Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Banco de estiramento

Sou do tempo em que para meter gasolina se perdia pouco tempo, não se sujavam as mãos nem se poluía o ambiente com luvas de plástico jogadas fora. Bastava uma gorjeta modesta para o abastecedor, que fazia ele próprio o troco para contas que eram quase sempre redondas.

 

O salário mínimo eliminou os abastecedores; o dinheiro vivo foi substituído pelo plástico, em nome de uma comodidade o mais das vezes ilusória; e nas bombas o cidadão orgulhoso exibe a carteira com o estendal dos cartões com os quais o banco o esbulha e o Estado lhe controla os movimentos, enquanto entope a fila para declarar com cidadã satisfação o seu número de contribuinte e introduz o código na maquineta.

 

O sonho dos estatistas é aliás acabar com o dinheiro vivo. E tempos virão, e não estão longe, em que o funcionário enxerido saberá com rigor quantos cafés tomo pela manhã, e quantos maços de tabaco compro, até ao momento em que um fascista qualquer (pode ser o actual ministro da saúde, ou o anterior, ou o ominoso ex-secretário de Estado Leal da Costa, a liberdade tem poucos amigos) decida que o celebrado SNS não pode servir do mesmo modo quem cuida e quem não cuida adequadamente de si, por muito que os vícios já estejam carregados de impostos.

 

Na prática, não é possível viver sem um banco. Sei porque tentei. E até o pobre diabo que não tem mais do que a sua reforma acaba por ser forçado a ter uma conta, para não se expor a filas intermináveis para descontar o vale postal. Salvo se for cigano, caso em que as filas podem, como nos hospitais, ser ignoradas.

 

O Estado agradece. E o banco também, que pilha com naturalidade as contas à sua guarda sob os mais diversos pretextos, sob a atenta supervisão de farinha do mesmo saco, paga a peso de ouro.

 

Há poucos anos escolhi portanto um banco que não cobrasse comissões, no caso o banco CTT.

 

Até agora, não me cobrou nenhuma. E satisfeito estava até que um dia me apareceu um débito sob a designação PayPal Cherry China, portanto de uma organização que nunca usei, para pagar a uma firma que não conheço uma despesa que não fiz, com um cartão que nunca me saiu do bolso para aquele efeito.

 

O incidente deu origem a uma inacreditável saga. E amanhã, para este post não ficar demasiado longo, publicarei o último e-mail que, farto desta gente até aos olhos, dirigi à atrevida que me escreveu a recomendar-me que me dirigisse ao “comerciante em causa”, como se eu soubesse quem é.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 22:03
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Apesar de se esconder por trás do anonimato reconh...
Os amigos que o Manuel Vilarinho Pires protege vol...
Não é controlo no sentido de corrigir comportament...
... e também, quanto ao primeiro ponto ("O primeir...
Mais um artigo interessante. Contudo, quanto ao te...

Arquivos

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

donald trump

educação

eleições autárquicas

emigração

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

futebol

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds