Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2018

O bairrismo no Norte

2018-01-29 Rui Rio Rui Moreira.jpg

O Dr. Rui Rio tem mantido algum recato desde a sua eleição para presidente do PSD, prudente e até recomendável a quem tem algum passado de ser encorajado e depois citado a fazer afirmações que, ou por excesso de espontaneidade, ou por falta de cuidado, nem sempre são fáceis de explicar politicamente como propostas de um partido de poder para resolver os problemas que comenta. Não tem caído nas armadilhas da espontaneidade que certamente lhe têm sido espalhadas pelos jornalistas. Tem estado bem.

Esta semana quebrou finalmente o silêncio para se pronunciar sobre um assunto da actualidade nacional e fazer a respectiva crítica.

E que assunto escolheu para inaugurar a sua voz como presidente eleito do PSD? O caminho de insustentabilidade que está a ser dado às finanças públicas por o governo estar a assumir compromissos de aumento da despesa estrutural, como aumentos salariais ou do quadro da função pública que nunca poderão ser revertidos, com base no aumento circunstancial da receita que o ciclo económico está a proporcionar agora, mas não proporcionará sempre? Não. Sobre a aparentemente intenção de demolição do Serviço Nacional de Saúde por desinvestimento, suborçamentação e calotes a fornecedores que começa a ter consequências gritantes na qualidade do serviço não prestado aos utentes? Não. Sobre o ataque sistemático do governo socialista a todas as entidades independentes através de guerrilha mediática contra os seus dirigentes e da sua substituição por socialistas, que recentemente foi reforçado pelo anúncio da intenção de substituir no final do mandato a Procuradora-Geral da República que investigou governantes e banqueiros como base no argumento, falso, que a lei só lhe permite cumprir um mandato? Também não. Nenhum destes assuntos graves ou mesmo gravíssimos lhe mereceu um comentário até agora.

O Dr. Rui Rio inaugurou a sua voz como presidente eleito do PSD pronunciando-se sobre a intenção da Google de fazer um investimento em Portugal em Oeiras, e criticando a decisão por ter optado por "Lisboa" para o fazer.

Independentemente de ser esperada ou não, esta escolha de tema está longe de ser inesperada, e mostra que o seu autor assume, como muitos outros políticos oriundos no Norte, genericamente, e do Porto, especificamente, o papel de provedor do Norte, ou do Porto, contra a macrocefalia de Lisboa.

Ao significado e implicações políticas já lá vamos, mas vou primeiro passar pelo bairrismo do Norte, ou do Porto.

Tendo raízes minhotas, e das que vão beber directamente às aguas do Rio Minho, o meu pai era de Melgaço e a minha mãe de Monção, e sendo lisboeta de nascimento e de toda a vida ter vivido à volta de Lisboa, tenho experiência de picardias de bairrismos regionais nos seus diversos ângulos suficiente para achar que valha a pena tomar partido, ou melindrar-me com elas, ou solidarizar-me com quem se melindra, e muito menos para as arbitrar, picardias de que posso dar um exemplo publicável com a piada "Sabes porque é que os lisboetas se chamam alfacinhas e não saladinhas? Porque não têm tomatinhos", e de que podia passar alguns anos a citar outras, quase todas com um sentido de humor e colorido de linguagem mais ricas do que esta. Não as coloco muito longe das picardias, a que autores muitas vezes também atribuem uma importância que escapa a quem lhes dá menos, sobre a bola.

Mas independentemente da virtude comparativa das picardias bairristas, há diferenças entre os bairrismos que uma observação objectiva me foi permitindo identificar ao longo da vida.

E uma delas é na intensidade. Passei muitos serões na juventude a ouvir enumerar, a minha pronúncia de alfacinha não enganava ninguém, sobrepunha-se sempre às raízes minhotas e despertava em várias pessoas a necessidade de as enumerar, vantagens do Porto sobre Lisboa. E nunca passei nenhum serão a procurar convencer quem quer que fosse de vantagens de Lisboa sobre o Porto. Talvez por não as haver, talvez por haver mas eu não estar devidamente preparado de argumentos para as enumerar, talvez por ser assunto que nunca me tinha preocupado nem me continuou a preocupar pela vida fora. Em todo o caso, mesmo descontando eventuais falhas na representatividade que eu, por um lado, e as pessoas que mas enumeravam, pelo outro, pudessemos ter relativamente às populações que representávamos, sempre me pareceu que era assunto que as gentes do Porto levavam mais a peito que as de Lisboa.

