Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Gringos

Não sou americanófilo: detesto coca-cola, uma mistela açucarada que provoca prisão de ventre; não tenho um indevido respeito por Warhol, ou pela cultura pop; gostando muito de automóveis, acho a generalidade dos americanos do pós-guerra uma grande piroseira; não aprecio familiaridades de trato indiscriminadas, que desvalorizam a amizade e a intimidade de quem a merece ou tem; não acho que o sucesso seja a medida de todas as coisas; confundo os génios contemporâneos da música rock ou dos outros géneros populares uns com os outros, apenas lembrando bem os da minha adolescência; não aprecio a maioria das séries enlatadas americanas; e, sem estar certo de o conseguir sempre, há muito que aprendi a ligar mais ao valor das coisas que ao seu preço.

 

Se a vida me tivesse imposto a emigração como forma de abandonar a pobreza ou fazer uma carreira, e se tivesse escolha, os EUA não figurariam em nenhum dos dez primeiros lugares; e, se para fazer uma formação académica, surgisse uma oportunidade de a acabar numa instituição prestigiada americana, encararia o tempo passado naquele abominável país como um exílio.

 

Tudo isto, e mil coisas mais, está ainda no domínio do superficial. Mas não o está o lado puritano da sociedade americana, a sua religiosidade generalizada, a violência bárbara das suas instituições criminais e penais, o respeito acéfalo pela lei, qualquer lei, e pelas polícias, a obsessão com o crime, o castigo, o sexo e a moda, o grau de judicialização absurdo de todo o conflito trivial, e a importância excessiva da opinião pública, transportada com pouca mediação para o sistema de decisão política e judicial.

 

Ou seja, boa parte do que execro é o que muitos dos meus amigos admiram e, pior, gostariam de importar, que Deus lhes perdoe.

 

Porém: Foram os EUA que vieram salvar a Europa de si mesma, duas vezes no século passado; que nos protegeram, e ao nosso modo de vida, desde o pós-II guerra até à implosão da URSS; que nas ciências, incluindo as sociais,  e na tecnologia, têm liderado o mundo, apenas há pouco (desde que Deng Xiaoping renovou o comunismo pelo expediente de lhe manter o nome e as instituições enquanto instaurava o capitalismo) se adivinhando um rival; que na música, no entretenimento, na moda (eu uso blue jeans, essa é que é essa), no ensino, até na literatura (ou pelo menos na edição) e nas Artes, têm dominado. E, finalmente, que têm servido como um magneto para os deserdados do mundo, e para os cérebros sem futuro, que querem todos ir para lá.

 

Ou seja, eu não quereria ir; mas toda a gente quer.

 

Toda a gente quer porque lá há oportunidades; e em outros sítios não. Importa portanto perceber por que razão elas lá estão.

 

Os pais fundadores da América (John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington) pertenciam à elite dos colonos brancos. E nenhum deles ignorava a história da Europa, de cujos emigrantes eram descendentes, e menos ainda as razões porque os seus ascendentes europeus tinham emigrado. Quis o destino, e as circunstâncias, que fossem homens de excepção. E os ares do tempo, o mesmo que inspirou a Revolução Francesa, mas sem a carga das instituições do Velho Regime, das tradições e da vizinhança de países hostis, permitiram-lhes desenhar uma Constituição que acomodasse a liberdade religiosa, o laissez-faire na economia, o respeito da propriedade privada, o império da lei com a igualdade dos cidadãos perante ela, os direitos dos Estados federados e a separação dos três poderes.

 

Era boa, a Constituição. Tanto que, após a vaga inicial de 10 emendas, em 1791, apenas houve mais 17 (ou 16, porque uma emenda revogou outra), e o conjunto está ainda em vigor. O país era pródigo em riquezas naturais, como outros. Mas, ao contrário dos outros, não havia uma aristocracia hereditária, mas havia uma imensidão de terra para arrotear e explorar, já meia deserta dos locais que as infecções haviam dizimado (o que restava foi cristãmente exterminado ou acantonado em reservas), e a essa tarefa se dedicaram vagas sucessivas de emigrantes brancos, oriundos pela maior parte do Velho Continente, sobretudo Irlandeses, Ingleses, Escoceses, Italianos e outros. Tinham como denominador comum a língua, que quando não era o inglês aprendiam, as instituições, o respeito pelas tradições e cultura das diferentes comunidades, que era a única maneira de conviverem sem guerras, e o cristianismo, em múltiplas denominações mas sobretudo nas protestantes com sua a ética de trabalho.

