Sexta-feira, 23 de Março de 2018

O macho ibérico (moderno)

2018-03-23 Fernando Rosas de suspensórios 1.jpg

Dizem que tinha uma tia fascista, mas o fascismo era demasiado mariquinhas para acolher a virilidade na acção exigida pelas suas convicções políticas, tanto que quando finalmente foi pacificamente removido não restavam mais do que pouco mais que uma centena de presos políticos nas prisões, marca somítica ao lado dos mais de quinhentos conseguidos pelo regime democrático durante o Período Revolucionário Em Curso, justamente depois de meter na prisão os da seita a que ele tinha aderido, e as únicas quatro vítimas directas mortais da revolução foram abatidas por um sniper que disparou cobardemente sobre a população civil desarmada na rua bem protegido pela janela por trás de onde se escondia. Uns bananas.

Quando chegou à idade das convicções políticas viu-se forçado a enveredar pelo maoismo, à época a seita com mais vítimas no curriculum vitæ, que entre grandes marchas, grandes fomes e grandes revoluções culturais, para não falar das grandes secas em que tudo isso devia resultar, tinha conseguido juntar a bonita soma de, dizem alguns e com contas não certificadas, 77 milhões de mortos, que comparavam favoravelmente, e continuam a comparar, com os 43 milhões do estalinismo e os mais modestos 21 milhões do nazismo. Este máximo absoluto ainda não foi ultrapassado, e só terá sido desafiado em termos relativos com o extermínio de um terço da população do Camboja, apesar da modesta soma absoluta de dois milhões de vítimas, pela seita-irmã do maoismo khmer rouge, e o nome francês não é uma insinuação de erudição mas uma justa homenagem à terra que acolheu a estudar e onde se radicalizou o líder Pol-Pot, de sua graça Saloth Sar, Paris, à época a pátria da radicalização dos pequeno-burgueses de fachada socialista. Uma escolha viril.

Nas suas deambulações por África por conta da emissora nacional para educar o povo não dispensa o uso de suspensórios, talvez por serem a única forma eficaz de suster uma formidável tomatada a partir dos ombros sem arriscar hérnias ou outros problemas de coluna resultantes das deslocações do centro de gravidade decorrentes da sua oscilação sempre que deambula.

Tem tanto cabelo como as mulheres da idade dele, o que desmente definitivamente o boato que circula entre algumas mulheres que os carecas são os mais viris, talvez resultante de os carecas se terem que esforçar mais do que os cabeludos para lhes cativar a atenção e o apreço pela exibição de qualidades alternativas à abundância de cabelo como a inteligência, o humor, a cortesia e a beleza física, e de elas verem nestes valores, erradamente como ele constitui a prova definitiva, sinais de virilidade.

Foi educado nos valores da família política e no princípio que as mulheres da família são umas meninas e as das outras famílias uma putas parideiras, e é feroz na defesa das meninas da família, pelo que quando algum estupor ousa dizer que não as queria para casar espeta-lhe logo com um processo em cima junto da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, o murro nas trombas e a bengalada são castigo caduco e pouco para tamanha desfaçatez, e a virilidade exige que não haja contemplações quando é necessário castigar.

É moderno, tolerante e de espírito desempoeirado, ninguém o pode acusar de preconceitos e até tem amigos gay, até dentro da família política. Mas quando vê passar um paneleiro do outro lado da rua dá-lhe uma coisinha, sobe-lhe o sangue à guelra, tolda-se-lhe a vista, e não consegue evitar rosnar contra as modernices. A tolerância tem limites, caraças, e um homem não é de ferro!

É um macho ibérico, e felizmente que a Ibéria é uma coutada para esta espécie em vias de extinção que tanta falta nos faz, pelo que estamos determinados na defesa da sua preservação.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:14
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