Os incentivos entusiásticos da redacção do Público e as grandoladas da Marisa Matias não foram suficientes para levar o candidato Jean-Luc Mélenchon, o da esquerda radical, como diz a direita, ou o da social-democracia moderada, como diz a esquerda radical, à segunda volta das eleições presidenciais francesas, e na segunda volta o populismo ficou todo por conta da candidata Marine Le Pen, que vai confrontar o candidato europeista Emmanuel Macron.
Na segunda volta de umas eleições como as presidenciais francesas, em que apenas concorrem dois candidatos, todos os eleitores e opinadores são bem vindos a explicar as suas motivações e decisões, e todos as podem ter e exprimir inovadoras e diferentes das de cada um dos outros, mas para o que conta só há três posições possíveis: ou se vota num dos candidatos, ou se vota no outro, ou não se vota em nenhum.
Pelo que a esquerda moderna europeia de que o Mélenchon, e o Bloco de Esquerda, o Podemos, o Syriza, o Partido Trabalhista do Jeremy Corbyn se este não tivesse acabado de chegar do paleolítico contraditório com o qualificativo moderna, e os sectores emergentes do Partido Socialista que vieram para a boca do palco com a erecção (termo de engenharia civil, nada de piadolas) do António Costa, fazem parte, a esquerda não sovietista, se viu na iminência de ter que tomar uma posição sobre o que fazer, ou o que recomendar, no caso dos que não são eleitores recenseados nas eleições presidenciais francesas, na segunda volta destas eleições.
À primeira vista parecia uma decisão fácil: a única forma segura de impedir a ascensão da extrema-direita ao poder é o voto no Macron. E impedir a (re-)ascensão da extrema-direita é a sua maior razão de ser, pelo menos a dar crédito à retórica a que recorre permanentemente, apontando perigos de reascensão da extrema-direita até em políticas de partidos que, no entanto, outros consideram moderados, como o PSD e o CDS. Na política nacional, porque, nas assembleias municipais, até em medidas de executivos socialistas eles chegam a vislumbrar a mão da extrema-direita. A extrema-direita é, pois, o seu maior inimigo. Não é?
Não se sabe. Porque na verdade esta esquerda tem quase tudo em comum com a Marine, incluindo a vontade de sair da União Europeia e do Euro, a desconfiança relativamente ao grande capital e aos mercados e a vontade de re-erguer barreiras económicas para estancar as ameaças da globalização aos american french (and portuguese, and spanish, and greek, and british) jobs, percebendo-se que têm tanta determinação em barrar as importações quanto esperança em conseguir manter as exportações no pressuposto que o resto do mundo é parvo e não os topa, assim como o gosto pelo exercício musculado do poder quando o exercem, que não o gosto pela submissão a poderes musculados quando outros os exercem, e convergem até no ódio aos judeus, sendo que uns odeiam os judeus massacrados pelo nazismo no século passado enquanto os outros odeiam os que os vizinhos árabes se têm esforçado nas últimas décadas, com diligência mas insucesso, por massacrar. A maior diferença entre os populismos da esquerda moderna e da Marine Le Pen está no posicionamento perante as migrações, sendo que o desta aprecia a construção de muros para evitar a imigração, enquanto o daquela abomina estes e prefere os que servem para impedir a emigração, ou a fuga ao comunismo.
No entanto, apesar de os geómetras explicarem que virar 180º à esquerda resulta exactamente no mesmo ângulo que virar 180º à direita, e com tanto em comum, os radicais de esquerda declaram-se inimigos mortais dos de direita, e vice-versa. Com alguma razão do ponto de vista estratégico, porque competem com propostas idênticas pelos mesmos eleitorados.
Por isso, o discurso de reconhecimento da derrota na primeira volta das presidenciais do Mélenchon foi um choque para quem esperaria dele uma recomendação inequívoca de voto contra a Marine na segunda volta, sendo que, uma vez que só entram dois candidatos na segunda volta, o único voto seguro contra a Marine é o voto no Macron. Até o Álvaro Cunhal engoliu sapos e recomendou aos comunistas o voto no Mário Soares na segunda volta das presidenciais de 1986, se necessário de olhos tapados para não terem um ataque de nervos dentro da cabine de voto. Mas o Álvaro Cunhal era um político profissional que não hesitava em mutilar a sua própria liberdade de voto para votar no candidato menos desfavorável aos objectivos políticos do Partido, e estes radicais pequeno-burgueses de fachada socialista são uns meninos que dão mais importância às suas idiosincrasias do que à causa da revolução. De modo que o Mélenchon não recomendou o voto no Macron, tendo dito que a esquerda devia ponderar muito bem o sentido de voto na segunda volta de um modo confuso que significa que, quem se quiser abster, se pode abster à vontade, mas quem quiser votar na Marine não vai para o inferno por isso, até porque o voto é secreto. Um modo retorcido de, sendo-lhe proibido mandar votar na Marine, recomendar o voto nela.
