Tenho acompanhado com deleite a quezília na família socialista e desejo sem esperança que ela se aprofunde e agrave: veria com bons olhos que Costa e Seguro não se falassem durante anos; que sobre estes senadores do partido alguém com inside information viesse para a praça pública denunciar os podres; que Galamba e Brilhante se pegassem à estalada; que a enfurecida militante portuense que reclamava de Costa ("seu badalhoco") que fosse mazé para a Câmara de Lisboa tivesse sublinhado a objurgatória com uma canasta de sardinhas despejada pelo lombo abaixo do edil; que aparecesse alguém a denunciar Soares, a fundação de Soares e as tropelias de Soares, com a divulgação que o livro de Mateus nunca chegou a ter; que todos, de um lado e outro, e não apenas estes, protestassem o seu desamor a Sócrates, a sua aversão a Sócrates e a confissão de que só o apoiaram em nome da unidade do partido e à espera da oportunidade para lhe fazerem a cama; e que de forma geral o PS se estilhaçasse numa orgia de maledicências sortidas, casos de polícia, reputações na lama e peixeiradas a granel.
Não viria daí nenhum mal à democracia: muitos notáveis, depois de um período de nojo, iriam fazer companhia aos outros socialistas no PSD, que os receberia de braços abertos e aproveitaria para ficar ainda mais marcadamente social-democrata, marginalizando um ou outro liberal que ande por lá; outros fundariam um novo partido, ao qual agregariam uns restos do BE, e que passaria a ser o novo, e verdadeiro, partido socialista, ainda que sem figuras de proa, excepto Ana Gomes e Isabel Moreira, para fazer as despesas do berreiro e lágrimas incontidas, respectivamente, num grupo parlamentar entretanto substancialmente diminuído; o CDS talvez crescesse com o influxo de gente afugentada do PSD; e o PCP continuaria diligentemente a cuidar do seu jardim fossilizado.
Que clareza, santo Deus: um partido para federar as direitas, outro social-democrata abrangente, outro pequenito especializado em causas fracturantes para a gente se entreter e os comunistas, que fazem parte da mobília.
Não vai suceder, é claro: Costa e a sua falsa bonomia; a sua inegável habilidade para o jogo político e o seu ar, e tiradas, de intelectual moderno da esquerda bem-pensante; o seu europeísmo convicto que em Portugal passa por realismo - ganharão o dia. Os inimigos de hoje serão os amigos de amanhã, e em Costa ganhando eleições haverá lugares no aparelho de Estado para a maior parte - Seguro, por exemplo, daria um óptimo embaixador em qualquer lado.
Daqui a uns meses o eleitorado esquecerá. E à boleia de um evento emocionante (a morte de Soares, por exemplo, que não desejo e talvez não seja elegante referir mas está na ordem natural das coisas) a família socialista reconciliar-se-á e cairão os militantes ministeriáveis nos braços uns dos outros, murmurando: disse que eras uma besta, mas nunca tive dúvidas sobre a tua capacidade para servires o nosso partido e o nosso país!
Entretanto, se a Europa deixar, Costa semeará no país o mesmo lixo, desleixo e endividamento que deixará em herança na Câmara de Lisboa. E virá talvez o tempo em que o eleitorado que ainda não emigrou, e que se vai distraidamente entretendo com estas coisas, experimente uma súbita compreensão pela senhora do Porto, que talvez não seja, mas pareceu - uma peixeira.
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