O primeiro-ministro António Costa, que está sempre com um olho no burro e outro no cigano, disse a propósito da doação do espólio do escritor José Saramago à Biblioteca Nacional:
A primeira parte da frase, "José Saramago pertenceu a uma geração a quem a escrita foi muitas vezes reprimida, a quem o Estado quis calar e censurar...", é inteiramente verdade. Tal como Benito Mussolini pertenceu a uma geração de antifascistas, os que tinham a idade dele e que ele mandava regularmente perseguir, sovar, prender, torturar e matar, José Saramago pertenceu a uma geração de escritores censurada e, nalguns casos, perseguida pelo regime salazarista. O que não foi o caso dele, no entanto, que nunca teve obras censuradas. Mesmo na autobiografia publicada no site da sua fundação verifica-se uma única ocorrência da palavra censura, não para qualificar uma recusa do regime salazarista em publicar de uma obra dele ou a sujeição do seu conteúdo a alterações forçadas para permitir a publicação, mas a opção do governo Cavaco Silva de não a indicar para um prémio literário internacional, o que terá atentado mais contra a vaidade do que contra a liberdade do escritor.
Sublinhar esta pertença deste escritor a esta geração de escritores censurados é, por assim dizer, uma boleia gratuita, ou free ride, como dizem os ingleses. Hábil e até compreensível num político manhoso que sempre soube arregimentar apoiantes e pagar-lhes bem, em honras, prebendas ou em contado, mas verdadeira, em boa verdade.
A última parte da frase, "...é uma última homenagem à liberdade", é que já é mais discutível. Misturar na mesma frase uma das mais nobres palavras, liberdade, com o nome de um facínora esbirro do estalinismo que, quando lhe foi dado algum poder e teve a sua oportunidade de mostrar a fibra de que era feito, durante a tentativa de tomada do poder pela força pelo partido onde militava, que falhou mas esteve muito perto de ter sucesso, censurou, saneou e violentou jornalistas, o que não apenas não define um defensor da liberdade, mas comprova mesmo a acção de um carrasco da liberdade, é uma disfuncionalidade cognitiva.
É que, se houve algum contributo do José Saramago para a liberdade em Portugal, foi justamente o de, durante o PREC, ter exemplificado como poucos outros ao que vinha exactamente o PCP, o que tinha na manga para oferecer aos portugueses nos domínios da liberdade e da democracia, e, exactamente por isso, ter desempenhado um papel preponderante de estímulo e encorajamento à contra-revolução com que, nos últimos meses do PREC, e depois de se terem contado os votos das primeiras eleições e percebido a real representatividade das diversas forças políticas que era diametralmente diferente da aparente na rua e nos jornais, o país retribuiu aos comunistas com alguma violência o amor que eles dedicavam à sua liberdade.
Se a disfuncionalidade cognitiva do António Costa é genuína, se ele acredita mesmo nela, ou simulada, se ele não acredita mas recorre a ela para recompensar os bons serviços de quem o apoiou em combates eleitorais, está por se saber? A segunda hipótese parece mais plausível, dado o comprovado sentido ético do primeiro ministro e a sua velha e vasta tradição de premiar os seus apoiantes políticos, e a primeira chega a parecer aberrante. Mas só surpreende quem nunca viu o modo como ele lida com os jornalistas, em público ou em privado. O modelo de gestão Saramago é bem capaz de corresponder ao seu sentido de liberdade de opinião e de imprensa.
Cabe-nos a nós permanecermos atentos e deixarmos claro que a liberdade não precisa de homenagens de facínoras esbirros de ditaduras, e muito menos de homenagens a eles.
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