Soube agora que Khatia Buniatishvili vai estar logo à tarde em Dusseldórfia, pelas 8 horas; e Yuja Wang, no sábado, em Nova Iorque, no Carnegie Hall, à mesma hora.
Há gente que podia, no seu avião privado, dar lá um salto sem grande transtorno da sua vida profissional. Mas eu não posso e este facto singelo causa-me uma grande frustração. Então uns broncos a quem as circunstâncias e a provável condição de evasores fiscais dão os meios para poderem ir (mas não querem porque a ideia que fazem de um sarau musical é ouvir um qualquer cantor romântico a trinar, de olhos em alvo, declarações de amor, ou um piolhoso estridente a pular desastradamente num palco enquanto agride com furor uma guitarra eléctrica) e eu não? Está mal, esta desigualdade é uma grande injustiça: se nem todos podemos ter aviões privados, ao menos que diminua significativamente o número dos que os têm.
É esta desigualdade que o neomarxista Thomas Picketty e outros 299 economistas, incluindo pelo menos um prémio Nobel, querem corrigir, a julgar pela carta (cujo texto não consegui encontrar) que dirigiram aos líderes de 40 países, do FMI e do Banco Mundial, que se vão encontrar em Londres hoje, preocupadíssimos com o escândalo dos Panama papers.
Não que o digam: a intenção que declaram é salvar pelo menos quatro milhões de crianças e dar emprego a professores suficientes para levar estes miraculados e todas as restantes crianças à escolaridade - isto só em África, que em continentes mais bafejados pela sorte e onde já ninguém morra de fome nem seja analfabeto supõe-se que todas as crianças pobres terão direito, pelo menos, a uma bicicleta e uma playstation.
In total 47 academics from British universities, including Oxford and the London School of Economics, have signed the letter, which argues that tax evasion weakens both developed and developing economies, as well as driving inequality.
Se tanto os países desenvolvidos como os outros são prejudicados pela evasão fiscal conviria explicar, a cépticos ignorantes como eu, de que forma é que transferir recursos de países pobres, como são muitos daqueles em que se localizam offshores, para outros países mais ricos, de onde é com frequência originária a evasão, equaliza os rendimentos; de que forma é que transferir recursos das mãos de particulares para estados gera mais crescimento; e, já agora, porque é que a diminuição da desigualdade tem que ser encarada, sem demonstração, como um bem em si - a humanidade já foi muito mais igualitária do que hoje, no sentido de que a esmagadora maioria da população viveu durante milénios ao nível da subsistência, e os países realmente igualitários de hoje (Cuba, Coreia do Norte, que têm apenas uma estreita camada de privilegiados ligados ao aparelho do Poder, como as sociedades medievais) são cavernas de atraso, não faróis do progresso material, em particular no que toca a bens de consumo.
A concerted drive by the EU is now under way to require companies to declare where their profits are made, and to ensure tax is paid there rather than in the country in which it is declared.
Sim? Quer dizer então que não vale a pena a Irlanda e a Holanda, por exemplo, terem impostos competitivos, e que portanto as taxas de imposto tenderão para a convergência? Excelentes notícias: vamos ter o IRC da Irlanda... ou não; que a lógica e o senso informam que os impostos, se alinhassem, seria por cima.
That is what is meant by good governance under the global commitment to sustainable development.”
Desenvolvimento sustentável é formulação que me dá alergia: imagino logo uns moços a querer que comamos apenas verduras sob pretexto que as vacas largam para a atmosfera, ao ano, várias quilotoneladas de peidos; e acampamentos de charrados a incendiar campos de milho transgénico. Não que considerações de ordem ecológica não devam ser tidas em conta nas decisões de empreendimentos; mas ecologia científica e com adequadas análises de custo/benefício, não bandeiras anticapitalistas para jovens vivendo à custa dos pais, militantes de radicalismos sortidos e comunistas travestidos de amigos do ambiente.
Espero que os dirigentes, políticos que são, façam a sua vénia aos ares do tempo, atribuam grande importância de paleio a estas eructações de sábios, e mudem alguma coisa de modo a que fique tudo na mesma.
Que no fim da linha do combate à evasão fiscal o que está são aumentos de impostos, reforço do controle, que já é demencial, da vida dos contribuintes, crescimento do investimento público, portanto da corrupção e dos elefantes brancos, e escassez de investimento privado, por diminuição de recursos.
O tal tipo que não vai, mas devia ir, no seu avião ver a Yuja Wang, defende-me também a mim da intrusão do Estado na minha vida porque a rede necessária para o caçar abrange necessariamente toda a gente. E por isso lhe desejo boa viagem, mesmo que na realidade apenas queira ir com a madame fazer compras à 5ª Avenida.
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