Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

O "traidor" Manuel Alegre ou, a credulidade em demasia não faz de ninguém lúcido

À força de se esforçarem por acreditar que têm boas razões para acreditar naquilo que à força querem acreditar, as pessoas chegam a fazer figuras caricatas.

Há quem queira acreditar que o Manuel Alegre foi um traidor.

É muito simples esclarecer. Fazer resistência a uma ditadura não é traição, é patriotismo, seja em Cuba, no Chile, em Portugal ou na Checoslováquia. Mas, por exemplo, divulgar segredos militares e, com isso, colocar em risco ou mesmo provocar a morte de soldados portugueses é traição.

O Manuel Alegre fez resistência à ditadura e, por isso, foi um patriota, mesmo que haja quem o queira considerar um traidor por ter feito resistência à ditadura. Pode ter revelado segredos militares que podem ter colocado em risco ou mesmo provocado a morte de soldados portugueses, e se o fez foi mesmo um traidor. Se se quiser determinar se o Manuel Alegre foi efectivamente um traidor é isso que é necessário esclarecer. Eu não tenho informação que me permita esclarecer isto, nem sou dos que fazem de a procurar um objectivo de vida. Não sei se é ou se não é. Se um dia souber que sim considerá-lo-ei um traidor, até lá não considero.

O que não faz dele traidor é acreditar em notícias falsas. Por exemplo, acreditar na imagem de um suposto cartão de militante da Frente Nacional de Libertação de Angola, ou FNLA, que circula nas redes sociais.

2018-07-04 Manuel Alegre FNLA.jpg

E acreditar na autenticidade do cartão não é grande referência como garante da lucidez do crédulo.

Primeiro, é preciso estar disposto a acreditar que uma organização terrorista, como lhe chamava o governo português de então, ou um movimento de libertação clandestino que também se dedicava à guerrilha, como era visto na época pela generalidade dos governos ocidentais e provavelmente pelos próprios, tinha uma máquina burocrática que passava aos seus militantes cartões de membro, talvez para eles poderem facilmente ser identificados como membros do movimento se fossem revistados pela Pide.

Segundo, é preciso estar disposto a acreditar que a imagem que circula é uma fotografia a cores de um cartão real, apesar do ar imaculado do cartão supostamente fotografado, sem um vinco, sem um risco, sem uma amolgadela, tão perfeita como se fosse uma impressão do PDF do cartão original, e esquecer que nos anos 60 do século XX não havia PDF, não havia imagens digitais, nem sequer havia fotocópias a cores, havia cartões de cartão escritos à mão ou à máquina com o retrato colado a que se podiam tirar fotografias se se estivesse interessado em fotografá-los.

Terceiro, se o cartão supostamente fotografado tivesse um formato do tipo das clássicas cartas de condução, é preciso acreditar que a página um, a capa, poderia ser fotografada lado a lado com a página três, a que continha o retrato e os dados do membro, ou que a capa estaria na página dois, ou os dados do membro na página quatro. E, se fosse um cartão de frente e verso, acreditar que se conseguia fotografar a frente e o verso simultaneamente, Tudo problemas que o PDF resolve de uma penada, mas os cartões reais não resolviam.

Quarto, é preciso acreditar que o Manuel Alegre usava camisas havaianas, que era um resistente da ditadura que se vestia como o Wolfman Jack.

Quinto, porque não é esta a única "fotografia" do cartão da FNLA que circula nas redes sociais, que o Manuel Alegre se vestia no mesmo alfaiate que o inglês a quem calhou o outro cartão da FNLA idêntico ao dele, e escolhiam juntos as camisas havaianas.

Sexto, mas ainda é preciso continuar? não é, mas vamos até ao fim para ninguém ter desculpas para não perceber, que o Manuel Alegre morava na Argélia na mesma rua onde morava o inglês que morava em Hareford, na Inglaterra.

Tudo junto, espero que a esta hora já tenham percebido que, independentemente de o Manuel Alegre ter cometido actos de traição ou não, o cartão da FNLA do Manuel Alegre é forjado e sem grande cuidado para dirfarçar a trafulhice. E que os que chegados aqui ainda acreditam na sua autenticidade são tontos.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:28
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