Outra é a identificação das populações com as lideranças. Não me lembro de um Presidente eleito da Câmara do Porto que não parecesse, pelo menos visto de longe, inamovível enquanto se continuasse a candidatar. Pelo menos desde que o Fernando Gomes lá chegou em 1989 que nenhum é deposto em eleições. O Fernando Gomes saiu por ter ido para o governo, o Nuno Cardoso perdeu as eleições mas nunca tinha chegado a ser eleito, o Rui Rio por ter atingido a limitação de mandatos, e o Rui Moreira no segundo mandato parece tão inamovível como os que o precederam nestas décadas. E para além dos resultados eleitorais é mesmo frequente assistir a testemunhos de cidadãos que confirmam uma grande identificação com o Presidente da Câmara e com o seu papel de defesa dos interesses do Porto, coisa que não acontece em Lisboa com a mesma intensidade, mesmo relativamente a autarcas que também ganham eleições.

Na campanha para as eleições internas do PSD foi bem visível esta identificação de cidadãos do Porto, nomeadamente a elite liberal e cosmopolita da cidade tão bem representada pelo presidente actual, com o seu ex-presidente, e terá sido mesmo determinante para definir o resultado das eleições, atendendo ao resultado esmagador que o candidato atingiu no Porto e distritos limítrofes, e no peso que esses distritos têm a nível nacional em número de militantes no partido.

Tudo junto, não é inesperado que os Presidentes da Câmara do Porto se afirmem pelo bairrismo especial da cidade e da região e que se assumam como campeões da defesa dos seus interesses contra o centralismo de Lisboa, o que é apreciado pelos munícipes que lhes retribuem em votos.

O que está é longe de se poder dar como provado que a afirmação de bairrismo traga vantagens aos políticos que se querem afirmar na política nacional ou, pelo contrário, expõe fragilidades ideológicas e políticas de quem a faz.

Ideológicas, porque a crítica se insere numa linha de pensamento que toma por bom que todas as decisões, mesmo as dos agentes económicos privados, são determinadas ou influenciadas pelo governo, de modo que de todas se podem assacar responsabilidades ao governo, sendo que a crítica foi implicitamente dirigida ao governo por ter levado o investimento da Google para Lisboa.

E uma das vertentes frequentes da afirmação do bairrismo do Norte é justamente o apelo ao governo para influenciar decisões de empresas privadas no sentido de respeitarem os interesses do Norte em vez de obedecerem aos do Sul ou se deixarem conduzir pela procura do lucro. Coisa que acontece recorrentemente por exemplo com a problemática das rotas da TAP. Ora esta é uma visão socializante da sociedade e da economia, que é legítima, mas faz duvidar do liberalismo e do cosmopolitismo de quem a tem. E até os socialistas a desmontam facilmente, neste caso específico esclarecendo que a Google não recebeu qualquer tipo de apoios ao investimento que colocasse o governo em posição de influenciar a decisão de localização. Terá sido uma decisão puramente empresarial, o mercado a funcionar.

Políticas, porque se a crítica pode ter consolidado a popularidade do presidente eleito do PSD entre o seu eleitorado regional, interno ao partido, que o elegeu e onde é preponderante, mas também externo, onde está longe de ter a proponderância que tem no universo partidário, também pode ter suscitado dúvidas no eleitorado de outras regiões, que é mais preponderante a nível eleitoral do que no universo de militantes do partido, e onde a crítica parece mais própria de um líder regional do que de um que se quer nacional.

Aliás, nem sequer é difícil a um governo suficientemente demagógico combater politicamente líderes regionais nas suas causas bairristas. Basta-lhe afirmar de modo credível intenções, mesmo que não tenha a intenção de as levar a cabo e espere que as circunstâncias acabem por impossibilitá-las contra os seus esforços aparentes. Basta-lhe anunciar a mudança para o Porto da sede de um instituto público. Mesmo que o instituto acabe por não mudar, a boa intenção fica para a história e bem esticada chega até às próximas eleições.

Posto isto tudo, não me parece que tenha sido uma boa ideia o Dr. Rui Rio ter inaugurado a palavra como presidente eleito com uma crítica bairrista.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:06
link do post | comentar
2 comentários:
De Narciso Miranda a 29 de Janeiro de 2018 às 18:34
Ah, um novo líder político que acredita que o estado é o centro do universo e que uma empresa como o Google precisa da clarividência do governo para conseguir escolher entre o norte e o sul. Logo a empresa que inventou o Google Maps. Bem vindo Rui e adeus.
De Sigmund a 30 de Janeiro de 2018 às 15:34
Mas por que carga de água hão-de as declarações de Rui Rio ser consideradas bairristas? Por ele ser do Porto?? Ò céus!!

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Há matéria neste artigo a aproveitar pelos explora...
Concordo em tudo com JSP (a 3 de Maio).Felicitaçõe...
Muito boa e hilariante prosa. Vexa, desta vez, fo...
Exactamente. Os amigos, defendia-os. Nunca fingiu ...

Arquivos

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds