O senador Eanes não é uma pessoa qualquer: teve in illo tempore um papel essencial na derrota da ala comunista do MFA e no regresso dos militares aos quartéis - devemos-lhe isso, que não é nada pouco. Dessa recuada época resta hoje um museu vivo, a Associação 25 de Abril, cujo presidente, Vasco Lourenço, se alivia periodicamente das opiniões que ele próprio, e presumivelmente os seus camaradas depositários dos valores de Abril, albergam no seu patriótico seio sobre as questões da grei - com isto cumprindo involuntariamente um meritório papel, que consiste em lembrar-nos do que nos livrámos.
É também um homem absolutamente íntegro, honesto até ao exagero, o que não o deveria distinguir, mas distingue, de quem se lhe seguiu no exercício da mais alta magistratura da Nação.
Como Presidente da República, ficou na memória por fazer discursos ininteligíveis e fundar um partido político em torno de uma ideologia difusa anti vícios dos partidos, defesa da probidade dos políticos e do interesse nacional - uma espécie de Medina Carreira avant la lettre, mas sem nenhuma clarividência em finanças públicas. O partido em questão teve um fogacho de sucesso eleitoral e extinguiu-se em devido tempo, por as qualidades humanas do general Eanes não serem suficientes para substituir a ideologia ausente, nem um programa consistente de governo, nem uma ideia clara para o País e a solução dos seus problemas.
Ramalho Eanes, porém, não aprendeu nada - continua a achar que a política não é uma questão de políticas mas de pessoas: elogia Marcelo e Cavaco, homenageia Jerónimo de Sousa, a quem felicita pela "enorme coragem", não poupa elogios ao PCP pelo seu papel na nova aliança parlamentar, não esquece Cavaco Silva e o seu comprometimento com o país e admite que Marcelo Rebelo de Sousa tem estado bem nos primeiros dias em Belém.
Sobre o cão presidencial não diz nada, mas é de prever que ache que é um bicho extraordinariamente leal e vigilante.
Em entrevista à Antena 1 revelou algumas linhas gerais do caminho que propõe para o país: Argumentando que áreas como a política externa, europeia e financeira, saúde, segurança social, educação e justiça são áreas de consenso generalizado, Ramalho Eanes acredita que é possível chegar a um acordo naquilo que é o essencial. De resto, se todos partidos, empresários e parceiros sociais reconhecem que é urgente encontrar soluções, “porque não passamos à ação"?
Sucede que o PCP acha que Portugal deveria sair do Euro e os restantes partidos que deve ficar; que o PSD e o CDS entendem que a trajectória orçamental deve ser até ao défice zero (e, depois, provavelmente, o superavit sem o qual a dívida não desce), e já deram provas de que seriam capazes de o atingir, enquanto o PS entende que deve fingir que pretende atingi-lo e as suas duas muletas de esquerda (três, se contarmos o PEV) acham pelo contrário que o que se deve é reescalonar o pagamento da dívida pública; que o PCP e o seu apêndice verde são pela nacionalização da banca, o BE, talvez, também, mas os restantes partidos nem pensar; que na segurança social a geringonça é a favor da reposição de todos os cortes das pensões e a "direita" também, mas sob condição de se evitarem desequilíbrios orçamentais; que os disparates sobre ensino que o BE subscreve, e o pornográfico controlo do ministério da Educação pela CGTP, estão a léguas do que nessa área a PàF defendia; e, finalmente, que na Justiça todos os partidos estão de acordo, como sempre estiveram, em que precisa urgentemente de ser reformada, mas nenhum tem a mais leve ideia sobre como isso se faz - donde o pacto nesta área fulcral seria possível, mas inútil.
Do suposto consenso entre empresários e restantes parceiros sociais, será ele talvez possível no âmbito da Concertação Social, uma instituição corporativa. Mas nem a CIP representa os empresários nem a CGTP ou a UGT os trabalhadores: que os empresários verdadeiros gostariam muito que, na paisagem política, os comunistas fossem tão raros como o lince da Malcata na serra que lhe deu o nome; e os trabalhadores não apreciam excessivamente os seus patrões mas na hora de votar não escolhem quem os quer liquidar.
Não há qualquer consenso na sociedade portuguesa porque o interesse nacional não existe; o que existe é a ideia que cada partido, cada grupo social, tem do que esse interesse seja, com a agravante de com frequência o que cada um acha melhor para o país é o que acha melhor para si.
Ramalho Eanes não percebe, nunca percebeu, isto.
Infelizmente, não tem ainda, e a pátria deve-lhe isso, nem o nome em avenidas das grandes cidades nem estátuas em jardins. As estátuas sobretudo; que, além de justas no seu caso, teriam ainda sobre o representado uma grande vantagem: não pensam, nem falam.
Blogs
Adeptos da Concorrência Imperfeita
Com jornalismo assim, quem precisa de censura?
DêDêTê (Desconfia dele também...)
Momentos económicos... e não só
O MacGuffin (aka Contra a Corrente)
Os Três Dês do Acordo Ortográfico
Leituras
Ambrose Evans-Pritchard (The Telegraph)
Rodrigo Gurgel (até 4 Fev. 2015)
Jornais