Lembro-me bem: aconteceu-me várias vezes, naquele ano fatídico, conviver com pessoas afogueadas, em circunstâncias que não justificavam acaloramentos, e de as ouvir dizer, com voz cava: morro de calor! - após o que, chamado o 112, se constatava o óbito.
Ignorava até agora este plano para temperaturas extremas, mas não duvidaria que, a existir, estivesse muitíssimo bem elaborado: deveria ter natureza interministerial, estrelado também com a participação da Ordem dos Médicos, da dos Enfermeiros, Serviço Nacional dos Bombeiros e institutos e observatórios vários das áreas meteorológica, sanitária e gerontológica. Tudo vertido num extenso e bem elaborado documento, atentamente discutido pelos intervenientes e destinado à leitura de profissionais, bem como outros cidadãos interessados e curiosos, logo que tivessem vagar.
Fui ver, na parte módulo calor 2013, e a primeira impressão não foi muito positiva: três funcionários apenas dão uma aulinha sobre a vulgata do aquecimento global, os efeitos do calor no bem-estar e na saúde e os cuidados que os cidadãos devem ter, em particular quanto à ingestão de líquidos (esta última parte sem qualquer referência ao vinho verde e à cerveja, uma omissão difícil de aceitar com equanimidade). Felizmente, a fig. 3 na página 6 revela a organização e articulação institucional para, no dizer inspirado dos autores, promover a "operacionalização" que "requer uma estrutura que rentabilize esforços, desenvolvendo e reforçando parcerias".
Operacionalizar e reforçar parcerias já é mais o género de coisa que deve dizer um relatório a sério. E como na tal figura são 13 os organismos envolvidos, fora a Coordenação Geral e a Co-Coordenação, e agora vai tudo ser averiguado, podemos este Verão estar certos que poderá haver um aumento de falecimentos por via de esgotamento fiscal e ataques de fúria assassina contra a estupidez contumaz, mas por calor não.
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