Na terra dos excessos as drogas ocupam hoje e há muito tempo o lugar que já foi preenchido pelo álcool: nunca houve, nem há, escassez de pessoas com ideias claras sobre a forma como os outros devem conduzir as suas vidas, convictas de que fazem um grande favor aos próprios e à comunidade se lhes reprimirem os vícios com multas, censuras e prisão. Como o vício é tão antigo como a humanidade, estas guerras são sempre perdidas e, quando muito, apenas conseguem que se troquem uns vícios por outros.
A justificação da guerra ao vício fazia-se antes em nome de princípios religiosos, éticos, ou de lesões aos interesses da comunidade.
Mas hoje aceita-se mal que se imponham ditames religiosos manu militari, nem aliás dizem todas as religiões, e todas da mesma maneira, que comportamentos são ou não objecto de censura.
E ainda que, de um ponto de vista ético, a ideia que os outros sabem o que nos convém, e não apenas sabem mas também têm legitimidade para nos impôr, na condução da nossa vida privada, os seus pontos de vista, recolha não poucos adeptos, sempre existe a abençoada dificuldade de não pensarem todos os proibicionistas a mesma coisa.
Resta a defesa de terceiros, à qual ninguém se opõe. E é por isso que as proibições demenciais do fumo, que têm na base a velha pulsão anti-vício, remetem para a saúde pública e os estudos soi-disant científicos sobre o fumo passivo.
No tempo, como foi o da Lei Seca, em que havia, para o bem e o mal, alguma estanquicidade entre países, as modas policiais variavam muito - cada país tinha as suas. Agora, há o rolo compressor da americanice e, juntamente com a coca-cola, a toilette rap e o politicamente correcto, vêm as manias aldeãs e puritanas da ingerência na vida do próximo, desta feita para proteger as criancinhas indefesas. Quem é que não quer salvar os desvalidos pequenos seres dos desmandos de progenitores mal formados e, inclusive, pobres, quando há tanto casal perfeitamente correcto, anelante por realizar o direito à paternidade sem as maçadas da concepção, ou desejoso de ultrapassar as fatalidades da Natureza, que permite que se reproduzam como coelhos alguns sub-humanos, um escândalo, ao mesmo tempo que nega tal direito a gente sã e até gays bem de vida?
A coisa já chegou à filial Inglaterra, completa com o secretismo da Inquisição: aos pais que um funcionário anónimo considera indesejáveis podem ser retirados os filhos, mas para guardarem a liberdade têm que fechar a matraca pobreta e ignorante.
O progresso é porém imparável, e prevenir sempre foi melhor do que remediar. Daí que uma anódina empregada de mesa metediça possa, mediante uma simples denúncia, originar a prisão imediata de uma mãe apreciadora de Budweiser, enquanto a criança é entregue, para já, a familiares, presume-se que abstémios, encarregados de lhe dar o biberão, que o leite de mama laced com lúpulo lhe pode fazer mal.
Não, não é certo que as nossas costas sejam assaltadas pelas vagas alterosas do mar, aumentado por efeito do aquecimento global. Mas por inundações de estupidez virtuosa - sim.
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