 

Havia, sobretudo no Sul, negros, emigrantes forçados. E estes eram escravos, o tempo da sua libertação formal havia de vir mais tarde, com a Guerra Civil. O do seu reconhecimento como cidadãos na posse de plenos direitos ficaria já para os anos sessenta do séc. XX; a tentativa dos poderes públicos para, através de medidas de discriminação positiva, melhorar a condição social do negro, para as décadas seguintes; e o falhanço clamoroso dessas tentativas para os nossos dias.

 

Foi com a liberdade económica, o respeito da propriedade, o influxo de emigrantes ambiciosos e trabalhadores, susceptíveis de se integrarem, que o país cresceu e se tornou na primeira potência económica e militar no mundo. E quando, muitos anos mais tarde, o presidente Kennedy, especialista em frases sonoras e ocas, declarou no seu discurso inaugural: “And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” já na Europa se estava a enraizar um Estado Social onde os cidadãos são educados de pequeninos a pensar precisamente o oposto.

 

A eleição de Obama representou a ultrapassagem definitiva do racismo difuso, uma conquista civilizacional e um marco na história americana. Mas sendo a personagem, como era, o mais parecido com um socialista europeu que um presidente americano pode ser, deixou um rasto de intervencionismo na economia e de estatização da vida social (com o felizmente falhado Obamacare, por exemplo) que, se aprofundado, saparia a flexibilidade, a agressividade e o dinamismo da economia. Dito de outro modo: que anularia exactamente parte daquela diferença que faz que a América seja rica e poderosa, enquanto os seus vizinhos do Sul fornecem levas de emigrantes clandestinos oriundos de países onde a retórica oficial, e a prática política, são de justiça social, igualitarismo e estatismos sortidos.

 

O motto de Trump, “make America great again” não foi feito possivelmente a pensar em nada disto, mas antes no desequilíbrio comercial dos EUA com os seus parceiros comerciais, em particular a futura superpotência rival, o desemprego crónico de antigas cidades industriais em ruínas, a estagnação dos salários da classe média, o multilateralismo internacional das decisões que afrontam interesses americanos, e o sufocante newspeak a que se convencionou chamar discurso politicamente correcto.

 

Trumpista é agora um insulto, do qual, com bonomia do meu lado, tenho sido objecto na minha limitada esfera de conhecimentos e amizades. E o Donald dos tuítes torrenciais e contraditórios, do vocabulário limitado e primário, das reacções intempestivas, e do inacreditável mau gosto, decerto não ajuda quem não tenha uma posição de princípio contra a maioria das suas posições.

 

Sucede que, quando foi eleito, escrevi um texto que acabava assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim. E, se não for, também não perco o sono”.

 

Um ano depois, constatava que Trump, afinal, já tinha para apresentar uma lista de sucessos. E agora que está envolvido em duas guerras, uma comercial e outra para conservar o direito de selecionar os reforços do plantel americano, e impedir que os EUA se transformem num México em ponto grande, talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida. Porque, sendo certo que os políticos de esquerda costumam ser julgados pela bondade e superioridade das suas intenções, e abstraindo dos resultados quase sempre desastrosos, deveriam os de direita preocupar-se menos com questões adjectivas e mais com os resultados.

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publicado por José Meireles Graça às 23:32
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1 comentário:
De antonio manuel dos santos cristovão a 1 de Julho de 2018 às 19:58
desde que me conheço os EUA em nome de se defenderem do terrorismo, já invadiram 35 paises diferentes por todo o mundo. Os ditos países terroristas ainda nunca invadiram os EUA nem tenetaram , mas claro são terroristas perigoso dizerm o s excelentes serviços de propaganda...perdão de informação americanos e ingleses!!! um must!!!

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