Segunda-feira, 13 de Maio de 2019

Disco riscado

Aquando da Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão do BES o país pasmou com a litania de trafulhas e mentirosos que viu desfilar para explicar o buraco que ainda andamos a pagar. Aquilo era gente paga a peso de ouro, cobertos de condecorações alguns deles, e que durante décadas povoou os jornais de economia e as revistas do beautiful people.

 

Ricardo Salgado, o mais consistente dos aldrabões, ficou definitivamente marcado como o epítome do vigarista-mor e está ainda enredado, e presume-se que até que morra, numa floresta de processos judiciais que se vão arrastando sem fim à vista.

 

Se for a um lugar público é seguro que pode contar com uma pateada e desacatos de reais ou imaginários ex-clientes lesados pelas moscambilhas que engendrou para evitar a débâcle. E os vexames a que se exponha contam com o aplauso unânime dos indignados, que são toda a gente. Esta aliás, se consultada, dirá furibunda que todas aquelas personagens deveriam estar na cadeia, o juiz que os condenasse atirar ao mar as chaves das celas, e os bens que ainda detenham, por si ou interpostas pessoas, confiscados a bem do interesse público.

 

O país governado pela opinião pública, ou o que dela se adivinha nas redes sociais, é um lugar violento, repassado de crime e castigo; e os procuradores da populaça, na nossa democracia representativa, fazem o possível para satisfazer a sua clientela eleitoral abundando na indignação contra estes malvados, que expõem ao ridículo em inquirições públicas (não que os inquiridos precisem de ajuda – eles próprios alimentam o escárnio,  com o expediente de não estarem calados, evidenciando o que lhes vai nas cabeças retorcidas e nas almas emporcalhadas).

 

A recente audição de Joe Berardo foi um clímax: a personagem exprime-se num português sumário, sob a desculpa de que é fluente em inglês, presume-se de apreciador de pintura, com toilette a condizer, é ingenuamente insolente na sua franqueza despudorada, e deixa de modo geral a ideia que nunca na vida terá ganho um cêntimo honestamente – uma bênção para os humoristas, que um exemplar destes, se fosse inventado, não seria credível. A gente chega a ponto de se esquecer que Berardo foi condecorado por dois presidentes da República, um deles com a reputação, provavelmente justa, de ter sido a mais proba das personagens que passou pelo lugar, que durante décadas foi apresentado como um exemplo de sucesso do capitalismo português, e que a colecção de lixo que juntou, sob conselho de um especialista metido a marchand, goza de sólida reputação nos cognoscenti de arte contemporânea, e de grande sucesso de visitas no edifício grotesco que Cavaco mandou construir para celebrar o seu consulado de dom Joãozinho Segundo europeísta.

 

Berardo disse, a dado ponto, que a operação com o BCP foi o “pior desastre da sua vida”.  Foi. Sucede porém que, não fora o ambiente do tempo, e era desastre ao qual teria sido poupado. Porque Berardo foi induzido – a história, mais do que plausível, conta-a aqui o meu colega de blogue. Claro que, no processo, Berardo contava com gordas mais-valias, e estas eram a moeda de troca para servir de peão a Sócrates e à sua camarilha, que se faria pagar com nomeações de protegidos para lugares regiamente remunerados, adjudicações de obras faraónicas aos empreendedores do regime, e comissões pantagruélicas para ele e os outros capos – a ideia de que Sócrates pôde agir sem que as suas segundas e terceiras figuras nunca suspeitassem de nada pode ser, e é, engolida pelo eleitorado distraído com o futebol, que é quase todo, mas sofre de patente inverosimilhança.

 

Quer dizer que o depoimento de Berardo na Comissão de Inquérito nos pode ter dado uma incontrolável vontade de rir, mas disso só não viria mal ao mundo se estivéssemos conscientes de que estamos a rir de nós, porque o lugar do depoente deveria ser ocupado pelos que escolhemos, e continuamos a escolher, para nos pastorear, isto é, socialistas de vária pinta e feitio.