Escândalo! De tal modo que foi necessário os mais proeminentes fazedores de opinião da esquerda moderna europeia virem em auxílio do Mélenchon para evitar a sua cruxificação pela populaça de direita irritada por ele não mandar votar no seu candidato preferido e pela de esquerda que não lhe queria perdoar não ter claramente apelado ao voto contra a extrema-direita.
Em Portugal ergueu-se o Francisco Louçã, que já resumiu o dilema colocado pela segunda volta das eleições no sugestivo título "O escroque contra a fascista" (o historiador Manuel Loff, da mesma tribo política, tinha dado ao seu próprio comentário o título semelhante "O banqueiro e a neofascista platinada", recorrendo no entanto a um tom mais sexista que, populismo oblige, tão bem cai na sua clientela), por um lado, ilustra bem a dificuldade da escolha e, por outro, mostra uma tentativa de isenção e objectividade do conselheiro de estado português na formulação da sua recomendação às massas para que ela lhes pareça ainda mais recomendável.
E o que recomenda ele? Para dizer a verdade, eu não consigo perceber o que é que ele recomenda ao certo, e nisso acompanha a recomendação iguamente viscosa do Mélenchon. Mas, mesmo sendo a conclusão confusa, há aspectos possíveis de aferir, até quantificadamente, na sua análise.
A parte da crítica ao Macron,
"...Entendamo-nos: o início da campanha da segunda volta correu pessimamente a Macron. Deslumbrado, festejou no domingo os 24% como se já tivesse a presidência no papo, esqueceu-se de que lhe faltam outros 27%. Arrogância. Esqueceu-se de que houve uma greve geral contra o seu governo há um ano. Insensibilidade. Esqueceu-se de que a lei que tem o seu nome foi imposta pelo Presidente por fora do parlamento dada a revolta dos próprios deputados do PS. E que lei: cartas de condução, resíduos radioactivos, segredo comercial, transportes públicos em autocarros, regras para os notários, cinco a dez mil milhões em privatizações, facilitar os despedimentos colectivos, reduzir indemnizações por despedimento, empréstimos entre empresas, o programa de Macron foi essa lei. Pesporrência.
Portanto, Macron deve mexer-se para conseguir os 27% que lhe faltam e faria bem em dar garantias aos trabalhadores que dele desconfiam. Mais valia que mostrasse o que o separa de Le Pen, uma candidata perigosíssima, xenófoba e com tintas fascistas, que tem de ser vencida. Em vez disso, para animar a festa, um dos conselheiros de Macron, Jacques Attali, decidiu exibir a sua cor: no dia em que Macron ia visitar uma fábrica ameaçada de fecho explicou que a globalização é isso mesmo, despedimentos, e que a resistência é uma “anedota“. Não havia de haver desconfiança?
Desenvolvido o programa do candidato, temos desde o despedimento de 120 mil funcionários públicos até ao corte de 10 mil milhões em subsídios de desemprego, como também um aumento do investimento público. No plano europeu, é puro hollandês: um ministro das finanças europeu, um parlamento da zona euro e, cereja em cima do bolo, “convenções democráticas” em todos os países durante o último semestre deste ano.
Suponho que é por isso que surge o apelo: na falta da confiança e perante o perigo, usa-se o que está à mão, como em 2002 quando, como bem lembrou Tavares, o “lema informal” da esquerda era “votem no escroque (Chirac) contra o fascista (Le Pen pai)”. Há 15 anos, resultou; agora tem pelo meio o fracasso europeu, a vergonha Hollande e tudo o que alimentou Le Pen. Pergunto-me portanto quem se vai comover hoje com este apelo a votar no “escroque” e durante quanto tempo alguém pensará que a promoção do “escroquismo” é estratégia vencedora. Se isto é forma de combater a abstenção, então entrega os pontos. Se é a alternativa que sobra, então só retrata a degradação das direitas...",
consome-lhe 403 palavras e 2.440 caracteres.
Já a crítica à Marine,
ocupa-lhe 10 palavras com 48 caracteres.
Pelo que o leitor que, como eu, não consiga perceber a recomendação de voto do Francisco Louçã, mas, ao contrário de mim, porque me estou nas tintas para a recomendação dele, a tente decifrar por confiar na lucidez do conselheiro de estado e pretender adoptá-la para formar a sua própria posição, se fundamentar a sua análise na amplitude das críticas aos dois candidatos, chegará à conclusão que, se ambos são criticáveis, um deles é 40,3 vezes mais criticável do que a outra (em palavras, mas 50,8 vezes em caracteres), o que, se permite tolerar a abstenção, sugere com alguma veemência subentendida o mal menor, o voto na candidata menos criticada contra o candidato mais criticado.
E porque recomendará o Francisco Louçã o voto na Marine Le Pen? Não sei dizer. Se calhar, acompanho o raciocínio do António Barreto quando, em entrevista recente, tentou explicar o apoio do PCP ao governo do António Costa:
A esquerda pode recomendar, sem o dizer explicitamente, o voto na Marine Le Pen, ou pelo menos recusa recomendar o voto que mais seguramente impede a sua vitória, talvez na esperança de tentar evitar uma experiência de governo, ainda para mais europeísta, que receie que possa vir a correr menos mal.
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