A idade é um posto, e logo quanto maior a idade maior o ranking e maior o respeito. Costuma ser assim, e por mim não está mal que assim seja.
Quando a idade é realmente provecta, então, é costume não responder a casos de incontinência verbal, dando um silencioso desconto - é o que hoje muitos fazem com Mário Soares, incluindo os seus embaraçados correligionários.
Adriano Moreira, porém, está perfeitamente lúcido, e exprime-se nos antípodas do seu antigo adversário - onde um é chão e primário o outro sofisticado e jesuítico. Tanto que a mim, que o ouço há anos, já me aconteceu perguntar aos meus botões: mas ele está a dizer o quê, ao certo? E o que é que defende?
Mas não dizem, hoje, coisas muito diferentes, pelo menos na invectiva. Nesta entrevista, AM caracteriza assim o momento actual: Volvidas quatro décadas de democracia, Portugal está governado por um "neoliberalismo repressivo", focado no "ataque ao Estado social" e que justifica tudo com a "resposta simples" de que "não há dinheiro".
"Não há dinheiro" é realmente uma resposta simples, e pior do que isso um facto simples, mas para que passe a haver o que propõe o ilustre professor? Ora bem, sugere não "lançar os princípios pela janela". A gente a julgar que ia sugerir, como o PS, resolver o problema com a Europa rica, ou expropriar os ricos, como deseja o PCP, ou cortar nas gorduras do Estado, como reclamam muitos desencantados, mas não: em tendo princípios que se não atirem pela janela fora a situação financeira tende a aliviar. Pessoalmente, estaria interessado em conhecê-los, mas suponho que, como não os enuncia, são evidentes para quem os tenha, e ignotos para os outros - nos quais me incluo.
Portugal está hoje numa situação que "talvez não tenha precedente na vida europeia", e, para "animar a população portuguesa no sentido de recuperar um futuro com dignidade", é preciso dar-lhe "esperança", prossegue o ilustre catedrático, para grande perplexidade dos paisanos. A frase é, para dizer o mínimo, enigmática: a Grécia, que tem um passado ainda mais ilustre do que o nosso, está numa situação que não invejamos; e nós, no nosso passado europeu (?) tivemos, além de um parto difícil, a crise de 1383-85, a de 1580 e a de 1892, ou a I República, com a sua participação na Grande Guerra, et j'en passe.
Prossegue a entrevista, entrando com determinação numa salada de grelos:
"Por um lado, parece que temos alguma culpa no cartório - a democracia produziu "efectivamente um grande desenvolvimento" e "o modo de vida aproximou-se da Europa", porém a "espécie de engenharia imaginosa financeira" que se lhe seguiu resultou numa "evolução muito má (…) até chegar a esta crise global". Quando se esperava a denúncia dos autores destas maldades, o Professor admite que Portugal "sempre dependeu de apoio externo", e que essa dependência instalou "vícios" no país. Caído o Muro de Berlim e com ele a divisão entre o modelo ocidental e o comunista, restou o "neorriquismo e a tónica passou a ser gastar mais do que as disponibilidades", resumiu.
Ou seja, a Europa, desaparecido o inimigo comunista, começou a gastar à tripa forra: Gorbatchov, com aquelas frescuras da glasnost e da perestroika, acabou por criar aqui, no extremo oposto do continente, um grande problema; e, embora todos tenham gasto o que não tinham, uns países estão em crise e outros não. É subtil, a análise.
Finalmente - e, com Adriano Moreira, é raro - entra-se no domínio das soluções. Transcrevo integralmente esta parte da notícia, que é luminosa:
'É muito difícil dizer quem é o mais responsável. Eu acho que somos todos responsáveis', frisou, insistindo na importância de definir 'um conceito estratégico nacional', o que implica um 'consenso' alargado e que todas as diferenças se subordinem 'a um conjunto de objetivos e valores que unem a comunidade', em vez de contribuir para 'os desafectos, por exemplo, pondo os velhos contra os novos, pondo os reformados contra os activos'.
Para o académico, esse conceito deve privilegiar a relação de Portugal com o mar e defender 'uma situação de igualdade na comunidade das nações' e de 'dignidade nas relações entre os países'.
A aposta na educação e nas instituições é outra das propostas de Adriano Moreira. 'A investigação e o ensino são matéria de soberania, não são matéria de mercado', sustenta".
Trocando por miúdos: Quem defendeu o tratado de Maastricht, ou o de Lisboa, e quem não defendeu; quem gastou como se não houvesse amanhã, e quem denunciou o facto; quem tentou travar as "apostas" e quem as promoveu - são todos igualmente culpados; comunistas, socialistas e estes "neoliberais repressivos", quem assinou e quem não assinou o MoU, os pobres e os novos pobres, vão todos dar as mãos, levantando os olhos ao Altíssimo e cantando O Freunde, nicht diese Töne!, num arranjo de Fernando Tordo; os velhos guardam as suas reformas, os novos tê-las-ão em devido tempo, os emigrantes regressam, os cortes anulam-se, e vamos todos para o mar - de canoa.
Tenho amigos que acham este homem um génio.
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