

Se eu só consigo acreditar no aquecimento global se vir informação credível que o demonstre, dou de barato as alterações climáticas mesmo sem olhar para estatísticas. Se o tempo num Novembro menos frio me parece sustentar a hipótese do aquecimento global tanto quanto o tempo num Março mais chuvoso me encoraja a duvidar dela, qualquer tempo me parece compatível com a hipótese de haver alterações climáticas. É uma hipótese credível que nem necessita de confirmação.

Já se a utilidade de saber que há aquecimento global é mais ou menos evidente, porque é possível antecipar que problemas é que o aumento sistemático da temperatura poderá possivelmente provocar e preparar alguma prevenção contra eles, a de saber que há alterações climáticas parece de utilidade menos evidente, porque sem se saber que alterações serão ao certo também não se pode fazer grande coisa para lhes prevenir as consequências.

Os defensores do aquecimento global e das alterações climáticas ganharam em credibilidade com a mudança o que perderam em utilidade do alerta.

Outra coisa, de que não falei, é se o hipotético aquecimento global, ou as garantidas alterações climáticas, são determinados pela actividade humana e se podem, alterando mentalidades, evitar e, evitando-os, evitar também os perigos que colocam se forem hipótese reais? Daqui a 30 anos volto a este assunto.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:07
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1 comentário:
De pitosga a 4 de Abril de 2018 às 22:16
Fernão de Magalhães: «A Igreja diz que a terra é plana. Mas eu sei que é redonda porque vi a sua sombra na lua; e tenho mais fé numa sombra do que na Igreja».
Garcia de Orta: «Não me contradigam textos de autores, aquilo que vi com os meus olhos?.

Vá lá, Vilarinho Pires: ainda tem que comer muito pão.
Sobretudo em 'climas'.

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