Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018

O 25 de Abril não chegou às casernas

2018-01-25 25 de Abril casernas.jpg

Uma das consequências da consolidação do Tempo Novo e dos seus calores progressistas é o despertar gradual dos dinossauros do PREC jurássico que se julgavam extintos mas apenas tinham recolhido às suas tocas para hibernar ao longo destas últimas décadas para conseguir sobreviver à obscura democracia do tipo das que existem na Europa ocidental a que Portugal tem sido brutalmente submetido desde o fim desse glorioso período da nossa história em que pudemos ter a ambição de virar socialistas.

Uma das tocas onde a espécie encontrou abrigo para hibernar protegida das agressões e desilusões ideológicas externas ao longo destas décadas de democracia burguesa é justamento o jornal Público, e é de lá que vão chegando notícias dos despertares.

Tal como em tempos Arnaldo, o Pós-Cataléptico, militante maoista que foi despertado do coma a que tinha recolhido vinte anos antes por ter sido lançado ao Tejo numa escaramuça com militantes comunistas pelas manifestações de entusiasmo da família com a chegada do novo PC a casa, que o desassossegaram mesmo no coma a que se tinha remetido, às vezes estes despertares fazem-se acompanhar de dissonâncias cognitivas resultantes de demasiado tempo de hibernação.

Este que despertou hoje no Público ao despertar trazia nos lábios a célebre palavra de ordem "O 25 de Abril não chegou às casernas" que tratou de aplicar à notícia da actualidade que o ocupava no momento de despertar, o roubo de armas do paiol de Tancos e os esforços do governo e da hierarquia militar para manter sobre os acontecimentos a obscuridade suficiente para não ser possível extrair deles conclusões nem responsabilidades.

Mas não faz mal, como diz um dirigente político da actualidade a gente está aqui para resolver, e eu próprio me prontifico para esclarecer em regime de voluntariado o jornalista confundido pela hibernação.

  • Sim, o 25 de Abril chegou às casernas.

As casernas encheram-se de soldados barbudos que primeiro faziam plenários e depois não cumpriam ordens, que andaram pelo país, mais pelo Sul do que pelo Norte porque nalguns locais do Norte não eram assim muito bem-vindos e eles também não queriam andar à porrada por isso, a evangelizar o povo sobre as virtudes do socialismo em campanhas de alfabetização, que se dedicaram a prender e a torturar reaccionários em quartéis mais progressistas, e quem prendia e torturava reaccionários também podia prender e torturar maoistas que faziam o jogo da reacção, até a assassiná-los em barragens nas ruas e nas estradas. Não houve falta de 25 de Abril nas casernas.

  • Não, já não está lá, desde que foi mandado para casa no 25 de Novembro.

Explicar o 25 de Novembro a dinossauros a sair da hibernação a que se submeteram no PREC jurássico é que já sai do domínio das minhas capacidades, nomeadamente a parte de o partido político que foi mais determinante para a construção da relação de forças populares, políticas, militares e até diplomáticas que tornaram possível a erradicação da ameaça comunista, o PS de Soares ou Salgado Zenha, ter sido o partido que hoje eles vêem do seu lado e está mesmo do lado deles, nomeadamente no boicote às celebrações do 25 de Novembro em todas as assembleias onde tem expressão numérica suficiente para as conseguir boicotar, desde a Assembleia da República às Assembleias Municipais às Assembleias de Freguesia. O melhor que eu lhes consigo explicar é que foi mandado para casa pelos comandos do Jaime Neves, e que obedeceu à sugestão. Esta parte, alguém que lhes explique melhor do que eu.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:02
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