 

Foi assim com Berardo. E com Salgado, foi muito diferente? Convém lembrar que o Banco Espírito Santo, nacionalizado em 1975, só começou um atribulado processo de reprivatização em 1986, com o apoio de uma instituição francesa porque o capital se havia evaporado (os revolucionários de 1975 não tinham conseguido acabar com os pobres, que de resto era o seu objectivo secundário, mas tinham conseguido acabar com os ricos). O capitalismo hiperconservador e sólido da Velha Senhora foi substituído pelo capitalismo assente na dívida e na engenharia financeira, com grande sucesso – o BES chegou a deter mais de um quinto do mercado bancário, mais de dois milhões de clientes e o primeiro lugar no crédito às PMEs. Mas a crise de 2008 veio expor não apenas um gigante com pés de barro mas uma construção delirante de perdas ocultas numa floresta de empreendedorismos familiares sortidos, tudo num contexto de promiscuidades com o poder do dia.

 

Isto significa que Salgado pode ter sido um Ícaro financeiro a quem, por ter subido de mais, depressa de mais, derreteu a cera das asas. Outro o ambiente político e social, outra a supervisão, e a crise abalaria sem necessariamente destruir.

 

Resta saber se destes dois desastres se retiraram lições. Não retiraram, desde logo porque a condenação pública, e a virtuosa indignação que a acompanha, obscurece o facto de que nada, absolutamente nada, garante que desastres da mesma envergadura não se possam repetir. Porque ao condenar os autores materiais dos crimes, onde os há, sem curar de identificar quem devia ter sabido e não soube, quem devia ter agido e não agiu, para não falar de quem foi cúmplice no melhor dos casos por omissão, o que se está a fazer é criar as condições para que os insucessos se voltem a repetir.

 

Dir-se-á que, não existindo já praticamente bancos nacionais, o BCE se encarregará de garantir que na banca, doravante, vigarices e loucuras não haverá. É uma fé extraordinária: o pessoal decisório é o mesmo ou da mesma igualha, oriundo das mesmas coudelarias, e no crédito à habitação e ao consumo não há sinais sérios de mais prudência; os gestores continuam a ser remunerados principescamente, com descaso da existência ou não de ajudas do Estado, e com a passividade deste perante os patentes abusos na cobrança de serviços bancários a depositantes indefesos, como se houvesse alguma contrapartida na remuneração de depósitos; e na supervisão continua a mesma gente proveniente do meio supervisionado ou, pior, de uma Academia que recobre uma ignorância quase sempre fatal dos mecanismos da criação de riqueza com albardas doutorais frequentemente esquerdizantes.

 

Os americanizados, que são legião, julgam que com a reforma das leis penais e processuais, diminuindo os direitos dos arguidos e enchendo as cadeias de condenados, se resolve o problema. Como se, no sol terreno que lhes serve de farol, que são os EUA, houvesse falta de troca-tintas financeiros; e como se atropelos à separação entre património das pessoas singulares e colectivas (patentes no caso de Berardo) não implicassem, por extensão, a multiplicação dos abusos que, já hoje, a Autoridade Tributária e a Segurança Social praticam sob o piedoso nome de reversões.

 

Na próxima crise cá nos encontraremos, com outros protagonistas e histórias muito diferentes, com a secreta esperança de novos Berardos que proporcionem copiosas barrigadas de riso. E pode ser que, então, já haja meios para os trancafiar expeditamente, e lhes catar o que, real ou putativamente, tenham ao sol.

 

Costa, hoje, confessou-se “chocado” pelo “desplante” de Berardo, do mesmo modo e pelas mesmas razões que cristãos-novos iam assistir aos autos-de-fé da Inquisição – não fosse alguém julgá-los heréticos; e Marques Mendes, uma aguadeira do regime, resume bem: Berardo teve um “tratamento que parece privilégio”. Não faz porém as perguntas, nem as denúncias, certas: i) Quem lho deu, e porquê; ii) Onde estão as pessoas que estavam por trás dos paus-mandados que lho deram; iii) Por que acreditamos que as mesmas pessoas, isto é, Costa e a sua entourage, não são capazes de engendrar os mesmos desastres, sob outra forma porque as circunstâncias serão diferentes, mas com o mesmo pano de fundo de promiscuidade entre o Estado e a economia, que é a receita que julgam que convém ao país?

publicado por José Meireles Graça às 19:58
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