Terça-feira, 26 de Março de 2019

Lendas do sul

Uma lenda persistente corre em Lisboa: no Norte é que se come bem!

 

No Norte ninguém diz que em Lisboa é que se come bem. Mas não falta quem, no Norte, tenha pela cozinha alentejana um fraco, e o Alentejo, como é geralmente sabido, fica a sul – ao menos a sul de Lisboa, e, já se vê, do Norte.

 

Donde, não seria má ideia entendermo-nos sobre o que é “comer bem”, a ver se percebemos se isso tem ou não a ver com pontos cardeais.

 

Ponhamos de lado a cozinha gourmet. Não só no Minho, ou Trás-os-Montes, ou nas outras províncias a norte, os restaurantes gourmet são raros (não tanto como desejaria, mas não é o meu propósito entreter-me a cascar nessa cozinha para desnacionais metidos a besta) como em Lisboa não faltam. Não, não é de cozinha conceptual que está a falar, quem fala, quando gaba o que se come cá por cima.

 

Do que está a falar é de tradição. E é verdade que em Bragança, ou Fafe, ou Vila Real, ou Braga, ou Porto, inúmeros outros locais, se encontram restaurantes (mas não para quem apenas procura sem perguntar a quem saiba) onde se cozinha como se cozinhava dantes, sem estados de alma, sem teorias, sem marketing, sem recomendações de jornais e sem ambições de enriquecer, que o negócio só não é modesto precisamente para quem é levado no andor da publicidade dos gastrónomos com coluna nos semanários e, frequentemente, sem a outra coluna, a vertebral, o que os leva a aceitar a oferta da refeição a troco de crítica favorável.

 

O respeito da tradição, e o respeito das regras da arte, chegam se estivermos a falar de comer bem. Não chegam se estivermos a falar de templos da comida. Porque uma coisa é um cozido à portuguesa, dos vários que existem consoante as regiões, com, por exemplo, o muito sanitário porco do supermercado e outra o mesmo cozido com porco criado a lavadura ilegal e morto ilegalmente por processos que arrepiam os votantes do PAN e os apreciadores de animais fofos; uma coisa é uma comum salada com vinagre comum e outra a mesma salada com vinagre feito em casa; assim como o arroz de pica-no-chão criado em explorações, mesmo que com alimentação sã, não é  mesma coisa que o mesmo arroz com animal criado em semi-liberdade e cevado a farelo e couve. Ou seja, boa parte da alta cozinha não mora na cabeça de criadores, mas em práticas que a vida moderna tornou obsoletas, a legislação ilegais e as polícias do gosto higienizado clandestinas.

 

Mas – lamento desiludir os lisboetas – em Lisboa também se come bem. Não no sentido de restaurantes genuinamente de quinta, ou que lá se abastecem, que de todo o modo são raríssimos em qualquer lado e que naquelas partes suspeito que talvez existam mas não conheço. Mas no sentido de comida despretensiosa mas feita com competência e artigos frescos. Caro, é certo, mas em Lisboa a vida está cara.

 

No fim de semana passado fui a Lisboa para a apresentação do Movimento 5.7. Casa cheia, organização competente, discursos oportunos e bem engendrados de três declinações diferentes da direita, assistência entusiasta de gente cansada do socialismo sufocante em que vivemos.

 

Depois, fui a uma cervejaria. Ninguém em seu juízo se lembra de gabar as  cervejarias onde se come marisco decente e pratos de snack tradicional (tradicional sim, a cervejaria é o fast-food avant-la-lettre e é preciso ser adolescente, autêntico ou retardado, e ter acne, para lhe preferir as batatas fritas pré-congeladas e a carne mastigada que se serve nos McDonald’s do nosso descontentamento). As ostras eram excelentes. E o pica-pau (à antiga, dizia a lista) era feito com lombo macio e saboroso, com o molho que a casa recomenda e que, aposto, é o mesmo há décadas. Um lisboeta murmurou: não é como em Matosinhos, mas não está mal! Não estava mal, de facto, e ainda bem que em Matosinhos não é bem assim – não há nenhuma razão para que cada terra não cultive a sua diferença.

 

No dia seguinte, fui almoçar a um restaurante popular (popular na amesendação e na frequência – uma cliente estava vestida com o equipamento do Benfica, que Deus lhe perdoe – mas os preços eram um pouco salgados) e vieram para a mesa ostras, um arroz de lingueirão, linguadinhos fritos com açorda e jaquinzinhos fritos. Tudo fresquíssimo, confecção canónica.

 

Então, em que ficamos? Por que carga d’água os locais, que veem facilmente na cidade superioridades que não existem, e que tendem a ser, mais vezes sim do que não, terrivelmente paroquiais, desconfiam dos seus estabelecimentos?

 

A meu ver, a multiplicação absurda de restaurantes para servir o turista, servindo o lixo a que se convencionou chamar cozinha internacional; mais o falso rústico e o falso tradicional, fundado por gente empreendedora que de comer sabe pouco e de cozinhar ainda menos; as cadeias internacionais que chegam com conceitos;  a prodigiosa quantidade de textos, programas de televisão, notícias em torno do tema da restauração, opiniões de nutricionistas, entendidos, amadores e especialistas:

 

Tudo concorreu para este sentimento de que é necessário regressar à autenticidade. E como lá no Norte está o campo, e a gente que diz palavrões, e esse povo que não é moderno, nem cosmopolita, nem socialista, tem que estar, fatalmente, a boa cozinha.

 

Fantasias. Que de socialistas há avonde, isso é praga que aterrou no país todo, mas boas cozinhas nem por isso. Salvo se, já se vê, inquirirem junto deste vosso criado, que todavia também em Lisboa começa a estar habilitado a ministrar conselhos.

publicado por José Meireles Graça às 15:13
link do post
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Entendo os problemas de logista. Ha que voltar a a...
Caro senhor Bernardo Silva,Tenho uma boa notícia p...
Caro senhor Bernardo Silva,O seu mal não é câncer,...
Subscrevo, claro.
Para mim não há guerras perdidas. Haverá batalhas ...

Arquivos

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds