Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2018

Assédio aos Costumes

É impossível que a vaga de denúncias de casos de assédio sexual praticados reiteradamente por homens famosos da indústria do espectáculo, que começou com Harvey Weinstein, se funde em invenções.

 

Mas: é impossível que todos os casos sejam verdadeiros. Num meio que vive do glamour a mulher que confesse que nunca lidou com o problema, seja porque nunca foi assediada, seja porque cortou cedo e cerce os avanços sem que isso lhe tivesse penalizado a carreira, corre o risco de ser vista como pouco desejável, pecado capital naquela tribo.

 

Daí que tenham vindo ao proscénio mulheres que confessam subitamente o trauma oculto que sempre pairou sobre as suas, às vezes, brilhantes carreiras, e que consiste invariavelmente em algum homem em algum momento ter insistido em praticar actos de índole sexual não desejados.

 

Violações? Sim, algumas. Mas no geral actos que cabem no que genericamente se designa por assédio.

 

E aqui temos a burra nas couves. Porque a violação é um crime grave, tão grave que não são convincentes as razões para dele se fazerem denúncias extemporâneas. A motivação para tantas vítimas o terem silenciado anos a fio consistiu, diz-se, no receio de que a denúncia lhes tivesse destruído a carreiras, não sendo exigível que mulheres sejam confrontadas com a escolha entre deixar escapar impune o agressor ou ficar sem o futuro pelo qual lutavam.

 

O argumento é bom. Mas peço licença para guardar a minha admiração para as outras, as que denunciaram. Porque o violador, se o era, ficou impedido de praticar outras violações; porque a prova é tanto mais difícil quanto mais distante no tempo o crime; porque, em certos ordenamentos jurídicos, como o nosso, o prazo para a instauração do processo pode prescrever; e porque a defesa, a que todos os acusados têm direito, fica praticamente impossível no tribunal da opinião pública se a queixa não puder na prática ser investigada.

 

Quanto ao assédio, pôr a mão num joelho pode ser inconveniente, com certeza mal-educado, mas se a destinatária não estiver numa situação de dependência não é de assédio que estamos a falar. E como nem todos os candidatos a garanhões têm a obrigação de interpretar correctamente os sinais subtis do eterno feminino, talvez não fosse má ideia as mulheres aprenderem a por na ordem os atrevidos ou desastrados, o que aliás creio a maioria sabe perfeitamente fazer.

 

Mas a maluqueira anglo-saxónica, uma vasta onda puritana que periodicamente varre o planeta, e cada vez com maior frequência, já levou à demissão de um ministro do Reino Unido que em 2002 tocou num joelho de uma jornalista, nem sequer lhe valendo a própria reduzir o incidente às suas insignificantes proporções.

 

E começam a ser legião os homens que perdem os seus empregos, veem as suas carreiras destruídas, e são expostos no pelourinho da opinião pública sedenta de sangue lúbrico, sem resquícios de prova senão a queixa de uma ou mais ofendidas, cuja palavra tem um valor bíblico porque todas as mulheres são santas, salvo prova em contrário, e todos os homens são potencialmente bestas cegas pela testosterona, mesmo sem prova nenhuma.

 

Claro que os miasmas de Hollywood não precisavam de chegar a ambientes mais sadios. Estão, porém, a vencer a barreira do senso porque cabem nos movimentos feministas. E estes, com o entusiástico eco da comunicação social, aproveitam a boleia.

 

Todavia, são estes movimentos tão diferentes entre si que os mais lúcidos deveriam rejeitar a amálgama: endireitar o torto que ainda resta de milénios de inferioridade faz-se de muitas maneiras, mas a guerra dos sexos não é uma delas.

 

Catherine Deneuve e 99 desconhecidas (para mim) entendem isto, com excelentes razões.

 

Laurence Rossignol, uma socialista ex-ministra dos Direitos das Mulheres, resume numa frase o que lhe vai na alma ao qualificar o texto das 100 como “esta estranha angústia de deixar de existir sem o olhar e o desejo dos homens, que leva mulheres inteligentes a escrever enormes estupidezes“.

 

Mas que elegância. E 30 mulheres encabeçadas por uma Caroline de Haas, outra socialista, perguntam se "os porcos e os seus aliados estão inquietos".

 

Suponho que preencho os requisitos para aliado dos porcos, na categorização abrangente da moça. Mas poderia, se a conhecesse, sossegá-la: não, não estou inquieto, vozes de burro não chegam ao céu; nem de burra.

publicado por José Meireles Graça às 18:48
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