
O Marcelo fala, fala, e continua a agradar a todos com excepção da direita, que gostava que ele derrubasse o governo já, antes de passarmos o ponto de não-retorno para a tragédia, e da esquerda, que gostava que ele derrubasse o governo já, antes de a tragédia passar dos números para o dia-a-dia das pessoas e as sondagens passarem o ponto de não-retorno para a derrota eleitoral expressiva.
A frase de hoje é "Ja, aber das Programm, das er umsetzt, ist nicht so weit entfernt von dem, das die vorherige konservative Regierung gemacht hat".
O que é que isto significa?
Não sei. Mas, a acreditar nas traduções que os jornais portugueses apresentaram, quererá dizer algo como "o programa que implementam não está assim tão longe do que o governo conservador fez".
O que é que isto significa?
Significa que o Marcelo regressou à sua máxima forma na capacidade de dizer coisas ambíguas que todos podem interpretar do modo que preferirem, quer sejam de direita, ou de esquerda, quer queiram uma palavra de conforto, quer se queiram sentir agredidos.
Significa que a margem de manobra dos governos, que alguns pensam ser limitada por restrições de Bruxelas, e alguns desses chegam mesmo a pensar que é limitada em função da orientação ideológica dos governos nacionais, mas é de facto limitada pelas possibilidades financeiras, e tanto mais quanto mais os governos resistem à pressão do bom senso para terem contas equilibradas e aliviarem a dependência da dívida, é tão limitada que os governos, mesmo com preferências, intenções e retóricas radicalmente diferentes, acabam por optar por soluções semelhantes? É muito provável.
Significa dizer aos 38,5% de eleitores da PàF que não estão a ser tão mal governados como pensam, o que seria um elogio ao Costa que os irrita, mas apenas na mesma medida em que também seria um elogio ao governo anterior, de que o actual não se desvia fundamentalmente na governação? É provável. Mas não é certo.
Ou significa dizer aos 61,5% de eleitores que não votaram na PàF que, afinal, o virar da página para o novo tempo que lhes acenaram foi uma treta e o governo não virou página nenhuma, antes continua a governar limitado pelo domínio das mesmas possibilidades que limitavam a governação do governo anterior e que o actual sugeriu que podia ser expandido? Também é provável. Mas também não é certo.
Tudo junto, e aplicando um bocadinho de estatística para procurar descodificar a ambiguidade, podemos dizer que é provável que o Marcelo esteja a elogiar o governo a 38,5% dos eleitores, o que os irrita, mas a elogiar o governo anterior na mesma medida aos mesmos eleitores. E que está a expor a charlatanice do virar da página do governo actual aos restantes 61,5% dos eleitores.
Mas fundamentalmente, está a dizer aos alemães que não está a conspirar contra o governo, coisa que seria imprudente e tonto dizer-lhes, mesmo que fosse, ou que seja, verdade. E, com uma ambiguidade tão esmerada, eu não consigo perceber se é verdade ou não.
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