Sábado, 20 de Janeiro de 2018

Da vitalidade do asneirol

Os portugueses automobilistas pertencem a uma de duas categorias: ou acham que os outros condutores, em particular senhoras e cavalheiros de chapéu, são umas lesmas (é o meu caso); ou acham que os outros condutores têm a mania que são Fângios (é o caso dos que não prestam atenção ao retrovisor, que entendem ser um acessório a bem dizer dispensável, e que quando ultrapassados a velocidade superior ao limite legal apitam e dão sinais de luzes como se acabassem de ter sido vítimas de assédio sexual).

 

Há excepções, claro – estamos a falar de pessoas. Conheço pessoalmente três mulheres e dois homens com frio na cabeça que conduzem particularmente bem.

 

Vital Moreira, que não conheço, graças a Deus, se tiver carta de condução pertence à segunda categoria. E como bom socialista que é tem ideias definitivas na matéria, e essas ideias consistem em mais impostos, mais polícia, e sistemas mais eficazes de pilhagem com multas.

 

Sucede que um tal Tilo Wagner escreveu um artigo onde confessa que os pais eram, coitados, ecologistas alemães que defendiam um limite de 100 km/h na autoestrada e se deslocavam numa pão-de-forma que não ultrapassava os 80 nas subidas. E daí o Tilo, mortificado de saudades desses tempos heroicos, parte para a descrição da situação nas autoestradas portuguesas onde, segundo ele, “basta uma vez na vida andar na A1, entre o Carregado e Torres Novas, para perceber que a velocidade mínima na autoestrada portuguesa parece ser 140 km/h, a velocidade média de 160 km/h e a velocidade máxima o que o carro permite”.

 

A julgar pelas muitas vezes que passei nesse troço, Tilo, a tua descrição não confere, excepto na parte dos 140 km/h, e mesmo isso apenas porque se sabe que tal velocidade não costuma ser penalizada, por causa do optimismo dos velocímetros e da margem de erro dos radares. Mas perdoo: na defesa de causas um certo exagero retórico aceita-se.

 

O que não se aceita sem mais é dar-se como adquirido que existe uma velocidade limite acima da qual todos os condutores em todos os automóveis constituem um perigo para si e para os outros, e que para a determinação desse limite não há critérios mais consistentes do que o preconceito do cidadão e o palpite do legislador, ou ao contrário.

 

São enormes as diferenças de comportamento e segurança activa entre automóveis antigos e modernos, velhos e novos, e entre as marcas x e y e os modelos alfa e beta. E desprezar estas diferenças, tratando tudo e todos pela mesma rasoira minimalista, diz aos fabricantes de automóveis que não vale a pena investir na performance e na segurança, e ao regime de atribuição de cartas de condução que empinado o código e demonstrada a habilidade para estacionar entre duas árvores se atingiu a suficiência.

 

Os construtores têm investido na performance e na segurança, mas em nome dos que transgridem, não dos que cumprem, porque não existem em quantidade suficiente condutores que requerem potência e comportamento desportivo para disso nunca fazer uso. Não deve, a propósito, ter sido por acaso que a indústria alemã construiu argumentavelmente os carros mais rápidos e seguros, quando no país não havia na maior parte das autoestradas limite de velocidade, ultrapassando a indústria americana – de um país onde os limites são levados a sério e cujos automóveis aí há umas três décadas eram muito menos seguros que os seus congéneres europeus e japoneses.

 

Não ignoro que este esquiço de pontos de vista é ao mesmo tempo superficial e omisso em numerosos aspectos; e que nem sequer como posição de princípio pode ser aceite pela maioria das pessoas, porque a intuição lhes diz que a velocidade é o inimigo. Ofender o que a intuição diz às pessoas é um exercício arriscado porque a intuição é um sentimento, ainda que fundado em experiências, e para contrariar sentimentos não há argumentos bons.

 

É assim, como se demonstra pelo facto de uma grande quantidade de pessoas intuir que se se esbulharem os ricos, e distribuir igualmente por todos, ficam todos remediados, não obstante todas as provas em contrário.

 

Tudo leva a crer portanto que o triunfo neste assunto viário dos Vitais deste mundo só não se verificará completamente se o Estado quiser preservar a importante receita das multas, cujos caçadores se concentram quase exclusivamente na velocidade e na irregularidade de papeladas fiscais.

 

Porque não há tecnicamente qualquer problema em limitar a velocidade dos próprios veículos, acabando de vez com os excessos: basta instalar limitadores invioláveis, que aliás já estão em uso em camiões (e até em alguns ligeiros por acordo entre fabricantes). A Vital não ocorre que essa seria a solução para o problema da sinistralidade rodoviária tal como o vê, porque a ignora.

 

Imagino que o distinto deputado europeu, quando calha ir a uma dessas conferências em que se explica de que forma é que o IV Reich tem o futuro garantido, e aos portugueses se ministram sábios conselhos para aprimorarem a sua condição de europeus, vá num automóvel recente, de gama média – um Citroen, ou Renault, ou outro charuto assim. O veículo em questão, qualquer que seja, tem quatro travões de disco, e uma suspensão, direcção e outros órgãos extraordinariamente seguros – foi projectado para se deslocar, e travar, a velocidades muito superiores às legais. Talvez a Vital pudesse ocorrer, se a sua doutoral cabeça fosse construída doutro modo, que deve a segurança em que viaja a quem, na opinião dele, corre e faz correr riscos.

 

Nada disto, provavelmente, interessa muito, porque a automatização da condução levará a que, nas autoestradas pelo menos, a velocidade passe a ser determinada pelo software; e não é sequer impossível que venha a haver faixas específicas consoante o tipo de automóveis, por um preço diferente já se vê, porque, dir-se-á, é justo que quem quer ir mais depressa pague mais – a tecnologia muda muito, os governos pouco e as pessoas nada.

 

Com sorte, estarei cá para ver. E espero que Vital também esteja, é um intelectual cómico – e típico.

publicado por José Meireles Graça às 16:25
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