A Pátria suspirou, aliviada, com o impedimento, in extremis, da consumação de um crime. A bela Canavilhas, o mefistofélico Magalhães, a diva dos palcos Medeiros, o ominoso Vitalino uniram esforços; e o Ministério Público suspendeu os seus múltiplos afazeres para, com uma diligência que o honra, defender o Estado de Direito, a Cultura, o Património e a economia - com esta publicidade, o país vai ficar entupido de turistas para mirar os Miró.
O Governo, apanhado de surpresa com a história de um pintor do qual, possivelmente, nunca tinha ouvido falar, sai claramente derrotado; o Museu Miró, que não foi mencionado nestes dias tormentosos, vê fugir a oportunidade de juntar aos 217 quadros que já tem estes 85 (Miró não era na realidade um pintor, era uma fábrica a vapor de objectos intensamente artísticos, incluindo esculturas, texteis, desenhos e cerâmicas - só de mobiliário design e outros objectos para o lar é que parece que não há notícia); e a Oposição fica definitivamente credenciada como defensora da verdadeira Cultura, o que já se suspeitava.
É certo que os nossos palácios, raros e pobretas, estão a cair, as bibliotecas não têm condições, há monumentos em ruínas e os museus de Arte Antiga nem sempre têm condições para expôr o seu acervo nem, muito menos, para o enriquecer. Mas para isso é preciso dinheiro - e não há. Ora, os Miró serviam para abater uma migalha à dívida e, na cabeça de qualquer socialista que se preze, as dívidas não se pagam, administram-se com amor.
Todos ganhamos, portanto, excepto a Caixa Geral de Depósitos, à qual se destinava o óbolo. O ideal seria que a Caixa não fosse nossa, e por isso não fôssemos nós o credor a ver navios. Mas não se pode ter tudo e a perfeição - não é verdade? - não é deste mundo.
Não podemos porém descansar após este triunfo: há que decidir o que fazer aos quadros. E como há por aí vozes de lisboetas que gostariam de os ver no novo Museu dos Coches - para mim vêm de carrinho - seria oportuna uma onda de opinião que exigisse o depósito no Museu do Côa: já não podemos mais com o centralismo, temos que promover o equilíbrio harmonioso entre as regiões, o contraste entre as obras dos nossos longínquos avoengos e as deste catalão genial presta-se a congeminações cuja profundidade nem ouso imaginar, e Trás-os-Montes e os seus enchidos bem merecem uma invasão de gente de shorts e guia trilingue na mão, já que o interesse pelas gravuras do Côa ficou um tanto aquém das expectativas.
Talvez os deputados que se juntaram para pedir à PGR a interposição da providência se pudessem juntar nesta causa; e, é claro, no próximo dez de Junho, esperamos vê-los alinhados para a imposição das merecidas condecorações - o grau de Cavaleiros da Ordem da Patetice Contumaz não estaria mal.
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