Segunda-feira, 4 de Junho de 2018

O Coelhinho Čuraku

Esta é uma história de, e onde entra, o meu amigo Fernando Relvas, o autor de novelas gráficas, como ele se auto-classificava, ou autor de banda desenhada, como é normalmente classificado, falecido em Novembro de 2017. A história foi contada publicamente na Biblioteca Fernando Piteira Santos na Amadora no último fim-de-semana pelo jornalista Viriato Teles, que também entra nela, na cerimónia do lançamento em álbum da obra O Espião Acácio, originalmente publicada na revista Tintin entre 1978 e 1980, a que tive o prazer de assistir e onde tive a oportunidade de rever e reviver amizades que não revia há muitas décadas, que eu já não vou para novo.

Mas antes de entrar na história convido os leitores a ler a prancha que anexo, da série O Atraente Estranho publicada no semanário Sete algures em 1987, que me foi gentilmente disponibilizada pela viúva Anica Govedarica, artista plástica que veio viver com ele para Portugal depois de terem vivido alguns anos na sua Croácia natal, e a quem deixo o meu agradecimento, e o de quem, chegando ao final, gostar desta história.

2018-06-04 O Coelhinho Curaku.jpg

Já leram a parte pública da prancha? Passemos então aos bastidores e vamos lê-la por trás.

 

Era uma vez, o Teatro Aberto estreou uma peça que retratava uma prostituta.

A redacção do Sete foi incumbida de fazer uma reportagem da estreia e, querendo fugir ao figurino tradicional das reportagens sobre estreias de peças de teatro em que se recolhem depoimentos de autores, encenadores e actores, gente com pedigree cultural, o Sete, que era um jornal cultural muito light mais dedicado à música ligeira do que à clássica e à banda desenhada do que à literatura séria, decidiu convidar para a estreia uma prostituta e no fim da peça entrevistá-la. E assim fez.

Acontece que em 1987 esta iconoclastia devia ser politicamente incorrecta e houve gente da cultura que se insurgiu contra esta desqualificação simbólica da cultura séria que consistia em levá-la a uma prostituta incapaz de a compreender, ou vice-versa. E destacou-se na denúncia da reportagem um colaborador do Jornal de Letras, o sacrosanto Jota Éle que pertencia à mesma editora e tinha redacção no mesmo corredor do Sete, que publicou um comentário demolidor da ousadia dos jovens vizinhos por brincarem com uma arte séria como o Teatro. Mas não um colaborador qualquer, sendo que no Jota Éle qualquer um seria um grande vulto da cultura portuguesa, mas sim um verdadeiro grande vulto da cultura portuguesa, nascido na Checoslováquia e a viver em Portugal há muitas décadas, tantas quantas eu tenho de vida, e eu já não vou para novo.

Tão violenta foi a crítica que os jovens não a quiseram deixar passar sem lhe responder com elevação. E no episódio seguinte de O Atraente Estranho o Relvas introduziu uma nova personagem, o justamente chegado da Checoslováquia Coelhinho Čuraku, nome que significa em Checo, nas suas próprias palavras, e porque quase ninguém percebe Checo, macieira.

Agora convido-vos de novo a lerem a prancha vista dos bastidores e a perceberem quase tudo na história do Coelhinho Čuraku.

2018-06-04 O Coelhinho Curaku.jpg

Quase tudo, porque em Checo čuraku não significa macieira. Significa caralho, mas isso é uma coisa que na altura só os checos puderam entender, e agora todos os leitores podem graças ao Fernando Relvas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:35
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